You are currently browsing the tag archive for the ‘Cinema clássico’ tag.
O compositor austríaco Max Steiner nasceu em 1888, há 125 anos. Steiner é um dos maiores autores de trilha sonora da era de ouro de Hollywood, tendo estudado na juventude com Brahms e Robert Fuchs. Seu trabalho em King Kong (1933) meio que definiu o funcionamento da trilha sonora para o cinema. Ele compôs mais de 300 trilhas e foi indicado ao Oscar 24 vezes. Ganhou três: O Informante (1935), A Estranha Passageira (1942) e Desde que Partiste (1944). Mas sua grande trilha, é claro, é a de …E o Vento Levou (1939). Seus acordes poderosos eram sua marca maior e outras trilhas memoráveis são as de Casablanca (1942) e Rastros de Ódio (1956), entre outras.
O filme Lua de Papel foi lançado em 1973, há 40 anos. O último grande sucesso da especial sequência do diretor Peter Bogdanovich iniciada com A Última Sessão de Cinema (1971) e Essa Pequena É uma Parada (1972). Em preto-e-branco e passado na época da Depressão, o filme também revelou a pequena Tatum O’Neal como uma garotinha se aproximando do pai trambiqueiro. Ela é até hoje a mais jovem vencedora de um Oscar de atuação: ganhou como atriz coadjuvante aos 10 anos. Tatum contracena com o pai, Ryan O’Neal. Como muitas outras crianças, ela também não manteve o sucesso depois de crescer.
Recife, PE - Celso Sabadin faz um sempre bem-vindo resgate em Mazzaropi, exibido na segunda. Oscarito e Grande Otelo já passaram por esse processo de reabilitação e Zé Trindade também começou a passar por ele. Outro grande comediante, Mazzaropi fez sucesso no cinema como ator, impôs o seu tipo caipira, entrou na aventura de produzir e dirigir os próprios filmes e dominou um nicho e uma região do Brasil. O filme de Sabadin, jornalista de cinema há anos que estreia na direção de cinema, conquista fácil a plateia por saber explorar o humor de Mazzaropi e apesar da longa discussão inicial sobre o que é ser caipira.
O filme apresenta a trajetória de Mazzaropi, mas também chega a discutir um pouco que cinema era esse. Não falta quem diga das precariedades de produção e mesmo da qualidade sofrível da maioria dos filmes. Um dos depoimentos diz que ele seria ainda maior se tivesse tido um bom diretor. Outros (e ele mesmo, no único depoimento que o diretor e os produtores encontraram em sua pesquisa) afirmam que, se não fizesse daquele jeito, ele nunca teria conseguido fazer dinheiro com um filme o suficiente para bancar outro, como faz dos anos 1960 ate morrer, em 1980.
O filme toca, inclusive, em uma informação que o grande público desconhecia: a de que Mazza era homossexual. Eu mesmo me surpreendi ano passado quando Astier Basílio me contou essa, que ele tinha ouvido de José Neumanne Pinto. No meio cinematográfico, no entanto, o fato era conhecido, e Mazzaropi gostava de dar em cima de seus galãs, como conta David Cardoso. O tema é tratado no filme com elegância e carinho, graças ao depoimento dse Marly Marley.
Minha única ressalva é o fato de as cenas de filmes só estarem creditadas no fim do filme. Se o espectador gostar de alguma cena em especial e quiser saber de que filme ela é (e muitas cenas aparecem fora do contexto cronológico), vai ficar difícil. No debate, Sabadin justificou dizendo que queriam evitar o excesso de informação no filme.
Em 1933, há 80 anos, uma das páginas mais negras da história começou: foi criada a Gestapo, a polícia política nazista. No começo, era uma espécie de FBI da Alemanha, mas no ano seguinte já começou a atuar como polícia política. No cinema, foi retratada como uma das maiores organizações-vilãs, em filmes tão diferentes como Casablanca (1942 – o Major Strasser, na foto, era da Gestapo), Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) e O Pianista (2005).
A Flecha do Amor (Who Killed Cock Robin?, 1935)
Direção: David Hand. Produção: Walt Disney.
Indicado ao Oscar de curta de animação de 1936
Mais um título da série Sinfonias Ingênuas que, junto às similares dos outros estúdios, dominaram a premiação nesses primeiros anos da categoria no Oscar. No DVD da série, o próprio Walt Disney aparece explicando que a animação se baseia em versos infantis muito antigos e que acabaram perdendo um pouco o sentido. Aqui, vira um “desenho de tribunal musical”, onde os pássaros tentam descobrir quem matou Cock Robin com uma flechada. A parte mais divertida é a caricatura de Mae West.
Indicado ao Oscar 1936: O Dragão de Chita <<
>> Vencedor do Oscar 1937: Primo da Roça
Um dos mais influentes críticos de cinema de todos os tempos, André Bazin faria 95 anos hoje – ele nasceu em 1918. Co-fundador e editor da Cahiers du Cinema, ele foi simplesmente o mentor dos meninos que fizeram a Nouvelle Vague no cinema. Ele acolheu o jovem cineclubista (e quase delinquente) François Truffaut e o ajudou a se tornar um crítico respeitado – de onde ele partiu para ser tornar cineasta. Ele morreu em 1958, um dia após o começo das gravações de Os Incompreendidos, primeiro filme de Truffaut, que dedicou o filme a Bazin. Alguns textos do crítico saíram no Brasil em O Cinema – Ensaios, pela Brasiliense.
Traufaut fala de Bazin em 1983:
Hayao Miyazaki é um gênio da animação japonesa e um de seus trabalhos mais marcantes, Meu Amigo Totoro, foi lançado em 1988, há 25 anos. A história das duas filhas de um professor, no Japão do anos 1950, que fazem amizade com espíritos da floresta possui o quociente de ternura e beleza que seriam as marcas consagradas de Miyzazaki, um gênio da animação japonesa – admirado, entre outros pelo pessoa da Pixar.
Livros sobre o oceano
Fazer um filme ancorado uns 90% em trocas de cartas não deve ser fácil. É o que acontece em Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (84 Charing Cross Road, Reino Unido/ Estados Unidos, 1987) – aliás, um dos piores títulos nacionais já vistos num cartaz de cinema ou home video (por ser o que hoje chama-se de spoiler e, ao mesmo tempo, induzir o espectador numa direção no mínimo questionável). Enfim, o filme é sobre a troca de correspondências entre uma atrevida aspirante a escritora nova-iorquina e um fleumático gerente de livraria londrina.
Ela procura edições antigas de livros que não encontra em Nova York – e por um precinho razoável. Ele manda os livros e a troca de cartas e pacotes se desenvolve em uma amizade que atravessa os anos e envolve aqueles à volta dos dois. O filme contorna o que poderia ser um festival de cenas de gente escrevendo e lendo (e há muitas) com as situações cotidianas dos personagens. Muitas vezes, há uma dupla narrativa: o que se conta nas cartas é uma coisa e o que se vê na tela é outra, sem uma relação imediata.
Outro recurso interessante é o uso da câmera como interlocutor. Mais interessante ainda é como esse uso aparece em uma progressão. Durante quase todo o filme, só Helene (Anne Bancroft, que ganhou do marido Mel Brooks os direitos de filmagem do livro de presente de aniversário – e levou o Bafta de melhor atriz) tem o direito de olhar para a tela e falar com ela como se falasse com Fred (Anthony Hopkins), seu correspondente.
É um mecanismo curioso, que não “substitui” a carta sendo escrita. Começa aparecendo como uma ou outra frase no final de uma carta – como se sublinhasse um recado especifico de Helene para Fred. Há um outro momento em que a leitura da carta de Helene para Fred está em off, enquanto ela cuida de um bebê – mas em um momento muito específico do áudio, ela dá uma olhadela para a câmera, um curioso momento em que as duas narrativas se cruzam.
Só perto do final, há uma sequência em que Helene e Fred dialogam pela mágica da montagem. É quando o filme concede a ele, também, o “direito” de falar para a câmera. E aí, os dois falando “ao vivo” suas cartas e intercalando comentários, o espectador tem o gostinho de ver os dois conversando – coisa que a distância e um oceano no meio tem impedido.
A história começa nos anos 1940, com a Inglaterra ainda passando privações após a II Guerra, e vai até o fim dos anos 1960, e a turbulência da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Através destes anos, fala-se muito de literatura e da vida cotidiana. Os créditos finais mostram que é uma história real, elemento de que o filme não faz alarde. O livro de Helene Hanff virou uma peça e, daí, o roteiro de Hugh Whitemore.
Será amor a forte ligação entre Helene Hanff e Fred? Bom, o filme não avança sobre isso e não há traço de qualquer arroubo romântico do qual o título nacional tenta nos convencer (“criatividade” motivada, certamente, pelo intraduzível título original, que é o endereço da livraria em Londres).
Não se fala abertamente em amor e Fred (com toda sua fleuma britânica – ou o que os americanos esperam dos britânicos, sem esquecer que o ponto de vista do filme é o de Helene) até parece feliz no casamento – sua esposa é vivida por Judi Dench. O filme parece tomar a posição de deixar que o espectador tire suas próprias conclusões – quem quiser ver amor, verá; quem quiser ver “apenas” uma grande amizade transcontinental, também o verá.
O “apenas” vai entre aspas porque uma grande amizade não será nunca um “apenas”. E isso justifica também essa visão do filme.
Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (84 Charing Cross Road, Reino Unido/ Estados Unidos, 1987). Direção: David Hugh Jones. Elenco: Anne Bancroft, Anthony Hopkins, Judi Dench, Jean De Baer, Eleanor David, Mercedes Ruehl.
O cineasta Paulo César Saraceni morreu há um ano. Apontado como um cineasta precursor do Cinema Novo com seu curta Arraial do Cabo (junto com o Aruanda de Linduarte Noronha), de 1960. Permaneceu na turma do Cinema Novo como um dos líderes e se destacou na direção de longas com A Casa Assassinada (1970) e O Viajante (1998).
O Dragão de Chita (The Calico Dragon, 1935)
Direção: Rudolf Ising. Produção: Hugh Harman e Rudolf Ising
Indicado ao Oscar de curta de animação de 1936
Da série Happy Harmonies, da MGM (a Silly Simphonies de lá). Depois que uma menina lê na cama uma história de cavaleiros e dragões, seus bonecos de pano (um homem, um cavalo e um cachorro) resolvem viver suas aventuras. O que faz diferença é a sacada do mundo imaginário retratado como se tudo fosse de pano – desde a água de um rio até o não-tão-terrível-assim dragão de três cabeças (que formam um trio vocal). A maneira como ele cospe fogo é uma delícia de surpreendente e lúdico.
Vencedor do Oscar 1936: Três Gatinhos Órfãos <<
>> Indicado ao Oscar 1936: A Flecha do Amor
A segunda maior sapateadora da história dos musicais, Ann Miller completa 90 anos hoje. A dançarina texana fez pequenos papéis na RKO e na Columbia até a MGM escalá-la para Desfile de Páscoa (1948). Ganhou um número só dela (“Shakin’ the blues away”) e arrasou. Emendou outra grande participação de Um Dia em Nova York (1949). Seu terceiro grande filme é Dá-me um Beijo (1953). Depois que a época dos grandes musicais passou, ela faz TV e Broadway. Sua última grande aparição foi como a síndica de Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch. Morreu em 2004.
PS: A maior sapateadora foi Eleanor Powell.
Os mineiros entraram definitivamente na rota das grandes mostras. Primeiro, foi a de Chaplin, com a obra completa do gênio. Hoje, começa outra, dedicada à obra completa de Howard Hawks.
É um excelente resgate, visto que Hawks faz tempo é pouco citado entre os grandes de todos os tempos. Na pesquisa que o blog aqui fez com cinéfilos paraibanos em 2010 sobre seus cineastas preferidos, dos 100 ouvidos apenas um citou Hawks entre seus cinco – e fui eu mesmo.
Enfim, sejam bem-vindos os filmes de Hawks, o cineasta dos homens com uma missão. E também um dos mais versáteis do cinemão de Hollywood, deixando clássicos no filme de gãngster, nas comédias malucas, no musical e, principalmente, no faroeste.
Algumas histórias sobre ele são muito boas como a de que estava pescando com o amigo Ernest Hemingway e este o desafiou a fazer um filme a partir de um livro ruim. Hawks devolveu: “Faço um filme bom do seu pior livro”. Hemingway escolheu e o filme foi Uma Aventura na Martinica (1944), que, ainda por cima, revelou Lauren Bacall.
Foi Hawks também que se indignou porque um xerife ficava pedindo ajuda a todo mundo para encarar um bandido em Matar ou Morrer (1952) e fez um filme em que o xerife, contra todo mundo, mantém o bandido preso: Onde Começa o Inferno (1959), tão antológico quanto seu “espelho”.
Hawks talvez não esteja sendo tão lembrado por não ter sido exatamente um revolucionário ou um inventor no cinema. Foi, no entanto, um exímio contador de histórias, um talentosíssimo narrador. Como você vê a seguir, nessa nossa lista de dez grandes Howard Hawks.
Em tempo: a mostra, no Cine Humberto Mauro, começa hoje com Levada da Breca (1938) e segue por um mês com exibições diárias – quase todas em 35mm. Inclui até filmes mudos e curiosidades como O Proscrito (1948) em que ele acabou não creditado como diretor no final. Há também um curso com Inácio Araújo, debates e palestras. Confira a programação completa.
Comédia com Marilyn antes da fama e chimpazés.
Roteiro de ninguém menos que Billy Wilder, antes de ele mesmo começar a dirigir.
Aventura tipicamente hawksiana: um grupo de homens faz a perigosíssima correspondência aérea na América do Sul, custe o que custar.
Raro filme de Hawks em que as mulheres comandam a ação, e o diretor contribui de novo para a criação do mito Marilyn Monroe. Leia mais.
Um dos filmes de gangster essenciais.
Hawks reuniu Bogart e Bacall (casal que formou em Uma Aventura na Martinica) adaptando o romance de Raymond Chandler.
De novo Cary Grant em uma comédia romântica (e maluca) sobre jornalismo.
Hawks recontou O Grande Motim, que se passa no mar, no Velho Oeste!
A quintessência da comédia maluca, com Katharine Hepburn e Cary Grant no máximo.
Não há a chegada da civilização, a luta dos pioneiros ou outra coisa além de uma aventura de faroeste pura e contada com maestria.
No Reino dos Anões (Jolly Little Elves, 1934)
Direção: Manuel Moreno. Produção: Walter Lantz.
Indicado ao Oscar de curta de animação 1935.
Um casal de velhinhos paupérrimos (ele, um sapateiro) divide sua única rosquinha dura com um elfo que bate à sua janela. Depois, sua generosidade é recompensada. Desenho musical na linha Silly Symphonies, produção de Walter Lantz para a Universal. Todo o humor é extraído do contraste do tamanho dos elfos com os objetos. É um típico curta animado dos anos 1930 que, na verdade, envelheceu um bocado.
Vencedor do Oscar 1935: A Tartaruga e a Lebre <<
Como não encontrei no YouTube o outro indicado de 1935, Holiday Land, da Screen Gems, pulamos para…
>> Vencedor do Oscar 1936: Três Gatinhos Órfãos
Vidas cruzadas nos trilhos da estação
Antes dos grandes épicos que marcam sua carreira de diretor – como Lawrence da Arábia (1962) e Doutor Jivago (1965) – David Lean dirigiu filmes “menores” na Inglaterra. O “menores” vai entre aspas por razões óbvias para quem viu alguns desses filmes: Desencanto (Brief Encounter, Inglaterra, 1945) só é menor no quesito dinheiro envolvido. Um drama intimista, Desencanto é um dos grandes filmes de amor do cinema. Sua simplicidade esconde a complexidade de suas emoções.
O filme é uma adaptação da peça Still Life, de Noel Coward, produzida por ele próprio. Lean e Coward mantiveram uma boa parceria naqueles anos, em quatro filmes: Nosso Barco, Nossa Alma (1942), que os dois dirigiram; Este Povo Alegre (1944); Uma Mulher do Outro Mundo (1945); e Desencanto. Curiosamente, não há créditos para o roteiro que, segundo o IMDb, é de Anthony Havelock-Allan, Ronald Neame (que dirigiria A Primavera de uma Solteirona, em 1969) e Lean. A omissão pode ter acontecido para reforçar Noel Coward como autor da história. Em todo caso, é o trio que concorreu ao Oscar pelo filme, como melhor história – Desencanto também concorreu a direção e atriz.
O filme tem um início exemplar: na lanchonete de uma estação de trem, a vida segue normal para os personagens que depois vamos ver que estão sempre por ali, mas em trânsito (o guarda da estação, a dona do lugar, a empregada mais jovem dela). Em um canto, estão Celia Johnson e Trevor Howard, em uma mesa. Não dizem nada, até que entra uma amiga faladeira de Laura (Celia), dizendo coisas sem importância. Chega o trem de Alec (Howard) e ele precisa ir. Se despede de Laura sem palavras, apenas com uma mão em seu ombro.
Sem palavras, mas com uma eloquência e tanto. O filme começa com o casal central sendo mostrado como um figurante, para aos poucos ir ganhando o protagonismo na cena. Depois, o filme entra o foco em Laura, voltando para casa com a amiga chata. E é quando ouvimos sua voz interior falando de seu momento turbulento. E só quando ela chega em casa e está sentada na poltrona em frente ao marido meio sem graça que faz palavras-cruzadas é que ouvimos seus pensamentos começarem a contar a história.
Assim, a história é narrada em flashback por Laura. Grande sacada é ela fazer essa narração mental ao marido – a quem, claro, não pode contar nada de verdade. Ela vive em um casamento tranquilo, no subúrbio e vai semanalmente à cidade para movimentar um pouco a vidinha: fazer compras e ir ao cinema. Um dia conhece o médico Alec, quando este a ajuda a se livrar de um cisco no olho na lanchonete da estação. Uma série de outros acasos, por um lado, e a insistência de Alec, por outro, levam a outros encontros inocentes – até que eles se apaixonam, coisa que percebemos bem antes deles.
Ele também é casado e os encontros dos amantes, em meio à crise moral permanente de Laura, precisam ser nos poucos dias em que Laura vai à cidade. São encontros pontuados pela estação de trem, locação que abre e fecha o filme. Laura e Alec são vidas que se cruzam, como trens que se cruzam nos trilhos da estação. A luz do trem passando nos rostos dos personagens, os sons, tudo é usado como reflexo das emoções dos personagens. Perto do fim, tudo isso somado a um close do rosto transtornado de Celia Johnson é um plano espelho de outro, com o rosto de Greta Garbo como Anna Karenina (1935).
Evidentemente, é preciso pensar como os personagens e entender seus dilemas, massacrados por anos e anos de liberação sexual no cinema. E, considerando que tudo na história de Laura e Alec – com exceção da cena inicial cheia de lacunas – nos é mostrada pelo ponto-de-vista da mulher (e em um momento especialmente turbulento), é preciso imaginar o que é realista e o que está sublinhado pelas emoções de Laura. Note: nas palavras cruzadas do marido, “romance” cruza com “delírio”… Ela pode até estar ouvindo Rachmaninoff na cabeça dela enquanto relembra sua história de amor clandestina.
Os personagens paralelos voltam sempre a aparecer, nos lembrando que outras vidas continuam a acontecer, sem se darem conta do drama O quociente de culpa que arrasa Laura por quase todo o filme também pode refletir um pouco das emoções travadas que costumamos atribuir como o jeito de ser tipicamente britânico daquela época. Em todo caso, se o espectador se transportar para a pela de um dona-de-casa do subúrbio inglês e um casamento monótono dos anos 1940 – e ele deveria ser capaz disso – vai compreender o tumulto interno de Laura e dar um novo sentido ao “Concerto para piano número 2″ de Rachmaninoff.
Desencanto (Brief Encounter, Reino Unido, 1945). Direção: David Lean. Elenco: Celia Johnson, Trevor Howard, Stanley Holloway, Joyce Carey, Cyril Raymond.
Meu amigo Jack Herbert me mostrou no Facebook esse comercial encantador de uma marca de chocolate, estrelado por… Audrey Hepburn! Através da computação gráfica, o comercial (veiculado na TV britânica) traz Audrey de volta à vida. O resultado impressiona, confira:
Aproveito para publicar minha matéria dos 20 anos da morte da atriz, completados em janeiro. No final, admiradores da atriz contam qual seu momento preferidos. Entre eles, Ruy Castro, José Geraldo Couto, Suzana Uchôa Itiberê e João Batista de Brito.
***
Em julho de 2010, uma pesquisa pela internet perguntou qual seria a mulher mais bonita do século 20. Em um meio onde o imediatismo impera (o segundo lugar, por exemplo, ficou com uma cantora do grupo Girls Aloud), a vencedora foi uma atriz que havia morrido há 18 anos e cujo auge da carreira foi nos anos 1950 e 1960: Audrey Hepburn. Confiabilidade não é uma qualidade de pesquisas virtuais, mas esse resultado quer dizer algo: a persona da atriz – que morreu há exatas duas décadas, aos 63 anos – continua em evidência, admirada por velhos e novos fãs.
Não faltava a Audrey beleza física, é evidente. Mas ela não era voluptuosa e cheia de curvas perigosíssimas como outras deusas do cinema de sua época – Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Sophia Loren ou Brigitte Bardot. Audrey era diferente e boa parte de seu charme estava na capitalização disso. Ela combinava um ar de quem precisa de proteção e uma certa molecagem, o que cativou de cara a equipe que selecionava atrizes para A Princesa e o Plebeu (1953), e, depois, o público e a Academia de Hollywood, que deu a ela um Oscar logo em seu primeiro filme importante.
Já é lendária – mas verdadeira – a história de que o astro do filme, Gregory Peck, vendo o desempenho daquela novata, exigiu dos produtores que o nome dela viesse antes do título com destaque igual ao seu – uma situação impensável na época. “Ela é a verdadeira estrela do filme. Vou parecer ridículo se meu nome aparecer maior que o dela”, disse Peck.
Até aquele momento, Audrey tinha tido um grande momento na carreira: fez o papel principal de Gigi nos palcos, escolhida pela própria autora, Colette. No cinema, eram ainda pequenos papéis, mas A Princesa e o Plebeu mudou tudo. Suas peripécias por Roma como a princesa cansada dos afazeres diplomáticos e com vontade de viver um dia comum a transformaram em uma estrela de primeira grandeza.
Na sequência, ela fez Sabrina (1954), uma história de Cinderela onde ela era a filha de um motorista e que se transforma quando passa uma temporada em Paris, passando a ser disputada por Humphrey Bogart e William Holden. O diretor era Billy Wilder, que a dirigiu de novo em Amor na Tarde (1957) e disse uma das mais belas coisas sobre ela: “O que é preciso para você se tornar uma estrela de verdade é um elemento extra que Deus pode lhe dar ou não. Você já nasce com ele. Não pode aprender. Deus beijou o rosto de Audrey Hepburn, e ali estava ela”.
Até 1967, Audrey fez poucos filmes, quase todos muito bons, alguns chegando ao status de icônicos. Os melhores foram, além dos dois primeiros hollywoodianos, são o musical Cinderela em Paris (1957), o drama Uma Cruz à Beira do Abismo (1959), a mistura de comédia e suspense que é Charada (1963), o musical My Fair Lady – Minha Bela Dama (1964), o drama Um Caminho para Dois (1967) e o suspense “para valer” Um Clarão nas Trevas (1967).
E, claro, Bonequinha de Luxo (1961), talvez o mais icônico dos filmes e papéis de Audrey. Sua Holly Goolightly – criação do escritor Truman Capote, que queria Marilyn Monroe no papel – marcou tanto pelo vestido preto (como sempre, desde Sabrina, Audrey era vestida pelo estilista francês Givenchy) quanto pela cena em que ela canta “Moon river” na escada de incêndio.
Até 1967, Audrey tinha sido casada com o ator Mel Ferrer muito menos bem sucedido que ela. Em 1967, ela deu um longo tempo do cinema quando se divorciou e se casou com o médico Andrea Dotti. Só voltou ao cinema em 1976, com um grande filme: Robin e Marian.
A partir daí foram poucos filmes e poucos destaques. Seu papel mais importante no período é o de embaixadora da Unicef, a partir de 1987. Ela viajou por países muito pobres, como a Somália, ajudando a chamar a atenção para populações vivendo na miséria.
Audrey estava, assim, retribuindo um pouco da ajuda que ela, belga de nascimento, própria teve na infância, durante a II Guerra Mundial, na Holanda. Para ela, viajar pelo Unicef foi seu principal papel. E foi por isso que Elizabeth Taylor disse, quando Audrey morreu, que “Deus tem agora o mais belo novo anjo, que saberá o que há para fazer no Céu”. E é por isso que tantos acham que seu último papel no cinema foi tão apropriado: em Além da Eternidade (1989), de Spielberg, ela interpretou um anjo.
– MINHA AUDREY PREFERIDA
RUY CASTRO, escritor
“Audrey Hepburn foi sempre maravilhosa – em cada fotograma que filmou -, mas a cena que mais gosto é a da sequência final de A Princesa e o Plebeu: ela, de novo como princesa; Gregory Peck, como o repórter que a entrevista”.
ALANA AGRA, médica
“O ‘meu’ momento Audrey é Sabrina, daqueles raros momentos em que tudo dá certo – do roteiro maravilhoso ao elenco, os figurinos, o p&b belíssimo, e Audrey mais icônica do que já tinha estado até então, com vestidos de sonho”.
SUZANA UCHÔA ITIBERÊ, editora da revista Preview
“Uma das cenas mais saborosas e espontâneas de Audrey Hepburn que tenho guardada na memória acontece em Charada, que Stanley Donen dirigiu em 1963. No auge da ação, ela pega Cary Grant de surpresa e pergunta: ‘Sabe o que você tem de errado?’. Ele, afobado e na defensiva, responde: ‘Não, o quê?’. E ela solta um sedutor e malandro: ‘Nada!’. O tom de voz perfeito e um rosto suave irresistível. Essa era Audrey”.
JOÃO BATISTA DE BRITO, crítico
“Adoro, em A Princesa e o Plebeu, quando ela, ainda tonta, entra no pequeno apartamento de Gregory Peck e eles discutem um verso de poesia romântica, que ela diz ser Keats e ele, garante ser Shelley (ele tinha razão)”.
JOSÉ GERALDO COUTO, crítico
“Minha cena favorita está na ponta da língua: é aquela em que ela canta ‘Moon river’ e toca violão na escada externa do prédio onde mora, em Bonequinha de Luxo, do Blake Edwards. É um momento de delicadeza e beleza inexcedíveis, capaz de enternecer o mais duro dos corações”.
KAROLINE ZILAH, jornalista
“Uma cena que para mim tem o status de hors concours: o momento em que ela canta ‘Moon river’ na sacada do apartamento, demonstrando uma Holy Golightly extremamente vulnerável apesar de toda a sexualidade e suposta segurança que ela exalava antes de revelar seu verdadeiro ‘eu’. É uma cena tão delicada e emocionante, que sempre me lembro desta imagem em particular quando penso em Audrey”.
RENATO FÉLIX, jornalista
“Audrey tem muitos momentos icônicos, mas um que eu particularmente acho o máximo é ela dançando com Fred Astaire no quarto escuro em Cinderela em Paris, depois de ele cantar ‘Funny face’ para ela. Bailarina, ela teve tão pouca chance de dançar na carreira…”.
ANDRÉ RICARDO AGUIAR, escritor
“O meu momento Audrey Hepburn preferido é o da brincadeira da Boca da Verdade, em Roma, no filme A Princesa e o Plebeu. Adoro o improviso que Gregory Peck fez na cena e o susto real que ele provocou na Audrey”.
CAROLINA QUEIROZ, jornalista
“Eu considero seu momento mais emblemático aquele em que ela inicia o trabalho de embaixatriz da Unicef, em 1987. Depois disso, ela mostrava ao mundo que não era apenas uma atriz maravilhosa, mas uma pessoa extraordinária!”.

























































