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Mergulho nos personagens
É praticamente irresistível fazer comparações entre VIPs (Brasil, 2011) e o hollywoodiano Prenda-me Se For Capaz (2002). Afinal, os dois contam história reais de mentirosos que conseguiram por muito tempo viver outras identidades. Ainda por cima, ambos os filmes são inspirados em histórias reais.
Há diferenças óbvias, claro, e a principal delas diz respeito ao tratamento psicológico que seus personagens recebem: Frank Abgnale, vivido por Leonardo Di Caprio no filme de Spielberg, sabe o tempo todo que está cometendo um golpe; para Marcelo da Rocha, personagem de Wagner Moura em VIPs, isso é verdade só no começo.
O mergulho de Marcelo em suas novas identidades – um piloto de avião de um aeroclube suspeito em Mato Grosso e, depois, um dos filhos do dono de uma companhia aérea – é tão fundo que, nos momentos decisivos, o rapaz tem dificuldade em se livrar delas. Se Marcelo fosse um ator profissional, ele seria um adepto extremista do famoso Método, criado pelo russo Constantin Stanislavski e popularizado pelo Actor’s Studio, em Nova York.
O roteiro de Thiago Dottori e Bráulio Mantovani (com base no livro de Mariana Caltabiano) dão essa densidade ao personagem tendo como alicerce a estranha relação com o pai aviador. O diretor Toniko Melo é um bom contador de histórias e não aposta demais no mistério, dando dicas ao espectador para que ele mesmo se guie.
É o caso muito bem sacado da foto da mãe no carnaval, no porta-retratos, desdobrada logo no começo e colocada em comparação com a foto de Marcelo na parede do salão de cabelereiro. Há também a metáfora do peixe atraído para a luz, depois retomada em um mergulho da câmera na piscina – o que, à primeira vista, parece gratuito e talvez até seja levar a metáfora a um contorcionismo cênico.
Felizmente Melo também é inteligente o suficiente para saber que seu trunfo é mesmo Wagner Moura. Assim, o ator baiano brilha sem concorrência, conseguindo mudar e, ao mesmo tempo, ser sempre o mesmo personagem. Na reta final, mais importante que uma nova fuga é a necessidade – ou, melhor ainda, a circunstância imperativa – que Marcelo tem de finalmente encarar quem ele é de verdade.
VIPs (Brasil, 2011). Direção: Toniko Melo. Elenco: Wagner Moura, Juliano Cazarré, Emiliano Ruschel, Jorge D’Elía, Gisele Fróes.
* Versão estendida de crítica publicada hoje no Correio da Paraíba.
O Artur Xexéo publicou ontem um um texto no blog dele sobre Liz Taylor. Entre outras coisas dizia que a carreira dela ficou em segundo plano frente à vida pessoal. Não concordo e até acho que foi o contrário. Como escrevi na minha matéria para o Caderno 2 de hoje, ela foi uma sobrevivente e sua carreira sobreviveu inclusive à gigante exposição de sua vida na mídia – e olhe que os paparazzi nem eram tão urubus como hoje. Mesmo com os oito casamentos, com acidentes de maridos e amigos, com a pneumonia que quase a matou no auge da carreira, com os dois (!) casamentos com Richard Burton, com as campanhas de combate à Aids e ao preconceito, mesmo com tudo isso, o que se sobressai é sua beleza acachapante e papéis fortes e ousados. Da alternância de inocência e sedução em Um Lugar ao Sol (1951), ela passou a arriscar cada vez mais: sua personagem desafiou convenções e envelheceu décadas em Assim Caminha a Humanidade (1956); foi Maggie, a gata no cio enquanto o maridão não estava nem aí em Gata em Teto de Zinco Quente (1958); a jovem atormentada após um trauma sexual em De Repente, no Último Verão (1959); apareceu nua em Cleópatra (1963); envelheceu, enfeiou-se e disparou todo tipo de imprompérios em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?; foi a infeliz e revanchista esposa de um militar impotente e homosexual, em O Pecado de Todos Nós (1967). Não é toda estrela que teve uma carreira assim.
Londres (Inglaterra),27 de fevereiro de 1932 – Los Angeles (EUA), 23 de março de 2011
Maggie em brasas, rejeitada pelo marido em Gata em Teto de Zinco Quente:
Entre o deslumbre e a descrença
O primeiro Bravura Indômita (1969) não é um grande clássico. Pelo menos, não se comparado a No Tempo das Diligências (1939), Rastros de Ódio (1956), Onde Começa o Inferno (1959) e O Homem que Matou o Facínora (1962), para ficarm em quatro pedras fundamentais do western, todas estreladas por John Wayne. É justamente a intepretação de Wayne que torna o filme de Henry Hathaway memorável, mas há bem mais que a interpretação de Jeff Bridges – embora igualmente memorável - no novo Bravura Indômita (True Grit, EUA, 2010) dos irmãos Coen.
A dupla sempre marcou pela direção delirante, mas também nunca deixou de mostrar que consegue adaptar o estilo ao que a história necessita. É o que acontece aqui: os Coen se esmeram em conduzir um faroeste clássico – nem mesmo há muita aproximação com o western spaghetti, que é a fonte onde cineastas que gostam de uma firula, como Tarantino e Gore Verbisnki, mais bebem quando resolvem citar o gênero (vide Bastardos Inglórios e Rango, de Tarantino e Verbisnki respectivamente).
Bravura Indômita se assemelha mais ao cinema clássico e menos operístico de John Ford e Howard Hawks – ou até do próprio Henry Hathaway, menos celebrado. Nesta versão, fica muito mais evidente (desde a narração que abre e fecha o filme) que tudo é visto pelo olhos de Mattie Ross (Hailee Steinfeld). A menina de 14 anos perdeu o pai, assassinado por um empregado que fugiu (Josh Brolin) e contrata o federal Reuben “Rooster” Cogburn (Jeff Bridges) para caçá-lo – mas exige ir junto. No encalço do criminoso, também está LaBoeuf (Matt Damon), um Texas ranger, que quer levá-lo para seu estado e ganhar uma recompensa para si.
Na longa jornada, o relacionamento entre o trio será muito difícil, e suas personalidades são construídas com cuidado, durante boa parte do filme. É um road movie do faroeste, um pouco como Rastros de Ódio. É no trajeto, entre episódios como enforcado no alto da árvore ou as crianças que covardemente judiam de um cavalo amarrado, que Cogburn conta um pouco da sua vidam do casamento fracassado, dos anos de ética questionável após a Guerra da Secessão.
Sua persona de durão e implacável vai sendo desconstruído, sem sentimentalismo, em pequenas doses. Também demonstra a afeição e respeito crescente por Mattie, o relacionamento que é a razão de ser do filme. Os dois personagens são antológicos e mesmo que o filme seja, em muitos sentidos, mais violento, cruel e pessimista que sua contraparte sessentista, há bons momentos cômicos.
Bridges cria outro Cogburn impagável: durão, bêbado, mas também emotivo (a seu modo). E Haille é um achado do filme. Sua Mattie Ross, uma criança que era a contadora do pai e tem muita consciência de seus deveres legais, ameaçando levar todos ao tribunais o tempo todo, é o espírito do filme: alternando-se o tempo todo entre o deslumbre e a descrença dos mitos.
É exatamente por aí que trilha o Bravura Indômita dos Coen. E vale destacar a trilha de Carter Burwell e a esplêndida fotografia de Roger Deakins. Com muitas cenas à noite, sob chuva ou neve, e aproveitando ao máximo a paisagem, como ensina as convenções do gênero, este é um western lindo de ver e ouvir.
Bravura Indômita (True Grit, Estados Unidos, 2010). Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Elenco: Jeff Bridges, Haille Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper.
* Versão entendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.
Como vocês talvez saibam, Larissa e eu nos casamos. No começo, não íamos querer nenhum vídeo do casamento, mas o Felipe nos convenceu. E não nos arrependemos: ficou tão bom que ele insiste que a gente chame de “filme”.
Então está aí o trailer do filme. Como sou suspeito, não posso dar as cinco estrelas que dá vontade. Até porque não tenho nada contra finais felizes – principalmente se for o meu. Nem contra começos felizes, também.
Estamos aí nós, nossa família e muitos queridos amigos (que também são uma família querida nossa).

Christian Bale, Natalie Portman, Melissa Leo e Colin Firth comemoram nos bastidores (fotos: A.M.P.A.S.)
Gostei da vitória de O Discurso do Rei. Na verdade, eu teria gostado de muitos dos resultados possíveis desse Oscar, tão bons eram os filmes concorrentes. Meu preferido era A Origem, com Toy Story 3 um tantinho atrás.
Veja bem: preferidos, e não favoritos, que eu sabia que as chances reais deles eram bem poucas.
Mas poderiam ser eles, como poderia ser Cisne Negro, Bravura Indômita ou O Discurso do Rei, como acabou sendo. Acho meus dois preferidos obras-primas, mas os demais são excelentes também.
No entanto, vi e li muita gente se irritando com a vitória de O Discurso do Rei. Quase sempre, torcedores de Cisne Negro. Parecem esquecer – ou não se dar conta – que muitas vezes um filme tem qualidades que não têm como objetivo causar um grande impacto no momento da sessão.
Sutileza e elegância são qualidades tão grandes quanto o impacto visual e o delírio psicológico.
Por isso, apostei também em Tom Hooper, embora muita gente achasse que o currículo de David Fincher o faria levar o Oscar de direção. Boa direção é saber contar a história adequadamente. O estilo de direção de Cisne Negro não pode ser usado para contar a história de O Discurso do Rei, não é verdade?
Hooper foi ótimo e ainda conseguiu uma assinatura visual peculiar. Dizer que o filme vai ser esquecido ou – heresia – compará-lo a O Paciente Inglês e pura besteira.
Cisne Negro perderia muito se não fosse uma atriz do calibre de Natalie Portman – que bom que ganhou mesmo. E Colin Firth realmente estava acima de todos os outros com sua sensível e perfeita interpretação de George VI. Sobre os coadjuvante, eu tinhas minhas preferências. Nem tanto entre os atores, mas – reconhecendo a grandeza de Melissa Leo – eu teria ficado bem feliz se Helena Bonham Carter e, principalmente, Haileen Steinfeld tivessem vencido.
Seria, pelo menos, um Oscar para o deslumbrante Bravura Indômita, que saiu sem nada. Enquanto isso, o dispensável Alice no País das Maravilhas levou dois. Um deles, o de direção de arte – quando a maior parte dos cenários era virtual. Logo, desenho animado. Logo, deveriam ser considerados nessa categoria também os filmes de animação.
Da cerimônia em si, interessante como o show parece ter retrocedido em várias coisas. Primeiro, os apresentadores voltaram a dizer “The Oscar goes to…” – eles haviam voltado ao clássico “The winner is…” depois de anos com a outra frase (que havia sido colocada em cena para amenizar o aspecto competição). E as canções voltaram a ser apresentadas no palco – isso também havia sido abolido no ano passado.
Do casal de apresentadores, quase ninguém gostou de James Franco. Acho que a ideia era criar um contraste entre seu jeito blasé e a alegria deslumbrada de Anne Hathaway. O resultado é que Franco ficou apagado o tempo inteiro e Anne brilhou. Foi cantada pela lenda vida Kirk Douglas e sua reação contribuiu para o ótimo momento que foi aquilo. Teve um timing ótimo para a comédia e foi um arraso cantando.

Kirk Douglas entrega o Oscar a Melissa Leo, após seu show particular e antes de ela soltar um palavrão
A apresentação, no entanto, perdeu um pouco o caráter stand-up. E a entrada de Billy Crystal – aplaudido de pé, muito legal – mostrou isso. Em alguns minutos, arrancou quase tantas risadas quanto resto da festa.
Kirk Douglas tomando conta da festa, a linda homenagem a Lena Horne, o cenário virtual homenageando os grandes vencedores do prêmio, Robert Downey Jr. fazendo numa boa piadas com seus antecedentes criminais foram outros dos grandes momentos. Como em todo Oscar, eles se alternaram com outros rotineiros.
FILME
O Discurso do Rei, de Tom Hooper
DIREÇÃO
Tom Hooper (O Discurso do Rei)
ATOR
Colin Firth (O Discurso do Rei)
ATRIZ
Natalie Portman (Cisne Negro)
ATOR COADJUVANTE
Christian Bale (O Vencedor)
ATRIZ COADJUVANTE
Melissa Leo (O Vencedor)
FILME DE ANIMAÇÃO
Toy Story 3, de Lee Unkrich
FILME DE LÍNGUA NÃO INGLESA
Em um Mundo Melhor, de Susanne Bier (Dinamarca)
DOCUMENTÁRIO
Trabalho Interno, de Charles Ferguson
ROTEIRO ORIGINAL
O Discurso do Rei, por David Seidler
ROTEIRO ADAPTADO
A Rede Social, por Aaron Sorkin
FOTOGRAFIA
A Origem, por Wally Pfister
MONTAGEM
A Rede Social, por Kirk Baxter, Angus Wall
DIREÇÃO DE ARTE
Alice no País das Maravilhas, por Stefan Dechant
FIGURINO
Alice no País das Maravilhas, por Colleen Atwood
MAQUIAGEM
O Lobisomem
TRILHA SONORA ORIGINAL
A Rede Social, por Trent Reznor, Atticus Ross
CANÇÃO ORIGINAL
“We belong together” (Toy Story 3), por Randy Newman
EDIÇÃO DE SOM
A Origem
CURTA-METRAGEM
God of Love, de Luke Matheny
CURTA-METRAGEM/ ANIMAÇÃO
The Lost Thing, de Andrew Ruhemann, Shaun Tan
CURTA-METRAGEM/ DOCUMENTÀRIO
Strangers No More, de Karen Goodman e Kirk Simon
Uma das personagens mais sofridas de todos os tempos deve ser a Nadia de Rocco e Seus Irmãos (1960). A prostituta que encontra o amor com Rocco acaba sucumbindo a um destino trágico quando é empurrada por ele para o irmão que já a havia estuprado. Luiz Carlos Merten, um apaixonado por ela e pelo filme, diz que é a maior interpretação feminina do cinema em todos os tempos (mas admite que é suspeito). Não sei, mas Annie teve uma longa carreira, fez filmes até 2007. Mas seus últimos anos foram tristes, sofrendo com o Mal de Alzheimer.
O rompimento de Nadia e Rocco no Duomo, em Rocco e Seus Irmãos:
Paris (França), 25 de outubro de 1931 – Paris (França), 28 de fevereiro de 2011
Os seios de Jane Russell causaram uma das maiores brigas contra a censura já vistas no cinema americano. Li uma vez que o milionário, produtor e cineasta Howard Hughes – também apaixonado por aviação – chegou a desenhar (com seus engenheiros aeronáuticos) um sutiã especialmente para ressaltá-los no filme que a lançaria: O Proscrito. O Código de Produção caiu em cima, mas Hughes – que passou a dirigir o filme depois de Howard Hawks deixou a produção – acabou sendo o primeiro cineasta a enfrentar de cara aberta a censura americana. Com as filmagens terminadas em 1941, o filme só estreou em 1943. Russell mostrou, depois, ter outros talentos. Para a música e a comédia, por exemplo: ela divide em pé de igualdade com ninguém menos que Marilyn Monroe os holofotes de Os Homens Preferem as Loiras (1953). Ok, a loira era Marilyn, mas Jane era o primeiro nome nos créditos. E a continuação – com Jane, sem Marilyn – chamou-se Eles se Casam com as Morenas (1955)…
Cenas de Jane em O Proscrito:
Marilyn e Jane cantam “When love goes wrong, nothing goes right”, em Os Homens Preferem as Loiras:
Bemidji (EUA), 21 de junho de 1921 – Santa Maria (EUA), 28 de fevereiro de 2011




















































































