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Planilhas na mão: vai começar a terceira edição da mostra Noite de Estreia, no Box Cinépolis do Manaíra Shopping. Desta vez são 11 filmes que não passaram nos cinemas de João Pessoa e prometem repetir o sucesso das duas primeiras edições, que aconteceram no primeiro semestre de 2012.
Começando pelo fundamental Cabra Marcado para Morrer, em cópia restaurada e passando por filmes como Febre do Rato, As Vantagens de Ser Invisível, Infância Clandestina e No, indicado ao Oscar de filme de língua não inglesa.
No quadro acima, confeccionado pela coordenação da mostra, a tabela de filmes por dia.
- ATUALIZAÇÃO I15/2, 11h30): Na manhã de hoje, 0 premiado e muito elogiado O Som ao Redor foi anunciado na programação. No quadro acima, ele entra no lugar de O Exercício do Poder. A relação abaixo já está atualizada.
Aqui embaixo, os filmes, do que tratam, seus trailers legendados e em que dias e horários serão exibidos. Programe-se!
- Bem Amadas: Musical de Chistophe Honoré sobre a relação de mãe e filha – Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, mãe e filha na vida real. Ludivine Sagnier é a personagem de Deneuve na juventude. O cineasta tcheco Milos Forman (de Amadeus e Um Estranho no Ninho) está no elenco, assim como, claro, Louis Garrel, ator-assinatura de Honoré. Sexta 15 (21h); sábado 23 (17h); terça 26 (19h)
- Boa Sorte, Meu Amor: O filme do pernambucano Daniel Aragão foi premiado no Festival de Locarno, na Suíça. Em preto-e-branco, mostra a relação de uma estudante de música e um empresário do ramo da demolição em um jogo de passado e presente, diferenças de classe, valorização da arte e um monte de outras coisas. Terça 19 (19h); quarta 27 (21h)
- Cabra Marcado para Morrer: O clássico documentário de Eduardo Coutinho foi relançado ano passado em cópia restaurada. A história, você sabe: o filme começou a ser realizado nos anos 1960 como uma ficção sobre o assassinato do líder das Ligas Camponesas na Paraíba, usando a verdadeira viúva como atriz, mas as filmagens foram interrompidas com o golpe de 1964. Quase 20 anos depois, Coutinho foi em busca daquelas pessoas para saber o que aconteceu com elas. Sexta 15 (19h); domingo 24 (17h)
- Elefante Branco: Ricardo Darín é um padre que se envolve com as questões sociais na maior favela de Buenos Aires. Foi indicado a três prêmios da Academia Argentina (incluindo melhor filme). Sábado 16 (15h); quarta 27 (19h)
- Fausto: Leão de Ouro e mais dois prêmios no Festival de Veneza de 2011, o novo filme do russo Alexandr Sokurov é uma adaptação da obra de Goethe sobre o homem que vende a alma ao diabo, com a elaboração visual que marca o diretor de Arca Russa. Segunda 18 (19h); segunda 25 (21h)
- Febre do Rato: O novo filme do pernambucano Cláudio Assis tem Irandhir Santos como um poeta que entra em parafuso quando a mulher por quem ele se encanta não dá bola para ele. Falando assim, parece bonitinho, mas é um filme do Cláudio Assis. Levou oito prêmios no finado Festival de Paulínia – incluindo filme, direção, ator e atriz (Nanda Costa, nunca é demais dizer). Domingo 17 (15h); quinta 28 (19h)
- Infância Clandestina: Em 1979, na Argentina sob a rígida ditadura militar, um garoto vive clandestinamente com sua família que luta contra o regime. Mas ele se apaixona por uma menina, um envolvimento que complica tudo. É uma história real. Ganhou dez prêmios da Academia Argentina de Cinema (incluindo melhor filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante) e foi o escolhido pela Argentina para concorrer a indicação ao Oscar de filme de língua não inglesa deste ano. E atenção, no elenco está a querida paraibana Mayana Neiva! Domingo 17 (17h); quarta 20 (19h); sábado 23 (15h)
- As Neves do Kilimanjaro: Um casal feliz há 30 anos são abordados com violência em um assalto, onde é levado o dinheiro que tinham para uma viagem ao Monte Kilimanjaro. Mas quando os bandidos são encontrados, eles acabam tendo uma reação que surpreende os parentes e amigos. É baseado em um poema de Vitor Hugo e, apesar do mesmo título, não tem nada a ver com o filme de Hollywood de 1952, com Gregory Peck e Ava Gardner. Indicado ao César de melhor atriz. Segunda 18 (21h); quinta 21 (21h); sexta 22 (21h)
- No: Indicado ao Oscar de filme de língua não inglesa deste ano, o filme chileno se passa no referendo que definiria se o ditador Pinochet continuaria ou não no governo em 1988. René Saavedra (Gael García Bernal) coordena a campanha do “Não” com pouco dinheiro e sempre vigiado pelos agentes do governo (um dos mais sangrentos entre as ditaduras latino-americanas). Ganhou como melhor filme estrangeiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Prêmio C.I.C.A.E., em Cannes. Quinta 21 (19h); segunda 25 (19h); quinta 28 (21h)
- O Som ao Redor: O filme do pernambucano Kléber Mendonça Filho fez furor nos festivais ano passado e entrou nas listas de melhores do ano da Film Comment (revista de cinema do Lincoln Center) e do The New York Times. Ganhou o prêmio do júri no Festival de Roterdã, melhor filme na Mostra de São Paulo e Festival do Rio, júri popular e prêmio da crítica em Gramado… E com nosso W.J. Solha no elenco. A história se passa em uma rua de classe média de Recife, onde uma milícia oferece um serviço de segurança, alterando a rotina e as relações entre os moradores. O filme substitui O Exercício do Poder, anteriormente programado para a mostra. Terça 19 (21h); sexta 22 (19h); terça 26 (21h)
- As Vantagens de Ser Invisível: O próprio Stephen Chbosky fez o roteiro e dirigiu a adaptação de seu livro, a história de um calouro introvertido que é acolhido por outros dois deslocados com quem constrói uma verdadeira amizade. O filme americano tem no elenco a lindinha Emma Watson, a Hermione dos filmes de Harry Potter. Sábado 16 (17h); quarta 20 (21h); domingo 24 (15h)
Escravo do estilo
Como nos dois Kill Bill, Quentin Tarantino se deu o presente de mergulhar em outra de suas referências cinematográficas: o faroeste-espaguete sub-Sergio Leone, costumeiramente de tão baixo status quanto os filmes de kung fu que inspiraram os dois (ótimos) filmes com Uma Thurman. Depois da excelente abertura de Bastardos Inglórios (2010), que se passava na II Guerra mas era totalmente calcada no western italiano, as expectativas eram bem altas para este Django Livre (Django Unchained, Estados Unidos, 2012).
Tarantino alia a releitura de um gênero por ele querido a uma inversão cênica: dá o protagonismo a um cowboy negro (Jamie Foxx), um escravo libertado por um caçador de recompensas alemão (Chistoph Waltz), e que só pensa em libertar sua mulher (Kerry Washington, linda), mantida escrava na fazenda de um cruel senhor de terras (Leonardo DiCaprio).
Um cowboy negro não é exatamente uma novidade já foi tema de outra releitura (e um clássico do cinema): Banzé no Oeste (1974), de Mel Brooks. Mas Tarantino leva o filme a uma segunda inversão, que resulta nos momentos psicologicamente mais interessantes de Django Livre: Django, o escravo, precisando fingir ser um mercador de escravos e tendo que mostrar todo um desprezo pelo negros prisioneiros como ele mesmo era até pouco tempo antes. Tentaram criar uma certa polêmica nas cenas em que negros tratam negros como subalternos – principalmente no que diz respeito ao personagem de Samuel L. Jackson -, mas é bobagem. Trata-se de uma situação dramática legítima e bem eficiente.
É pena que Tarantino se torne cada vez mais escravo do próprio estilo – só isso para explicar a razão de o filme ter quase meia hora a mais além de seu verdadeiro final. O turning point é um “confronto moral” entre os personagens de DiCaprio e Waltz que, na prática, é um clímax vazio, ancorado em uma premissa frágil e, parece claro, criado apenas para que um momento visual aconteça.
Tudo, a partir deste ponto, é barriga. Nem serve à história e nem Tarantino está tão inspirado para fazer só do estilo um momento antológico. Se, com isso,Tarantino está de novo querendo dizer que dita as leis em seus filmes (como o fez subvertendo a história em Bastardos Inglórios), já está na hora de parar.
O filme tem momentos ótimos, mas antes disso: a cena de abertura, o saloon, Waltz contando a lenda de Broonhilde tirando dramaticade das sombras projetadas da fogueira, e, para os cinéfilos, toda a brincadeira macaqueando o estilo dos spaghetti-westerns (com zoons indo e vindo, a mesma música de abertura do Django de 1966, música de Ennio Morricone, etc.) e o encontros dos dois Djangos – o de Tarantino e Franco Nero, o original de 1966, aqui naturalmente em outro papel em sua breve participação.
Na maior parte do tempo, Tarantino parece mais preocupado em contar bem sua história e menos preocupado em deixar seu estilo gritar. Ele é, claro, um grande cineasta e a prova é que, mesmo assim, o filme é, sim, cheio de um estilo colorido e inteligente próprio dele. A derrapada no fim, porém, não é um acaso: parece indicar que o diretor ainda não conseguiu totalmente a alforria de si mesmo. A questão é: será isso o que ele quer?
Django Livre (Django Unchained, Estados Unidos, 2012). Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Don Johnson, Quentin Tarantino, Franco Nero, Russ Tamblyn.
“Aprendi a tomar porrada e continuar em pé”. É assim que o cineasta Fernando Meirelles diz que tem recebido as críticas a seu novo filme, 360 (2012), que está em cartaz em João Pessoa (veja locais e horários na agenda). “Tem jornalistas e críticos muito destrutivos soltos por aí, é uma selva, a gente tem que tomar cuidado pois eles são capazes de matar sua alegria de criar”. De Viena, capital da Áustria, onde lançou o filme esta semana, ele conversou com o CORREIO sobre o filme e enumera suas qualidades:
- O que, no roteiro de Peter Morgan, fez você decidir dirigir 360? A estrutura circular? Ser uma espécie de painel?
- Foi uma combinação de tudo isso. A estrutura diferente, o fato de não ter protagonistas e nem antagonistas e também o tema das nove histórias, todas sobre pessoas boas tendo que tomar decisões na vida. Quase todo filme tem um vilão. Em 360 todo mundo quer fazer a coisa certa, até o camarada que está saindo do presídio não quer errar de novo. Achei isso interessante e muito humano. Cada vez mais encontro gente infeliz por ter que fazer o que precisa e não o que deseja, essas opções na vida que vão contra o que gostaríamos de fazer acontecem em função dos vários compromissos que vamos assumindo. O filme anda um pouco por aí e me interessei pelo tema. Acho que todo mundo já viveu ou vive isso, a sensação de estar na vida errada e não conseguir sair dela.
– Como foi, então, o trabalho com Peter?
- Foi muito bom. Esta é uma história pessoal dele, então ele esteve junto desde o momento de montar o elenco, durante as filmagens, até na montagem. Fora o prazer de compartilhar ideias com alguém tão criativo, ganhei um amigo. Ontem (terça) encontrei-o aqui em Viena, e ele disse que, apesar de críticas duras que recebemos, acha que este é um dos seus melhores trabalhos e se sente feliz e orgulhoso por ele. O cara é mesmo muito ponta firme.
– Me fala um pouco sobre a escolha do elenco.
- Cada caso foi um caso neste elenco. Eu precisava de alguns nomes para colocar a foto no poster e como o Jude (Law) uma vez me disse que gostaria de fazer algum trabalho junto em alguma oportunidade resolvi consultá-lo e ele topou. Ele faz uma espécie de Zé-Mané, vendedor de auto-peças, acho que isso foi um desafio interessante para quem faz sempre o “rei da cocada preta”. Chamei a Rachel (Weisz) pois gosto dela e de sua maneira insegura, sempre tentando achar um jeito de fazer melhor.
– E os brasileiros?
- Maria Flor e Juliano (Cazarré) vieram porque, além de gostar muito deles pessoalmente, acho que ambos estão no alto da lista dos melhores atores de sua geração. Por sorte ambos falam inglês com fluência de um nativo. O Juliano faz uns papeis de bronco na TV mas na verdade é um cara extremamente culto e altamente preparado. (Anthony) Hopkins foi uma aposta e me surpreendi por ele ter topado. Nosso cachê era muito baixo. Ele ficou muito feliz em fazer o filme e arrebenta na sua cena numa reunião do AA. Todos os outros atores são astros em seus paises de origem. Foi uma espécie de dream team.
- Alguma das histórias do filme toca você mais que outras?
- Atualmente a que gosto mais é a do Ben Foster e da Maria Flor. Gosto muito da história do motorista do mafioso também, com aquele final surpreendente com a garota eslovaca. O ator que faz o motorista é uma espécie de Wagner Moura na Rússia. Quando o vemos no filme não gostamos dele, mas pouco a pouco, de maneira muito sutil ele faz o personagem nos conquistar. O Jamel Debbouze, o dentista francês também me chocou ao dirigi-lo. Sem dizer nada ele consegue expressar tudo, é um dos melhores atores com quem já trabalhei na vida.

Meirelles: “A gente tem que tomar cuidado pois eles (os jornalistas destrutivos) são capazes de matar sua alegria de criar”
- Você trabalha mais uma vez com o Daniel Rezende, na montagem, e com o Adriano Goldman na fotografia, com quem você fez Som e Fúria. Como os dois ajudaram você na concepção e finalização do filme?
- Roteirista, fotógrafo, montador e diretor são as pernas que colocam um filme em pé. Tenho a sorte de ter amigos muitos talentosos como o Adriano e o Daniel. Aliás, enquanto eu escrevo isso o Adriano está em Oklahoma filmando com Meryl Streep num projeto do George Clooney e o Daniel está dirigindo a segunda unidade e depois vai montar o RoboCop do Zé Padilha, em Toronto. Tudo da fotografia e montagem do filme é discutido. Antes de eu dizer o que está na minha cabeça, ouço muito o que estes dois artistas estão trazendo para a mesa. O grande segredo de uma direção eficiente é agregar parceiros talentosos e deixar que eles trabalhem como sabem. Já vi colegas chamarem estes caras supertalentosos, mas depois ficarem dizendo como eles devem fazer o trabalho deles. Grande erro.
- Você acha que um dos motivos das críticas que o filme recebeu é que lá fora sempre esperam de você um novo Cidade de Deus?
- Talvez seja isso mesmo, mas já aprendi a tomar porrada e continuar em pé. Lembro que, quando Cidade de Deus foi lançado, O Globo deu o bonequinho saindo da sala, o que significa “péssimo”. Disseram que era um filme publicitário, cosmético, subproduto de filme de gangue americano entre outros comentários. Parece que, com o tempo, estas vozes se foram e o filme ficou. Sei que isso acontece às vezes, então prefiro não ler o que escrevem sobre o meu trabalho para ter vontade de continuar trabalhando. Tem jornalistas e críticos muito destrutivos soltos por aí, é uma selva, a gente tem que tomar cuidado pois eles são capazes de matar sua alegria de criar. Parece que a maioria dos críticos americanos não entenderam o filme mesmo. Eu também não entendo qual é a graça dos filmes de super-herois que eles fazem, então estamos todos na mesma barca.
- Quais são, para você e agora, depois de pronto, as principais qualidades do 360?
- O (Luiz Carlos) Merten, crítico de O Estado de S. Paulo, resumiu isso para mim. Ele acha que 360 é meu melhor filme por ser adulto, por conseguir lidar com situações e emoções delicadas, íntimas. Fazer um filme onde um cara malvado está tentando matar um cara bonzinho, como em Cidade de Deus, é mais tranquilo, todo mundo entende o que está acontecendo – já lidar com estas emoções pequenas que atravessam nossa cabeça e nosso coração é mais complicado. Elas são fugidias. Quem não tem o hábito de prestar atenção nas próprias emoções pode não ver nada no filme. Eu gosto dos olhares, dos sorrisos, dos vacilos dos personagens.
- Com esses atores de nacionalidades tão diferentes, o resultado agradou você?
- Acho que o trabalho dos atores neste filme é muito sólido. Não há uma só frase ou olhar de ninguém ali que não esteja precisa, no lugar certo. Aliás, sou muito chato em relação a atuação. As vezes num filme, quando um garçom entra apenas para dizer “Sua conta, senhor”, e isso não está natural, eu sou arrancado da história. Acho imperdoável, uma fala que seja, fora do tom. Todo mundo tem sua loucura, esta é a minha.
- Como é o sistema de produção em que você trabalha nas produções internacionais? Você faz o filme e depois negocia a distribuição?
- É assim que grande parte dos filmes brasileiros são feitos, mas isso só é possível quando usa-se dinheiro público para produzir o filme. No esquema que trabalho não há essa facilidade: para financiar um filme o que se faz é montar o projeto com roteiro, elenco e direção, leva-se para um mercado internacional, vende-se o filme antecipadamente para vários países e, com esses contratos como garantia, levanta-se dinheiro para rodá-lo. É por isso que sempre precisamos ter uns dois ou três nomes conhecidos no elenco. Um comprador da África do Sul, por exemplo, vai prestar mais atenção num filme que esteja a venda que tenha o Jude Law, do que um onde ele não conheça os atores.
- Já se sentiu tentado em aceitar trabalhar no modelo hollywoodiano?
- Já. Sempre aparecem projetos que me interessam, mas, como o sistema de trabalho num estúdio não me atrai, consigo sempre resistir. Comparado com o esquema que expus acima, quando se faz um filme de estúdio a coisa acontece de outra maneira. Eles bancam o filme todo e contratam todo mundo. A relação de trabalho que se estabelece portanto é a de patrão e empregado, diferente da relação de parceria ou de sociedade, que é como prefiro trabalhar.
- Como está sendo o lançamento nos EUA e na Europa?
- Estreou nos EUA no dia 10, em poucos cinemas. Vai entrar aos poucos, em outras salas, lançamento em plataforma, como chamam, onde vão adicionando salas a cada semana. Na Europa começa a entrar por agora. Até o final do ano o filme ainda estará sendo lançado. Não é um filme caro então não precisa e nem foi feito para fazer uma super bilheteria. No Brasil a expectativa é que faça 300 mil espectadores. Vamos ver como vai andar.
- Como vai indo o projeto de Nemesis? O Globo falou em Robert Downey Jr ou Javier Bardem para o papel principal.
- Não fechamos o elenco ainda, está em processo mas só vamos anunciar no festival de Toronto. Não sei de onde O Globo tirou isso.
– Você pediu no twitter sugestões para o papel Jacqueline Kennedy. Alguma interessante?
- Nenhuma sugestão. Acho que não me levaram a sério. Continuo aberto a palpites no @fmei7777.
– Pra mim, a Rachel Weisz daria uma ótima Jackie Kennedy.
- Ela seria uma boa Jacqueline Kennedy, mas é uns 10 anos mais velha do que a personagem. Por isso estou neste conflito se chamo ou não.
O Festival Varilux de Cinema Francês está de volta a João Pessoa e os amantes do cinema agradecem. Vai ser uma maratona bem puxada: 17 filmes em 7 dias. Serão quatro ou cinco filmes por dia, repetindo-se apenas uma vez. Faça sua planilha e comece assistindo aos trailers de cada um dos filmes mais abaixo. Os dias e horários de cada um estão no quadro a seguir, da capa do Caderno 2 do Correio de hoje (clique para ampliar). E lá no final, a programação por dia. E mais detalhes no site do festival. Divirta-se!
- E Agora, Aonde Vamos? – da diretora libanesa Nadine Labaki, a mesma de Caramelo, é uma comédia dramática que mostra as mulheres de um vilarejo tentando conter as tensões entre muçulmanos e católicos.
- O Barco da Esperança – Co-produção com o Senegal, é sobre um barco de pesca que sai de Dacar em direção às Ilhas Canárias, uma travessia perigosa.
- Polissia – Indicado a nada menos que 14 Césars e vencedor de dois, o filme mostra o cotidiano de integrantes de uma brigada de proteção ao menor. As histórias são baseadas em fatos reais.
- Adeus, Bertha ou o Enterro da Vovó – Comédia sobre um homem que precisa lidar com a morte da avó e também com a esposa e a amante – para cujo filho ele vinha preparando um show de mágica.
- Titeuf – Animação baseada em uma série de quadrinhos de Zep – que também dirige o filme. Virou uma série animada de TV em 2001, antes de virar filme.
- A Filha do Pai – O ator e diretor Daniel Auteuil leva aos cinemas uma nova versão para o clássico filme de Marcel Pagnol, de 1940.
- A Vida Vai Melhorar – É um drama que mostra um casal tentando levar seu restaurante à frente, mas em dificuldades financeiras. Até que a mulher desaparece deixando o marido e o filho de 9 anos.
- Um Evento Feliz – As delícias e agruras da maternidade.
- Intocáveis – Grande sucesso de público na França, ganhou o César de melhor ator (para Omar Sy, derrotando Jean Dujardin por O Artista). A história é a de um aristocrata tetraplégico que contrata como cuidador um jovem recém saído da prisão – não talhado para o serviço, mas que devolve sua alegria de viver.
- Paris-Manhattan – A personagem principal é uma farmacêutica apaixonada pelo cinema de Woody Allen e que tem dificuldades em emplacar um relacionamento.
- Aqui Embaixo – O filme se passa em 1943, ainda na França ocupada, sobre uma freira que serve em um hospital com um capitão que abala sua fé.
- My Way – O Mito Além da Música – Uma cinebiografia de Claude François, ícone da música popular francesa – ele é o autor de “Comme d’habitude”, que, em inglês e cantada por Sinatra, foi imortalizada como “My way”.
- Uma Garrafa no Mar de Gaza – Depois de um atentado em Jerusalém, uma garota judia de 17 anos escreve uma carta a um palestino anônimo questionando a hostilidade entre os dois povos – e a carta é jogada ao mar, numa garrafa. Mas um dia ela recebe uma resposta.
- O Monge – Thriller estrelado por Vincent Cassel. Ele é o fervoroso pregador de um convento espanhol do século XVII que entra em dúvida com a chegada de um novo e misterioso noviço.
- Alyah – Rapaz que procura uma definição na vida resolve embarcar na aventura do primo: abrir um restaurante em Israel. Para isso, ele terá que deixar tudo para trás.
- A Arte de Amar – Cinco histórias de amor que se cruzam. Este é o único filme que só será exibido uma única vez no festival.
- Americano – Quando volta aos Estados Unidos para resolver as pendências surgidas com a morte da mãe, um homem descobre que uma dançarina tinha entrado na vida dela. O filme tem Salma Hayek no elenco.
PROGRAMAÇÃO POR DIA:
Dia 17/08 (Sexta-Feira)
14h00 – E Agora, Aonde Vamos?
16h10 – O Barco da Esperança
18h00 – Polissia
20h35 – Adeus Berthe ou O Enterro da Vovó
Dia 18/08 (Sábado)
14h00 – Titeuf
15h35 – A Filha do Pai
17h40 – A Vida Vai Melhorar
19h50 – Um Evento Feliz
22h00 – Intocáveis
Dia 19/08 (Domingo)
14h00 – Titeuf
15h35 – Paris-Manhattan
17h10 – Aqui Embaixo
19h15 – My Way – O Mito Além da Música
22h00 – E Agora, Aonde Vamos?
Dia 20/08 (Segunda-Feira)
14h00 – Um Evento Feliz
16h10 – Uma Garrafa no Mar de Gaza
18h00 – Intocáveis
20h05 – O Monge
22h15 – Alyah
Dia 21/08 (Terça-Feira)
14h00 – Aqui Embaixo
16h00 – O Monge
18h00 – Paris-Manhattan
19h40 – A Arte de Amar
21h15 – My Way – O Mito Além da Música
Dia 22/08 (Quarta-Feira)
15h45 – Americano
17h40 – Adeus Berthe ou o Enterro da Vovó
19h40 – A Filha do Pai
21h45 – Polissia
Dia 23/08 (Quinta-Feira)
14h00 – Americano
16h00 – A Vida Vai Melhorar
18h10 – O Barco da Esperança
19h50 – Alyah
21h40 – Uma Garrafa no Mar de Gaza
Leve passeio

Penélope Cruz (falando em italiano) é a espetacular garota de programa que aparece no quarto de um recém-casado interiorano
Woody Allen ter escolhido narrar pequenos contos em Para Roma, com Amor (To Rome, with Love, EUA/ Itália/ Espanha, 2012) não é por acaso. Mesmo narrados paralelamente, as histórias (independentes entre si) remetem aos filmes em episódios do cinema italiano dos anos 1960, como Boccaccio’ 70 (1962) ou Ontem, Hoje e Amanhã (1963). As quatro tramas formam um conjunto coerente, leve e muito agradável.
Mesmo com a referência do formato e a trilha sonora (que já começa com o indefectível “Volare”), desta vez a visão de Allen não está intrinsecamente ligada à alma cultural da cidade, como aconteceu no excelente Meia-Noite em Paris (2011). Em um filme bem menos ambicioso, Roma é, basicamente, um cenário de tirar o fôlego para histórias de comédia e romance que poderiam se passar em qualquer outro lugar. Uma cinecittà e tanto.
Duas delas envolvem turistas americanos. Allen e Judy Davis são o casal que vão à capital italiana para conhecer os pais do noivo da sua sua filha – e descobrem que o pai dele é um excelente cantor de ópera, mas só no chuveiro. Woody volta a atuar depois de seis anos, e que bom: ele está muito engraçado como o diretor de ópera aposentado, que sempre foi “à frente de seu tempo”, como repete a personagem de Judy Davis (também ótima como a esposa psicanaista que analisa o marido o tempo todo). O clímax dessa história é o grande momento cômico do filme.
Na outra, Alec Baldwin é o arquiteto que lembra quando morou na cidade, testemunhando o nascimento do romance entre um jovem estudante (Jesse Eisenberg) e uma atriz (Ellen Page). É a melhor das histórias, muito porque Woody não escancara o que ela realmente é, fazendo com que o público tenha que raciocinar um pouquinho para ligar os pontos.
As duas tramas são com personagens italianos. Os recém-casados que chegam a Roma vindos do interior e se metem em confusão (a jovem esposa se perde na cidade e esbarra em uma filmagem; o marido vê em sua porta uma garota de programa – a deslumbrante Penélope Cruz – enviada a seu quarto por engano) lembra alguns filmes de Fellini – em especial, o primeiro que ele assina sozinho, Abismo de um Sonho (1952), onde também uma esposa do interior acaba envolvida pelo clima de uma produção (no caso, a de uma fotonovela).
E há a história estrelada por Roberto Benigni, a do homem absolutamente comum que, de uma hora para outra, vira uma celebridade e nem entende a razão. Os brasileiros torcem o nariz para Benigni desde que seu A Vida É Bela derrotou nosso Central do Brasil no Oscar, em 1999, mas sua força continua a mesma: a combinação de um histrionismo tipicamente italiano com um quê chapliniano. E a trama – com seu final patético que deveria ser assistido por todos os ex-participantes de reality shows – joga com um realismo fantástico que sempre é revisitado por Allen.
O filme ainda rende outras homenagens ao cinema italiano na participação discreta de alguns ícones dos filmes de lá, como a sempre bela Ornella Muti, como uma atriz famosa, e Giuliano Gemma, astros dos faroestes-spaghetti, em um hotel. Ninguém é gênio todo dia, logo não se pode cobrar de Allen um acerto da magnitude de Meia-Noite em Paris ano após ano. Mas Para Roma, com Amor também é um acerto de sensibilidade e bom humor.
Para Roma, com Amor. To Rome, with Love. Estados Unidos/ Itália/ Espanha, 2012. Direção: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Roberto Benigni, Penélope Cruz, Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Ellen Page, Judy Davis, Ornella Muti, Giuliano Gemma.
Não tão espetacular assim
Nas histórias em quadrinhos, os primeiros passos do Homem-Aranha já foram contados várias vezes, mantendo basicamente os mesmos cânones, com uma ou outra alteração. Acontece com todos os grandes super-heróis. Por isso, não chega a ser uma estranheza que ela seja recontada também no cinema, neste O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, EUA, 2012; em cartaz em JP, CG e Patos). A questão é que, na teoria, começa tudo do zero, porém o filme dirigido por Marc Webb se beneficia e é prejudicado ao mesmo tempo por voltar a uma história contada há apenas dez anos em um filme tão marcante quanto o de Sam Raimi.
Por exemplo, se este fosse, hipoteticamente, o primeiro filme com o herói seria admissível que uma parte fundamental da mitologia do Aranha, como o Clarim Diário e seu irascível editor J. Jonah Jameson simplesmente não aparecessem? Pois é, o novo filme só se permite essa liberdade porque Homem-Aranha, de 2002, cumpriu (e muito bem) com essa “obrigação”.
Da mesma forma, outros momentos icônicos inescapáveis tiveram que ser retrabalhados – unicamente para não ficarem iguais ao filme de Sam Raimi. O exemplo mais claro se dá com a morte do Tio Ben (Martin Sheen) e a noção de responsabilidade que ele precisa aprender, que diluída para não usar a frase mítica “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.
O Aranha, agora, também não chega a usar seus poderes para ganhar dinheiro, o que – tal como nos quadrinhos – indiretamente levava à morte do tio e ao aprendizado sobre o uso responsável dos poderes da maneira mais dolorosa. Agora, a tragédia vem decorrente de momentos de rebeldia sem causa (ou pura malcriação). Já Norman Osborne, vilão no filme de 2002, é uma sombra, anunciando sua presença para o próximo filme.
Assim, com o filme de Raimi como uma sombra o tempo todo, O Espetacular Homem-Aranha tenta ganhar personalidade própria apostando no drama. O jovem Peter Parker agora quer saber o que aconteceu com seus pais (assunto que, em 50 anos, poucas vezes teve muita atenção dos quadrinhos, até porque tira a frça da real relação de paternidade que o personagem tem com os tios que o criaram). Investigando, chega ao Dr. Connors (Rhys Ifans) e suas experiências genéticas. O encontro leva aos desdobramentos que o levam a ganhar superpoderes e fazem com que o doutor se transforme no vilão Lagarto.
O filme procura elaborar alguns aspectos dos relacionamentos de Parker, fazendo com que sua rebeldia vire um conflito com seus tios. Por outro lado, simplifica muito o romance quando ele revela sua identidade sem muitas complicações para Gwen Stacy (Emma Stone, saindo-se bastante bem). Gwen acaba virando basicamente uma assistente do super-herói, o Alfred do Homem-Aranha. Quem é conhecedor do personagem em seus tempos clássicos sabe o quanto de drama futuro o filme desperdiça ao fazer com que a filha do Capitão Stacy já saiba que seu namorado é o herói.
O filme tem, certamente, várias qualidades, a começar por seu ator principal. Andrew Garfield desencumbe-se bem da função, fazendo um Peter Parker em um tom mais cara fechada do que a versão de Tobey Maguire, e conduzindo com segurança o filme além de algumas forçadas de barra de seu roteiro.
No final, O Espetacular Homem-Aranha não é tão espetacular assim. Chega a brilhar quando o diretor Marc Webb resolve colocar o espectador no lugar do Aranha, pela câmera subjetiva enquanto o herói balança pela cidade e o saldo ainda é bem positivo. Mesmo que no fim haja a promessa desnecessária de que vão insistir na trama (também desnecessária) dos pais…
O Espetacular Homem-Aranha. The Amazing Spider-Man. Estados Unidos, 2012. Direção: Marc Webb. Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Campbell Scott, Embeth Davidtz, C. Thomas Howell.
* Versão estendida da crítica publicada no Correio da Paraíba.
No limite
Não é um equilíbrio fácil aquele que Paraísos Artificiais (Brasil, 2012) busca. Em uma trama fortemente ambientada no mundo da música eletrônica, o diretor Marcos Prado quer mostrar que as drogas são uma realidade – mas não quer estigmatizar a cena e tampouco se mostrar “a favor” do consumo. O mais provável é que os espectadores achem que o filme está de um lado ou de outro.
O que fica claro é que há uma tentativa de retratar uma parcela de jovens que faz do viver intensamente, no limite, um estilo de vida. Alternando-se em três tempos narrativos diferentes, o filme mostra os prazeres e possíveis consequências disso através de três personagens: Erika (Nathalia Dill), a amiga/ namorada Lara (Lívia de Bueno) e Nando (Luca Bianchi), e seu encontro durante uma rave (daquelas que duravam dias) em uma praia afastada de Pernambuco. A tentativa de isenção do filme vem através de um personagem mais velho, Mark (Roney Villela), com jeitão de guru da contracultura, que semeia mensagens como “as drogas fazem com você o que você quer que elas façam”.
É o que vem em flashbacks, em lembranças principalmente de Erika, que reencontra Nando em Amsterdã – mas ele não se lembra dela. Mas mesmo essas cenas na Europa são o passado: o filme começa com Nando saindo do presídio, no Rio. Vamos, então, descobrir como ele chegou lá e o que virá a seguir.
O filme joga pontas soltas e vai amarrando-as. Mas, na prática, o espectador não tem muita dificuldade em antever revelações através das pistas que são dadas – por que determinado personagem não aparece em determinada parte do filme, por exemplo. Isso não chega a comprometer porque a razão do filme, afinal, não é qualquer surpresa ou mistério.
No retrato dessas vidas no limite e após o limite, o filme é até bem feliz. As cenas de consumo de drogas e as fortes cenas de sexo ajudam, com ponto para a entrega do bom trio de atores, para a direção de fotografia de Lula Carvalho (filho de Walter e sobrinho de Vladimir, ambos paraibanos) e para a montagem de Quito Ribeiro.
* Publicado no Correio da Paraíba, em 15/5/2012
O desafio da autoconfiança
O título brasileiro de Românticos Anônimos (Les Émotifs Anonymes, França/ Bélgica, 2010) pode passar uma ideia ligeiramente errada do enredo. Angélique (Isabelle Carré) frequenta um grupo de autoajuda não porque se apaixone muitas vezes ou com muita intensidade. O que a levou até ali é que ela é uma tímida terminal: até o sucesso profissional ela dispensa, se puder evitar ter todos os olhos voltados para ela.
Chocolateira talentosa, ela consegue um emprego em uma pequena fábrica de chocolate à beira da falência. Por um mal entendido, como representante comercial – um verdadeiro terror para quem não consegue lidar com as pessoas e teme a rejeição mais que tudo. Ela e Jean-René (Benoìt Poelvoorde), o dono da fábrica, se interessam um pelo outro quase instantaneamente. O problema é que ele é pior do que ela.
Românticos Anônimos consegue criar empatia por seus dois atrapalhados personagens, tirando humor de suas crises de ansiedade e do fato de que, para evitar a interação que conta, eles chegam a fazer coisas muito mais difíceis. E o mundo do chocolate ajuda a criar um tom quase de fábula para a história, embora a ambientação não deixe de ser realista.
A delicadeza da direção de Jean-Pierre Améris equilibra o tom de comédia com o lado triste da condição de vida dos dois personagens. Incapazes de lidar normalmente com um aperto de mão, eles acreditam estar destinados à mais miserável solidão. Transpor essa barreira autoimposta é um desafio que nem todo mundo é capaz de entender. Eles se libertam no trato com o chocolate: produzi-lo é uma paixão que ambos possuem, mas ainda não dividem – porque Angélique não consegue revelar que é ela o famoso chocolateiro misterioso que encantou a França algum tempo antes.
Assim, Angélique e Jean-René lidam com suas limitações do jeito que podem. Ele, que conta sua vida em detalhes para o analista, leva sempre camisas extras numa pasta para trocar por causa do suor provocado pelo nervosismo.Tenta superar seus medos com os exercícios mais básicos de interação social.
Ela, por sua vez, canta uma canção para si mesmo quando precisa ganhar um pouco de autoconfiança. E aí os fãs de A Noviça Rebelde irão reconhecer de cara “I have confidence”, que, no musical, Maria canta exatamente para ganhar confiança enquanto se dirige a seu desafio de cuidar dos sete filhos endiabrados do Capitão Von Trapp. Aqui, ela é cantada em francês pela própria Isabelle Carré (que reinterpreta até parte da coreografia de Julie Andrews no filme de 1965 e que – com total justiça – foi indicada ao César de melhor atriz).
A canção é uma bela sacada: afinal, tudo no filme depende da autoconfiança deste complicado, mas adorável casal.
Românticos Anônimos (Les Émotifs Anonymes, França/ Bélgica, 2012). Direção: Jean-Pierre Améris. Elenco: Benoît Poelvoorde, Isabelle Carré, Lorella Cravotta.
Sem vergonha do escapismo
Os Vingadores – The Avengers (The Avengers, EUA, 2012) tem uma qualidade admirável: não tem a menor vergonha de ser o que é. Trata-se de um filme de super-heróis que é – na falta de uma definição melhor – à moda antiga, tão descompromissado quanto os velhos seriados de cinema dos anos 1930 e 1940 que, à base de orçamentos miseráveis, colocava os heróis dos quadrinhos contra cinetistas malucos ou nazistas.
A diferença é que agora, claro, o filme que reúne alguns dos principais heróis da Marvel que já estrelaram seus próprios filmes possui um orçamento mais do que milionário, dando conta tanto dos efeitos visuais quanto dos uniformes. O que faz com que essas aventuras deixem de ser meras atrações para crianças nas matinês dos cinemas para serem dotadas de um alcance global. Sinal dos tempos, os adultos são, dá para arriscar, os maiores interessados nessas aventuras.
Dos heróis que estão no filme, apenas o Capitão América já havia sido criado na época dos seriados – e até teve o seu próprio, em 1944. Os demais surgiram nos anos 1960, criações de, principalmente, Stan Lee e Jack Kirby. Em suas próprias aventuras, mas não demoraram quase nada a serem unidos no supergrupo Vingadores (o Quarteto Fantástico, primeiros heróis dessa onda, surgiram em 1961; os Vingadores já aparecem como grupo em 1963).
Esse trânsito entre heróis de quadrinhos nas revistas uns dos outros é comum desde antes dessa época, mas no cinema nunca foi tentado com a magnitude que Os Vingadores – The Avengers tenta – nunca se tentou algo nem perto disso. Esse crossover tem proporções inéditas e era arriscado por diversas razões – principalmente por ter muita gente em cena, o que já havia sido um problema em outros filmes de super-heróis. Mas Os Vingadores consegue dar conta plenamente. Uma das razões é seu elenco e equipe terem aparentemente abraçado de maneira tão plena o projeto, descompromissado e escapista como ele é.
Deu muito certo, como críticos e público já atestaram. Os dramas pessoais de cada personagem foram deixados para seus filmes particulares e o que se vê na tela é muita ação e bom humor. Em maior ou menor grau, é diversão garantida para os iniciados e para quem só conhece o Homem de Ferro dos filmes com Robert Downey Jr.
Aliás, como era esperado, o ator está um passo à frente no filme com a personalidade sarcástica de Tony Stark atraindo para si os melhores diálogos. Mas todos os heróis estão muito bem e o filme equilibra bem os momentos de brilho de cada um – seja isoladamente, nos confrontos contra os vilões ou nos embates uns contra os outros (e são muitos). Chris Pine (Capitão América), Chris Hemsworth (Thor) e Jeremy Renner (Gavião Arqueiro) não desapontam, assim como Scarlett Johansson (Viúva Negra), em cujas curvas o filme não cansa de se deter (e alguém vai reclamar?).
E o Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) rouba várias cenas. Como Hulk, ele ainda parece emprestado do elenco de Uma Cilada para Roger Rabbit, mas, pelo menos ele parece mais com Ruffalo do que com Edward Norton (intérprete no apenas razoável O Incrível Hulk).E talvez por o filme não ser apoiado totalmente nele, o personagem rende muito mais do que o esperado.
O vilão também é muito bem escolhido: Loki, irmão de Thor, interpretado pelo ótimo Tom Hiddleston, também entregue completamente ao seu papel de “diva”. Desde os créditos finais do filme do semideus, já era visível que ele seria o inimigo principal em Os Vingadores. Apesar de toda a invasão alinígena que dá margem à pancadaria da reta final, é Loki que faz o filme escapar de ser só isso. Seus diálogos com Thor, Homem de Ferro e até mesmo com o Hulk (de certo modo) são grandes momentos do filme.
É o melhor filme de super-heróis de todos os tempos, como alguns apressados já dizem? È uma discussão que não faz sentido, quando todos ainda estão sob o impacto do filme. Mas ele presta um serviço importante: provar que filmes de super-heróis não precisam ser sempre densos, dramáticos e realistas para serem ótimos (o que também não quer dizer que, sendo densos, eles não sejam ótimos). Há espaço para as duas vertentes e o talento narrativo (aqui, de Joss Whedon, diretor e único roteirista do filme) é que vai fazer a diferença.
Os Vingadores – The Avengers (The Avengers, EUA, 2012). Direção: Joss Whedon. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Stellan Skasgard, Samuel L, Jackson, Gwyneth Paltrow.
* Versão estendida da crítica publicada no Correio da Paraíba, no dia 9 de maio de 2012.
Olha aí, a entrevista que fiz com o pianista Arthur Moreira Lima, capa do Correio de hoje. Ele se apresenta hoje, às 19h30, em João Pessoa.
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O caminhão-teatro de Arthur Moreira Lima já percorreu 200 mil quilômetros. “Está marcado no velocímetro”, contou ao CORREIO. “É o mesmo que cinco voltas ao mundo”. Desde 2003, já são mais de 430 concertos do projeto Um Piano na Estrada, no qual o pianista vem percorrendo o país inteiro – atualmente, com a quinta etapa do circuito Brasil Sertões 2. Hoje, o caminhão-piano está em João Pessoa, no Ponto de Cem Réis, com o concerto começando às 19h30.
Essa experiência de tocar em praças e cidades que há muitos anos não viam uma apresentação de música clássica – ou até nunca viram – tem deixado a melhor das impressões no pianista. “Não só com relação ao número de pessoas, mas é também a maneira como ouvem: é um público muito musical”, disse. “Muitas vezes a própria organização dos concertos tradicionais não presta atenção a isso”.
Para o projeto, o caminhão é fundamental. “Meu caminhão parece um teatrinho mesmo”, contou Arthur Moreira Lima. “Fica muito mais íntimo, parecendo um sarau. O palco tem cinco metros de profundidade”. Segundo ele, a ideia surgiu para servir ao projeto. “Primeiramente, um palco era muito dispendioso para as prefeituras. E o caminhão dá essa ideia de deslocamento”, disse. “A tradição dos saltimbancos, dos menestréis, da arte representada”.
O pianista já tocou em uma balsa, já chegou ao Oiapoque e ao Chuí, já tocou na tríplice fronteira (no Acre). “Já toquei em todos os estados do Brasil”, disse. Com o projeto, ele tocou em Campina Grande. Mas já se apresentou também no Teatro Santa Roza, nos anos 1980, onde teve problemas com o piano. “Metade das notas não tocava!”, lembrou. “Mas eu voltei depois, em 1993”. O pianista tem outras ligações com a Paraíba. “Minha família é de Areia”, contou. “Meu avô era paraibano, foi desembargador em Campina Grande”.
Arthur Moreira Lima começou a estudar piano aos seis anos de idade. Aos oito, deu seu primeiro recital, na Associação Brasileira de Imprensa: tocou Beethoven, Chopin e Paderevsky. Aos nove, ganhou o concurso para jovens solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Aos onze, concorreu de novo e ganhou novamente.
Ele estudou com Lúcia Branco, a mesma professora de piano de outro ás do instrumento: Antônio Carlos Jobim. “Ele era mais velho do que eu”, contou. “Eu era garoto. Lembro que a professora dizia que ele tinha músicas lindas e seria melhor que se dedicasse a elas”. Os dois voltariam a se encontrar muitas vezes no futuro. “Eu estive muitas vezes com o Tom. Ele era muito simples, muito fácil de lidar”.
Já tocou no Lincoln Center, em Nova York, e em uma garagem de ônibus na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Tanto morou duas décadas na Europa (Paris, Moscou, Viena), quanto se embrenha país adentro com o projeto Um Piano pela Estrada – levando Mozart a bairros populares e pequenas cidades, ou Pixinguinha às principais salas de concerto do mundo.
“Existe um segredo”, afirmou. “Eu toco música clássica que, de tão conhecida e aclamada, virou popular. E toco música popular que é tão boa que virou clássica”.
Silêncio eloquente
Para quem não espera do cinema mais do que um bom passatempo, a boa notícia: O Artista (The Artist, França/ Bélgica, 2011) é plenamente assistível por quem nunca viu um filme mudo na vida e nunca se interessou por algum. É divertido, é emocionante, é lindo visualmente. Agora, para quem ama o cinema, a notícia para valer: O Artista é um gol de placa, um deleite, um acerto em todos os níveis.
O que faz do filme de Michel Hazanavicius algo especial é que ele escapa olimpicamente de ser apenas uma brincadeira metalinguística com o estilo do cinema mudo. Ser mudo é a razão de ser narrativa do filme, faz todo o sentido não se ouvir vozes.
Isso porque o filme gira em torno do astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin), que desdenha do cinema sonoro quando ele irrompe no horizonte, no final dos anos 1920. Nessa época, muitos galãs e estrelas perderam o emprego por causa das vozes fanhosas ou esganiçadas (como aparece, de maneira engraçadíssima, no clássico Cantando na Chuva), mas não é o caso de Valentin.
O astro não se integra ao cinema falado porque se recusa. Acha que é uma violência com sua arte. É uma resistência parecida com outra que existiu de verdade: a de Charles Chaplin. O gênio do cinema ainda faria dois filmes sem diálogos (ambos antológicos: Luzes da Cidade, de 1931, e Tempos Modernos, de 1936) até finalmente resolver falar na tela, em 1940 (com O Grande Ditador).
Mas Chaplin era Chaplin: além de ser o homem mais famoso do mundo, era dono de seu próprio estúdio – podia aguentar o tranco. Valentin, ao contrário, paga caro por sua opção. Numa cena, ele se encontra em uma escada com Peppy Miller (a argentina Berenice Bejo, esposa do diretor, excelente), atriz iniciante no cinema, que entrou por ramo até por acaso, mas que está ganhando rapidamente popularidade. Ele está descendo os degraus, ela subindo. É um simbolismo até bastante evidente, mas isso é contar uma história visualmente e é dessas coisas que os grandes filmes são feitos.
É importante lembrar que o som está em evidência em diversos momentos de O Artista. O filme dialoga o tempo todo com o seu assunto e modo de contá-lo. Numa analogia de novo bem evidente, o filme já começa com o astro Valentin interpretando um herói sob tortura que grita (aparecendo nas cartelas): “Não vou falar!”.
É a estreia de seu novo filme, e, atrás da tela, ele aguarda o final e a reação da plateia. Nada se ouve, mas por sua expressão, sabemos o som que está ouvindo. A cena da plateia batendo palmas no completo silêncio causa propositalmente um leve desconforto, um choque silencioso a um público bem desacostumado ao silêncio (já perceberam como há filmes hoje em dia cuja trilha sonora tem música o tempo inteiro?).
Isso sem falar na já antológica cena de sonho, em que Valentin é confrontado com o som, mas não consegue exprimir sua voz. Em outro momento, a ascenção de Peppy Miller é simbolizada por uma sequência de imagens ao som de uma canção, cantada mesmo: “Pennies from Heaven”, na gravação de Rose Murphy de 1936. E lá na sequência da estreia, no começo do filme, não é à toa que Valentin faz uma brincadeira com o sapateado – uma dança que não faz sentido sem som. É algo que vai implicar com graça e inteligência, bem mais à frente, na passagem para o desfecho do filme.
Desfecho, aliás, que é atencedido pelo uso inesperado da música de Bernard Herrmann para Um Corpo que Cai (1958), de Hitchcock. Uma nova significação que não deixa de ser uma homenagem à expressão da música no cinema. E entre ela e o desfecho, o silêncio total para um momento chave, de resoluções e de transição.
A vitória acachapante no Oscar (cinco, incluindo melhor filme, direção e ator) é muito significativa, enquanto ainda tem gente que afirma que o 3D é o futuro do cinema. A consagração de O Artista mostra que cinema ainda é muito mais do que efeitos especiais. E isso não quer dizer que efeitos especiais sejam ruins em si mesmos – A Invenção de Hugo Cabret está aí para provar que até o 3D tem salvação.
Talvez O Artista, usando a falta de voz e ruídos e abdicando de cores, mostre que, na instância mais fundamental, a maneira de contar a história é que seja o grande efeito especial. Ou seja, em outras palavras, o cinema é o melhor efeito especial de si mesmo.
O Artista (The Artist, França/ Bélgica, 2011). Direção: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Bérenice Bejo, James Cromwell, John Goodman, Penelope Ann Miller, Malcolm McDowell.
Copie e cole a lista nos comentários e coloque sua nota de 0 a 5 para cada filme. Não valem notas quebradas. Se não tiver visto o filme, coloque “não vi”.
- Apollo 18 –
- O Homem do Futuro –
- Deu a Louca na Chapeuzinho 2 –
- Larry Crowne – O Amor Está de Volta –
- Cowboys e Aliens –
- Professora sem Classe –
- Manda-Chuva – O Filme –
- Conan, o Bárbaro –
- Glee – Live –
- A Árvore da Vida –
- Missão Madrinha de Casamento –
- Sem Saída –
- Premonição 5 –
- Família Vende Tudo –
- Contra o Tempo –
- Pearl Jam Twenty -
* Filmes que estrearam de 1º a 30 de setembro de 2011 nos cinemas de João Pessoa.
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Identidade da comédia
Os grandes comediantes da história sempre souberam que um palhaço tem muito potencial para o drama, nessa antítese entre rir e chorar. Charles Chaplin, o maior dos cômicos, pautou a maior parte de sua carreira sobre esse aspecto. Outro ícone, Buster Keaton, não dava um sorriso sequer nos filmes que fazia. E até Renato Aragão soube tirar lágrimas em vez de risos, quando quis. Sélton Mello certamente inspirou-se em alguns deles (provavelmente em todos) para O Palhaço (Brasil, 2011).
Ele interpreta Pangaré (sem a maquiagem, Benjamin), que faz o número com o pai, o veterano palhaço Puro-Sangue (Paulo José). Ele também gerencia o paupérrimo circo com que cruza o interior (no momento) de Minas. É também um filme de época: apesar de não dizer claramente, por alguns detalhes dá para ver que a trama de passa em algum ponto dos anos 1970 ou começo dos 1980.
Como Buster Keaton, Pangaré é um palhaço que não sorri – ou, no máximo, sorri raras vezes. Dentro ou fora de cena. Em crise de identidade, ele começa a pensar em fixar residência e conseguir um emprego mais “tradicional”. Essa crise tem uma metáfora bastante clara no filme, que é a necessidade prática de tirar identidade, CPF e comprovante de residência. E um simbolismo mais cifrado, que é os ventiladores que “assombram” Benjamin.
Extremamente bem amarrado, O Palhaço é enriquecido por outros desses símbolos. Um deles é a maneira solene (solene à moda de um palhaço, pelo menos) com que Puro-Sangue é anunciado (o que também demonstra toda a reverência de Sélton ao grande e histórico ator Paulo José). E há a pequena Larissa Manoela, testemunha silenciosa dos dramas e comédias do filme, e que guarda um simbolismo em si mesma: a do futuro da arte circense, algo que o próprio Benjamin já representou um dia.
Também não é por acaso que Jorge Loredo está onde está. Outro ator que Sélton Mello admira muito, o eterno Zé Bonitinho faz participação como um personagem a princípio carrancudo, mas que tem importância fundamental no filme quando Benjamin o vê contando uma piada. Um piada contada por um humorista de profissão que interpreta um homem “sério” para um ator que interpreta um palhaço (no momento) sem maquiagem. De um palhaço para o outro.
Mello tem um ótimo olhar para colher grandes atores que o cinema brasileiro nunca soube aproveitar. Loredo é um caso, e Moacyr Franco é outro. Franco está absolutamente impagável como um delegado. Só tem uma cena, e é enquadrado de uma única maneira: de frente, sentado atrás de uma mesa. E dá um show que, sozinho, já pagaria o ingresso de O Palhaço. Mas o filme tem muito mais do que isso: é uma realização engraçada e melancólica, absolutamente admirável.
O Palhaço (Brasil, 2011). Direção: Sélton Mello. Elenco: Sélton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Giselle Motta, Teuda Bara, Álamo Facó, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Hossen Minussi, Maíra Chasseraux, Thogun, Fabiana Karla, Jackson Antunes, Tonico Pereira, Moacyr Franco, Jorge Loredo, Tony Tonelada, Danton Mello, Ferrugem, Emilio Orciollo Neto.
* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.
Mosqueteiros quem?
Não dá nem para contar quantas versões existem da obra máxima de Alexandre Dumas – a primeira, segundo o IMDb, data de 1903. Mas vai ser difícil encontrar alguma tão disparatada quanto este novo Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers, EUA, 2011). Pouca coisa restou da obra original, mas o problema nem é esse: é que, o que mudou, mudou para pior, e o que restou foi “adaptado” para se tornar o mais simplório possível.
Claro, a desculpa será sempre atender ao gosto jovem atual. Por isso, o 3D, mais explosões e tiros do que todas as versões anteriores somadas e multiplicadas por elas mesmas, câmeras lentas como “estilo” em cena de ação, e uma mulher que luta, claro, como um homem (a ucraniana Milla Jovovich, esposa do diretor Paul W.S. Anderson e que se especializou nesse tipo de coisa na série Resident Evil). Tudo da maneira mais “fácil” e dentro da receitinha possível.
Na prática, Os Três Mosqueteiros é um filme que em nenhum momento parece acreditar que pode ser um bom filme de… bem, mosqueteiros. Sempre quer ser outra coisa. Começa defendendo a ideia que os mosqueteiros eram os James Bonds da França do século XVII, depois macaqueia as tumbas secretas dos filmes de Indiana Jones e mais à frente mostra que a ideia é ser mesmo um novo Piratas do Caribe, por mais absurdo que isso soe. Termina sem identidade alguma.
Se, a despeito de todas as diferenças possíveis, ainda formos comparar, Piratas ao menos tem Johnny Depp e seu Jack Sparrow. Não há qualquer equivalente de carisma visível neste Os Três Mosqueteiros. Christoph Waltz é evidentemente o melhor ator do filme, mas seu Cardeal Richelieu é tão maltratado quanto os personagens a cargo dos muitos atores inexpressivos.
Matthew Macfayden, como Athos, é o único que consegue algum registro, mas o roteiro simplesmente não o ajuda, nem a Waltz. Os outros dois mosqueteiros, assim como o D’Artagnan de Logan Lerman (protagonista do também péssimo Percy Jackson e o Ladrão de Raios, 2010), passam longe de marcar presença.
Milla Jovovich está linda como sempre e uma atriz sofrível como sempre. Mas, como toda a atenção que o filme lhe dá, acaba se impondo contra, por exemplo, a apagadíssima Constance da inglesa estreante Gabriella Wilde. A Milady de Milla Jovovich, transformada em superagente secreta, saltando de bungee jumping do alto do Palácio de Versalhes, é, no entanto, apenas o sintoma mais evidente de quão errado esse filme é desde sua gênese.
O filme utiliza alguns elementos da história original, mas sempre adaptando para pior, de maneira muito mais rala. O Duque de Buckingham, primeiro-ministro inglês, está lá, por exemplo. Mas ao invés da situação conflituosa de estar apaixonado pela rainha da França em meio às tensões políticas entre as duas nações, o personagem foi transformado em um vilão genérico, à mercê da interpretação de Orlando Bloom, que não vai além da mera caricatura.
Não é por ter sido denso que Alexandre Dumas se tornou um ícone literário. Mas esse Os Três Mosqueteiros (dirigido, não por acaso, pelo cineasta de Mortal Kombat, Resident Evil e Aliens vs. Predador) faz o livro original parecer Dostoiévsky.
Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers, Alemanha/ Fraça/ Reino Unido/ Estados Unidos, 2011). Direção: Paul W.S. Anderson. Elenco: Milla Jovovioch, Matthew Macfayden, Christoph Waltz, Logan Lerman, Orlando Bloom, Luke Evans, Ray Stevenson, Freddie Fox, Gabriella Wilde.
* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba
Filhos da revolução
Durante a preparação de Rock Brasília (Brasil, 2011) e sua apresentação nos festivais, Vladimir Carvalho disse várias vezes as ligações que têm com o rock: que assistiu a Sementes da Violência (de 1955, com música de Bill Haley and His Comets) quando era garoto, que acompanhava o irmão mais novo Walter a bailes e concursos e que usou algumas vezes o gênero como trilha de seus documentários. Ainda assim, impressiona a maneira exemplar como o diretor paraibano conta a história das bandas de Brasília que estenderam as fronteiras do rock brasileiro dos anos 1980 além do eixo Rio-São Paulo.
Essa história é, principalmente, contada através (e bem mais do que pela música em si) dos depoimentos dos integrantes das três principais bandas brasilienses do período – Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Hoje e em entrevistas realizadas ainda em 1988, uma demonstração de faro apurado do documentarista, que registrou o momento sabendo que havia alguma coisa ali, embora não muito bem o quê.
Também falam os pais e familiares dos músicos, depoimentos que se mostram fundamentais para que o contexto seja estabelecido e para que Vladimir leve o filme a outra dimensão: não é só a história do rock ou daqueles caras, mas também uma história da própria Brasília – em anos fundamentais do Brasil, com a ditadura agonizante (mas ainda mostrando os dentes), a campanha pelas eleições diretas, a euforia e frustração do Plano Cruzado.
Vladimir percebeu alguma coisa naquela manifestação jovem e se pôs a gravar entrevistas que se revelaram uma cápsula do tempo. O pessoal das três bandas e mais o Paralamas do Sucesso falam de suas intenções musicais e da relação com a cidade. O cineasta tem, ainda, o apoio de uma entrevista de Renato Russo para a MTV e imagens da Globo.
Chama especialmente a atenção a entrevista que Vladimir faz com Renato Russo. O filme não diz, mas é um dia antes do quebra-quebra histórico no show do Legião Urbana, na volta à cidade após dois anos fora. O show é uma sequência assustadora, montada brilhantemente, mostrando passo a passo como o que se esperava ser um grande momento para Brasília se tornou um caldeirão fervente que acabou entornando.
Como já havia feito em O Engenho de Zé Lins, Vladimir encena algumas pequenas situações, mas sempre na medida para não exigir delas muita dramaticidade – apenas para compor um cenário, uma atmosfera, que é o caso das cenas no Lago Paranoá, sob um texto escrito e lido por Dinho Ouro Preto.
A dramaticidade está, principalmente, nos relacionamentos entre os pais – professores, diplomatas – e os filhos, famílias de classe média que viram surgir nos pátios das superquadras os punks e pós-punks que geraram a cena rock da capital, os filhinhos de papai que resolveram cantar sobre – entre outros assuntos – política, com o dedo em riste. Há muito humor, também, nas peripécias juvenis da turma, dosando as tensões dos esbarrões com a polícia e o exército.
Vladimir Carvalho consegue ir além de apenas relatar uma curiosidade e extrai um sentido geral da história desses jovens músicos – que tiveram destinos diferentes, sejam morte, dissolução definitiva ou não desta ou daquela banda ou o retorno ao sucesso.
Na verdade, mais de um sentido. É a história do divórcio deles com Brasília (simbolizada pelo caótico show do Legião em 1988) e uma espécie de reconciliação anos mais tarde. E também a saga dessas famílias – pais e filhos – também com seus pequenos ou maiores divórcios e reconciliações diários. A cena final, mais emotiva do que costumam ser os filmes de Vladimir Carvalho, reflete isso perfeitamente.
Rock Brasília (Brasil, 2011). Direção: Vladimir Carvalho.
* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba, em 25 de outubro.
A mulher que desestabiliza
Escalar atores não profissionais para protagonizar um filme é sempre um risco. Presume-se que a direção já conte com uma possível perda de naturalidade nos personagens que vão aparecer diante da câmera. Às vezes, dá (muito) certo, caso tanto de clássicos do neorealismo como Ladrões de Bicicleta (1948) quanto do nosso Cidade de Deus (2002). Em Capitães da Areia (Brasil, 2011), de Cecília Amado, fica claro que o jovem elenco ainda pode melhorar.
Mas isso não desmerece o filme dirigido pela neta de Jorge Amado, que tem seus problemas, mas termina com saldo positivo. A direção e os jovens protagonistas ainda conseguem imprimir personalidade em cada um dos personagens – fundamental para manter o interesse.
Esse quase Oliver Twist brasileiro é dividido em duas partes bem evidentes. A primeira apresenta os garotos que, vivendo na rua, unidos e organizados em um grupo, praticam roubos em Salvador. A hierarquia (eles são liderados por Pedro Bala – Jean Luis Amorim – e seu braço direito, o Professor – Robério Lima) e o funcionamento do grupo, os elementos de tensão entre eles, são os elementos dessa primeira parte, que demora a engrenar.
A entrada de Dora (Ana Graciela) muda a história e dá início à segunda metade. Só no mundo com o irmão depois de ter perdido os pais, acaba acolhida pelos capitães da areia e coloca novas situações no tabuleiro. O filme melhora muito depois disso, ganhando ritmo e emoção.
Mas isso só acontece mesmo porque o público sabe o quer, como pensa e o que deseja cada um dos personagens – acredite, esse “básico” não é pouco. O caráter episódico da trama e o carisma dos personagens (mesmo com as limitações circunstanciais do elenco) valem mais do que as belas imagens – um seriado com outras aventuras de Pedro Bala, Dora e seus companheiros não seria de se estranhar.
Capitães da Areia (Brasil, 2011). Direção: Cecilia Amado. Elenco: Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Zéu Britto.
Daqui a uma semana vai começar mais uma eleição do Melhores do Ano 2011 – os melhores filmes exibidos nos cinemas de João Pessoa este ano. Mas como assim eleger os melhores em outubro?
Quem já participou, sabe. Nossa eleição – que acontecia no Orkut desde 2005 e agora está expandindo as fronteiras – é a mais longa do gênero e também a mais justa.
A cada semana será postada por mim a lista dos filmes que entraram em cartaz nos cinemas pessoenses em um mês específico. Os eleitores darão notas de o a 5 para cada um desses filmes. Eu faço a média a cada semana e posto os filmes do mês seguinte. O filme com a maior média final, vence.
Importante 1: se o eleitor não viu determinado filme, deve colocar um “não vi” ou coisa que o valha. A média será feita somando as notas e dividindo pelo número de pessoas que viram o filme. Exemplo: se filme “a” somou 23 pontos com cinco espectadores, sua nota será maior que o filme “b”, que somou 23 pontos, mas com sete espectadores.
Importante 2: não valem notas quebradas. Se aparecerem, elas serão automaticamente arredondadas para baixo.
Importante 3: para ser apto à votação, um filme terá que receber, no mínimo, quatro notas.
Pode comentar à vontade e também pode votar retroativamente. Exemplo: se só depois você assistir um filme que passou em janeiro, pode atualizar o status da nota. O que não vale é mudar uma nota depois de dada.
Só vale votar em uma rede social – comentários no facebook, comunidade no orkut ou comentários no blog. Se eu pegar votando duas vezes, o eleitor está impugnado.
Os eleitores que votarem em todos os meses (mesmo que algum não tenha visto nenhum filme tem que botar lá os “não vi”) estarão aptos a participar de um sorteio. O vencedor vai poder escolher um entre seis filmes em DVD, originais e usados por mim. Vou revelar quais são durante a semana.
A se manter o ritmo de um mês a cada semana, o melhor filme do ano nos cinemas pessoenses sairá em meados de janeiro.
Questões não previstas aqui serão resolvidas pela comissão da eleição: eu.
- Melhores do Ano: Retrospectiva 2006
- Melhores do Ano: Retrospectiva 2007
O filminho de Tom Hanks
Paul McCartney, falando sobre a música “Hello Goodbye”, certa vez disse que sabia que a adorável canção não era das mais elaboradas que já tinha composto. Mas, quando a criou, estava a fim de fazer só uma canção simples e bonitinha mesmo. Deve ter sido mais ou menos isso que moveu Tom Hanks a dirigir e estrelar Larry Crowne – O Amor Está de Volta (Larry Crowne, EUA, 2011): fazer um “filminho”, simples e agradável, sem maiores pretensões.
Larry Crowne não vai jamais aparecer entre as grandes obras de Hanks (nem entre as de Julia Roberts), mas também não é o fracasso artístico que alguns pregaram. É só despretensioso, com alguns elementos que avançam nos comentários sociais (e descarte o péssimo subtítulo nacional, completamente inadequado).
Hanks, como o Larry Crowne do título, é um vendedor que perde o emprego porque, disseram a ele, não tem curso superior. Depois de tentar conseguir outro, sem sucesso, bate o olho em uma oferta de vagas em uma faculdade. E, para não passar por isso de novo, acaba se matriculando em aulas de economia e oratória. Conta com a simpatia da jovem colega Talia (a muito simpática inglesa Gugu Mbatha-Raw, descendente de sul-africanos) e convive com uma professora que não faz questão nenhuma de esconder sua amargura com a vida (Julia Roberts). Larry terá a ajuda de Talia para se reinventar, coisa que a professora também bem que precisa.
Larry é um homem que sofre com a situação econômica americana: desemprego, alta nos preços, problemas com hipoteca… Mas isso é só salpicado pelo filme. O importante mesmo é a mudança interna dos personagens de Hanks e Julia, a recuperação da alegria de viver, mesmo na adversidade. E, se repararmos bem, a situação dos dois, em termos práticos, não chega a mudar muito durante o filme: a nova atitude conquistada é que faz a vida parecer nova.
Embora, para fins de catálogo, o filme seja classificado como comédia romântica, há um tom melancólico como subtexto da trama toda. Há comédia, claro: Hanks mostra, em alguns momentos, que ainda tem talento para o gênero que deu fama a ele. E é escoltado por alguns coadjuvantes que tem seus momentos. E se coloca em situações de potencial ridículo, participando delas sem qualquer dificuldade ou constrangimento.
E também há romance, mas o relacionamento em si é um foco menos evidente do que o habitual no gênero. Ele está lá, mas não é o objetivo final, apenas mais um passo a ser dado. Por isso, pode decepcionar quem espera arroubos e grandes brigas. O tom é outro, um registro mais maduro e cotidiano. Não alça grandes vôos, mas você não precisa sempre alçar grandes vôos mesmo.
Larry Crowne – O Amor Está de Volta. (Larry Crowne, EUA, 2011). Direção: Tom Hanks. Elenco: Tom Hanks, Julia Roberts, Cedric the Entertainer.





























