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Acho que a maioria das pessoas que têm muito filme em casa deve passar pelo que eu passo: a indecisão na hora de escolher o que assistir. Periga sempre acabar fazendo ou pot-pourri de melhores cenas de várias coisas. Por isso, eu tento aproveitar certas datas para rever certos filmes. Foi o que aconteceu nesta Páscoa, com o ultraclássico Os Dez Mandamentos (1956).
Infelizmente, não consegui assisti-lo de uma vez só. Um almoço na casa da minha mãe interrompeu a sessão – pelo menos, consegui assistir até o intervalo que o filme realmente tem (só foi bem mais longo que o entreato normal).
Continua um belo filme. Solene, é claro: o tom é bem bíblico. Mas a história prende a atenção por suas 3h40. Curioso é o Cecil B. DeMille aparecendo antes dos créditos para apresentar o filme pessoalmente. E ainda tem Anne Baxter (que havia feito A Malvada seis anos antes), linda e sem vergonha, Yul Brynner sempre marcante, o exército de figurantes (que hoje seriam feitos por computador) e os efeitos que ainda impressionam (como a separação das águas do Mar Vermelho).
Infelizmente, não deu pra ver Desfile de Páscoa, com a Judy Garland e o Fred Astaire, que era meu programa para o feriado, de início. Mas na Sexta-Feira Santa eu vi “O beagle da Páscoa”, especial dos Peanuts, com minha sobrinha. E acabou que não fui ao cinema nem uma vez.
Transpirando sexo
É sempre impressionante lembrar que Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, Estados Unidos, 1951) é uma produção do início dos anos 1950. Em plena vigência do Código Hays, a autocensura dos estúdios americanos, o filme de Elia Kazan era uma produção classe A que batia de frente com os censores praticamente em cada fotograma. O sexo transpirava pela camisa suada de Marlon Brando, e pelos os olhares lascivos de Kim Hunter e Vivien Leigh. Tanto é que Kazan venceu algumas das brigas contra o Código, mas não todas.
O filme foi produzido pela Warner, mas Kazan não era um contratado do estúdio. Ele foi chamado para dirigir a versão de Um Bonde Chamado Desejo, de Tenessee Williams, para o cinema por causa do grande sucesso da montagem que dirigiu na Broadway, no final dos anos 1940. Resistiu muito e, convencido pelo próprio Tennessee Williams, sabia que teria que ser flexível em certos pontos, mas foi inflexível em outros. E chamou os atores com quem trabalhou na versão para o palco: Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden, substituindo apenas Jessica Tandy pela estrela Vivien Leigh (que fez a peça em Londres, dirigida por Laurence Olivier).
A trama mostra a aristocrática professora Blanche Dubois (Vivien) chegar à casa da irmã Stella (Kim) em Nova Orleans de visita. Ela é casada com o brutamontes Stanley Kowalski (Brando), que, de cara, não se dá com a irmã da esposa. Histórias mal contadas sobre o destino da propriedade da família e as razões pelas quais Blanche está ali aumentam ainda mais as desconfianças dele e tornam o clima na casa cada vez mais asfixiante.
Nisso, Kazan tira um grande proveito da direção de arte e da esplêndida fotografia em preto-e-branco (de Harry Stradling), concentrando quase toda a ação nos cenários apertados da casa dos Kowalski em ebulição. A atmosfera parece úmida o tempo todo, contribuindo para as explosões de Kowalski, em contraste com os modos frágeis de lady de Blanche. O confronto entre essas duas personalidades sobe a temperatura do filme: de certa forma, as duas irmãs estão competindo pelas atenções do homem da casa.
A intensidade entre os atores é tanta, mesmo sem qualquer cena explícita, que o filme recebeu cortes nos detalhes. O Código Hayes, sob influência da Legião Católica de Decência, exigiu 68 mudanças no roteiro. A menção ao homossexualismo foi amenizada – mas está em meia palavras para qualquer bom entendedor.
O estupro também foi simbolicamente substituído pela quebra de um espelho durante uma briga – entender o que acontece ali é essencial para a reta final do filme. Até planos de olhares – que duram poucos segundos na tela – foram considerados indecentes e substituídos por outras tomadas. Por outro lado, o desfecho foi mudado drasticamente, também por razões moralistas.
A força trangressora do texto de Williams causou seus tremores até no Brasil. Foi em 1948 que a primeira montagem brasileira foi realizada, com Ziembinski na direção, e Henriette Morineau como Blanche. Foi através dela que o título foi mudado aqui para Uma Rua Chamada Pecado, pelo tradutor Carlos Lage. A mudança de “desejo” para “pecado” deixa no ar que o aspecto erótico do título original foi um mais condenatório.
Mesmo com todas as mudanças forçadas, o filme continuou fortíssimo. A cena de reconciliação entre Stanley e Stella, a descida da escada de Kim Hunter é certamente uma das cenas mais eróticas dos anos 1950. E mesmo ali, o olhar da atriz para Brando de camiseta rasgada foi reduzido ao máximo em tempo. Tudo foi restaurado quando Uma Rua Chamada Pecado foi lançado em DVD – o final, que não foi cortado e, sim, mudado desde o roteiro, continuou.
Uma Rua Chamada Pecado é um dos dois únicos filmes da história a ganhar três dos quatro prêmios de interpretação no Oscar. Karl Malden e Kim Hunter venceram como coadjuvantes, e Vivien Leigh ganhou seu segundo prêmio como melhor atriz (o primeiro, claro, foi por …E o Vento Levou, em 1940). Vivien, integrada ao elenco por ser um maior chamariz de bilheteria, tem (com perdão a Jessica Tandy) uma das maiores performances já vistas no cinema.
Curiosamente, foi justamente Brando que não ganhou como melhor ator (perdeu para Humphrey Bogart, por Uma Aventura na África). Foi apenas seu segundo filme, mas depois dele todo mundo ficou sabendo quem era Marlon Brando. Vigoroso, selvagem e passional – bem ao estilo do Actor’s Studio – , ele está extraordinário e assustador.
Em um filme construído sobre o contraste entre a brutalidade e a fragilidade, outro contraste se sobressai: a da famosa estrela e o do iniciante ator, em um duelo em que ambos venceram.
Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire). Estados Unidos, 1951. Direção: Elia Kazan. Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden. Disponível em DVD no Brasil pela Warner.
O gênio Woody Allen se pautou em George Gershwin para compor o roteiro e a direção de Manhattan. E, como não poderia deixar de ser, o final é um gran finale: depois de uma decepção amorosa e de enumerar as coisas que fazem a vida valer à pena (cena que poderia estar aqui, aliás), ele Isaac chega ao rosto de Tracy, a namoradinha de 17 anos que ele dispensou pelo amor que não deu certo. Com Gershwin retumbante, ele corre para evitar que ela viaje para Londres – como ele sugeriu. E, chegando lá, ela se mostra mais uma vez mais madura do que ele. “O que são seis meses, se nos amamos?”, ela pergunta. “Não seja tão madura, ok?”, ele responde.
Manhattan (1979), dirigido por Woody Allen.
As complicações do amor
O cartaz já nos adianta o rosto enigmático da protagonista em A Bela Junie (La Belle Personne, França, 2008), personagem que vai ser o epicentro de conflitos amorosos assim que começa sua jornada em uma nova escola. Em torno dela, jovens e adultos amam, sofrem, brigam, chantageiam – mas o que ela quer, mesmo, nunca fica muito claro.
O olhar meio de tédio da atriz Léa Seydoux a aproxima de musas da Nouvelle Vague (Anna Karina, principalmente) e o tom da direção e roteiro de Christophe Honoré também remetem ao movimento, e mais especificamente a Truffaut: o amor como tema central, motivando todas as ações, um aspecto cotidiano e um olhar carinhoso para a juventude.
A chegada repentina de Junie à nova escola parece que é o detonador de todas as impulsividades amorosas que não existiam ou estavam escondidas. Ela é alvo do interesse de um colega tímido, mas também de um professor – que, por sua vez, é amado por um colega e outra aluna. O primo de Junie se relaciona com duas meninas, mas há mais alguém em segredo. E por aí vai.
O amor está sempre presente como um animal estranho, temeroso e que deve ser decifrado. É um aspecto presente também em dois filmes anteriores de Honoré: Em Paris (2006) e Canções de Amor (2007). Em A Bela Junie, a narrativa é marcada pela simplicidade que ressalta o cotidiano, apenas em alguns momentos buscando planos mais rebuscados: como abrir o filme com a abertura dos portões da escola, e seu fechamento perto do fim ou uma cena quase musical estranha que antecede uma morte.
Honoré e Gilles Taurand fazem uma adaptação livre de uma obra de Madame de La Fayette, do século 17, amores jovens e arrebatadores não são novidade, mas são sempre atuais.
A Bela Junie. (La Belle Personne). França, 2008. Direção: Christophe Honoré. Elenco: Léa Seydoux, Louis Garrel, Esteban Carvajal-Alegría, Grégoire Leprince-Ringuet, Simon Truxillo, Agathe Bonitzer.
Um jovem I Love Lucy
Quase não se faz mais filmes de Neil Simon. Ou se faz? O IMDb mostra, surpreendentemente, que o horrível Antes Só do que Mal Casado (2007) é uma adaptação de uma peça do dramaturgo nascido no Bronx, escrita em 1972. Mas, antes disso, o último havia sido o pouco memorável Perdidos em Nova York (1999), com Steve Martin e Goldie Hawn, outra adaptação de um texto antigo. Hollywood, pelo jeito, desaprendeu a saborear o texto de Simon, mas soube fazê-lo muito bem nos anos 1970 e mesmo no final dos 1960, como mostra o ótimo Descalços no Parque (Barefoot in the Park 1967).
A comédia romântica, dirigida pelo então estreante Gene Saks (que depois dirigiria Um Estranho Casal, 1968, também de uma peça de Simon), mostra um jovem casal que acaba de se casar. Depois de seis dias de amor em um quarto de hotel, chega a hora da realidade: a mudança para o novo apartamento, no quinto andar de um prédio sem elevador, onde a calefação não funciona em pleno inverno e até o teto tem um buraco.
Logo de cara, se percebe a principal característica de cada um deles. Ela, Corie, é uma brincalhona irrefreável. Ele, Paul, é um advogado que é certinho demais. Além disso, ela é interpretada por um esfuziante Jane Fonda, aos 29 anos, e ele por um Robert Redford aos 31. Ambos no auge da beleza e em plena afirmação artística.
Redford havia interpretado no palco o texto de Neil Simon (que também escreveu o roteiro do filme). Jane não, mas os dois astros já haviam estrelado Caçada Humana, em 1965. Tudo colaborou para a química perfeita entre eles, que, junto com os diálogos afiados de Neil Simon, rende comédia de primeiro nível. Em certo momento, parece que estamos vendo um ótimo episódio da juventude de I Love Lucy.
Com Redford e Jane estão também Midred Natwick (que foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante e também interpretou o texto na Broadway) e o surpreendente Charles Boyer. Nos anos 1930 e 1940, ele era um dos galãs exóticos dos filmes de Hollywood. Aqui, ele é um velho boêmio e galanteador que mora no andar de cima, com algumas esquisitices.
O filme não esconde sua cara teatral, passando-se quase todo dentro do apartamento, mas tira bom proveito dessa “claustrofobia” fazendo dos poucos e apertados cômodos mais motivos para o humor. A única saída mesmo fica para perto do fim, no Central Park. Outro dado é que as emoções mudam de maneira repentina, o que também é totalmente plausível, tendo em vista o comportamento amalucado de Corie.
Muito leve, em um ano onde o cinema americano vinha tratando de temas cada vez mais pesados (No Calor da Noite) e de maneira cada vez mais ousada (Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas), Descalços no Parque deve ter sido um sopro de alegria no meio daquele turbilhão.
Aliás, belo título, felizmente bem traduzido no Brasil.
Descalços no Parque. (Barefoot in the Park, Estados Unidos, 1967). Direção: Gene Saks. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Mildred Natwick, Charles Boyer. Disponível em DVD no Brasil.
Eu coleciono DVDs. Gostaria muito de ter na minha coleção Os Simpsons – O Filme. E Ensaio sobre a Cegueira. Mas não os tenho. E por quê? Porque a Fox, distribuidora dos dois filmes, inventou de lançá-los apenas em caixinhas fininhas que eles chamam de slim e eu chamo de “quase pirata”. Não comprei, claro, e não comprarei.
Como eu, muitos colecionadores internet afora não gastam seu suado dinheirinho em produtos de tão baixa qualidade. Resultado: a campanha “Me respeite, Fox”, a qual este blog apóia totalmente.
Há muitos outros motivos para que ela exista – séries descontinuadas (minha Ally McBeal, por exemplo, parou na terceira temporada e tive que recorrer à internet), inacreditáveis filmes lançados em envelopes de papelão e até mentiras no relançamento de produtos como “edição definitiva” e que se trata da mesmíssima edição já lançada anteriormente.
Veja os detalhes de tudo isso nesse post do Blog do Jotacê e se você é um consumidor minimamentew consciente faça também seu protesto contra a Fox. Inclusive enviando um e-mail para o vice-presidente de marketing da companhia nos Estados Unidos (o modelo e o endereço estão lá, no Jotacê).
O terror dentro de nós
Lars von Trier não é conhecido por sua leveza. Seus filmes são sempre cruéis, firmemente dispostos que o ser humano tem o poder de despertar o pior de si mesmo, mesmo quando as intenções são (raramente) as melhores. Se otimismo normalmente já não é com ele, imagine em Anticristo (Antichrist, Dinamarca / Alemanha/ França/ Suécia/ Itália/ Polônia, 2009), escrito quando o diretor estava imerso em uma depressão que durou dois anos.
O filme mostra Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg como um casal que se isola em uma cabana numa floresta. Ele, terapeuta, a leva para lá para ajudá-la a superar o trauma da morte do filho. É um tratamento difícil, onde a mulher quer usar o sexo o tempo inteiro para aplacar a culpa infinita. Ao mesmo tempo, o ambiente não parece de maneira alguma colaborar para que ela melhore – antes pelo contrário.
Dividido em capítulos, o filme começa com um belíssimo prólogo, em câmera lentíssima. De cara, a cena de sexo mostra um dos aspectos do filme: o de ser explícito em quase tudo. As cenas eróticas e de violência são das mais fortes e angustiantes dos últimos tempos, em uma espiral chocante.
Ao mesmo tempo, Anticristo deixa em aberto as possíveis explicações – apontando principalmente para o drama/ suspense psicológico, mas sem fechar as portas para os elementos sobrenaturais. Mesmo que esses elementos estejam discretos – quem assistir esperando O Massacre da Serra Elétrica, vai se decepcionar. Para Von Trier – e isso não é nenhuma novidade – o verdadeiro terror está dentro de cada ser humano. É onde o caos reina, como diz uma certa personagem coadjuvante do filme: uma expressão que dá nome a um dos capítulos e poderia ser o do filme.
Anticristo. (Antichrist). Dinamarca / Alemanha/ França/ Suécia/ Itália/ Polônia, 2009. Direção: Lars von Trier. Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg.
Perigo interno
Qualquer toque na herança do nazismo na sociedade alemã abre uma ferida. E é um assunto que não se vê muito em filmes fora da Alemanha (O Leitor, 2008, foi uma exceção) e nem muitos filmes alemães costumam estrear por aqui. Já por esse aspecto, A Onda (Die Welle, Alemanha, 2008) é imperdível. Mas trata-se, sobretudo, de um filme excelente, que não tem medo de mexer no vespeiro e o faz bem e com estilo.
A trama começa justamente com alunos do ensino médio na Alemanha reclamando de carregar o peso da culpa pelo nazismo e afirmando que uma coisa assim nunca mais poderá acontecer. O professor, roqueiro e rebelde, propõe uma experiência: viver na sala de aula como uma autocracia, para que eles aprendam as características das ditaduras.
Os alunos embarcam na experiência – fundo demais. Logo, criam regras de disciplina, códigos próprios, um símbolo, um nome (“A Onda”) e excluem os jovens que não querem participar. O professor (Jürgen Vogel), também afetado, perde o controle em uma semana.
Ágil e vibrante, A Onda prende o espectador até o fim dando apenas algumas pistas sobre como tudo vai terminar. É também assustador, em uma observação mais cuidadosa, por mostrar didaticamente que o fantasma do fascismo continua por aí e, nas condições ideais, pode ressurgir, sim.
Por outro lado, o filme de Dennis Gansel se torna um pouco simplista ao acelerar o desenrolar dos fatos e amarrar tudo de maneira um tanto brusca na conclusão. Mas esse dado deveria ser encarado menos de maneira realista e mais como um recurso narrativo de uma fábula sombria. E que já aconteceu de verdade, não só em verdadeiras autocracias (Hitler e Mussolini à frente), mas nos fatos reais em que o filme é baseado (e que aconteceram na Califórnia dos anos 1960).
A Onda. (Die Welle). Alemanha, 2008. Direção: Dennis Gansel. Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Cristiane Paul.
Na encruzilhada da imprensa
Intrigas de Estado (State of Play, Estados Unidos/ Reino Unido/ França, 2009) não foi exatamente um sucesso nas bilheterias, o que nos leva a temer pela suspeita de que o público médio dos cinemas anda rejeitando projetos minimamente inteligentes. Com direção de Kevin Macdonald (de O Último Rei da Escócia, 2007) e roteiro de Tony Gilroy (diretor e roteirista de Contato de Risco, 2007, e Duplicidade, 2009), o filme é um hábil thriller político, com personagens excelentes e boas surpresas.
Adaptado de uma série de TV inglesa de 2003, o filme mostra o veterano jornalista Cal McAffrey (Russell Crowe) investigando um crime no subúrbio e uma blogueira da versão on line do jornal, Della Frye (Rachel McAdams), que escreve sobre o relacionamento do congressista Stephen Collins (Ben Affleck) com sua assistente que morre em um acidente no metrô. As investigações convergem para o mesmo ponto e, para complicar, Cal e Stephen são amigos de longa data. Como o congressista preside uma comissão que investiga um contrato militar, outros interesses aparecem.
Além da trama em si, há, como pano de fundo, a encruzilhada do jornalismo hoje. A rivalidade entre os dois jornalistas é um comentário a respeito de ética, isenção e checagem dos fatos num mundo em que a vontade de dar a informação primeiro às vezes acaba passando por cima de tudo isso e muitas vezes é mais importante fechar logo a edição e economizar horas extras que apurar tdo como se deve.
São muitos elementos muito bem orquestrados e apoiados por um elenco bem escolhido, onde nem Ben Affleck está mal (quem diria?). Russell Crowe, desalinhado e gordo, faz uma opção pela caracterização correta contra a imagem de galã. E Rachel McAdams faz mais uma boa aparição – é uma das boas atrizes para um futuro próximo. E ainda há Helen Mirren, em participação pequena, mas ainda o máximo.
Intrigas de Estado. (State of Play). Estados Unidos, 2009. Direção: Kevin Mcdonald. Elenco: Russell Crowe, Rachel McAdams, Ben Affleck, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Jeff Daniels, Michael Berresse, Viola Davis.
Álbum de memórias
Mesmo com o total domínio da Metro quando o assunto era o gênero musical, na era clássica de Hollywood, os outros estúdios produziam seus próprios exemplares e tinham, cada um, suas armas próprias. A da Paramount – que, aliás, tinha Audrey Hepburn só aproveitou a chance de usá-la em musicais uma vez, em Cinderela em Paris (1957) – foi Bing Crosby. O maior cantor popular de todos os tempos estrelou vários filmes no estúdio – muitos da série Road to, com Bob Hope e Dorothy Lamour – mas o mais lembrado é mesmo Natal Branco (White Christmas, Estados Unidos, 1954).
Não é para menos. O título já levava o nome da canção de extremo sucesso, compsta por Irving Berlin e vencedora do Oscar em Duas Semanas de Prazer (1942), onde foi cantada pelo próprio Crosby – e ele já a havia cantado uma segunda vez, em Romance Inacabado (1946). E a gravação da música pelo cantor em disco – segundo Ruy Castro no livro Tempestade de Ritmos, contando informações da biografia de Bing pelo historiador e crítico de jazz Gary Giddins – ficou 20 anos nas paradas de sucesso americanas, de 1942 a 1962. Ou seja: quando Natal Branco foi produzido e lançado pela Paramount, ambos – canção e cantor – continuavam no auge.
No filme, Crosby teve o acompanhamento de luxo de Rosemary Clooney (tia de George), Danny Kaye (substituindo na última hora Donald O’Connor) e Vera-Ellen (que já havia mostrado ser ótima, na sua brejeirice, em Um Dia em Nova York, de 1949). Na distribuição de peças, Crosby e Kaye são Bob Wallace e Phil Davis, ex-soldados que passam a formar uma dupla de cantores-dançarinos, e depois produtores.
Rosemary e Vera-Ellen são Betty e Judy Haynes, irmãs que têm um ato e que a dupla masculina é convidada a avaliar. Como Phil acha que Bob trabalha demais, levando-o também a trabalhar mais do que gostaria, e que uma esposa seria a solução para relaxar Bob, arma-se uma trama para uni-lo à mais velha, Betty (embora Rosemary Clooney, 26 anos na época, fosse sete anos mais nova que Vera-Ellen).
A comédia de erros vai desembocar em Vermont, num hotel que está sem clientes porque a esperada neve, atração turística, não deu as caras. O dono é o general Waverly (Dean Jagger), que comandou o batalhão da dupla durante a II Guerra. Tudo coverge para um grande show que é preparado para salvar o hotel – mesmo cenário de Duas Semanas de Prazer, num filme que pretendia ter Fred Astaire repetindo com Crosby a dupla que fizeram no filme de 1942, e que também tinha todas as canções compostas por Irving Berlin.
No tabuleiro, Crosby e Rosemary respondem pela excelência vocal. Ela foi uma das grandes cantoras dos anos 1950 e estava ainda começando a carreira no cinema, interrompida logo em seguida por uma série de filhos e problemas pessoais. O quesito dança fica com Kaye e Vera-Ellen – ela, particularmente, dá sucessivos shows durante o filme. Também era o final de carreira para ela: Natal Branco foi seu penúltimo filme. A dançarina vinha lutando contra a anorexia e uma artrite a levou à aposentadoria precoce.
Mas a época do Natal não é o tema do filme, mas uma ambientação. Em 1954, as memórias da II Guerra Mundial ainda estavam bem vivas e o tema do filme é esse sentimento muitas vezes difícil dos soldados que voltam para casa e se sentem inadequados. E essa nostalgia do companheirismo da caserna responde pelos momentos mais tocantes e deve ter calado fundo aos veteranos.
Curiosa é a aparição da televisão como elemento de comunicação de massa – usada pelo personagem de Bing Crosby para dar um recado importante a mais pessoas no menor tempo possível. Lembre-se, era 1954. A televisão era, então, uma concorrente crescente do cinema. Não por acaso, Natal Branco também foi a estréia do sistema widescreen da Paramount, o VistaVision (um tipo de CinemaScope mais aberto).
O diretor Michael Curtiz não era habituado em musicais e isso deve ter refletido em um pontual olhar “documental”, a decisão de filmar os números de palco em alguns momentos não como se estvessem sendo apresentados para a câmera – como era de costume. E apostou no improviso: fez Crosby e Kaye repetirem em cena uma paródia de Rosemary e Vera-Ellen que faziam nos bastidores. Crosby, muito à vontade, também improvisou diálogos e apostou em seu carisma. Deu certo, como se sabe.
Natal Branco (White Christmas). Estados Unidos, 1954. Direção: Michael Curtiz. Elenco: Bing Crosby, Danny Kaye, Rosemary Clooney, Vera-Ellen, Dean Jagger, Mary Wickes, Anne Whitfield. Disponível em DVD pela Paramount.
Este post é para alguns amigos que pediram e estão acostumados com esse tipo de ajuda. Não fique constrangido: você pode pular para o próximo ou encará-lo como dicas pra você mesmo, se quiser.
Meu aniversário está aí e compreendo meus amigos que costumam quebrar a cachola para me dar um presentinho. Com meus mais de 600 DVDs na estante, é difícil saber o que eu tenho e o que não tenho. Eu costumava ter uma lista num site que minha linda amiga Vívian montou certa vez (agora, desativado). Assim, vou dar umas dicas para ajudar os interessados.
Por exemplo, tem uns livros do Ruy Castro que eu ainda não tenho. Como o mais recente, O Leitor Apaixonado. Mas também posso aceitar o Era no Tempo do Rei ou o Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero Musical. Ou ainda, alguma coisa editada e traduzida por ele, como O Livro dos Insultos, com textos de H.L. Mencken.
Há DVDs, sim, que eu quero ter e ainda não consegui. Por exemplo, o Persépolis duplo, os qualquer uma das três temporadas da série clássica de Jornada nas Estrelas, ou até Alf, o E.Teimoso. Ainda nas série, poderia ser qualquer uma das quatro temporadas de A Gata e o Rato.
E não acharia mal ganhar a edição dupla de Homem de Ferro, por exemplo. Ou o quarto volume da série animada do Batman (atenção, hein? Eu já tenho as três primeiras).
Há diversos clássicos que estão na minha mira. Ser ou Não Ser, A Caixa de Pandora (e se alguém se aventurar em me dar a edição importada da Criterion Collection, também não reclamo, hehehe).
Vale até ficar na promessa de mimos que estão saindo aí neste fim de ano. Por exemplo, as extraordinárias edições comemorativas de 70 anos de …E o Vento Levou e O Mágico de Oz, que só saem em dezembro. A Warner prometeu muita coisa para este fim de ano: a reedição em widescreen dos DVDs da série Harry Potter, o genial Intriga Internacional de Hitchcock em edição dupla e extras (espero) legendados, e o primeiro volume da coleção dos desenhos de Charlie Brown e Snoopy restaurados e em ordem cronológica
E por falar em Peanuts, a L&PM está lançando este mês o primeiro volume do sensacional Peanuts Completo. Vou fazer a coleção, é óbvio. Mas há muita coisa de quadrinhos aí que são uma tentação. Retalhos, o Gênesis de Crumb (o Vladimir Carvalho me ligou de Brasília para dizer que comprou e achou sensacional) e até o Turma da Mônica – Romeu & Julieta (o MSP 50 e o Bidu 50 Anos, naturalmente, já tenho). Ou o Verão Índio, no Manara e do Hugo Pratt.
Falando em Pratt, também fico feliz com qualquer edição de Corto Maltese ou Tintim, já que não tenho nenhuma. Mas as primeiras são, respectivamente, A Balada do Mar Salgado e Tintim no País dos Sovietes – só para lembrar.
Na linha dos super-heróis também tem muita coisa legal. Tem a Biblioteca DC Mulher Maravilha ou Os Novos Titãs, mas mesmo um da serie Grandes Clássicos DC, como Lanterna Verde e Arqueiro Verde, eu gostaria de ganhar. Só não vale Batman – Ano Um, que eu já tenho. Ou as séries Crônicas, DC 70 Anos e Superman 70 Anos, que também já tenho.
De Asterix, então, a lista é grande, porque eu tenho uns 15, mas falta mais da metade da coleção. Pode ser qualquer um desses: A Cizânia, Asterix entre os Helvéticos, O Domínio dos Deuses, Os Louros de César, O Adivinho, O Presente de César, A Grande Travessia, Asterix entre os Belgas, O Grande Fosso, A Odisséia de Asterix, O Filho de Asterix, As 1001 Horas de Asterix, A Rosa e o Gládio ou A Galera de Obelix. Ou até o novo O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro, que está saindo este mês.
CD? Qualquer um da nova edição dos Beatles serve.
Conheci as Chicas em 2007, quando as quatro moças fizeram um show no Seis e Meia, em João Pessoa. Foi amor à primeira audição, confesso: adoro grupos vocais, desde o MPB-4 até o Garganta Profunda. Os jogos vocais no palco me encantam e as Chicas são um prodígio nisso.
Enfim, tive a oportunidade de conversar com uma delas na semana passada, a Isadora Medella, por telefone. Ela estava em sua casa, no Rio (ou “apartamento meio casa”, como me descreveu). O papo foi publicado no Jornal da Paraíba de ontem e está aqui em versão entendida.
Em tempo: o grupo se apresenta hoje no Teatro Oi Casa Grande, no Rio, às 21 horas, lançando oficialmente o novo CD e o DVD. No dia 11, o show é em São Paulo, no Sesi na Avenida Paulista.
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Em busca do fervor do ao vivo
A tradição de grupos vocais brasileiros é fortíssima, surgindo bem antes da bossa nova e permanecendo tantos anos depois do auge do movimento. O quarteto Chicas incluiu-se aí com graça e talento, a partir do primeiro disco, Quem Vai Comprar Nosso Barulho?, e lança agora o primeiro DVD e segundo disco (primeiro ao vivo): Em Tempo de Crise Nasceu a Canção.
“A gente quis registrar o fervor do ao vivo”, conta Isadora Medella, que integra o grupo junto com Paula Leal, Amora Pêra e Fernanda Gonzaga (as duas últimas, filhas de Gonzaguinha e, portanto, netas de Luiz Gonzaga). “Muita gente veio falar com a gente que o fervor do ao vivo é que é o lance. O disco de estúdio não tem aquela anarquia”.É verdade que uma certa anarquia faz parte do barato das Chicas – tanto, que a edição do DVD é frenética, dividindo a tela na quase totalidade do show.
“A pessoa que vai ao show olha para uma chica, olha para outra, enquanto outra está fazendo mil coisas, lá”, diz a cantora, mostrando que o objetivo foi dar o máximo possível uma visão total do grupo. “A gente quis mostrar que, enquanto uma esta cantando, milhares de coisas estão acontecendo. A idéia era colocar isso muito evidente”. O quarteto opinou na decisão artística de dividir a tela, assim como no projeto inteiro. “A gente é, assim, meio insuportável”, brinca. “A gente não consegue abrir mão simplesmente e tudo o que é artístico é gerenciado por nós”.
As Chicas alternam as vozes às vezes de maneira tão frenética que impressiona quando Isadora revela que os arranjos vocais são meio anárquicos. “A gente escreve os arranjos para os instrumentos, mas na hora do vocal a gente não quer escrever, quer que fique essa coisa meio desorientada”, afirma Isadora. “A gente deixa ele fluir, ser intuitivo. É mais próximo da gente, dessa informalidade. A gente interfere muito no cantar da outra”.
Amora e Fernanda são mais ligadas à percussão, enquanto Isadora e Paula são ligadas à harmonia. “Mas só porque a gente estudou mais tempo”, acrescenta Isadora. Na hora das harmonias, as quatro trabalham juntas. “Sentamos as quatro em frente ao computador para trabalhar”, conta. “O importante é que você precisa estar em contato com a música e com o sentimento dela”.
Cuidando de gatinhos que foram deixados em sua porta no dia anterior, Isadora fala do começo do grupo. As quatro integrantes se encontraram no palco, mas do teatro, na peça Fullanas. “Era um teatro musicado onde as atrizes não sabiam tocar e cantar, então fizemos a parte musical”, lembra. “Aí, uma amiga nos convidou para abrir um espaço dela. E depois fomos chamadas para mais coisas”.
E, assim, de forma totalmente espontânea, as Chicas foram nascendo. “Foi uma coisa muito intuitiva”, diz Isadora. “Na verdade, a gente nunca quis gravar um disco: a gente foi seguindo o fluxo”. Mas o grupo acabou dando um tempo. “A gente terminou o primeiro momento com uma gravadora interessada, mas acabou acontecendo um intervalo de uns três, quatro anos”.
O grupo começou em 1996, parou entre 1999 e 2000 e voltou em 2004. “A gente voltou fazendo show e houve uma pressão dos amigos para gravar um disco”, lembra Isadora. “E falaram uma coisa interessante: que se a gente gravasse um disco, ia passar a existir. Ia materializar o trabalho”. Quem Vai Comprar Nosso Barulho?, de 2006, acabou ganhando o Prêmio Tim. “A gente viu a importância do disco para ir mais longe”, diz ela. “É como uma semente, que vai com o vento e chega aos lugares antes da gente. A gente foi até ao Acre por causa desse disco”.
Foram shows por todo o país, ciclo que está chegando ao final. “Como a gente é inquieta, já estava querendo fazer coisa nova”, conta Isadora. “Então, essa coisa do DVD foi muito isso: ‘Galera, vamos registrar esse show’”. Ao repertório do primeiro disco, entrou também “Caras e bocas”, a música de abertura da novela homônima, incluída no DVD como extra em uma nova versão.
O DVD registra bem tanto o talento vocal, quanto o bom gosto do repertório e a cota de teatro da qual o grupo nunca chegou a ser desfazer. “O teatro, pra gente, é muito importante. A teatralidade é um dos fatores principais para a escolha das músicas”, diz Isadora. “A gente fala muito texto também”. Ela une “A terceira margem do rio”, de Caetano, a trechos do conto original de Guimarães Rosa.
Mas o teatro também tem a ver com o espírito meio anárquico das Chicas. “É essa liberdade que o teatro tem, de não seguir regras”, afirma Isadora. Certamente ajudou o grupo a superar os problemas de som de um dos primeiros shows em Recife e realizar a apresentação toda acústica e cantando à capela para um teatro com três mil lugares. “A gente achou que não podia sair dali sem fazer um show”, lembra.
As Chicas estiveram em Recife mais uma vez na semana passada, desta vez sem maiores problemas e já mostrando o novo show – que abre com “Can’t buy me love”, dos Beatles. Além do show Em Tempo de Crise Nasceu a Canção, o quarteto continua fazendo o Barulinho por aí – um show infantil.
“A gente resolveu fazer esse show por dois motivos. Um: pela presença constante de crianças na platéia das Chicas”, conta Isadora. “E quando a Fernanda ficou grávida, ela teve que passar três meses afastada. Então, fizemos um show chamado Trabalho de Parto, com um set só de músicas infantis em homenagem a ela. A galera pirou nesse set”.
Realizar esse show mostrou-se um acerto. “A aceitação do Barulinho é inacreditável”, diz. “Aí, a gente deixa fluir mesmo a união do teatro com a música”. Para quem não viu, há um número do espetáculo incluído como extra do DVD.
As Chicas já começam a trabalhar no próximo disco de estúdio. “Estamos colocando no papel”, conta. “As idéias já temos, estamos conversando. Mas ele deve sair talvez para o meio ou o final do ano que vem”.
E, para terminar, existe uma maneira certa de falar o nome do grupo? Seria “tchicas“, como “meninas” em espanhol, ou “chicas“, como apelido para “Franciscas”? “Fica ao gosto do cliente”, brinca Isadora. “Acho que tem essa coisa bem brasileira de vir de ‘Francisca’ e tenho certeza que, quando a gente for para fora do Brasil, vai rolar muito. O nome tem humor, acho que tem a ver com a gente”.
A notícia de que vão refilmar My Fair Lady – Minha Bela Dama não me abalou como poderia. Isso porque os nomes envolvidos me pareceram bastante adequados. O mais importante, claro, é quem será a nova Eliza Doolittle, a florista pobre que é educada para ser uma dama, personagem criada por George Bernard Shaw na peça original, Pigmalião. E vivida no cinema por ninguém menos que Audrey Hepburn – razão pela qual eu deveria estar com os dois pés atrás para qualquer refilmagem que se aventurasse.
Enfim. A nova Eliza será Keira Knightley. Uma atriz britânica bonita e que já se provou bastante eficiente quando exigida. Tem o típico físico da Audrey – ou seja: é magricela, mas um encanto. Nunca a ouvi cantar, mas, até aí, Audrey também não cantou em My Fair Lady – foi dublada (contra a vontade, diga-se).
A direção é de Joe Wright, que dirigiu Keira nos ótimos Orgulho & Preconceito e Desejo e Reparação, e parece ter bem mais a ver com o projeto que no nome anterior que estava na função: Danny Boyle (de quem gosto muito, de Cova Rasa a Quem Quer Ser um Milionário?). Para o professor grosseirão Henry Higgins (papel que deu o Oscar a Rex Harrison), o cotado é Daniel Craig. Grosseirão ele sabe ser – é só ver os dois filmes que estrelou como James Bond.
Mas o grande lance que me animou está no roteiro. Quem vai escrever o filme é simplesmente uma das mulheres vivas mais talentosas desse mundo das artes: Emma Thompson. Não estranhe e não esqueça que ela já ganhou um justíssimo Oscar pelo roteiro de Razão e Sensibilidade, em 1996. Mas e as músicas? Será que serão as mesmas? Sim, porque note que não é uma nova adaptação de Pigmalião, é uma refilmagem de My Fair Lady. Logo, será também um musical.
Por falar nisso, descobri hoje que a Paramount vai relançar a edição dupla de My Fair Lady já lançada pela Warner – mas com outra capa. Uma nova oportunidade para quem deixou de comprar aquela edição, que é excelente – não só pelo filme, mas pelos extras, que incluem um excelente making of e cenas com a voz original de Audrey cantando em dois números.
Em tempo: é engraçado, me lembro que em VHS esse filme saiu pela Fox. Em DVD, saiu pela Warner (o estúdio original do filme e, agora, pela Paramount). Complicado esse mundinho dos filmes e suas distribuidoras…
O Irã, em tons de cinza
A HQ Persépolis é uma autobiografia: Marjane Satrapi escreveu e desenhou sua própria história – e, por tabela, a história de seu país, o Irã, a partir do fim dos anos 1970. Vieram os prêmios, o sucesso e a adaptação para o cinema, em uma animação igualmente celebrada: Persépolis (Persepolis, França/ Estados Unidos, 2007).
Marjane dirige o filme ao lado do francês Vincent Paronnaud, também quadrinhista. A trama é transposta com compreensível abreviação de algumas passagens (a série original é composta de quatro livros), mas muita fidelidade e, principalmente, o clima que mistura o tom de fábula, o bom humor alternando com o tom de reportagem da vida no Irã e a combinação de um visual simples, mas muito elaborado.
O traço de Marjane, que nas HQs lembram xilogravuras, foi sensivelmente “amaciado” para a animação, sem prejuízo algum. O filme continua batendo duro na opressão da mulher na sociedade iraniana pós-Revolução Islâmica e é eficiente ao mostrar o antes e o depois do país na infância de Marjane, sua criação em uma família de classe média progressista, a guerra vista de dentro de casa e a inadequação da jovem mulher na Europa, depois de crescida – ponto em que o filme se torna a história de uma iraniana em busca de sua identidade e da relação com seu país.
A maior parte do tempo em preto e branco, Persépolis é visualmente deslumbrante, com grandes resultados nos efeitos – o uso de silhuetas ou de imagens oníricas. E consegue passar um sentimento complexo de amor e angústia pelo país que, ainda por cima, nos ajuda a minimizar estereótipos.
Persépolis (Persépolis, França/ Estados Unidos, 2007). Direção: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud. Vozes na dublagem original: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian, Gabrielle Lopes Benites. Disponível em DVD no Brasil.
A verdade e a lenda
Em 2003, ano do centenário do faroeste, eu consultei 15 cinéfilos paraibanos sobre seus filmes preferidos no gênero. Cada um podia citar cinco filmes – e em 13 das listas estava O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, Estados Unidos, 1962). Foi o mais votado, ficando à frente de outros westerns normalmente mais badalados. Por que essa adoração? Não é tão fácil responder. É um filme atípico dentro do gênero e da filmografia do diretor que – a história já foi contada mil vezes – certa vez se levantou numa reunião de diretores e se apresentou: “Meu nome é John Ford. Eu faço westerns”.
Em 1962, Ford já vinha fazendo westerns há uns 40 anos. É notável como a psicologia de seus filmes vai ficando mais complexa no transcorrer desses anos. Os índios, por exemplo, não eram muito mais que uma ameaça à espreita para atacar e ser abatida em No Tempo das Diligências (1939) continuaram uma ameaça, mas com justificativas em Rastros de Ódio (1956) e nem aparecem em O Homem que Matou o Facínora (1962). E, dois anos depois, seriam até redimidos por ele, em Crepúsculo de uma Raça (1966).
Ford, que nunca se preocupou muito em transmitir “mensagens” em seus faroestes, fala bastante de política em O Homem que Matou o Facínora. O fio condutor é a história do jovem Ransom Stoddard (James Stewart), contada em flashback por ele mesmo, já um veterano senador. Idealista, ele chega à Shinbone para tentar a vida no oeste e é recebido da pior maneira – é atacado ainda na estrada pela gangue liderada pelo sádico Liberty Valance (Lee Marvin). As atividades de Valance não são segredo para ninguém em Shinbone, mas nenhum cidadão tem coragem de enfrentá-lo – o único que realmente o intimida, o rancheiro Tom Doniphon (John Wayne), está mais interessado em cuidar da própria vida.
Isso inclui a paixão por Hallie (Vera Miles), que trabalha num restaurante. É Doniphon que encontra Stoddard na estrada e é para o restaurante que ele o leva para ser cuidado. Começa aí uma relação complicada de amizade, respeito, idéias opostas e rivalidade (pelo amor de Hallie) entre os dois. Wayne e Stewart empreendem um dos maiores duelos do cinema, o que foi um toque genial de Ford ao escalar o elenco. Para Doniphon, não dá para ficar na cidade, sob a mira de Valance, sem uma arma. Rance não quer matá-lo, quer que ele seja preso, quer lei e ordem. Mas não há lei em Shinbone que, ainda por cima, é localizada numa região que ainda não é um estado da União.
O tempo todo no filme, Rance é pressionado para o lado contrário – e, mesmo assim, monta uma escola, ensina noções de democracia e igualdade e involuntariamente se torna o líder da campanha para tornar a região aberta num estado.
Num filme com esse tom político, Ford resolveu tocar no papel da imprensa, através do jornalista Dutton Peabody (Edmond O’Brian). Um papel não muito claro, diga-se: dono, editor, redator e – como ele mesmo diz – faxineiro do jornal da cidade, Peabody vai de noticiar o nascimento de bebês à luta dos pequenos fazendeiros contra os grandes criadores de gado. Assume o jornalismo como uma missão, mesmo que vá contra os poderosos. “É notícia, e eu sou um jornalista”, diz.
Mas quando algumas verdades são reveladas, a frase dita é a que marcou o filme: “Aqui é o oeste. Quando a lenda se torna verdade, imprima-se a lenda”. Ford imprimiu a lenda pela maior parte de sua carreira e, só nesta fase final, num período revisionista da história do mundo, tentou pender para o lado das verdades. Mas, com essa frase, parece querer dizer que ele, quando o assunto era o oeste, a lenda é que contava.
O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, Estados Unidos, 1962). Direção: John Ford. Elenco: James Stewart, John Wayne, Lee Marvin, Vera Miles, Edmond O’Brien, Andy Devine, Woody Strode, Lee Van Cleef, Strother Martin, John Carradine, Jeanette Nolan, John Qualen.
Com o lançamento em DVD da minissérie Capitu, tive a oportunidade de entrevistar o diretor Luiz Fernando Carvalho pela terceira vez: a primeira foi frente-a-frente, nas filmagens de A Pedra do Reino, em Taperoá, e a segunda foi por e-mail às vésperas do lançamento da minissérie. Está também foi por e-mail e o diretor gentilmente respondeu, falando muito sobre as coisas em que acredita.

Michel Melamed e Maria Fernanda Cândido: "Esse é o meu querido Dom Casmurro. Não há outro igual na face da Terra"
A primeira pergunta é a seguinte: na primeira produção do Projeto Quadrante, A Pedra do Reino, o volume de críticas negativas foi tão grande quanto o de positivas. Isso te fez repensar decisões em relação a essa segunda produção?
Trago as costas cheias de cicatrizes por ter feito A Pedra do Reino como fiz, e, sinceramente, buscava a mesma comunicação que busquei agora com Capitu, de Machado de Assis. Por outro lado, o público em geral é formado por uma linguagem padronizada e, do meu modo, sigo lutando contra essa aberração, duvidando de certas verdades tidas como absolutas. O resultado de todas estas reflexões talvez seja a semente de minhas tentativas. Em A Pedra do Reino, tinha total consciência de que se tratava de um romance hermético, mas instigante em seu universo humano e estético, por tanto, além de homenagear o aniversário de seu autor, era fundamental presentear ao país seu universo poético sem desfigurá-lo. Não faria o menor sentido enxertar quinze personagens para saírem explicando o livro, ou soltar piadinhas aqui e ali, para transformar Quaderna num palhaço palatável para a classe média. Quaderna está ali, com todos os seus espinhos, que são a sua filosofia e sua mitologia. Quando me aproximei d’A Pedra do Reino, de universo hermético, centrado na cultura do Nordeste, o espectador do Sul pode se perder. Mas também pode se perguntar: “o que será Guerra de Princesa?” e, a partir daí, aprender sobre seu próprio país. É um ganho infelizmente não computável.
Como você sentiu a repercussão desta vez?
Para minha felicidade, a maioria dos telespectadores de Capitu foi de jovens. O horário era muito tarde, certos episódios entraram perto da meia-noite, apesar disso, Capitu registrou média de 15 pontos na madrugada. Para o horário, uma bela audiência! A obrigatoriedade de ler Machado de Assis nas escolas torna sua literatura oficial e sisuda, pouco lúdica, distanciando os jovens menos preparados. Busquei dialogar com este distanciamento, que acaba por gerar um certo preconceito de que Machado é chato e antigo. Ele é atual e moderno. Pensei na necessidade de se desfazer esse tal preconceito que percebi entre os adolescentes que, nos dias de hoje, estão plugados ao mundo todo, às várias manifestações artísticas, em várias línguas, via internet. Algumas escolas precisam encontrar em Machado um grande criador: interativo, imagético, emocional, irônico, melancólico e atemporal.
Me parece que você tem uma visão bem particular sobre as adaptações no que diz respeito ao texto. Você tenta preservar ao máximo a narração literária e busca formas de mantê-la na tela. É o que parece acontecer em Lavoura Arcaica, Pedra do Reino e em Capitu. É assim mesmo? Como você vê a questão da adaptação?
Não acredito em adaptação, no sentido ortodoxo do termo, como injetar num romance novos personagens, palavras, tramas explicativas e paralelas ou mesmo desfechos que não existam. Sou completamente contra esse tipo de assassinato. Procuro entrar no livro como um leitor e extrair uma resposta criativa a essa leitura. Em Capitu, não há uma única palavra ou vírgula que não seja de Machado. Logo, o Enigma permanece. Por isso também optei por outro título, Capitu, onde a idéia de uma tentativa de aproximação com o romance Dom Casmurro ficaria ainda mais clara, revelando não se tratar apenas de uma transposição de um suporte para outro, mas sim de um diálogo com a obra original. E nasceu daí uma outra tentativa: o diálogo com a personagem Capitu, que é tão misteriosa. Portanto, trata-se um ensaio sobre a dúvida. Não absolvo Capitu e não a condeno. Capitu é um personagem que pertence ao mundo da Literatura e seu mistério sobrevive graças ao diálogo com a imaginação dos leitores e espectadores.
Sempre volta, por ocasião de lançamento de algum filme nacional, a questão do debate sobre o que seria linguagem de cinema e linguagem de TV. Na época de A Pedra do Reino houve quem dissesse que a minissérie não era um produto adequado para a televisão. Há diferença pra você?
No intuito de elogiar, as pessoas falam que meu trabalho na televisão é cinema, mas eu discordo. Agradeço o elogio, mas discordo. Cinema para mim é uma coisa e televisão é outra, é a diferença é uma questão de linguagem. Em nenhum de meus trabalhos para tv, tive o desejo de assistir aos episódios emendados uns aos outros, partes com partes, como se formassem um filme, porque sabia, de antemão, que não constituiriam um filme. Pelo menos um “filme” que me interessaria realizar. Portanto, gostaria de insistir que Capitu e todas as outras realizações são um projeto de TV e para a TV, mas, talvez, simplesmente, uma outra TV. É certo, por outro lado, que não tenho sequer uma classificação mais plausível, muito menos um nome para tal processo no qual eu sinta essa experiência híbrida com a literatura e a tv perfeitamente traduzida. O que vejo é simplesmente um conjunto de tentativas sinceras.
No entanto, você criou um clássico da TV brasileira, que são aqueles cinco capítulos iniciais da novela Renascer (e digo ‘criou’ porque a direção teve demais a ver com a repercussão que aquele início de novela teve). Como você vê essa questão da linguagem?
Em relação a Renascer, o pouco que realizei em novelas foi no caminho de tentar humanizar sua narrativa, na maioria das vezes forjada de forma hegemônica e excessivamente industrial. Se na televisão, entre um take e outro, tenho a sensação de estar sendo vigiado por todos os lados, no cinema, ao contrário, é como se [mesmo sem fazer a mínima força para que isso aconteça] estivesse sozinho em meu quarto, fazendo coisas, falando com meus segredos, revelando-me sem ninguém ver: livre, dentro do cativeiro do rigor. Porém, sabendo da dimensão que a televisão alcança neste nosso Brasil, tratá-la apenas como diversão me parece bastante contestável. Precisamos de diversão, mas também precisamos nos orientar e entender o mundo. Os limites cabem a cada um. De minha parte, procuro um diálogo entre os que sabem e os que não sabem; um diálogo simples, sóbrio e fraterno, no qual aquilo que para o homem de cultura média é adquirido e seguro torne-se também patrimônio para o homem mais comum, pobre, e que, em relação a tantas questões, encontra-se ainda abandonado. Esta é a televisão que sonho ver no futuro. Ou sigo por este caminho ou, sinceramente, nada faz sentido.
Como isso foi pensado para Capitu?
Encontrar a narrativa para dialogar e atualizar a visão que os jovens tinham sobre este romance do Século XIX foi, ao mesmo tempo, meu maior prazer e meu o maior desafio. Falo da busca por um modo “inconfiável” de narrar, assim como o fez Machado de Assis. E este modo, que é todo feito de retalhos do tempo e dos espaços, onde, a principio, não correspondem em verdade ao tempo e ao espaço onde as ações estão se desenvolvendo, mas que, ao serem alinhavadas pela montagem, ganham o aspecto de verdade. Este jogo narrativo entre verdade e imaginação é o elemento da narrativa que mais me interessou, e ele está diretamente ligado ao personagem Dom Casmurro. Ele é o tecelão que arquiteta esta colcha de retalhos. A literatura nos ensina a ver as várias camadas do real, pois consegue trabalhar nas entrelinhas. A vida não fica restrita a ação e reação, causa e efeito, moral da história, bem e mal.
Em A Pedra do Reino você usou muitos atores nordestinos (paraibanos, principalmente), por conta da postura do projeto Quadrante de formar grande parte do elenco a partir de atores locais. Por isso, o elenco era praticamente todo desconhecido. Como Capitu é um projeto carioca, há nomes mais familiares – desde a estrela Maria Fernanda Cândido a Michel Melamed, que é conhecido por quem acompanha a cena teatral, e César Cardareiro, que fez o Sítio do Picapau Amarelo. Como foi a escolha do elenco? Há realmente uma preocupação por escalar um grande nome ou uma predileção por novos nomes? Ou você não se preocupa com isso ou não tem preferências a respeito?
Os talentos locais trazem consigo seus territórios, suas memórias. Um conjunto ético e estético, e, além da construção da fabulação, promovem, a um só golpe, uma reflexão que busca um retrato mais justo do país. Também não sigo sempre o mesmo procedimento. Existem os testes, mas também acontecem encontros em que sou arrastado. Por outro lado, o país tem muitos talentos, e este baú deve ser revirado de cabeça para baixo. Não precisaríamos ficar batendo sempre na mesma tecla, principalmente quando o papel não exige necessariamente um rosto consagrado pela mídia. Então qual é o sentido? Não há sentido! Identifico um certo exagero nas escalações, não estou falando exclusivamente de tv, falo de um modo geral, toda a indústria dita cultural produz esta distorção, que a meu ver não contribui em nada para a narrativa, nem mesmo para o mercado. Estes excessos produzem, isto sim, uma espécie de desmitificação das personagens, que, por sua vez, acabam rendendo pouco à história. Até mesmo os grandes atores são vulneráveis a dilução de seus talentos pelo excesso de exposição desnecessária. Quanto ao Michel, há algum tempo o acompanhava de longe. O trabalho dele é um conjunto de felicidades, mas, essencialmente, trata-se de um artista puro. Não ligo se fica fora de moda essa tentativa de definir meu encontro com um intérprete, mas ao conjunto enorme, dentre outras coisinhas, somam-se: dignidade humana e artística, sensibilidade, inteligência, e uma generosidade com tudo e com todos. Esse é o meu querido Dom Casmurro. Não há outro igual na face da terra.






































































