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Moderna e conservadora

Annette e Julianne: mães de uma família como outra qualquer

Existem filmes que conseguem de maneira especial dilemas e reflexões sobre seu próprio tempo. Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right, EUA, 2011) é um deles. Em uma cinematografia onde famílias disfuncionais estão cada vez mais em evidência como tema, o achado do filme é colocar um casal lésbico no comando de uma família que funciona bem até demais.

Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) vivem juntas há 20 anos - a primeira é medica, a segunda tenta se acertar no ramo da jardinagem. Tiveram, cada uma, um bebê por inseminação artificial a partir do sêmen de um doador anônimo. Os filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), são felizes e ter duas mães não é de forma alguma um complicador em suas vidas, mas surge a curiosidade em saber como é o pai verdadeiro. Descobrem Paul (Mark Ruffalo), um dono de restaurante que curte a boa e livre vida de solteiro.

A entrada de Paul na história vai sacudir estruturas da família e expôr feridas que pareciam não existir na vida de uma família que parecia perfeita. Se alguns anos atrás essa história seria impensável, talvez hoje achar que uma família onde duas mulheres chefiam possa ter problemas tão comuns aos casais heterossexuais também vá contra a corrente.

Mas o fato é que a diretora Lisa Chodolenko parece dizer que as famílias são famílias, acima de tudo, e que sempre terão problemas a resolver. Para começar, o fato de serem duas pessoas do mesmo gênero não quer dizer que o papel de liderança é igualmente compartilhada, mesmo que ninguém assuma isso abertamente. Assim, se havia um modelo antiquadíssimo (mas muito em voga ainda hoje) em que o homem é “o senhor do castelo”, “o provedor” e “o protetor”, em Minhas Mães e Meu Pai esse papel está com Nic. Ela tem o “trabalho sério”, o principal carro, é quem bebe às vezes demais, é a mãe “alfa”.

Jules, por sua vez, faz as vezes do lado “mais sensível” do casal, preocupada com comidas saudáveis, cujo trabalho é entendido pela outra metade como um passatempo e fica carente porque a contraparte muitas vezes está ocupada demais com o trabalho para a relação delas. Ainda por cima, para as duas, precisam lidar com o fato de que os dois filhos estão crescendo e, mais grave, Joni está prestes da deixar a casa e morar na faculdade.

A inclusão de Paul na vida delas mexe com as duas, mas de maneira diferente. Nic o vê como uma ameaça à harmonia do seu lar (e tem razão, mas nada pode fazer a respeito). Jules acaba se aproximando dele em um momento de especial carência. O filme, que começa de maneira leve logo vai se tornando mais dramático à medida em que os personagens vão se perdendo nas novas possibilidades.

A atuação do trio central é determinante para o sucesso do filme. Ruffalo e seu jeito desligado combinam perfeitamente com um personagem que não está nem aí, até que percebe que pode ser muito tarde. Julianne, linda aos 50 anos e competentíssima no papel de olho do furacão, ainda está admirávelnas cenas de sexo. E a grande Annette toma para si o vértice dramático do filme. Ela tem um momento e tanto na cena do jantar na casa de Paul, onde a diretora reduz com inteligência o som ambiente de maneira a mostrar que nada do conversado ali importa a Nic. Não que seja original, mas é eficiente e um belo acerto dramático. O que o filme, em geral, também é.

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are Alright). Direção: Lisa Chodolenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson.

“Já tinha ouvido falar da hospitalidade americana, mas isso é ridículo”. Quem disse isso, arrancando risadas da plateia, foi Julie Andrews ao ganhar seu Oscar de melhor atriz em 1965 pelo primeiro filme que fez: Mary Poppins. A disputa daquele ano, antes das indicações, parecia que seria especialmente equlibrada – já que o ano anterior teve My Fair Lady, que revelou a sensacional Julie no teatro e para o qual ela não foi chamada na versão de cinema. Em seu lugar entrou a mais famosa (e bem menos cantora) Audrey Hepburn. Falou-se em injustiça desde aí e a Disney tratou de escalar Julie para Mary Poppins. Os dois filmes foram os mais indicados daquele ano, mas, no fim, Audrey não foi nem indicada e Julie venceu. Há quem diga que ainda foi reflexo daquela injustiça do começo.

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