Ferido na alma
Guerra ao Terror (The Hurt Locker, Estados Unidos, 2008) não é o primeiro filme sobre a guerra no Iraque, mas sua abordagem é o que faz dele uma obra especial entre as que abordam o tema. O filme começa com um trio de soldados que desarmam bombas nas áreas urbanas de Bagdá. O trabalho é ingrato por si só, mas eles ainda por cima estão em um ambiente até prova em contrário hostil – qualquer um na rua ou nas janelas pode ser um homem-bomba ou um atirador. E é nesse clima que o explosivo deve ser desarmado.
O personagem central é o sargento William James (Jeremy Renner), que chega para ser líder do grupo e o cara que desarma as bombas. Ao contrário do responsável anterior, sua atitude diante desse perigo é de puro destemor. Ele não usa os robôs que permitem que o trabalho seja feito à distância, e às vezes deixa de lado até a roupa protetora que o faz ficar parecido com um astronauta em um planeta desértico. Seus colegas começam a temer o comportamento dele mais do que as bombas em si.
Guerra ao Terror começa com uma epígrafe em que a guerra é comparada a uma droga. É, em última análise, uma expressão que serve tanto para o sargento James quanto pode ser usada para o país pelo qual ele combate, os Estados Unidos, a maior nação bélica do mundo. Mas o filme não procura explicitamente esse paralelo e fica na análise do comportamento de James deixando claro que há muitos como ele.
O roteiro de Mark Boal e a direção de Kathryn Bigelow – ambos irrepreensíveis – também cuidam para que o que se vê na tela não seja atribuído a uma questão de caráter. James é um bom companheiro, extremamente competente e quer fazer seu trabalho o melhor possível. E toda essa investigação psicológica vem temperada com cenas de ação e, principalmente, muito suspense e sempre muito bem construído.
Bigelow, ex-mulher de James Cameron, se especializou em filmes assim, como Caçadores de Emoção (1991), Estranhos Prazeres (1995) e K-19: The Widowmaker (2002). Ou seja: Guerra ao Terror é, disparado, seu melhor filme. Aqui, sua perícia está no máximo, usando a câmera para chegar bem perto dos atores e das situações, aproveitando com sabedoria momentos para usar uma câmera lentíssima ou agitada, para se aproximar da linguagem do documentário.
Ela também preferiu deixar atores conhecidos para participações especiais (David Morse, Ralph Fiennes e Guy Pearce – embora a Imagem Filmes tolamente estampe os nomes deles na capa do DVD como principais) e dar o trio central para intérpretes pouco conhecidos: Jeremy Renner (de Swat, 2003, e Terra Fria, 2005), Anthony Mackie (que está em Menina de Ouro, 2004) e Brian Geragthy (apenas um na multidão do elenco de Bobby, 2006).
Assim, Bigelow não demoniza nem santifica um lado nem outro, mas fala alto contra o horror da guerra e o que ela é capaz de fazer à alma de um ser humano. Os jovens soldados americanos podem ser loucos e violentos – como já mostrados em outros filmes, sejam de ficção ou documentários -, mas também podem estar lá para apenas fazer seu trabalho e até ajudar a população local. Os civis iraquianos podem ser tanto curiosos na janela quanto combatentes prontos para explodirem tudo em volta.
Nós sabemos quem são os personagens que acompanhamos, mas também sabemos apenas o mesmo que eles sobre o que está em volta – quase nada. Difícil conter a paranóia. Já a seqüência final, a partir da cena em um supermercado, é uma conclusão de uma eloqüência admirável. É o grande filme sobre esta guerra – mas fala de todas as guerras e do que elas fazem com o ser humano, bem mais do que fisicamente.
Indicado a nove Oscars – incluindo como melhor filme, direção, ator e roteiro original -, o filme também é uma lição para as distribuidoras brasileiras. Elogiado e premiado em festivais no exterior, a Imagem Filmes não acreditou um milímetro em Guerra ao Terror. O lançou por aqui direto em DVD no ano passado, sem qualquer alarde, com um título genérico e desinteressante, fingindo que os atores em participações especiais eram os protagonistas (com nomes em destaque e fotos na capa). Resultado: o filme explodiu na cara da distribuidora e, com o rabo entre as pernas, ela voltou atrás e, às vésperas do Oscar, resolveu lançar o filme nos cinemas – onde ele, afinal, deve ser visto.
Guerra ao Terror. (The Hurt Locker). Estados Unidos, 2008. Direção: Kathryn Bigelow. Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geragthy, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse, Evangeline Lilly.






5 comentários
Feed de comentários deste artigo
05/03/2010 às 18:47
Diogo Molina
quem pode participar do seu blog? Digo como colaborador, estudo cinema ha cinco anos como autodidata…
31/03/2010 às 19:09
renatofelix
Rapaz, isto é só um blog. Não chega a ser um veículo de comunicação com colaboradores. Acho que o caminho que está procurando é abrir um blog também e entrar em contato com os outros. É ótimo, manda bala.
08/03/2010 às 10:44
carolina barroca
oi, renatinho!
assiti aquele 4o grau (com milla Jovovick – ou algo assim!) e fiquei em dúvida… eh mais uma armação ou as cenas mostradas são reais? a verdade está realmente lá fora?
Como vc eh o maior entendedor…
31/03/2010 às 19:17
renatofelix
Barroquinha, um dia desses li – acho que foi o Celso Sabadin que escreveu – que Contatos de 4º Grau é um caso de Procon: a Milla Jovovich aparece no começo, como ela mesma, dizendo que tudo ali era real, quando é óbvio que não é. E, bem a Milla Jovovich, dos horrorosos Resident Evil, não é exatamente uma personalidade da minha confiança… De qualquer forma, nem vi o filme, hehe. Um beijo!
13/01/2011 às 09:53
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