Álbum de memórias

Rosemary, Kaye, Crosby e Vera-Ellen: nostalgia

Mesmo com o total domínio da Metro quando o assunto era o gênero musical, na era clássica de Hollywood, os outros estúdios produziam seus próprios exemplares e tinham, cada um, suas armas próprias. A da Paramount – que, aliás, tinha Audrey Hepburn só aproveitou a chance de usá-la em musicais uma vez, em Cinderela em Paris (1957) – foi Bing Crosby. O maior cantor popular de todos os tempos estrelou vários filmes no estúdio – muitos da série Road to, com Bob Hope e Dorothy Lamour – mas o mais lembrado é mesmo Natal Branco (White Christmas, Estados Unidos, 1954).

Não é para menos. O título já levava o nome da canção de extremo sucesso, compsta por Irving Berlin e vencedora do Oscar em Duas Semanas de Prazer (1942), onde foi cantada pelo próprio Crosby – e ele já a havia cantado uma segunda vez, em Romance Inacabado (1946). E a gravação da música pelo cantor em disco – segundo Ruy Castro no livro Tempestade de Ritmos, contando informações da biografia de Bing pelo historiador e crítico de jazz Gary Giddins – ficou 20 anos nas paradas de sucesso americanas, de 1942 a 1962. Ou seja: quando Natal Branco foi produzido e lançado pela Paramount, ambos – canção e cantor – continuavam no auge.

No filme, Crosby teve o acompanhamento de luxo de Rosemary Clooney (tia de George), Danny Kaye (substituindo na última hora Donald O’Connor) e Vera-Ellen (que já havia mostrado ser ótima, na sua brejeirice, em Um Dia em Nova York, de 1949). Na distribuição de peças, Crosby e Kaye são Bob Wallace e Phil Davis, ex-soldados que passam a formar uma dupla de cantores-dançarinos, e depois produtores.

Rosemary e Vera-Ellen são Betty e Judy Haynes, irmãs que têm um ato e que a dupla masculina é convidada a avaliar. Como Phil acha que Bob trabalha demais, levando-o também a trabalhar mais do que gostaria, e que uma esposa seria a solução para relaxar Bob, arma-se uma trama para uni-lo à mais velha, Betty (embora Rosemary Clooney, 26 anos na época, fosse sete anos mais nova que Vera-Ellen).

A comédia de erros vai desembocar em Vermont, num hotel que está sem clientes porque a esperada neve, atração turística, não deu as caras. O dono é o general Waverly (Dean Jagger), que comandou o batalhão da dupla durante a II Guerra. Tudo coverge para um grande show que é preparado para salvar o hotel – mesmo cenário de Duas Semanas de Prazer, num filme que pretendia ter Fred Astaire repetindo com Crosby a dupla que fizeram no filme de 1942, e que também tinha todas as canções compostas por Irving Berlin.

No tabuleiro, Crosby e Rosemary respondem pela excelência vocal. Ela foi uma das grandes cantoras dos anos 1950 e estava ainda começando a carreira no cinema, interrompida logo em seguida por uma série de filhos e problemas pessoais. O quesito dança fica com Kaye e Vera-Ellen – ela, particularmente, dá sucessivos shows durante o filme. Também era o final de carreira para ela: Natal Branco foi seu penúltimo filme. A dançarina vinha lutando contra a anorexia e uma artrite a levou à aposentadoria precoce.

Mas a época do Natal não é o tema do filme, mas uma ambientação. Em 1954, as memórias da II Guerra Mundial ainda estavam bem vivas e o tema do filme é esse sentimento muitas vezes difícil dos soldados que voltam para casa e se sentem inadequados. E essa nostalgia do companheirismo da caserna responde pelos momentos mais tocantes e deve ter calado fundo aos veteranos.

Curiosa é a aparição da televisão como elemento de comunicação de massa – usada pelo personagem de Bing Crosby para dar um recado importante a mais pessoas no menor tempo possível. Lembre-se, era 1954. A televisão era, então, uma concorrente crescente do cinema. Não por acaso, Natal Branco também foi a estréia do sistema widescreen da Paramount, o VistaVision (um tipo de CinemaScope mais aberto).

O diretor Michael Curtiz não era habituado em musicais e isso deve ter refletido em um pontual olhar “documental”, a decisão de filmar os números de palco em alguns momentos não como se estvessem sendo apresentados para a câmera – como era de costume. E apostou no improviso: fez Crosby e Kaye repetirem em cena uma paródia de Rosemary e Vera-Ellen que faziam nos bastidores. Crosby, muito à vontade, também improvisou diálogos e apostou em seu carisma. Deu certo, como se sabe.

Natal Branco (White Christmas). Estados Unidos, 1954. Direção: Michael Curtiz. Elenco: Bing Crosby, Danny Kaye, Rosemary Clooney, Vera-Ellen, Dean Jagger, Mary Wickes, Anne Whitfield. Disponível em DVD pela Paramount.

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