Versão estendida da entrevista que fiz para o Correio da Paraíba: um ótimo papo com a Ana Maria Bahiana sobre seu livro recém-lançado, as plateias e o cinema.

***

Ana Maria Bahiana: “Um filme é o encontro de duas histórias pessoais: a do diretor e a do espectador” (foto: Delaney Andrews)

Ver um filme é bem mais do que apenas direcionar os olhos abertos para a tela. Isso é o que defende a jornalista Ana Maria Bahiana, em seu novo livro, que se chama, justamente, Como Ver um Filme (Nova Fronteira, 256 páginas). Morando em Los Angeles há 25 anos, ela leva para o livro uma visão esclarecedora dos bastidores da indústria do cinema que já costuma apresentar em suas matérias e nos textos de seu blog. Uma visão que não costumamos ter (ou que ganha menor atenção) de seus colegas baseados no Brasil, mas que ajuda a entender como e por que certos filmes são o que são.

“Eu acho muito importante que a pessoa que veja um filme tenha consciência do processo de criação dele, o número de escolhas daquela cena que ele está vendo. Mesmo que não pense nisso enquanto está assistindo”, contou, por telefone, de Fortaleza, onde esteve para ministrar mais uma edição do curso que surgiu em 2007 e serviu como laboratório para o livro. “Que ela possa distinguir o que o filme fala para ela pessoalmente e saiba discernir o que é a visão do realizador. O filme é o encontro dessas duas histórias pessoais”.

Como Ver um Filme possui duas partes bem definidas. A primeira trata dos “alicerces”: sobre como “nasce” um filme e quem faz o quê desde a ideia até
a pós-produção. Tudo com muitos exemplos contados pela jornalista, além de
histórias de bastidores que ilustram situações. Como uma ideia é vendida, o que, afinal, faz um produtor – ou como Uma Linda Mulher passou de um drama pesado sobre uma sonhadora prostituta drogada que se dá muito mal para o filme que todos conhecemos.

A segunda parte trata do “estilo”, um passeio sobre a comunicação do cinema
através dos gêneros. Nessa metade, Ana Maria recorre muito a Aristóteles
para discorrer sobre drama, comédia, filmes de ação, fantasia/ ficção
científica e thrillers, que efeitos esses filmes causam em nós como espectadores, suas evoluções e lugares-comuns.

O livro e o curso tentam ajudar os espectadores a serem menos passivos
enquanto estão diante de um filme. “As pessoas vão ao curso com uma carga
de ideias pré-concebidas”, disse. “‘Eu não gosto de filme de ação’ é um exemplo clássico”. Ou pessoas reclamando de filmes a que foram assistir e dos quais saíram sem entender nada, embora tenham lido alguma crítica positiva a respeito. “Eu digo: ‘Olha, não tem nada errado. O filme não ‘falou’ com você, ‘falou’ com a pessoa que escreveu a crítica”, explicou.

Sobre críticos, a jornalista faz questão de dizer que não se considera uma. “Não gosto de como essa palavra soa”, disse. “Eu me considero uma  espectadora muito bem informada e coloco minhas impressões no texto: eu tenho essa impressão e posso estar redondamente enganada. Sempre me considero como uma pessoa que quer aprender. Quanto menos eu tiver essa postura de ‘já sei tudo’, melhor”.

Mas ela lê críticas – de alguns poucos e selecionados jornalistas americanos. Entre eles, Manohla Dargis, do New York Times, Justin Chang, da Variety, e Kenneth Turan, do Los Angeles Times. “São pessoas de padrões diferentes, formação e estilos completamente distintos, mas que têm essa mesma postura e tem a capacidade de me dizer claramente suas razões para gostar ou não de um filme. E eu posso concordar ou discordar”.

Ana Maria Bahiana acha importante que o público leia sobre o processo de
como o filme se tornou o que é e as ideias de quem o fez antes de assistir,
mas crítica é coisa para depois. E concorda que a estratégia de mostrar os filmes antes aos jornalistas e as críticas serem publicadas no mesmo dia do lançamento, como parte do pacote, podem mais atrapalhar que ajudar
o leitor-espectador.

“É um complicador da formação do gosto pessoal da plateia”, opinou. “Eu vi,
ao longo desses 25 anos, a estratégia de lançamento ficar rigorosa, principalmente em relação à manipulação da imprensa”.

Para ela, o público deve desenvolver seu próprio olhar crítico e fazer suas escolhas. E o papel da crítica na imprensa é exatamente fornecer a munição para essa reflexão sobre o filme. “Para mim, é mais preocupante a tentativa de controle das mídias como plataforma de divulgação do filme”, disse ela.

Esse olhar crítico Ana Maria começou a ter desde a infância. Sua primeira lembrança relacionada a filmes é chorar num cinema ao assistir Bambi. “Vi como se vê uma tragédia grega”, recordou. “Vivi numa casa onde as três paixões da minha vida inteira se manifestaram: livros, música e cinema”.

O pai dela era fotógrafo amador. “Ele tinha camera super-8, projetor e me levava ao cinema”, lembrou ela. “Ele tinha um olho para fotografia que era um espetáculo. Me falava sobre enquadramento, filtros, foco… Eu já via cinema pensando nisso, era uma coisa natural. Quando saímos do cinema depois de assistir a Hatari, eu perguntei: ‘Onde eles puseram a câmera’?”. Ana tinha entre sete e oito anos na época e já se preocupava em saber como o diretor
Howard Hawks filmou as cenas de caçada no filme.

Entre os anos 1960 e 1970, haviam os cineclubes proibidos, exibindo filmes que a censura da ditadura militar não deixava passar nos cinemas – foi quando ela teve acesso a filmes provocadores como Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Antonioni (numa cópia clandestina em preto-e-branco, bem antes de finalmente conseguir assistir ao filme colorido). Mas a mudança maior, para ela, foi com a mudança para Los Angeles, quando foi ser correspondente da então nascente revista Set.

“É uma cidade que faz cinema 24 horas por dia. Eu acho que me abriu os olhos para o processo como um todo e em seus momentos particulares”, contou. “Eu passei a ter um respeito imenso pelas pessoas que trabalham nessa área em qualquer capacidade – do produtor ao carpinteiro que trabalha na construção dos cenários”.

Como Ver um Filme, de Ana Maria Bahiana. Nova Fronteira, 256 páginas. R$ 39,90.

About these ads