Um jovem I Love Lucy

Redford e Jane, ambos em ascensão e no auge da beleza

Quase não se faz mais filmes de Neil Simon. Ou se faz? O IMDb mostra, surpreendentemente, que o horrível Antes Só do que Mal Casado (2007) é uma adaptação de uma peça do dramaturgo nascido no Bronx, escrita em 1972. Mas, antes disso, o último havia sido o pouco memorável Perdidos em Nova York (1999), com Steve Martin e Goldie Hawn, outra adaptação de um texto antigo. Hollywood, pelo jeito, desaprendeu a saborear o texto de Simon, mas soube fazê-lo muito bem nos anos 1970 e mesmo no final dos 1960, como mostra o ótimo Descalços no Parque (Barefoot in the Park 1967).

A comédia romântica, dirigida pelo então estreante Gene Saks (que depois dirigiria Um Estranho Casal, 1968, também de uma peça de Simon), mostra um jovem casal que acaba de se casar. Depois de seis dias de amor em um quarto de hotel, chega a hora da realidade: a mudança para o novo apartamento, no quinto andar de um prédio sem elevador, onde a calefação não funciona em pleno inverno e até o teto tem um buraco.

Logo de cara, se percebe a principal característica de cada um deles. Ela, Corie, é uma brincalhona irrefreável. Ele, Paul, é um advogado que é certinho demais. Além disso, ela é interpretada por um esfuziante Jane Fonda, aos 29 anos, e ele por um Robert Redford aos 31. Ambos no auge da beleza e em plena afirmação artística.

Redford havia interpretado no palco o texto de Neil Simon (que também escreveu o roteiro do filme). Jane não, mas os dois astros já haviam estrelado Caçada Humana, em 1965. Tudo colaborou para a química perfeita entre eles, que, junto com os diálogos afiados de Neil Simon, rende comédia de primeiro nível. Em certo momento, parece que estamos vendo um ótimo episódio da juventude de I Love Lucy.

Com Redford e Jane estão também Midred Natwick (que foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante e também interpretou o texto na Broadway) e o surpreendente Charles Boyer. Nos anos 1930 e 1940, ele era um dos galãs exóticos dos filmes de Hollywood. Aqui, ele é um velho boêmio e galanteador que mora no andar de cima, com algumas esquisitices.

O filme não esconde sua cara teatral, passando-se quase todo dentro do apartamento, mas tira bom proveito dessa “claustrofobia” fazendo dos poucos e apertados cômodos mais motivos para o humor. A única saída mesmo fica para perto do fim, no Central Park. Outro dado é que as emoções mudam de maneira repentina, o que também é totalmente plausível, tendo em vista o comportamento amalucado de Corie.

Muito leve, em um ano onde o cinema americano vinha tratando de temas cada vez mais pesados (No Calor da Noite) e de maneira cada vez mais ousada (Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas), Descalços no Parque deve ter sido um sopro de alegria no meio daquele turbilhão.

Aliás, belo título, felizmente bem traduzido no Brasil.

Descalços no Parque. (Barefoot in the Park, Estados Unidos, 1967). Direção: Gene Saks. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Mildred Natwick, Charles Boyer. Disponível em DVD no Brasil.

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