You are currently browsing the monthly archive for fevereiro 2009.
Como vocês sabem, eu estou de férias. Por isso, não estranhem a demora no comentário dos Oscars. Se você leu o post anterior, viu que não tudo, mas boa parte aconteceu mesmo.
Quem Quer Ser um Milionário? mereceu o número de Oscars que ganhou – eu próprio, quando fui perguntado por números, dizia que seriam poucos, mas quando começava a enumerar, vi que seria ali pelos sete (só não esperava mesmo mixagem de som). Mereceu tudo e é um dos poucos filmes dos últimos anos a ganhar o Oscar com autoridade.
E outra (ninguém deu muita bola pra isso, porque o filme é falado em inglês): a Academia reconheceu um filme que não é da sua vizinhança. O filme de Danny Boyle é uma produção inglesa, com uma equipe fortemente indiana. Assim, muitos vencedores deste ano foram não-americanos, e de uma produção independente. É algo a ser levado em conta para diminuir um pouco aquela conversa de “panelinha”, que as pessoas sempre têm.
Fiquei feliz por Pe e por Kate, atrizes que admiro há muitos anos. Kate poderia ter vencido também por Foi Apenas um Sonho, não faria diferença – ela está esplendorosa nos dois. Calhou de ser por O Leitor. Wall-E ficou só com o prêmio de filme de animação. Foi pouco: a Academia ainda não está madura para apreciar um filme de animação acima da média (ou um de super-heróis – vocês sabem de quem estamos falando).
No mais, adorei a cerimônia, que esteve no equiílibrio certo entre diversão e emoção. Primeiro, o Hugh Jackman esteve ótimo e os números musicais, saborosos. Foi uma surpresa para quem só o identificava como o Wolverine.

Sophia Loren, Shirley MacLaine, Marion Cotillard, Nicole Kidman e Halle Berry homenageiam as indicadas e recebem uma nova integrante no clube
Mas o melhor é que, pela primeira vez, o Oscar fez questão de tratar os indicados como vencedores, com os oscarizados anteriores honrando cada um dos concorrentes (deveriam ter feito o mesmo com os diretores, mas fica para a próxima) e acolhendo um novo membro do clube. Muito lindo aquilo, para quem gosta mesmo de cinema. E também gostei da aulinha de como se faz um filme que foi cada uma das categorias apresentadas.
Um show muito bom mesmo, e com resultados justos ficou melhor ainda. Nada de Crash ou Gladiador este ano, ainda bem!
Será que Quem Quer Ser um Milionário? vai dar outro chapéu em O Curioso Caso de Benjamin Button?
Os dois filmes vêm sendo apontados como favoritos desde o final do ano passado, mas a verdade é que o filme de Danny Boyle vem ganhando todas as batalhas importantes contra o de David Fincher. Globo de Ouro, prêmios dos Sindicatos, Baftas… É isso o que faz com que ele seja o favorito da noite deste domingo, no Oscar.
Mas a verdade, também, é que Milionário expõe como Benjamin Button é um tanto armado, calculado. Nesses tempos de crise mundial, um filme com coração, que prega que as coisas podem dar certo e que é bom perseguir seus sonhos pode afinal acabar conquistando as pessoas – e Quem Quer Ser um Milionário? é assim.
Mas, claro, é também de uma excelência técnica admirável. Eu acredito que leva também prêmios como fotografia e montagem – além de direção e roteiro adaptado – deixando para Benjamin Button os técnicos de menor repercussão, como maquiagem e efeitos visuais (e talvez direção de arte).
Entre os atores, não importa se a Academia – que é emocional, sim – vai eleger Heath Ledger como coaduvante como homenagem porque ele morreu. O fato é que sua criação impressionante do Coringa de Batman, o Cavaleiro das Trevas é uma das maiores atuações do ano em qualquer nível – e merece o prêmio.
Na premiação principal, a dúvida entre Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade) e Mickey Rourke (O Lutador) só vai se desfazer na abertura do envelope. O sentimentalismo tem contribuído muito para a força de Mickey Rourke e os prêmios que tem recebido, embora, claro, sua entrega ao papel seja comovente. Mas Sean Penn, um dos grandes atores da atualidade, simplesmente se transforma em sua criação de Harvey Milk. Na prova dos 9, ele é melhor. Mas vamos ver se não prerefirão coroar a volta por cima de Rourke (que ninguém sabe, também, quanto vai durar). Frank Langella está sensacional em Frost/ Nixon, mas tem chances menores.
Entre as atrizes, será que Kate Winslet perde justamente no Oscar? Por O Leitor, ela tem ganho tudo, como principal (o Bafta) ou coadjuvante (Globo de Ouro e SAG). É a sexta vez que concorre e não ganhar, será maldade. Meryl Streep ganhou o SAG de atriz principal por Dúvida (que não vi) e está na briga (ela já ganhou dois Oscars, mas o último no longíqüo 1982). Angelina? Correndo por fora. Anne Hathaway? Sem chance. Melissa Leo? Seria uma surpresa e tanto.
Das coadjuvantes, estamos na torcida por Pe, como os espanhóis chamam Penélope Cruz – seria mais uma coadjuvante de Woody Allen ganhar o Oscar. Eu acho que Marisa Tomei (O Lutador) também está na briga ou até mesmo Taraji P. Henson, por Benjamin Button.
Esperemos um reconhecimento maior para Wall-E, além do óbvio Oscar como filme de animação. Talvez um dos prêmios de som e – quem sabe? – roteiro original, Pode ser também canção, se a de Peter Gabriel derrotar as duas indianas de Quem Quer Ser um Milionário? E Batman? Depois que a Academia criminosamente não o indicou nas categorias principais, fica difícil saber se haverá um reconhecimento alem de Ledger. A concorrência não está fácil. Talvez sobre um dos prêmios de som, se Wall-E não ficar com eles.
As respostas, na noite de domingo.
Para quem tem fé
Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Inglaterra/ Índia, 2008 ) é um filme que pergunta como anda a fé do espectador logo no primeiro minuto. Não se trata de fé religiosa, mas sem despir-se do cinismo reinante de hoje em dia, é um pouco mais difícil não torcer o nariz para um filme movido a coincidências incríveis. Ou talvez não, já que o filme de Danny Boyle tem conquistado até muitos cínicos por aí.
No primeiro minuto citado, o filme já expõe a questão: um garoto crescido numa favela indiana e sem uma instrução especial está a uma pergunta de vencer o programa de perguntas que dá nome ao título (que no Brasil chamou-se Show do Milhão e no original tirou seu título de uma canção homônima de Cole Porter).Será sorte? Será que ele é um gênio? Será uma trapaça? Ou será o destino?
O governo indiano não gostou do retrato pintado por Boyle, mas ele adaptou o best seller local Q & A, de Vikas Swarup. Assim, o diretor concentra a ação entre os desvalidos da Índia, focando em três crianças – os irmãos Salim (Azharuddin Mohammed Ismail) e Jamal (Ayush Mahesh Khedekar) e a menina Latika (Rubiana Ali). Eles crescem encontrando-se e separando-se, com o sentimento de proteção de Jamal (Dev Patel, quando adulto) por Latika (Freida Pinto, na versão crescida) rapidamente vira um amor profundo.
É uma opção curiosa e eficaz a de contar a história de uma pessoa através de um jogo de perguntas e respostas. Cada resposta tem relação com uma parte importante da vida de Jamal e a própria razão de ele estar no jogo é mais do que parece. É preciso ter a fé de que certas coisas simplesmente acontecem.
Tem se falado bastante da semelhança do começo do filme com Cidade de Deus (2002). Uma discussão evidentemente tola. Se o filme de Fernando Meirelles estebeleceu uma nova maneira de filmar a favela e Boyle a seguiu, tanto melhor. O fato é que o filme usa este modelo estético e outros com primor, com uma fotografia notável (como na cena da fuga dos garotos à noite, para apanhar um trem) e uma montagem idem.
Um filme que parte de uma história incrível e tem coragem de acreditar nela, e equilibra com maestria seus elelemtnos realistas com um certo clima de conto-de-fadas que só justifica o número musical dos créditos finais – que também é mais um elemento a homenagear não só Bollywood, mas a cultura indiana. O filme é uma produção inglesa, mas todo o elenco e grande parte da equipe é da Índia, realizando, enfim, o encontro entre a indústria que mais produz filmes no mundo com o Ocidente.
Quem Quer Ser um Milionário?. (Slumdog Millionaire). Inglaterra, 2008. Direção: Danny Boyle. Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Madhur Mittal, Anil Kapoor, Rajendranath Zutshi, Ayush Mahesh Khedekar, Azharuddin Mohammed Ismail, Rubiana Ali, Tanay Chheda, Ashutosh Lobo Gajiwala, Tanvi Ganesh Lonkar Inédito nos cinemas brasileiros.
Perto do fim da linha
É muito difícil não associar O Lutador (The Wrestler, Estados Unidos/ França, 2007) à história do próprio Mickey Rourke: uma ruína humana tentando dar a volta por cima. Darren Aronofsky não é bobo e, sem dúvida, aproveita o que pode disso para aumentar a força da história que conta. Mas, felizmente, o filme não se resume a isso.
Com uma cara forte de cinema independente e economizando nas firulas visuais que usou em filmes como Réquiem para um Sonho e Fonte da Vida, Aronofsky tenta dar um ar de documentário na maior parte do filme. São muitas as cenas em que a câmera simplesmente segue o personagem de Rourke, andando à frente, de costas para o público, em seqüências longas sem cortes.
Como se o filme não quisesse interferir na história do lutador profissional Randy “Carneiro” Robinson, que já teve seus dias de glória e hoje está decadente, tendo que equilibrar com problemas de saúde e a idade com o pouco dinheiro. Vendo o fim da linha se aproximar, ele tenta se aproximar da stripper – também veterana – Cassidy (Marisa Tomei, mais uma vez linda, surpreendentemente desinibida e ótima) e da filha que guarda um enorme ressentimento (Evan Rachel Wood, de Aos Treze, 2003, e Across the Universe, 2007).
Isto, enquanto alimenta a esperança de um último grande momento com uma nova luta contra seu principal rival, 20 anos depois. A certo momento, Carneiro e Cassidy estão em um bar, cantando junto uma música dos Guns’n'Roses e dizendo como os anos 1980 foram melhores o que os 1990. Faz sentido. Há 20 anos, Mickey Rourke era um dos nomes de Hollywood que se apontava como um astro à moda antiga. Havia estrelado 9½ Semanas de Amor (1986) e Coração Satânico (1987) e o futuro parecia brilhante.
Mas aí el fez Orquídea Selvagem (1989), resolveu virar boxeador profissional, virou vilão em filme de Jean-Claude Van Damme e recebeu sua passagem para o ostracismo. Até este O Lutador (em Sin City, Cidade do Pecado fez apenas tipo debaixo de todos aqueles efeitos). Aqui, ele se entrega ao papel de uma maneira realmente comovente, especialmente nos momentos em que tenta reconquistar o carinho da filha, como a cena em que dançam em um galpão abandonado. Ele tem fôlego para retomar a carreira para valer e ir além de futuras caricaturas de si mesmo? Pelo menos por enquanto, isso não importa.
Em outro momento, ele afirma que dentro do ringue ele nunca se machucou como fora dele. Os golpes são combinados no vestiário, mas são para valer e as cenas de luta chegam a assustar. Mas as cenas dentro e fora do ringue só mostram que dentro o Carneiro ainda é alguém importante e respeitado, mesmo decadente; fora, não é ninguém – precisa mendigar atenções e um emprego.
As comparações com Rocky Balboa (2006) também são inevitáveis, mas aqui o tom é bem diferente. O filme de Stallone também tira sua força da aproximação com a vida real de seu ator principal (no caso de Rocky, também diretor). O Lutador, no entanto, é mais cru, refletindo que a vida de Rourke também é. Rocky queria mostrar que ainda era alguém. O Carneiro quer apenas continuar lutando para continuar vivendo.
O Lutador. (The Wrestler). Estados Unidos/ França, 2005. Direção: Darren Aronofsky. Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Ernest Miller. Atualmente em cartaz em João Pessoa.
3. Anne Hathaway (Agente 86)
Anne Hathaway é uma das atrizes mais bonitas de sua geração e basta que algum filme explore minimamente seu lado sexy para que se torne impossível desviar o olhar dela na tela. É o que acontece em Agente 86. Como 99, o lado sério da dupla com Maxwell Smart (Steve Carrell), ela combina o papel de escada para as piadas com aquele ar provocante. Nem há cenas de nudez – como em O Segredo de Brokeback Mountain –, mas isso só mostra que Anne nem chega a precisar delas.
Para ver também: O Segredo de Brokeback Mountain; O Diabo Veste Prada; O Casamento de Rachel.
Musa anterior: Carice van Houten
Excessos demais
Se depender de Austrália (Australia, Australia/ Estados Unidos, 2008 ), o filme que melhor representa o país dos cangurus vai continuar sendo Crocodilo Dundee (1985). Baz Luhrmann nunca foi exatamente despretensioso, mas finalmente deu um passo maior que a perna, o que já se anunciava há alguns filmes. Tentou criar uma obra fundamental sobre sua terra natal, chamou dois atores identificados com ela (Nicole Kidman cresceu lá e Hugh Jackman também é australiano), inspirou-se visivelmente em …E o Vento Levou (1939), mas sua tendência ao exagero é quem acaba falando mais alto (de novo).
Na história, Nicole é uma mulher inglesa aristocrata que deve aprender a ser durona para tocar sua fazenda no interior da Austrália, depois que descobre que o marido foi assassinado. Faz isso com a ajuda de um homem chamado apenas de Sr. Capataz (Jackman), que comanda a travessia de gado da fazenda para uma cidade portuária na primeira metade do filme. Pouco mais que dois estereótipos, os personagens dão muito poucos elementos para os dois astros mostrarem serviço.
Para Nicole, é pior, porque faz um bom tempo em que não acerta um bom papel em um filme de longo alcance. Nem as cenas cômicas nem as dramáticas funcionam a contento em Austrália, prejudicadas pelos excessos de Luhrmann, que ajudaram em Romeu & Julieta (1996), atrapalharam em Moulin Rouge – Amor em Vermelho (2001) e não desapareceram nem agora, quando o diretor optou por um tom mais histórico.
Ele, porém, tentou criar um clima de terra encantada, justificada pela insistente referência a O Mágico de Oz (1939), assim como a silhueta de uma grande árvore remete imediatamente a …E o Vento Levou. Mas Austrália foca na pretensão. Na primeira metade, a travessia de gado sofre com as comparações a Rio Vermelho (1948), mas ainda se sustenta. Tudo o que vem depois parece um apêndice, incluindo a luta pela fazenda e o ataque sofrido na II Guerra Mundial.
Além do mais, a temática pró-aborígene não consegue contar com sutileza os aspectos místicos envolvidos: tudo é atirado na cara do espectador, como se ele não fosse capaz de intuir nada. Como curiosidade, há uma seqüência de baile em que “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, é a trilha sonora. No mais, o filme é bem produzido e vistoso, mas há pouca emoção de verdade.
Austrália. (Australia). Austrália/ Estados Unidos, 2008. Direção: Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Hugh Jackman, Brandon Walters, David Wenham, Bryan Brown, David Ngoombujarra, Bill Hunter. Em cartaz em João Pessoa.
Para este 100º post deste novo blog, a confirmação de uma notícia: o novo exibidor do cinema do MAG Shopping é… o Unibanco Arteplex!
Bela notícia, que me foi confirmada ontem à noite, por telefone, pelo dono do MAG Shopping, o deputado Manoel Alves Gaudêncio. Ele prometeu que ainda vai me passar especificações técinas – e, esperamos, datas – nos próximos dias, mas ele já havia me dito anteriormente que continuariam sendo cinco salas, porém totalmente novas.
As expectativas são as melhores em termos de programação: como o nome já deixa antever, o Unibanco Arteplex (uma derivação do Espaço Unibanco de Cinema) costuma dar um espaço para um cardápio off-Hollywood também.
Só para se ter uma idéia, entre os filmes que estão passandoi em Fortaleza agora (cidade mais próxima daqui com um Arteplex), estão: o italiano Caos Calmo, o documentário Titãs – A Vida Até Parece uma Festa e a série Curta Petrobras às 6.
Aguardem novidades e podem dar uma olhada no site do Unibanco Arteplex.
Os joelhos de Nara
A chegada de Ronaldo Bôscoli em 1957 alterou a paisagem no apartamento de Nara. Ele levou a tiracolo seu amigo Chico Feitosa, apelidado imediatamente de Chico Fim-de-noite, pela sua canção com Ronaldo. Os dois se espremiam numa quitinete na rua Otaviano Hudson, em Copacabana, a qual abrigava ainda um crioulo, Luís Carlos Dragão, de profissão indefinida. Dragão contribuía para o aluguel fazendo pequenos mandados para os outros, como levar diariamente a coluna de Bôscoli à Última Hora, da qual ele era agora colaborador, ou ir à esquina comprar Coca-Cola para Chico Feitosa. Mas sua principal ocupação era dormir. Quando ferrava no sono, nem a Terceira Guerra Mundial conseguiria acordá-lo. Certa manhã, Ronaldo e Chico transportaram-no dormindo pela escada de serviço, quatro andares abaixo, com cama e tudo, até a entrada do prédio. Quando acordou e viu que estava quase na rua, Dragão tomou a única atitude que considerou sensata: virou- se para o outro lado e continuou roncando. Bôscoli levou Feitosa ao apartamento de Nara, não apenas porque ele era um bamba no violão e os dois estivessem compondo juntos. No último ano, Bôscoli passara por um surto paranóico que o fazia ter medo de sair de casa. Agora já conseguia sair à rua, mas nunca sozinho. Era Feitosa quem o acompanhava, ida e volta, tanto para o trabalho, na velha sede da Manchete na rua Frei Caneca, quanto para o consultório da psicanalista Iracy Doyle, a mesma de Hélio Pellegrino. Feitosa passou também a trazer e levar Bôscoli ao apartamento de Nara, mas, em pouco tempo, esse serviço de carreto ficou desnecessário: beneficiando-se da extrema liberalidade do casal Leão, Ronaldo praticamente instalou-se na casa de Nara — e foi ela que passou a acompanhá-lo para todo lado, de táxi ou de bonde. Observando melhor o que passara desapercebido a Menescal e Lyra, ele foi o primeiro a olhar para os joelhos morenos e rechonchudos de Nara com os olhos de um homem. O que era natural, considerando-se que, em 1957, Bôscoli tinha 28 anos, contra os verdes vinte de seus antecessores. Ela também viu nele o que não podia ver nos dois meninos: Ronaldo era poeta, jornalista, experiente, andava com Tom, Vinícius e Newton Mendonça, conhecia a noite e o dia, e, como ela, era mortalmente tímido — uma timidez que ele reprocessava num humor tão ácido quanto hilariante e que, na época, já lhe rendia um escrete de inimigos. Alguma garota de quinze anos poderia resistir a isto? Nara se encantou com ele, e seus pais também — a tal ponto que o velho Jairo fazia uma divertida vista grossa ao dar pela falta de camisas, meias e cuecas em seu armário. Sabia que estavam em Ronaldo.
Culpa em vários níveis
A postura do povo alemão durante os anos do regime nazista é um tema espinhoso – tanto que poucos filmes se arriscam a abordá-lo. O Leitor (The Reader, Estados Unidos, 2008 ) fala sobre algo ainda menos abordado (ao menos em filmes não-alemães): a geração que cresceu na Alemanha após a Segunda Guerra e teve que lidar com a herança do nacional-socialismo e do Holocausto. Baseado no livro de Bernhard Schlink, o filme de Stephen Daldry utiliza o romance como um ponto de partida para falar de culpa em vários níveis.
A história começa nos anos 1950, em que o adolescente Michael Berg (David Kross) passa a ter um caso com a bilheteira de bondes Hannah (Kate Winslet), com o dobro da idade dele e sempre com o semblante duro. A pura atração física vai dando lugar ao amor quando as sessões de sexo passam a ser temperadas também com leitura: ele lê para ela alguma grandes obras da literatura.
Mas um dia ela some e o reencontro só acontece anos depois, em um tribunal que julga guardas da SS que haviam sido responsáveis por um campo de concentração na época da guerra. Entrecortando a ação no passado, entram cenas de Berg nos tempos atuais (interpretado por Ralph Fiennes) e, depois, nos anos 1980, sempre com relação ao seu amor de juventude e os sentimentos de culpa e responsabilidade de cada um nos dias do nazismo e com a memória disso.
O fator romance na trama é um complicador disso, um elemento que ajuda a embaralhar o que antes poderia parecer tão certo. A postura da personagem de Kate Winslet também é desconcertante e o filme é corajoso ao arriscar a simpatia da platéia por ela. Daldry foge com destreza que qualquer tentação pelo melodramático e consegue contar sua história com sobriedade e até alguma isenção. E ainda assim deixa o público com um nó na garganta ao final da projeção.
E, claro, conta com ótimas interpretações, o que é fundamental para um filme no qual o discurso é muito importante. Kate Winslet está, como quase sempre, excelente em um papel difícil – que já rendeu o Globo de Ouro e o SAG de atriz coadjuvante, o Bafta de melhor atriz e pode trazer enfim o Oscar de atriz que a Academia deve a ela faz tempo.
O Leitor. (The Reader). Estados Unidos, 2008. Direção: Stephen Daldry. Elenco: Kate Winslet, David Kross, Ralph Fiennes, Lena Olin, Alexandra Maria Lara. Em exibição nos cinemas de JP.
4. Carice van Houten (A Espiã)
Há uma cena em A Espiã na qual a morena Carice van Houten está “se transformando” em loira para depois seduzir um oficial nazista. Muito natural, a atriz aparece tingindo cabelos que só serão vistos por seu futuro amante – um tipo de sensualidade natural que Paul Verhoeven tenta colocar em seus filmes sempre que pode. Calculadamente natural, deve-se dizer. Mas tudo bem, a gente agradece. É nesta e em outras cenas que o diretor holandês nos faz descobrir uma nova musa, com um ar que evoca atrizes classudas como uma jovem Helen Mirren, mas pronta para tirar a roupa por seu país – ou por nosso deleite.
Para ver também: Operação Valquíria.
Musa anterior: Penélope Cruz
5. Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Penélope Cruz só aparece lá pelo meio de Vicky Cristina Barcelona, bem depois que o filme começa. E surge como um furacão, falando em espanhol descontroladamente, pronta para explodir – e levar o namoro de Javier Bardem e Scarlett Johansson junto. Mas sua María Elena acaba encantando não só o ex-marido como também a nova namorada americana dele. No filme, Penélope está cotidianamente sensual, no meio das ruas de Barcelona e sendo fotografada por Scarlett – paquera que desemboca na já antológica cena entre as duas no quarto escuro de revelação.
Para ver também: Volver; Vanilla Sky; Sedução; Jamón, Jamón.
Musa anterior: Radha Mitchell
Espaço sem fronteiras
Jornada nas Estrelas é uma série que várias vezes pareceu ter chegado ao final de suas fronteiras. Primeiro, a série foi cancelada antes que a emissora percebesse que havia um público fanático se formando. Depois, a série de filmes que foi ameaçada a cada continuação, parecia estar encerrada, mas vem com um novo exemplar (desta vez, um prólogo) que estréia em maio. A lista pode incluir a estréia da tripulação da Enterprise nos cinema, Jornada nas Estrelas – O Filme (Star Trek – The Motion Picture, Estados Unidos, 1979), de Robert Wise, uma produção acidentada, mas que acabou saindo e levando a franquia mais adiante.
Dá para imaginar o frisson dos trekkies ao ver o encontro de seus personagens preferidos e o reencontro deles com a nave espacial Enterprise – tudo mostrado com muita solenidade por Wise, diretor de outras pérolas da ficção científica: o clássico O Dia em que a Terra Parou (1951) e de O Enigma de Andrômeda (1971). Chamado como um especialista do assunto, a direção dele reflete a postura do filme de querer parecer mais “sério” do que Guerra nas Estrelas (1977), que arrebentou as bilheterias dois anos antes e inspirou um modismo em Hollywood ao qual o próprio filme de Jornada nas Estrelas devia um pouco a existência.
Enquanto Guerra nas Estrelas mergulhava sem pudores na fantasia ao misturar faroeste e capa-e-espada no espaço, Jornada tinha a herança da série de TV dos anos 1960, que fazia indagações para valer a respeito de posturas éticas e científicas nas expedições lideradas pelo capitão Kirk (William Shatner) com o apoio do oficial de ciências Spock (Leonard Nimoy) e o médico Leonard “Magro” McCoy (DeForest Kelley).
Acontece que, mesmo com a seriedade dos temas, a série Jornada nas Estrelas tinha uma leveza, uma certa descontração e um bom humor que tornava tudo mais saboroso. Ao contrário, em Jornada nas Estrelas – O Filme tudo é sombrio e carrancudo, Nem mesmo a camaradagem do elenco principal é muito evidente. A idéia é ser mais “ficção científica” que “diversão pura” e o filme realmente está mais para 2001 – Uma Odisséia no Espaço que para Guerra nas Estrelas. O figurino sóbrio (em lugar das coloridas camisas da série de TV) reforça ainda mais essa visão – e o filme ainda contou com consultoria da Nasa e do escritor Isaac Asimov!
A missão de “explorar novos mundos e civilizações”, anunciada desde os créditos de abertura de cada episódio da série, também fica um pouco de lado aqui. Afastado há mais de dois anos da Enterprise, Kirk volta à nave para comandá-la e levá-la para interceptar uma misteriosa nuvem destruidora que encaminha-se para a Terra. A maior parte do filme acontece, de fato, na nave, enquanto a tripulação tenta desvendar o mistério.
É uma trama bem armada, mas a verdade é que pouca coisa acontece. Sente-se falta dos encontros com outros mundos nessa trama que foi pensada originalmente como um reinício para a série de TV e depois virou um longa de grande orçamento, dando início à série no cinema – que teve seis partes e gerou mais quatro filmes com A Nova Geração, com o elenco do seriado que estreou em 1987.
Entre os problemas enfrentados pela produção, Leonard Nimoy quase não aceita repetir o papel do vulcano Spock. Com o prazo apertado, Robert Wise e a equipe de pós-produção filmaram e finalizaram o filme às carreiras. No entanto, mesmo com o bom nível dos efeitos, o diretor pediu à Paramount - que aceitou – para editar uma “versão do diretor” em 2000, restaurando as imagens e adicionando novos efeitos.
Não mudou muita coisa: o reencontro de Kirk, Spock, McCoy, Scotty (James Doohan), Sulu (George Takei), Uhura (Nichelle Nichols) e Chekov (Walter Koenig) continua solene à beça e sincero em suas pretensões científicas – mas também menos divertido do que poderia.
Jornada nas Estrelas – O Filme (Star Trek – The Motion Picture). Estados Unidos, 1979. Direção: Robert Wise. Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, Stephen Collins, Persis Khambatta, James Doohan, George Takei, Nichelle Nichols, Walter Koenig, Majel Barrett, Grace Lee Whitney, Mark Lenard, Marcy Lafferty. Disponível em DVD no Brasil pela Paramount.
Assista ao Comic Show sobre o universo de Jornada nas Estrelas
Crítica de Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan
Crítica de Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock
Crítica de Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa
Crítica de Jornada nas Estrelas V – A Última Fronteira
Crítica de Star Trek
Crianças, me perdoem.
Aos que não sabem, estou de férias do Jornal da Paraíba. Além disso, estou com uma conexão muito lenta em casa e a Larissa, que acabou de se mudar, nem está com internet instalada ainda. Resultado: uma semana sem nem mesmo olhar os e-mails. No JP ainda saiu coisa minha esses dias – entrevista com a Andréa Beltrão na sexta (sobre Verônica - assistam ao filme!) e matéria sobre o centenário de Carmen Miranda no domingo (procurem lá nas edições anteriores).
Atrasado com meio mundo de gente, venho aqui dar explicações e dizer que o ritmo caiu, mas o blog não morreu. Estou providenciando novidades – ainda mais que é mês od Oscar.
Aproveito para responder comentários, coisa que deveria ter começado a fazer há muito tempo e prometo que voltará a ser hábito. Então, vamos lá.
Chris, que bom que seu blog voltou! Veja o primeiro O Dia em que a Terra Parou, que esse é o bom.
Pô, Julyana, você está sendo um pouco dura com o Ledger, não (Surpresas do Oscar, 23/1)? Vamos analisar a situação. Ele não é o primeiro ator a morrer e ter uma indicação póstuma a prêmios. No entanto, no Oscar, apenas um caso assim terminou em prêmio: Peter Finch, melhor ator em 1978 por Rede de Intrigas. O James Dean, por exemplo, foi indicado, mas não levou por Assim Caminha a Humanidade, em 1956. Então, ser morto não é garantia de prêmio.
Mas, é claro, existe uma comoção em torno do nome dele. Pra mim, mesmo que a Academia dê o Oscar a ele considerando que ele morreu, o fato é que a justiça se fará no final porque não há demérito nenhum na atuação de Ledger: ele está soberbo, irreconhecível e merece o Oscar.
Sua teoria do Globo de Ouro é curiosa, mas dificilmente foi assim que aconteceu. Não se arma competidores “mais fracos” entre os indicados pra privilegiar um ator específico – até porque o sistema de votação é o mesmo para que sejam conhecidos os indicados e, depois, os vencedores. Além disso, se existisse uma armação para que um ator vencesse, qual a diferença se os outros indicados fossem “mais fortes” ou “mais fracos”?
Quanto às drogas, não sei se Ledger era viciado em alguma coisa, mas se me lembro bem, a morte veio através de uma overdose acidental de remédios que haviam sido receitados. Bem diferente da postura autodestrutiva de Amy – não que ela não merecesse ganhar os Grammys que ganhou, já que a música (ótima) ainda era o principal da vida dela na época em que o disco foi lançado. Obrigado pla visita e pelos comentários. Já dei uma olhada no seu blog (principalmente no texto sobre O Dia em que a Terra Parou) e vou deixar um comentário lá, também. Abraço!
Fernando, ainda não vi o Slumdog para avaliar os motivos de tanto rebuliço (Surpresas do Oscar, 23/1). Mas já vi gente que acha que é tudo isso e gente que acha que não é nada disso. O que tenho lido é que o filme é antes de tudo emocionante e bem narrado e acho que a aproximação (e certa absorção, digamos assim) da cultura indiana (e isso implica no modus operandi de Bollywood) também está pesando.
Mariah, você não devolve os filmes emprestados, mas é um amor de pessoa, viu? (Mas, repare, eu nem cobro porque sei que está bem tratado).
Zilah, o Oscar é conservador por natureza e já deu várias provas disso ao longo da história (Surpresas do Oscar, 23/1). Mas às vezes surpreende, como aconteceu com Onde os Fracos Não Têm Vez, no ano passado. Aliás, surpreende em termos, porque a vitória dos Coen já vinha sendo cantada na temporada pré-Oscar. Não que Batman, o Cavaleiro das Trevas fosse um favorito para estar na lista dos cinco filmes indicados, mas a coisa vinha se desenhando assim contra todas as expectativas.
O que parece é que se os sindicatos são boas prévias do Oscar porque lá também estão os membros da Academia é preciso fazera seguinte relação: 98% da Academia deve estar nos sindicatos, mas uma boa parte dos sindicatos não faz parte da Academia (e essa parte é que deve ter votado no Batman).
Gesteira, rapaz, as musas não devem apenas ser gostosas, né? Há outros encantos a serem considerados (Musas de 2008 – 10, 16/1)…
Luciana, interessante sua informação sobre o Por Toda a Minha Vida (Cadê Nara Leão em ‘Maysa’, 9/1). O fato é que parece que a minissérie não quis mesmo se complicar com a família da Nara (Danuza incluída). A questão é: poderia ser uma personagem mais relevante e não uma aspirantezinha a atriz, né?
Alana, você tem toda a razão. Eu quis dizer que Vanessa Redgrave era sogra de Liam Neeson, e não madrasta (Atrizes preferidas – 97, 2/1). Aliás, a lista das atrizes prederidas volta quando a das musas de 2008 terminar (pra não misturar as bolas).
E meus obrigados ao Pedro Pyratero (gosto do Tim Burton, cara, mas 100 filmes é uma lista muito restrita – Meus 100 filmes preferidos), ao Rubro (que tem medo da Natalie Portman – Musas de 2008 – 14, 9/1), à Blogwishfulthiking (sic), ao Helton, à Sica, à Waci (ou é “ao Waci”?) - muita gente veio aqui dividir sua indignação com a omissão da Nara Leão em Maysa (foi o pico de audiência desse blog).
Um abraço ao Pato Quack e ao Audaci Jr., ao Maurício, ao Paulo Santos e ao mestre Sílvio Osías, que não gostou da mudança de nome no blog (Lalá também não gostou) e uma cosquinha especial nas costas da Gilmara.
E até ao Junior, que disse que “é mais Crepúsculo” (Os melhores filmes de 2008, 31/12). Eu dei uma estrela, mas tudo bem, os que gostam de Crepúsculo também são bem-vindos!



















