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Conversei com o Fernando Meirelles sobre os dez anos da primeira exibição de Cidade de Deus no Festival de Cannes. A matéria foi publicada no sábado passado, no Correio da Paraíba, e aqui ela está em versão estendida.
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No dia 18 de maio de 2002, Cidade de Deus foi exibido em Cannes, fora de competição. Mas o filme saiu de lá vencedor, com a grande repercussão que obteve: o primeiro passo para a consagração nas bilheterias e o reconhecimento internacional. Hoje, 10 anos depois, o filme de Fernando Meirelles consta em qualquer enciclopédia séria de cinema no mundo, é relacionado como um dos melhores tanto pelo público quanto pela crítica. “Acho que de certa maneira o mundo de CDD entrou no imaginário do Brasil. Para mim foi o grande prêmio”, conta Meirelles ao CORREIO, por e-mail.
Após Cannes, Cidade de Deus, baseado no livro de Paulo Lins, virou tema de editoriais em jornais por contar, de forma até didática, a evolução do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Mostrava a comunidade carioca de sua aurora nos anos 1960 à violência desenfreada nos anos 1980 e trazia um painel de personagens que ia do bandido mau desde criança ao jovem honesto que não consegue entrar para o crime nem quando quer, passando pelo traficante boa gente, crianças que têm os criminosos como ídolos, jovens “do asfalto” que, através do vício, se integram ao crime, o que tenta evitar a violência, mas não consegue, etc.Zuenir Ventura escreveu que assisti-lo era “um dever cívico”. Já a pesquisadora Ivana Bentes disse que o filme usava uma “cosmética da fome”, em contraposição à “estética da fome” do manifesto de Glauber Rocha e do cinema novo. Um debate acalorado mesmo antes do filme entrar em cartaz nos cinemas.
Quando o filme finalmente estreou, em agosto, o público foi em peso: Cidade de Deus fez 3,3 milhões de espectadores no Brasil, um público a que o nosso cinema estava desacostumado e que nunca deixou de surpreender o diretor. “Estávamos felizes com o corte mas mesmo assim jamais imaginávamos que o filme seria tão bem recebido”, diz Meirelles, lembrando do últimos dias na sala de edição, com o montador Daniel Rezende. “Eu sou muito chato comigo, mesmo, tenho uma estúpida capacidade de ampliar os defeitos do que faço e minimizar os acertos. É trabalho para muitos anos de análise”.

Busca-Pé (Alexandre Rodrigues): “Na Cidade de Deus, se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come”
Coerente, ele também não se deixa embriagar pelo reconhecimento do filme. “Hoje fico feliz de ter participado de um trabalho que marcou, mas não deixo de pensar nem por um minuto que tudo é uma questão de tempo. Mais dias ou menos dias, Cidade de Deus será esquecido, se perderá para sempre – como todos nós, aliás”, afirma. “Com isso sempre em mente, não viajo muito na maionese da ‘imortalidade’ e coisas assim. Imortalidade é coisa para acadêmicos. O Sarney, por exemplo, deve gostar de acreditar que foi alguma coisa na vida e que será imortalizado. Eu não caio nesta cilada”.
Ele não vê o filme desde 2002. “Acho que numa das sessões de promoção em algum lugar fora do Brasil”, recorda. “Não lembro exatamente mas mesmo fazendo tempo ainda sei todas as falas de cor. Que desperdício de memória RAM”. Ele também lembra o que gostaria de mudar no filme. “Achava o filme meio frenético demais, talvez eu o ralentasse um pouco”, conta. “Tem uma sequência inteira, da tentativa de assalto do Busca-Pé no onibus, que ficou bem aquém do imaginado. Era para ser mais engraçada. Tem uma hora que vemos os traficantes saindo da boca para um ataque, onde acelerei a imagem. Ficou bem cafona. Que erro!”.
Os dez anos de Cidade de Deus inspiraram a produção de uma HQ que adapta o filme – ainda por ser lançada – e do documentário Cidade de Deus, 10 Anos Depois, que vai mostrar onde estão todas aquelas pessoas que participaram do filme – principalmente os jovens atores saídos de comunidades e que imortalizaram personagens como Busca-Pé (Alexandre Rodrigues), Bené (Phellipe Haagensen), Filé com Fritas (Darlan Cunha), Berenice (Roberta Rodrigues) e, principalmente, claro, Dadinho/ Zé Pequeno (Douglas Silva quando criança; Leandro Firmino da Hora, quando adulto). Também entrevista os dois nomes famosos do elenco – Matheus Nachtergele (Sandro Cenoura) e Seu Jorge (Mané Galinha) – e Alice Braga (Angélica), então apenas a sobrinha de Sonia Braga, mas que hoje segue uma cada vez mais sólida carreira internacional no cinema.
Meirelles, que preferiu não se envolver diretamente com um doc sobre o filme dele mesmo, conta que continuou acompanhando a vida daquelas pessoas. “Acompanhei algumas delas por anos”, diz. “Há alguns garotos com quem continuo em contato. Como tudo na vida, alguns deles conseguiram aproveitar a oportunidade e deram um salto a partir dali, enquanto outros se afundaram e alguns morreram de forma trágica. Quero acreditar que não haja relação direta entre o trabalho que fizemos juntos e esses que tiveram um destino duro”.
Na época do lançamento, houve quem lembrasse com temeridade do caso triste do protagonista de Pixote – A Lei do Mais Fraco. Por outro lado, também haviam os casos do Vinícius Oliveira, o garoto de Central do Brasil, e, depois, o das crianças de Quem Quer Ser um Milionário?, às quais os diretores deram uma espécie de acolhida e cuidado pós-filmagens. Meirelles lembra que, nas filmagens, pensava no destino que aquelas crianças e jovens teriam após o filme ficar pronto.
“Muito. Assim que acabou o filme, com um enorme esforço da Katia Lund e um apoio meu, foi criada uma ONG para que os garotos pudessem dar continuidade ao trabalho. Esta ONG ainda existe, chama-se Cinema Nosso, tem um site. Fora isso, por ter feito a série Cidade dos Homens na sequência, continuei muito próximo a alguns atores”, conta o diretor. “Criamos um laço muito forte. Cada vez que tenho uma notícia ruim a coisa me pega como se fosse um parente próximo. Fico feliz ao receber notícias de outros garotos que mudaram de vida, mas estão muito bem hoje”.
f Cidade de Deus foi importante na consolidação da retomada do cinema brasileiro, iniciada com Carlota Joaquina, em 1995. “Junto com Central do Brasil (lançado em 1998) foi um filme importante para começar a trazer de volta o público brasileiro para ver nossos filmes”, avalia. “Nesta última década, muitas produções superaram o sucesso de público de CDD. Visto com esta perspectiva o filme foi um degrau a mais nesta escada que é nosso cinema”.
Cidade de Deus ganhou em seis categorias no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (filme e direção, entre eles), o Bafta de melhor montagem (Daniel Rezende derrotou, por exemplo, O Senhor dos Anéis – As Duas Torres e Chicago), foi indicado ao Globo de Ouro de filme de língua não inglesa e a quatro Oscars (direção, roteiro adaptado, fotografia, montagem e direção). Meirelles estava lá, no Kodak Theatre, sendo focalizado no momento do anúncio junto a Sofia Coppola, Peter Weir, Clint Eastwood e Peter Jackson, que venceu por O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (filme que, aliás, levou tudo aquela noite).
“O Oscar é legal mas é um prêmio para a industria americana, não para nós, cucarachos”, pondera. “Vamos aprender a dar um desconto, afinal filme não é esporte para se ganhar ou perder”.
Também é impressionante contabilizar o reconhecimento que Cidade de Deus tem alcançado internacionalmente além dos prêmios e com o passar dos anos – talvez, contradizendo a previsão de Meirelles de que o filme “será esquecido”. Através das notas atribuídas pelos usuários do Internet Movie Database, em um universo de centenas de milhares de votos, o filme é o 18º melhor colocado – com a mesma média (8,7) de Os Bons Companheiros (1990), Guerra nas Estrelas (1977), Casablanca (1942), Matrix (1999), Era uma Vez no Oeste (1968) e Janela Indiscreta (1954).
Já a revista Empire elegeu o filme como o sétimo melhor do “world cinema” – ou seja, os filmes não falados em inglês. Cidade de Deus está à frente, por exemplo, de O Sétimo Selo (1957), de Bergman, em 8º, e A Doce Vida (1960), de Fellini, em 10º. Na lista da revista dos 500 maiores filmes de todos os tempos (uma pesquisa envolvendo cineastas, críticos e leitores), o filme de Fernando Meirelles ocupa uma respeitabilíssima 177ª posição, à frente de clássicos como A Felicidade Não Se Compra e Glória Feita de Sangue e de filmes muito populares como Jurassic Park.
Tudo reflete os motivos pelos quais as portas do cinema internacional foram abertas para Fernando Meirelles. Ele dirigiu, depois, O Jardineiro Fiel (2005, com o qual Rachel Weisz ganhou o Oscar que atriz coadjuvante), Ensaio sobre a Cegueira (2008) e, agora, 360 (2011), que foi recebido com críticas divididas nos festivais de Toronto e Londres, no ano passado. Talvez, até, pegando pesado.
“Alguns jornalistas bateram feio, mas tudo que eu fiz até hoje tomou muita pancada, inclusive Cidade de Deus, então acho que ja aprendi a não me abalar tanto. Me chateia mas passa”, diz. “O filme está vendido para o mundo todo, faço uma turnê de lançamento agora em final de junho até começo de julho, esta é a parte dura do trabalho. E sim, pegaram pesado. É um filme despretensioso e creio que alguns críticos esperavam algo mais bombástico, mas não nasceu para ser isso. A simplicidade também é uma conquista”.
O filme – com Anthony Hopkins, Rachel Weisz e Jude Law – estreia no dia 16 de agosto no Brasil e o trailer será lançado em junho, mas Meirelles já abriu uma conta no twitter para postar informações. O diretor segue a trilha aberta por Cidade de Deus produzindo no Brasil, através da O2, e dirigindo seus filmes. Como ele diz, está acostumado a levar pancada, mas continua fazendo cinema em seus próprios termos.
Após dois meses em cartaz no país, Heleno finalmente chega hoje aos cinemas de João Pessoa (na verdade, um só: o Cinespaço). Conversei com ele por telefone ontem e a matéria está na capa do Caderno 2 do Correio de hoje. Ei-la:
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José Henrique Fonseca não é botafoguense: é vascaíno. Mas é o diretor do filme que retrata um dos maiores ídolos do clube da estrela solitária: Heleno de Freitas, tinha tanta elegância e boa aparência que foi até apelidado de “Gilda” pelas torcidas rivais (numa referência à personagem glamourosa Rita Hayworth, no filme homônimo, grande sucesso nos cinemas da época). Tinha também uma grande capacidade de arrumar problemas. Foi esta a perspectiva que atraiu Fonseca para dirigir Heleno (Brasil, 2012; estreia hoje em JP), com Rodrigo Santoro no papel principal e Alinne Moraes como a mulher do jogador.
“Eu sou atraído por personagens que estão em pontos culminantes de suas vidas, em becos sem saída”, contou o diretor, por telefone, do Rio, enquanto filmava o piloto de uma nova série para a HBO. Ele conheceu a história através do livro Nunca Houve um Homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves (no título, a referência ao slogan de Gilda). “Li o livro ainda no rascunho, gostei muito da história”, contou. Mas alertou que o filme não é uma adaptação do livro. “O filme é mais sensorial, mais íntimo. Não é uma biografia tradicional, é sobre a persona, a psiquê desse cara”.
Um dos elementos que fogem do tradicional é a fotografia do paraibano Walter Carvalho, em preto-e-branco. Apesar da relação com as cores do Botafogo carioca, Fonseca disse que procurou evocar o passado. “Filmei em preto-e-branco porque ele representa a fantasia mais que a cor. Te leva a uma certa magia”, contou. “E o preto-e-branco sempre foi minha formação como cineasta”. Ele achou que essa era a história ideal para buscar esse visual e contou com o apoio de Carvalho. “Já tínhamos trabalhado juntos em 1992”, lembrou o diretor. “É meu superamigo, gostei muito de ter voltado a trabalhar com ele. Só disse: ‘Faz em preto-e-branco. Só quero que fique bom pra c***”.
Esse cuidado no retrato com o passado levou a produção a uma busca por locações que ainda pudessem “interpretar” o Rio dos anos 1940. “O Rio de Janeiro mudou muito”, lembrou. “Tivemos que achar esse Rio da época do Heleno. Foi quase um garimpo arquitetônico”. Há retoques digitais no filme, mas poucos. “Usamos em alguns detalhes do Maracanã e de São Januário”.
A figura de Heleno de Freitas é mais importante que o futebol em si no filme. “Mas ele mostra uma época em que o futebol começou a virar a principal paixão brasileira”, disse o diretor. Ao contrário dos americanos com o beisebol, o basquete e o futebol americano, o cinema brasileiro não tem tradição em ter o futebol como assunto. É um tabu que Heleno tenta quebrar.
“Heleno tenta abrir um pouco a cabeça do espectador”, afirmou Fonseca. “Ele propõe uma narrativa diferenciada, com músicas interessantes, tem Billie Holiday na trilha… Tem cheiro de cinema dos anos 1940”.
Heleno de Freitas jogou entre 1937 e 1953 (pelo Botafogo, até 1948, quando foi vendido para o Boca Juniors). Era habilidoso e bom cabeceador, tendo sido o maior ídolo do clube antes de Garrincha. Na vida pessoal, era bem-nascido e elegante. Mas também era genioso e autodestrutivo – é considerado o primeiro craque problema do futebol brasileiro. Viciado em éter, ele teve sífilis, que o deixou louco. De 1953 a 1959, quando morreu (aos 39 anos) viveu em um sanatório em Barbacena.
Foi em 1984 que Mauricio de Sousa e Osamu Tezuka (ou Tezuka Osamu, como se diz no Japão) se conheceram. Foi o nascimento de uma bela amizade entre os dois quadrinistas, separados por meio mundo. Celebrando esta amizade, o brasileiro conduziu sua equipe em uma bela homenagem ao maior nome dos quadrinhos japoneses: um encontro inédito entre os personagens das duas produtoras em duas edições da Turma da Mônica Jovem (a segunda, a número 44, está atualmente nas bancas).
As versões adolescentes de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali encontram Astro Boy, Kimba, o leão branco e a Princesa Safiri (de A Princesa e o Cavaleiro) em uma aventura na Amazônia. “Tezuka me deixou envergonhado quando disse que eu precisava conhecer a Amazônia, como ele conheceu em sua viagem para o Brasil”, revela Mauricio de Sousa. “Eu, brasileiro, ainda não conhecia de perto a maior floresta do mundo”. Mauricio conta como surgiu a amizade entre os dois artistas, da negociação para o crossover de importância inédita nos quadrinhos brasileiros e dos planos já em andamento para a Turma da Mônica retribuir a visita aos personagens de Tezuka. A entrevista foi publicada hoje no Caderno 2 do Correio da Paraíba.
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- Do que você se recorda do dia em que conheceu Tezuka?
- Nosso primeiro encontro foi quando Tezuka esteve no Brasil em 1984, convidado pela Fundação Japão e visitou nosso estúdio. Foi quando me convidou para visitar o estúdio dele, também. Fiz isso no ano seguinte, em viagem também oferecida pela Fundação Japão. Na ocasião, sugeri que desejava estudar a vida das crianças japonesas em seus diversos aspectos.
- Como era a amizade de vocês? Diria que ele foi o que se tornou mais próximo entre todos os mestres da HQ que conheceu?
- Tezuka Osamu não está entre nós desde 1989. Mas nos seus últimos anos de vida surgiu entre nós uma amizade, uma camaradagem que poucas vezes tive com outra pessoa. Em outra viagem, mais planejada, quando Tezuka completava 50 anos de profissão e fez uma festa, tive a honra de acompanhá-lo numa viagem por todos os pontos que marcaram sua vida. Desde a distante cidade de Takarazuka, com seu gigantesco teatro à moda do Radio City de Nova York, os parques em que ele brincava em criança, a escola, e depois seus estúdios, em Tóquio, seu museu particular, sua família, sua casa… Era um retorno, uma viagem de nostalgia que ele nunca havia feito na vida, um momento de descanso para um artista que fazia meio século não parava de trabalhar. Mas também tive um longo período de aproximação com Will Eisner. Com encontros no Brasil e nos EUA.
- Você escreveu que resolveu conhecer melhor a Amazônia por sugestão do próprio Tezuka…
- Tezuka me deixou envergonhado quando disse que eu precisava conhecer a Amazônia, como ele conheceu em sua viagem para o Brasil. Eu, brasileiro, ainda não conhecia de perto a maior floresta do mundo. Foi aí que surgiu a ideia de fazermos juntos um desenho animado com nossos personagens. Com fundo ecológico, usando a Amazônia como cenário. Anos mais tarde visitei a Amazônia não só para conhecê-la, mas para pesquisar por conta. Naturalmente quando tivemos a ideia não existia ainda a Turma da Mônica Jovem. O estilo próximo ao mangá da TMJ ajudou na composição com os personagens do Tezuka.

Primeiro encontro entre os personagens: Turma da Mônica consola personagens de Tezuka após a morte do criador, em 1989
- Que cuidados foram necessários para combinar os universos de todos esses personagens?
- Primeiro contatamos a família de Tezuka para retomar esse assunto. Foram muito simpáticos e marcaram um encontro no Festival de Livros Infantis de Bologna, na Itália. Contei tudo sobre os encontros com Tezuka e eles foram receptivos à ideia. Aprovaram a participação dos principais personagens de Tezuka na trama – Kimba, o leão branco; a princesa Safiri; e o Astro Boy. Desenvolvemos a história em nossos estúdios assim como os traços dos personagens de Tezuka. Tudo foi enviado para o Japão já com tradução para o japonês. Essa troca de mensagens e material gráfico foi perfeita. Pediram para adaptar uma coisa aqui e outra ali. Mas aprovaram tudo.
- Para finalizar: há algum plano de a história ser publicada também no Japão?
- Estamos iniciando negociação com editoras japonesas para publicar essa história também no Japão. E daqui a alguns meses sairá uma nova história apenas com a Turma da Mônica Jovem viajando para o Japão. Nessa história queremos mostrar como o Japão se reergueu das catástrofes do ano passado e está lindo e preparado para receber visitantes. Principalmente nossos jovens brasileiros.
Renato Guedes, ilustrador da Marvel, está em João Pessoa para autografar seu livro (hoje, no MAG Shopping) e dar uma palestra (amanhã, no auditória azul da Funesc). Esta é a entrevista que fiz com ele, publicada hoje, no Correio da Paraíba.
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Responda rápido: quais são os maiores heróis das histórias em quadrinhos? Super-Homem, Batman, Capitão América, Wolverine estariam entre eles? Pois o paulista Renato Guedes desenhos estes e mais alguns em sua trajetória invejável como artista das duas maiores editoras do gênero nos Estados Unidos: DC e Marvel. Primeiro, na DC, onde ele desenhou por anos títulos ligados ao Super-Homem. Agora, na Marvel, onde ilustra Vingadores Secretos. Com o filme dos Vingadores estreando hoje nos cinemas, ele está em João Pessoa pela primeira vez, convidado pelo Studio Made in PB, para uma exposição de seus trabalhos e para conversar com o público. Hoje, no MAG Shopping, ele autografa o livro Renato Guedes Artbook, enquanto permanece em cartaz a exposição Os Maiores Heróis da Terra, com alguns de seus trabalhos.
O livro traz trabalhos feitos tanto para a DC quanto para a Marvel. “Mostra muita coisa passo a passo, os esboços. É mais voltado para o backstage da coisa”, contou o desenhista ao CORREIO, por telefone, de São Paulo. “Muitas vezes é um trabalho duro e o leitor não sabe”. Muitas edições especiais encadernadas já trazem, como extras, esboços e o processo de criação dos desenhistas. “Dessa certa forma, isso valoriza essa etapa da criação”, afirma.
Sobre os novos tempos na Marvel, ele contou que a mudança não foi tão grande. “As duas editoras trabalham de maneira similar”, disse. Na Marvel, ele começou em Wolverine. “Essa foi uma das minhas vontades de mudar”, disse ele. “Ter um desafio novo, fazer uma coisa que era o oposto do Superman”. Vingadores Secretos, que ainda não está saindo no Brasil com seu traço, é outro desafio: seu primeiro trabalho em revista periódica estrelado por um grupo.
Guedes estudou na antiga Fábrica de Quadrinhos (hoje, Quanta Acadenmia de Arte), trabalhava principalmente com publicidade junto com HQ antes da carreira internacional. Assinou com a agência Art & Comics em 2002, e fez trabalhos para editoras americanas independentes e testes para a DC e a Marvel. Acabou contratado pela DC para a revista Smallville, baseada na série de TV. Daí, passou para os títulos do Homem de Aço e arredores: Adventures of Superman, Superman e Action Comics, além de Supergirl.
“A escolha profissional nem sempre é o que você mais gosta, mas, no caso do Superman, eu fiquei à vontade”, diz ele, concordando que chegar a desenhar a Action Comics, histórico título onde o Homem de Aço estreou em 1938, é um reconhecimento em si mesmo. “Ele é o mais icônico dos heróis. Fazer o Superman mudou completamente a minha carreira”.
A arte de Guedes se destaca pela beleza e por não ser poluída. “Muitas pessoas dizem que é um desenho meio europeu”, afirma. “Eu tenho um estilo que é beaseado nas minhas influências, dos mais variados possíveis. Manara, Moebius, Katsuhiro Otomo. Mas também ilustradores como Normal Rockwell… É o que sai naturalmente, é o que eu sei fazer”.
Por incrível que pareça, nessa visita finalmente Renato Guedes vai conhecer o paraibano Mike Deodato, seu companheiro de Marvel (atualmente em New Avengers). “É engraçado isso. Muitos amigos que até moram em São Paulo eu só encontro em conevenções em outros mpaís. E o Deodato, nunca encontrei”, diz.
No sábado, o evento será no Espaço Cultural, onde Renato Guedes vai apresentar uma palestra, no Auditório Azul, a partir das 14h. Gratuita, mas com vagas limitadas (inscrições através do e-mail palomadiniz.studiomadeinpb@gmail.com).
Olha aí, a entrevista que fiz com o pianista Arthur Moreira Lima, capa do Correio de hoje. Ele se apresenta hoje, às 19h30, em João Pessoa.
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O caminhão-teatro de Arthur Moreira Lima já percorreu 200 mil quilômetros. “Está marcado no velocímetro”, contou ao CORREIO. “É o mesmo que cinco voltas ao mundo”. Desde 2003, já são mais de 430 concertos do projeto Um Piano na Estrada, no qual o pianista vem percorrendo o país inteiro – atualmente, com a quinta etapa do circuito Brasil Sertões 2. Hoje, o caminhão-piano está em João Pessoa, no Ponto de Cem Réis, com o concerto começando às 19h30.
Essa experiência de tocar em praças e cidades que há muitos anos não viam uma apresentação de música clássica – ou até nunca viram – tem deixado a melhor das impressões no pianista. “Não só com relação ao número de pessoas, mas é também a maneira como ouvem: é um público muito musical”, disse. “Muitas vezes a própria organização dos concertos tradicionais não presta atenção a isso”.
Para o projeto, o caminhão é fundamental. “Meu caminhão parece um teatrinho mesmo”, contou Arthur Moreira Lima. “Fica muito mais íntimo, parecendo um sarau. O palco tem cinco metros de profundidade”. Segundo ele, a ideia surgiu para servir ao projeto. “Primeiramente, um palco era muito dispendioso para as prefeituras. E o caminhão dá essa ideia de deslocamento”, disse. “A tradição dos saltimbancos, dos menestréis, da arte representada”.
O pianista já tocou em uma balsa, já chegou ao Oiapoque e ao Chuí, já tocou na tríplice fronteira (no Acre). “Já toquei em todos os estados do Brasil”, disse. Com o projeto, ele tocou em Campina Grande. Mas já se apresentou também no Teatro Santa Roza, nos anos 1980, onde teve problemas com o piano. “Metade das notas não tocava!”, lembrou. “Mas eu voltei depois, em 1993”. O pianista tem outras ligações com a Paraíba. “Minha família é de Areia”, contou. “Meu avô era paraibano, foi desembargador em Campina Grande”.
Arthur Moreira Lima começou a estudar piano aos seis anos de idade. Aos oito, deu seu primeiro recital, na Associação Brasileira de Imprensa: tocou Beethoven, Chopin e Paderevsky. Aos nove, ganhou o concurso para jovens solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Aos onze, concorreu de novo e ganhou novamente.
Ele estudou com Lúcia Branco, a mesma professora de piano de outro ás do instrumento: Antônio Carlos Jobim. “Ele era mais velho do que eu”, contou. “Eu era garoto. Lembro que a professora dizia que ele tinha músicas lindas e seria melhor que se dedicasse a elas”. Os dois voltariam a se encontrar muitas vezes no futuro. “Eu estive muitas vezes com o Tom. Ele era muito simples, muito fácil de lidar”.
Já tocou no Lincoln Center, em Nova York, e em uma garagem de ônibus na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Tanto morou duas décadas na Europa (Paris, Moscou, Viena), quanto se embrenha país adentro com o projeto Um Piano pela Estrada – levando Mozart a bairros populares e pequenas cidades, ou Pixinguinha às principais salas de concerto do mundo.
“Existe um segredo”, afirmou. “Eu toco música clássica que, de tão conhecida e aclamada, virou popular. E toco música popular que é tão boa que virou clássica”.
Hoje ainda tem Improvável em João Pessoa. Na esteira, publico aqui a entrevista que fiz com Anderson Bizzocchi para o Correio da Paraíba de quinta passada, estendida e com o tempo atualizado.
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Os comediantes vivem com medo de que as piadas de seus shows acabem parando no YouTube e o público já saiba como é o espetáculo. Mas isso não acontece com a Cia. Barbixas de Humor e o Improvável. Semanalmente, uma cena é postada – simplesmente porque, como trata-se de um espetáculo de improviso, nenhuma apresentação é igual à outra. O espetáculo está sendo apresentado em João Pessoa neste sábado e domingo, no Teatro Paulo Pontes. Quinta, uma prévia muito especial pôde ser vista na internet: pela primeira vez o espetáculo foi transmitido na íntegra on line e ao vivo. “Muita gente sempre reclamava que a gente só colocava um vídeo por semana no YouTube”, conta Anderson Bizzocchi, integrante do trio que forma os Barbixas, por telefone, de São Paulo.
Ele e os outros dois do trio – Daniel Nascimento e Elidio Sanna – foram entrevistados pelos fãs no programa + Ao Vivo. Na sequência, a apresentação do Improvável foi transmitida ao vivo, no YouTube, no Google + e no Orkut.
Improvável funciona a partir de jogos de improvisação. Há um mestre de cerimônia que comanda os jogadores e colhe ao acaso situações com a plateia. É inspirado em exeriências anteriores, como o programa de TV Whose Line Is it Anyway?, que teve versões britânica e americana, e as peças nacionais Zenas Improvisadas e Jogando no Quintal (que já se apresentou em João Pessoa).
No começo, para facilitar a divulgação do projeto, os Barbixas decidiram colocar um vídeo no youtube. “Na época, o YouTube estava começando, era uma coisa nova”, lembra Anderson. “E isso substituía levar o DVD fisicamente aos produtores. Podíamos mandar um e-mail com um link dizendo “esse é o nosso trabalho, veja”.
Mas eles foram surpreendidos com o sucesso: os vídeos passaram a ser cada vez mais vistos pelos internautas. “A gente percebeu que poderia ser um produto forte”, conta. “E toda quinta colocamos um vídeo novo na rede, desde 2008”.
Resultado: o Improvável virou um canal no YouTube, com quatro milhões de acessos por mês e a recente inclusão entre as 100 webséries mais vistas do mundo. Como são quatro jogadores, além do mestre, os Barbixas recebem sempre dois convidados – e grandes nomes do humor já fizeram participações.
Para João Pessoa, como Daniel Nascimento não pôde vir, serão três os convidados para compor o time: Fábio Lins, Andrei Moscheto e Edú Nunes.
Anderson afirma que, nos cinco anos em que apresentam o espetáculo, eles buscam o aperfeiçoamento. “O aperfeiçoamento das técnicas de improvisação e da nossa relação como grupo. Você epera muito a resposta do companheiro”, diz.
Ele conta que o jogo do “troca” e as “cenas improvisadas” são os momentos mais esperados. No primeiro, os participantes precisam, ao comando do mestre, mudar a última coisa que disseram na cena. No segundo, situações escritas pela plateia na entrada do teatro são sorteadas e precisam ser improvisadas na hora. “Esses eu posso dizer que são quase fixos. Estão em 90% das apresentações”, diz ele.
Anderson fez faculdade de rádio e TV, assim como Daniel. O trio, no entanto, já se conhecia na adolescência. “A gente sempre falava que tinha sido na universidade porque não tinha muita graça dizer que se conhecia na adolescência”, brinca.
Os Barbixas já estiveram na TV, no começo do Quinta Categoria, na MTV, e no É Tudo Improviso, na Bandeirantes. Agora, se preparam para lançar o primeiro DVD. Está em fase de finalização, com a gravação de duas apresentações feitas em 2010, na cidade de Santo André. Na TV, eles havia reduzido suas participações na segunda temporada de É Tudo Improviso e já não apareciam mais na terceira.
“O convite inicial da Band foi para a Cia. Barbixas e eles quiseram aumentar o elenco”, conta ele, sobre o começo do projeto. “Ao término da primeira temporada, percebemjos que nossos compromissos no teatro estavam ficando para trás. A gente não estava conseguindo conciliar”. Eles foram se revezando na atração até a saída amigável, deixando o programa a cargo de Márcio Ballas, Cristiane Wersom, Mariana Amberllini, que formavam o elenco fixo com os Barbixas na primeira temporada, e outros colegas. “Mas a TV interessa, sim”, reafirma o ator, deixando portas abertas para o futuro.
O sucesso impressiona. Inclusive, as manifestações românticas das garotas – como se pode ver em diversos comentários da entrevista com Elidio Sanna aqui mesmo no Boulevard, em 2009. “A gente tem esse carinho, que a gente agradece muito”, diz, rindo. “O pessoal da MTV disse – e nós não concordamos! – que somos os Backstreet Boys da improvisação. Veja como somos velhos! Não somos nem os ‘Justin Biebers’!”.
Desde 2006, o jornalista Paulo Ramos cobre e analisa o mercado de histórias em quadrinhos através do Blog dos Quadrinhos. Esse tempo de observação, além de sua pesquisa na USP já rende livros teóricos e jornalísticos interessantes sobre a área. Paulo esteve em João Pessoa em 2010 para lançar Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, e agora volta para o lançamento de Faces do Humor – Uma Aproximação entre Piadas e Tiras (Zarabatana Books), cuja sessão de autógrafos será hoje, na gibiteria Comic House, em Tambaú, às 18h.
O livro aborda as tiras de jornal e sua relação com o humor. “A ideia surgiu após perceber que as tiras cômicas usavam de artifícios muito parecidos com os das piadas para provocar o efeito de humor”, conta ele. “Tanto tiras quanto piadas são narrativas curtas com desfecho inesperado, que leva ao humor. Não é a única aproximação entre ambas, mas seguramente é a principal”.
Faces do Humor vai um pouco mais fundo, ao investigar se tiras cômicas são piadas. “Para poder fazer uma aproximação entre piadas e tiras, foi necessário, antes de tudo, entender exatamente como se processa o humor e como ele é utilizado nas piadas em si”, diz. “A definição de piada, por exemplo, é bem difícil de ser feita. A palavra agrega diferentes possibilidades de uso: piada pode ser brincadeira, uma narrativa curta com desfecho inesperado, uma maneira jocosa de se referir a alguém. Após essa discussão, é que pudemos adentrar no terreno dos quadrinhos e das tiras”.
Para analisar as relações entre essas duas formas de produção do humor, Paulo Ramos se debruça sobre a produção de alguns dos melhores quadrinistas nacionais do gênero. “Procurei utilizar vários exemplos para tornar a leitura mais acessível. E divertida, já que a maioria dos casos são piadas e tiras”, conta. “Isso ocorre desde o início até o final da obra. Nos capítulos finais, faço uma análise mais detalhada em quatro séries de tiras: As Cobras, de Luis Fernando Veríssimo; Cascão, de Mauricio de Sousa; Classificados, de Laerte; Níquel Náusea, de Fernando Gonsales. Em cada uma delas, procuro investigar um aspecto diferente”.
Paulo Ramos desenvolveu a pesquisa para o doutorado na Faculdade de Letras da USP, defendido em 2007. Nos quatro anos até o lançamento de Faces do Humor, que chegou às livrarias em agosto de 2011, o jornalista atualizou o material e adaptou o texto para se dirigir a todos os leitores (e não só os da academia).
Um novo livro já está a caminho: uma antologia dos textos publicados no Blog dos Quadrinhos, com o título Revolução do Gibi – A Nova Cara dos Quadrinhos no Brasil, com mais de 500 páginas e editado pela Devir. O lançamento está previsto para abril ou maio, em 20 temas. “Cada um deles compôs um capítulo da obra. Lidas em sequência, essas informações ajudam a entender o atual momento do mercado brasileiro de quadrinhos e os motivos que levaram a esse novo cenário”.
Um panorama abragente como nunca se viu em uma publicação do tipo no Brasil.
- Você acredita que, para o púbico em geral, as tiras são identificadas principalmente com o humor, embora não faltem exemplos de outros gêneros (como aventura e tiras existenciais)? O livro tenta desmistificar isso?
Diria que, no Brasil, as tiras são associadas quase exclusivamente ao humor. Pelo menos, do ponto de vista do público em geral. O livro procura mostrar como se dá o funcionamento dessa forma de tiras, sem dúvida a mais conhecida e produzida no país. Mas a obra também ajuda a entender as outras maneiras de produção de tiras, como as seriadas, as cômicas seriadas e as livres.
- Que assuntos são abordados no livro?
Como o tema é amplo, foi necessário fazer um passeio por diferentes campos do conhecimento. O leitor irá encontrar exposições sobre as diferentes teorias do humor, com correntes da Linguística que preocupam com o texto, com as diferentes maneiras de produção das histórias em quadrinhos, com estratégias de leitura de uma tira. Tudo para preparar o terreno para a análise em si, que procura demonstrar que as tiras cômicas usam estratégias semelhantes às piadas para a produção do efeito de humor.
- Bienvenido e Leitura dos Quadrinhos também estarão sendo vendidos. Como andam as trajetórias desses livros?
Os dois tiveram uma ótima repercussão. Prova disso é que ambos venceram o Troféu HQMix, A Leitura dos Quadrinhos em 2010 e Bienvenido em 2011. A Leitura dos Quadrinhos já foi reimpresso e chegou até a ser adotado para a formação de professores de todo o estado de São Paulo. Bienvenido está quase esgotado. Os dois estarão à venda neste sábado, em João Pessoa, mas vai haver pouquíssimos exemplares de cada um.
Entrevistei Rita Lee pela segunda vez na semana anterior ao show que ela fez hoje de madrugada. Foi por e-mail como há anos ela costuma responder às entrevistas, mas parece que ela está falando com você ao vivo. Confira abaixo o texto publicado no CORREIO de ontem.
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“Eu achava muito chato fazer aniversário no ano novo, até que comecei a fazer shows”, diz a cantora Rita Lee, que faz o principal show do réveillon em João Pessoa. Ela, que nasceu em um 31 de dezembro, se apresenta após os fogos da virada do ano. A noite começa com grupo de cultura popular que se apresentam a partir das 18 horas. Por volta das 22 horas, Antônio Nóbrega sobe ao palco. Depois do show de Rita, a Orquestra Sanhauá continua animando o público com seu frevo até o amanhecer. A cantora conversou com o CORREIO por e-mail, como costuma dar entrevistas. “Descobri uma maneira super divertida de passar a data”, conta ela. “Tenho entrado todos os anos fazendo shows, cada vez num canto do Brasil”.
Sem lançar um disco de inéditas desde 2003, com o Balacobaco, Rita não tem, no show ETC…, a “obrigação” de divulgar um novo trabalho. O público pode esperar, principalmente, os grandes hits da, como uma vez chamou João Gilberto, “roqueira com voz de bossa nova”. “Quando saio pra estrada numa turnê, não há nada fixo: músicas, luz, figurino, tudo muda”, diz a cantora. “Temos muita bagagem musical e, de repente, me dá na telha de mudar o repertório, tiro e ponho músicas conforme o humor do dia, mas sei que o público que vai me ver espera ouvir os hits mais populares”.
A animação já começou no twitter, onde Rita pediu aos fãs pessoenses que escolhessem entre duas músicas para o show: “Atlãntida” ou “Amor e sexo” – aparentemente, deu a segunda. Também perguntou se era certeza que ela não precisaria trazer casaco na mala, caso o frio de São Paulo aportasse aqui. Casaco em João Pessoa, onde já se viu?
Rita é assídua no twitter (onde assina como @LitaRee_real), onde dá vazão a suas opiniões e delírios e conversa com os fãs – mas sem tratá-los com qualquer tipo de condescendência. Já teve aborrecimentos que a fizeram abandonar temporariamente a rede social – principalmente quando criticou o futuro estádio do Corinthians, no afastado bairro paulista de Itaquera. Mas ela acabou voltando. “Eu me vicio fácil, fácil… E acho terapêutico escrever o que dá na telha”, diz.
Ela afirma que não tem qualquer preferência no seu repertório. “Música é que nem filho, não tenho preferência”, conta. “Não sou saudosista e, depois que gravo um disco, nunca mais escuto”. Curiosamente, ela anda sem paciência para música cantada. “Quando não estou na estrada, no meio da loucura, vivo enfurnada em casa e só tenho saco para escutar música instrumental, das clássicas às eletrônicas”, revela. “Ando cansada da palavra falada e cantada, dos discursos, portanto não posso dizer que tenho acompanhado o que está rolando de mais atual. Só sei que o rock dança conforme os tempos e que tem muita meninada bacana no pedaço, é bom ficarmos antenados”.
Mas a intimidade de Rita Lee não está só nas canções. Nos anos 1980, ela escreveu uma série de livros infantis, Dr. Alex, uma face que muita gente desconhece. “Quando meus meninos eram pequenos escrevi quatro livrinhos sobre as aventuras do Dr. Alex, um ratinho que fugiu do laboratório para defender o direito dos animais”, lembra. A série há muito tempo não ganha um novo volume. Em tempos em que até Madonna está escrevendo livros infantis, ela não pensa em retomar a literatura? “Talvez ele volte a dar as caras agora, com minha neta Ziza”.
Um disco novo de inéditas é mais certo de aparecer em 2012. Rita vem trabalhando em dois projetos simultâneos: este, ainda sem nome, que terá a participação de Igor Cavalera; e Bossa’n’Movies, com regravações de canções que marcaram o cinema. “Estamos finalizando, vamos lançar no próximo ano”, confirma. Ela também pediu sugestões no twitter sobre o que cantar, mas não adianta o repertório. “Por enquanto, surpresa”.
Para o show da madrugada, a surpresa não é tanta: o público pode esperar sucessos como “Ovelha negra” e “Lança perfume” entre tantos outros. O reencontro com o público pessoense depois de dez anos – o último show dela por aqui foi em 2001, no Espaço Cultural – tem tudo para ser um presente de aniversário para ela e um belo começo de ano para os pessoenses.
Diretor de filmes como Leila Diniz (1987) e For All – O Trampolim da Vitória (1997), Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, apresenta hoje no Cineport, às 22 horas, o documentário Casa 9, sobre o conjugado em que ele morou em uma vila de Botafogo e que se tornou um ponto de confluência cultural impressionante – além dele, moraram lá Jards Macalé, Fábio Barreto, Sonia Braga e Lenine, além dos artistas que frequentavam o local.
Você teve a ideia do filme quando passou por acaso em frente à casa, não foi?
Fui bater na rua sem querer. Tentando fugir de um engarrafamento, acabei parando lá. E fui embora pra casa lembrando as histórias que aconteceram ali. Depois, fui conversando com as pessoas e elas foram lembrando mais histórias.
Por que você acha que a casa tinha esse astral? Tem explicação?
Não tem. Era a época mais dura da ditadura. E aquele era um lugar que respirava liberdade absoluta. Era um foco de luz na cidade numa época muito obscura. Depois que morei o Lenine morou e recebeu músicos paraibanos e do Nordeste inteiro. Hoje, lá, moram duas produtoras de cinema e um rapaz que é músico!
O filme está no Festival do Rio. Mas vai ser lançado comercialmente no cinema?
Provavelmente não. Como o Canal Brasil é co-produtor, vai passar lá. Não é um filme para o mercado, é para a memória brasileira.
Nascida em São Luís do Maranhão, a atriz de pais portugueses foi para Portugal com um ano de idade. Começou a fazer teatro ainda na infância, morou três anos no Rio (dos 10 aos 13, quando estudou na Casa de Cultura Laura Alvim) antes de ir de vez para Lisboa. Hoje, aos 21 anos, é uma requisitada atriz do teatro e cinema lusitano. No Cineport, está com o filme Como Desenhar um Círculo Perfeito, que passa sábado, às 16h.
É uma impressão errada ou a produção cinematográfica em Portugal tem crescido?
Portugal é um país pequeno e não se fazem tantos filmes assim por ano. O que acontece é que tem mais novos realizadores surgindo.
As novelas brasileiras são muito presentes na TV portuguesa, mas o cinema brasileiro, você conhece?
Eu gosto muito do cinema brasileiro. É muito diferente do português, do europeu. O Brasil é um país tão grande que tem vários tipos de cinema. Adoro o Walter Salles.
Você já fez algum trabalho no Brasil?
Fiz um extra em Presença de Anita, apenas. Eu quero vir ao Brasil trabalhar em Cinema, e também em TV, que sei que é um meio muito importante aqui.
A Companhia de Dança Deborah Colker apresentou seu novo espetáculo Tatyana em agosto, em João Pessoa. Foi quando a entrevistei por telefone para o Correio. Hoje, o espetáculo estreia em São Paulo e aproveito para colocar aqui a entrevista.
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Deborah Colker, contadora de histórias
Os avós de Deborah Colker, tanto paternos quanto maternos, eram russos. Isso não a fez ter um especial interesse pela cultura daquele país. “Mas é algo com que eu tenho intimidade”, contou a coreógrafa ao CORREIO, por telefone, do Rio. “Desde pequenininha ouço o meu avô lendo contos do Dostoiévsky e outros autores”. Pois foi baseado em uma obra de Alexandre Pushkin, considerado o pai da moderna literatura russa, que ela concebeu o novo espetáculo Tatyana.
O espetáculo é uma adaptação do romance Eugene Onegin (no original, Evguêni Oniéguin), de 1833, escrito em versos que foi adaptado por Tchaikovsky para uma ópera em 1837. Deborah enfrentou o desafio de transformar os versos de Pushkin em passos de dança. E, se o balé clássico sempre teve por base contar histórias, não é o caso da dança contemporânea. Tatyana é seu primeiro espetáculo com uma história com começo, meio e fim.
“Na verdade, isso não caiu de paraquedas na minha mão. ‘Eu não disse: ‘Ah, agora tá na hora da dança conteporânea lidar com a literatura!’”, explica Deborah. “Meus outros espetáculos eram sobre ideias. Casa era sobre o cotidiano; 4 x 4 era sobre dança e artes plásticas; Velox era dança e esportes; Rota era a gravidade… E Nó era um espetáculo que questionava a condição humana. Era sobre o desejo, e desejos podem ser os mais terríveis,
os mais perversos”.
Na preparação do Nó, Deborah passou a estudar filosofia com seus bailarinos. “O ser humano conta uma história de vida. E eu quero que cada bailarino tenha uma história e falar de valores éticos, amizade, amor, amadurecimento. Isso começou a se desenvolver dentro de mim desde 2003”.
A evolução dessa ideia a levou a Pushkin. “Toda a cultura russa do século XIX é impressionante”, diz ela. “Na poesia tinha Maiakovsky, na música Tchaikovsky e todos os compositores, no romance Dostoiévsky, Tolstói…”.
Mas ainda havia o desafio da adaptação. “Até que ponto você quer que o público entenda essa história?”, ela pergunta, como se tivesse questionado a si mesma. “Se o público entender, é mais gostoso, enriquecedor. Mas a dança contemporânea pode não contar uma história, embora esteja contando outras coisas”.
As diferenças para o balé clássico são evidentes. “O mundo clássico se apropria da pantomima, da mímica”, explica Deborah. “Isso, pra mim, não era relevante”. Ela elaborou sobre a história, resumindo tudo aos dois casais principais: Oniéguin e Tatyana, e Vladimir e Olga. E vários bailarinos interpretam ao mesmo tempo os personagens. “Todos os homens são Onegin e todas as mulheres são Tatyana”, diz. “Cada bailarino tem uma faceta da personalidade, um movimento diferente”.
O cenário tem uma grande árvore metálica, criada pelo cenógrafo Gringo Cardia. “A árvore é o lugar da aristocracia rural. É uma abordagem muito diferente. E posso te dizer que me cocei para fazer essa abordagem diferente”, conta Deborah Colker.
Para fazer algo tão diferente, foi preciso conhecer bem a obra original. “Eu mergulhei muito no livro”, confirma ela. “Foi muito bacana fazer meus bailarinos lerem Pushkin. A gente leu cada capítulo, improvisou, viu o que era
importante. Fiquei dois anos debruçada em cima desse livro”.
Curiosamente, Eugene Onegin já foi adaptado para balé clássico por John Cranko, como Onegin. “A minha adaptação pega seis capítulos do livro, a dele dois”, diferencia. “Eu trago do livro a sequência do sonho, a superstição, a colheita e a sequência da carta de uma maneira diferente. E não é uma história de amor: é uma história da vida, de transformação”.
Em Tatyana, Deborah Colker também voltou a dançar, o que não pôde fazer nos últimos espetáculos, até pelas ocupações com o Cirque du Soleil, para o qual dirigiu Ovo. “Era impossível estar em dois países ao mesmo tempo”, diz. “Quando eu comecei a fazer Tatyana, todo mundo perguntava: ‘Você vai dançar?’. E dizem que faz a maior diferença!”.
Mas o começo da coreografia não previa a participação de Deborah: apenas um bailarino faria Pushkin. “Mas havia toda uma parte ligada aos cinco sentidos, muito sutis. E ninguém tava conseguindo fazer do jeito que eu queria. Aí, comecei a fazer”.
A brincadeira de interpretar o narrador reflete uma relação do autor e sua obra: Pushkin e o livro e Deborah e o espetáculo. “Pushkin era um autor que interferia, se apaixonava e sofria com os personagens”, diz Deborah. “Então, no palco, você tem um Pushkin, que, na verdade, é a Deborah”.
* Publicado no Correio da Paraíba
Leia mais:
* Os shows de Rafinha Bastos em Campina e em João Pessoa lotaram seis sessões. Minha entrevista com o humorista saiu no Correio de sexta, mas só pude colocá-la no ar hoje, desculpem. Mas coloco aqui um adendo: soube que ele visitou Shaolin duas vezes enquanto esteve em Campina Grande e, além da força dada ao colega paraibano, disse que quer vê-lo recuperado para ser convidado para a bancada do CQC.
A entrevista ainda vale. Fiquem aí com ela:
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“Estamos vivendo um momento muito especial onde as pessoas começam a entender o que eu faço. Estou à frente de um movimento muito especial”. Assim Rafinha Bastos define a ebulição em torno do humor no Brasil. Maior expoente dos novos comediantes brasileiros, pioneiro no país do stand up (que é tradição nos Estados Unidos, mas ainda relativamente novidade aqui), irreverente e implacável, ele recentemente se dividiu entre a alegria de ser matéria de capa de um caderno do New York Times como o grande nome deste segmento do humor (a bordo, também, de ter sido apontado como a pessoa mais influente do mundo no twitter) e explicações na polícia por conta de uma piada feita em um show. O novo show tem um nome que tira proveito da polêmica: Péssima Influência. O anterior, A Arte do Insulto, do solo que ficou em cartaz de 2007 a 2010, já é um sucesso em DVD.
A discussão a respeito dos limites do humor vai longe. Mas Rafinha tem uma posição firme a respeito. “Eu sou comediante. Comediante faz piada. É simples assim”, diz ele, em entrevista ao CORREIO, falando do processo em que foi acusado de apologia ao estupro (ele teve que prestar depoimento à polícia no começo de agosto). “Nunca subi num palanque. Tudo foi dito no palco, um ambiente que por si só já carrega uma desconstrução. Descontextualizada, qualquer piada perde a graça e vira agressão”.
Rafinha também fala sério nos programas em que participa na TV. Entre um mar de piadas na bancada do CQC, ele se mostrava combativo e sério no quadro “Proteste Já” e em matérias no Congresso Nacional. E esse é o tom que aparece mais em A Liga. Nesses momentos, também aparece seu lado jornalista – e já houve quem dissesse que a comédia stand up, por lidar principalmente com o cotidiano, tem um pouco de jornalismo. Mas ele não embarca muito nessa.
“Eu sequer gosto destes rótulos. O que é jornalismo? O que é humor? Quando você me vê no Congresso e vê o Bonner no CQC, fica claro que as fronteiras são muito tênues”, diz, referindo-se a erros de William Bonner no Jornal Nacional que foram parar no quadro “Top Five”. Também nunca considerou o “Proteste Já” ou A Liga como exemplos do contrário do que muitas pessoas o acusam. “Não pensei sobre isso. Filosofia atrapalha o trabalho. Tenho piadas a fazer”, afirma.
O sucesso no twitter não é estranho a Rafinha Bastos. Estrela na TV e nos palcos, foi na internet que seu sucesso começou, depois que morou nos Estados Unidos, onde chegou até a jogar na liga universitária de basquete (ele tem 2,10m). A Página do Rafinha surgiu como um meio de fazer humor esportivamente, mas deu mais do que certo.
“Eu sempre investi na internet porque ali tive a liberdade de fazer o que quis”, conta o humorista. “Foi a primeira oportunidade que tive de fazer comédia sem nenhuma restrição. A web é a minha casa e tenho muita vontade de continuar produzindo para o veículo”. Produzir para a internet trouxe ensinamentos. “Ensinou que as pessoas se sentem mais próximas quando você estabelece uma ligação mais humana e real com elas. Isso é fundamental”, diz.
O primeiro show de Rafinha Bastos na Paraíba deveria ter acontecido em agosto de 2009, em João Pessoa, mas um problema envolvendo a produção nacional e a produção local levou ao cancelamento da apresentação na véspera da data marcada. “Tive alguns problemas e cancelei o show, mas agora estou voltando muito empolgado. Faz tempo que estou para ir a Paraíba. O povo sempre me cobra. Vai ser muito legal”, promete.
O show, no entanto, é outro. Na época, era A Arte do Insulto que ainda estava em cartaz. A Paraíba foi o único estado que não viu o show anterior, mas Rafinha não pensa em misturar os dois espetáculos para essa apresentação. “Eu não pensei sobre isso. Acho que vou fazer o show novo mesmo e levar o DVD do antigo pra quem quiser assistir em casa”, diz. “Estou ansioso pra finalmente pisar no palco da Paraíba”.
* Publicada no Correio da Paraíba de 2/ 9/ 2011.
Leia outras entrevistas com o pessoal do CQC:
- Marco Luque
- Marco Luque (2)
- Oscar Filho
- Rafinha Bastos (1)
– Felipe Andreoli
- Rafael Cortez
- Danilo Gentili
Nesta sexta tem show da Zizi Possi de graça no Espaço Cultural. Que coincidência: foi o gancho perfeito para uma entrevista com a cantora, o que eu já estava com vontade de fazer há várias semanas. A correria que antecedeu o papo – a agenda da cantora estava cheíssima – não deixava prever o prazer da conversa. Falamos principalmente de seu início de carreira e ela ainda falou um pouquinho de algumas de suas pincipais canções.
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Zizi Possi, uma das mais belas vozes da músixca brasileira, poderia ter sido uma intrumentista de concertos. A cantora, paulistana e descendente de napolitanos, que faz show hoje em João Pessoa (às 18h, no Espaço Cultural, com entrada franca), contou em entrevista que começou a estudar piano clássico aos quatro anos e que não “escolheu” a carreira na música popular. “Nunca quis nada, eu ia fazendo”, disse, por telefone, de São Paulo.
Maria Izildinha Possi, ou apenas Zizi, se apresenta no Som das 6 com o show Cantos & Contos, originário dos dois DVDs onde ela comemora seus 30 anos de carreira. A vida acabou levando-a por este caminho de tantas canções, algumas especiais, que ela comenta nesta entrevista (veja abaixo). mas poderia ter sido diferente. “Desde pequena tenho formação erudita muito forte, de piano clássico”, lembra Zizi. “Entre na escola com quatro anos de idade e já fui aprendendo ali a linguagem musical”. Suas primeiras referências, portanto, são desse universo. “Sempre ouvi canções dos livros que eu tocava: Chopin, Mandel…”, conta.
No rádio, ela ouvia Vicente Celestino. “Eu adorava. Tinha um programa chamado A Noite da Saudade, que eu sempre ouvia. Depois, veio uma época italiana muito forte: Domenico Modugno, Rita Pavone…”, complementa, brincando. “E ouvia muito Gonzagão. As influências mais loucas do mundo”.
E, claro, muita Jovem Guarda. “Quando surgiu, você não tem noção de como enlouqueci com isso”, conta. “Eu fiz promessa porque queria casar com o Roberto Carlos!”.
Zizi estudou piano até os 17 anos. Aí, em 1973, mudou-se para Salvador, para estudar na UFBA e se formou em Composição e Regência.
“Eu não pensava muito no que eu queria ou não queria”, diz. “Naquela época, acho que a gente pensava nisso depois. A vida foi me mostrando o que queria de mim”.
E a vida se mostrou através de Roberto Menescal, compositor e músico sempre ligado à história da Bossa Nova. Mas como ela conheceu Menescal?
“Foi ele quem me conheceu”, lembra, rindo. “Ele foi para Salvador e soube que eu existia”. Na época, Zizi cantava em bares na noite soteropolitana e Menescal era diretor artístico da Polygram. “Eu tinha gravado um programa de televisão local. Ele viu e me deixou um bilhete”, conta a cantora.
Quando foi feito o contato, Zizi trocou Salvador pelo Rio e gravou seu primeiro disco: Flor do Mal (1978). No mesmo ano, ninguém menos que Chico Buarque a convidou para dividir a faixa “Pedaço de mim” no disco dele. Vários hits foram enfileirados a partir daí: “Meu amigo, meu herói” (1980), “Caminhos de sol” (1981), “Asa morena” (1982), “O amor vem pra cada um” (excelente versão de “Love comes to everyone”, de George Harrison, 1983), “Perigo” (1986), “Noite” (1987). A cantora comenta algumas delas nesta página, uma maneira de se tornar ainda mais íntimo delas para o show de hoje.
Zizi comenta as canções:
“Asa morena” (Asa Morena, 1982) – “Recebi do compositor Zé Caradípia. Eu recebia muitas músicas de compositores novos. Achei linda e, por ser de um compositor inédito, senti que não podia perder a chance de gravar”.
“Pedaço de mim” (Chico Buarque, 1978, e Pedaço de Mim, 1979) – “Eu fui chamada para cantar essa. O Chico me chamou. E vamos combinar, né? O Chico convidando…”.
“Meu amigo, meu herói” (Zizi Possi, 1980) – Meu irmão (José Possi Neto, diretor teatral) descobriu. Estava em uma peça de teatro. Ele me mostrou e fiquei apaixonada. O (Gilberto) Gil nem lembrava dessa música.
“Noite” (Amor & Música, 1987) – Eu conheci porque o Jorge Salomão (o compositor, ao lado de Nico Rezende). Essa música é o máximo, eu me vejo nela. Já tinha vivido aquela solidão muito tempo na minha vida: ‘Sozinha num quarto fechado, eu vejo a cidade de longe…’”.
“Per amore” (Passione, 1998) – “Nesse disco, eu gravei só músicas napolitanas. Tem a ver com uma memória de ancestralidade. Essa é uma das canções modernas do disco. Quando ouvi, achei linda. Ouvi pela voz do (Andrea) Bottelli e aí fica fácil gostar da música”.
“Perigo” (Zizi, 1986) – “É uma cantada gay que eu acho sensacional! Quando ouvi, achei que era hit total. Eu disse para os compositores (Nico Rezende e Paulinho Lima): ‘Vai ser um hit maravilhoso’”.
“Caminhos de sol” (Um Minuto Além, 1981) – Também era de compositores novos (Herman Torres e Salgado Maranhão). É uma música linda, tanto que peguei uma frase dela para ser o nome do disco”.
* Publicado no Correio da Paraíba de hoje.
Coisa rara em João Pessoa: poder entrevistar o cineasta depois de ter visto o filme. Em João Pessoa, cabine é coisa difícil de acontecer, geralmente entrevisto um diretor antes de ter visto o filme, para que a matéria seja publicada no dia da estreia. Com Como Esquecer, foi diferente. Houve uma pré-estreia e o Cinespaço começou a prática de cabines, que – em casos assim – ajudam bastante. O papo com Malu di Martino, então, fluiu bem e pudemos trocar boas ideias. Saiu no Correio há mais de uma semana e demorei a postar aqui a versão entendida, mas vale a pena – ainda mais que o filme segue em cartaz por aqui.
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Qual o sentimento que fica quando o amor da sua vida diz que você não é o amor da vida dele? Julia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sabe bem qual é: com o fim do relacionamento com sua companheira, ela se vê sozinha e perdida em seu apartamento. Como Esquecer (Brasil, 2010) conta seus dias daí para a frente. “O filme é sobre perdas”, disse a diretora Malu di Martino, por telefone, do Rio. “Por acaso a protagonista e o melhor amigo dela são gays, mas poderiam não ser”.
O filme é baseado no livro Como Esquecer – Anotações Quase Inglesas, de Myriam Campello, editado pela Escrituras. Julia (Ana Paula Arósio) sofre com a separação traumática e recebe, mesmo sem querer, o apoio do amigo Hugo (Murilo Rosa), ainda tentando se recuperar da morte do companheiro.
“Com o Murilo eu já tinha trabalhado anteriormente, no meu primeiro filme (Mulheres do Brasil, 2006). A Ana Paula eu não conhecia, fui apresentada por ele”, conta a diretora, sem poupar elogios. “Ela é a melhor atriz dramática da geração dela”.
O filme procura desconstruir a imagem de glamour que Ana Paula traz consigo dos trabalhos em TV e em sua época como modelo – chega a ter cenas intensas de sexo. “Ela é muito dedicada”, conta Malu. “A Julia é uma personagem bem dura, não é melodramática. Ela não aceita se sentir tão mal por causa de outra pessoa. Quando a gente foi construir a Julia junto com a Ana Paula, achou que as pessoas não podiam ter pena dela”.
Enquanto o filme mostra a felicidade de Julia com sua namorada Antonia (que nunca aparece) na Inglaterra, em vídeos caseiros, a professora é praticamente arrastada para dividir uma casa em Guaratiba com Hugo e Lisa (Natália Lage), que em também vai encarar sua perda. E o modo de lidar com isso é diferente nos três personagens.
“Luto a gente tem viver de qualquer jeito”, diz Malu. “Você tem que viver isso, faz parte da vida adulta: aprender que você vai perder as pessoas e um dia isso passa. O livro, claro, tem mais personagens, mas dei ênfase total e absoluta a esses personagens da casa, um pouco para fazer esse balanço. A Júlia não aceita se sentir tão mal por causa de outra pessoa. O personagem da Natália tem outra visão da história, mostra outras aberturas da vida”.
Outros personagens aparecem tentando quebrar a barreira que Julia arma em torno de si. Uma é uma aluna, Carmem Lygia (Bianca Comparato), outra é uma artista plástica, Helena (Arietta Correia). “A Carmen Lygia era um rapaz no livro”, conta a diretora, explicando que mudou o personagem para uma garota sem prejuízo da atitude. “Pessoas dessa geração têm a sexualidade muito mais resolvida. Achamos que era mais fácil para uma menina ser tão direta”.
A personagem de Arietta Correia aparece no meio do filme: é uma prima que Lisa hospeda na casa de Guaratiba. “Helena tem um universo menos explorado”, conta Malu. “Ela aparece como a pessoa ideal para você esquecer outra pessoa, mas no momento errado”.
Todo mundo já teve que enfrentar um momento de abandono, mas Malu di Martino conta que não precisou usar muito de suas experiências pessoais no filme. “Não tanto, porque a gente trabalhou muito isso no roteiro”, conta, referindo-se ao trabalho de Sabina Anzuategui, José de Carvalho, Douglas Dwight, Daniel Guimarães, Luiza Leite e Silvia Lourenço, que assinam o roteiro. “Claro que todos nós já passamos por isso, uma rejeição, uma separação. Mas nunca passei por algo tão radical”.
Abordar o universo feminino por uma ótica homossexual ao mesmo tempo é um fator de interesse, mas dificultou o financiamento. “Isso dá uma certa curiosidade nas pessoas, gera uma discussãozinha”, conta a diretora, lembrando que ser uma história sobre dor também foi um obstáculo. “Quando a Elisa (Tolomelli, produtora) foi pedir patrocínio, as pessoas se assustavam um pouco. É difícil explicar que não é um dramalhão ou um filme tristíssimo. Foi bem difícil”.
Mas Como Esquecer está na 27ª semana em cartaz. Lançado com apenas 20 cópias, devagarzinho tem ido de cidade em cidade. “Hoje, o cinema brasileiro consegue falar de pessoas também”, conta ela. “Tem havido uma mudança para dramas psicológicos”.
Não por acaso, ela teve como filmes-referência, em termos de estética e dramaturgia, os de François Truffaut. “Meu grande querido”, complementa. O que explica uma certa semelhança entre Como Esquecer e dramas cotidianos do cinema brasileiro dos anos 1970. “Faz sentido porque o cinema brasileiro daquela época tendia a acompanhar a Nouvelle Vague”, diz.
Outros trabalhos específicos também serviram como faróis, como Um Beijo Roubado (2007), de Wong Kar-Wai, Closer – Perto Demais (2004), de Mike Nichols, e As Horas (2002), de Stephen Daldry. “Todos tem temática psicológica forte”, explica Malu di Martino. “Vimos esses filmes juntos e comentamos – alguns várias vezes. Para a Ana Paula, eu indiquei filmes de Truffaurt e Carl Dreyer”.
Essa entrevista foi feita antes de assistir ao delicioso Desenrola, em cartaz aí nos cinemas. Foi publicada no 13/1, no Correio da Paraíba, para o lançamento do filme, e está aqui em versão levemente estendida. A crítica saiu hoje no jornal e nos próximos dias estará aqui no blog, mas adianto que gostei muito. A história da produção também é bacana e Rosane conta como foi nesse papo, que também foi ótimo.
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Se As Melhores Coisas do Mundo (2009) mostrava os adolescentes paulistanos e Os Famosos e os Duendes da Morte (2009) mostrava os do interior do Rio de Grande do Sul, chegou a vez dos cariocas com Desenrola (Brasil, 2010), de Rosane Svartman. Fruto de um intenso diálogo com os próprios jovens através de encontros e projetos. “Nossa primeira lição é a de que é preciso dialogar com esse público, que está acostumado a interagir com as coisas”, diz Rosane, que, por telefone, do Rio de Janeiro, conversou com o CORREIO sobre o filme.
Para falar de primeira vez, a Raccord Produções primeiro produziu uma série de documentários e, depois, partiu para uma websérie. “Lá falamos de várias ‘primeiras vezes’. E havia a interação: os personagens estavam nas redes sociais, tinham blogs…”, conta a cineasta.
Para o longa, a equipe voltou à pesquisa. “A gente foi às escolas, leu o roteiro nas salas de aula”, lembra ela. “A gente foi ouvindo os adolescentes, filtrando as opiniões”. A produção também voltou a usar as redes sociais, o que ampliou o universo da pesquisa além do Rio. “As ferramentas sociais me faziam ir a lugares onde eu não podia”, diz Rosane.
“A segunda lição foi de que algumas coisas continuam muito parecidas”, afirma a diretora, que viveu sua adolescência nos anos 1980. O filme se concentra na história de Priscila (Olivia Torres), 16 anos, e pela primeira vez sozinha em casa por alguns dias e vivendo diversas “primeiras vezes”: a desejada é a transa com o garoto do bairro de quem gosta, sem perceber que há um amigo também apaixonado por ela.
“A gente desde o início viu que um adolescente de 15 anos é muito diferente de um de 17”, conta Rosane. “E eu queria muito que os atores tivesses a idade dos personagens”. Kayky Brito é o jovem mais conhecido do elenco, mas adultos famosos como Cláudia Ohana, Letícia Spiller, Marcelo Novaes, Juliana Paes e até Pedro Bial – fazem participações.
Assim como Heitor Martinez e Ernesto Piccolo, dois dos atores principais de Como Ser Solteiro, primeiro longa de Rosane e do qual Desenrola herda um certo jeito carioca – livre, leve e solto – de ser. “A diferença é que sobre o Como Ser Solteiro, eu andava com aquela turma. Eu anotava as piadas, falas, idéias… Eu conhecia aqueles personagens”, lembra.
Mas Rosane acredita que não serão apenas os jovens cariocas que vão se identificar com Desenrola. “É uma história de classe média, onde ninguém aprende piano aos seis anos nem atravessou o Atlântico num monomotor”, diz. “A gente entrevistava os adolescentes e muitos não queriam falar, dizendo ‘Minha história não tem nada demais’. Mas o que se vê é que aquele comum é muito especial”.
Esta é minha matéria publicada sábado, no Correio da Paraíba, sobre o Cinespaço, que abre nesta sexta. Com ele, João Pessoa volta a ter 17 passa a ter 19 salas de cinema- o melhor é que a filosofia do grupo chefiado por Adhemar Oliveira é ter espaço sempre para filmes off-Hollywood. Abaixo, todos os detalhes sobre o cinema (programação de estreia, preços, cadeiras numeradas, vendas pela internet) e a entrevista com Adhemar.
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O multiplex do MAG Shopping fechou suas portas em setembro de 2008. Em fevereiro de 2009, foi anunciado que o Arteplex, do empresário Adhemar Oliveira, seria a nova exibidora. Depois de adiamentos e especulações, finalmente João Pessoa ganha suas quatro novas salas de cinema na próxima sexta: o Cinespaço, do mesmo grupo Arteplex, que segue uma orientação que os cinéfilos há muito cobravam, a de que o cinema off-Hollywood também tivesse vez.
“Eu não vou brigar com a economia nem com o espectador”, afirmou, pelo telefone, Adhemar Oliveira. Ele sabe do que fala: a visão de seu grupo de exibidoras é a de oferecer diversidade na programação, fugindo do cardápio de sempre dos multiplexes, mas ser financeiramente viável. Ele fez parte do grupo que, em 1985, recuperou um cinema de rua decadente no Rio e o transformou no Estação Botafogo, meca dos cinéfilos cariocas.
O Grupo Espaço de Cinema reúne vários projetos, como o Espaço Unibanco de Cinema e o Unibanco Arteplex, que criou um novo modelo de exibição do circuito de arte. Em 2009, inaugurou a primeira sala Imax do Brasil, em São Paulo.
O Cinespaço é outro projeto do grupo, em um modelo sem patrocinador: João Pessoa é apenas a terceira sala do modelo, após as inaugurações de Novo Hamburgo (RS), em setembro, e em Sorocaba (SP). Mas a filosofia é a mesma do Arteplex: formar público também para o cinema de arte, sem deixar de dar atenção aos blockbusters – quebrar o nicho, fazer o público conviver com os dois modelos e “vazar” público de um para o outro.

Woody Allen dirige "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos": o filme do diretor está programado para a inauguração
“A programação vai se adequando de acordo com a cidade”, explica Adhemar Oliveira. “Fora de São Paulo e do Rio, você não tem um população tão grande, é preciso saber qual o universo de pessoas interessadas. Você tem que tocar com racionalidade, não com ideologia. Se você erra, fecha as portas”.
A estratégia põe, lado a lado, uma sala para filmes em 3D e salas menores para filmes de arte. E filmes dividindo a mesma sala. “Se você faz uma sessão e dá 10 pessoas, você não vai quebrar”, diz o empresário. “Agora, se colocar o mesmo filme nas quatro sessões, vai”. A maneira de programar as salas foi aprendida através de tentativa e erro. “É uma análise do ‘vamos ver’, na linha de frente”, conta.
Detalhes
A programação que abre o Cinespaço já está definida. A sala 1, com 157 lugares, abre com Desenrola, de Rosane Svartman, focado no universo adolescente. A sala 2 (a menor, com 95 lugares) divide o novo Woody Allen, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, com o francês O Concerto. A 3 é a sala 3D e maior, com 247 lugares: passa a animação Enrolados e As Viagens de Gulliver. E a sala 4 (138 lugares) exibe o nacional De Pernas pro Ar. São 637 lugares no total. “Todas as salas têm projetores de última geração e som digital”, contou Paulo Santos, gerente de marketing do shopping, que recebeu a equipe do CORREIO na visita às instalações. A bilheteria e o café, com sofás e mesas, têm vista para o mar.
A novidade é que as cadeiras são numeradas. Ou seja: o espectador vai definir seu lugar na sala na hora da compra – o que o Box Manaíra fez por um tempo na sala 5 e depois abandonou.
Os ingressos poderão ser comprados também pela internet e os preços já estão definidos. Para sessões 2D: de sexta a domingo e feriados, R$ 17 e R$ 8,50; de segunda a quarta, R$ 12 e R$ 6; quinta, R$ 7 (preço único). Para as sessões 3D: de sexta a domingo e feriados, R$ 24 e R$ 12; de segunda a quarta, R$ 20 e R$ 10; quinta, R$ 10 (preço único).
O Cinespaço terá ainda projetos como o Espaço no Cinema e o Clube do Professor, com sessões, oficinas e debates dirigidos a esses públicos (as regras estão no site do projeto). Para quem vê o cinema um pouco mais longe, é uma bela notícia.
Conversei com o Veríssimo semana passada. Não sobre sua vida de cronista, mas especificamente sobre As Cobras – Antologia Definitiva, a compilação de sua inesquecível tira. A matéria saiu domingo, no Correio da Paraíba, e aqui está ela.
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O Brasil, segundo As Cobras

Veríssimo foi às Cobras para driblar a ditadura: "Quando havia o risco da censura implicar com o texto, me socorria no desenho"
Pode ser que cobra seja muito fácil de desenhar – “Só tem pescoço”, diz o próprio criador, Luís Fernando Veríssimo -, mas não houve assunto que mexesse com a vida nacional que não foi tratado pelos dois ofídios que rastejaram pelas centenas de tiras escritas e desenhadas pelo gaúcho. As Cobras, uma das melhores tiras dos quadrinhos nacionais, agora retorna em uma bela edição: As Cobras – Antologia Definitiva (Objetiva, 200 páginas). Em conversa por e-mail, Veríssimo, famoso principalmente como cronista, conta como e porquê usou o desenho para também criar suas sátiras da política e do comportamento no Brasil.
Veríssimo já disse várias vezes que a escolha de cobras como estrelas de uma tira eram fruto de suas limitações como desenhista. Mas, se os traços são simples, o gaúcho – hoje com 74 anos – constrói uma mise-en-scene bastante efetiva como suporte para as piadas. “As cobras e seu meio existiam só em função da piada, o desenho em si nunca foi importante. Quanto mais simples melhor”, conta Veríssimo. “Se você gostava da construção das narrativas só posso agradecer, mas não era intencional”.
A tira surgiu nos anos 1970. “Epoca da ditadura”, lembra o escritor. “Quando se podia dizer mais com desenho do que com textos. Sempre gostei muito de quadrinhos e quando passei a ter um espaço no jornal para fazer, teoricamente, o que quisesse nele, aproveitei. E muitas vezes, quando faltava tempo ou saco para o texto, ou havia o risco da censura implicar com o texto, eu me socorria no desenho”.
E ele a manteve até os anos 1990. “Parei, como eu disse na época, porque estava fazendo coisas demais. E também porque não ficava bem um homem de sessenta anos ficar desenhando cobrinhas”, diz.
As cobras eram, geralmente, duas travando um breve diálogo. Podia ser sobre política, futebol, Deus, a finitude da vida ou qualquer outro assunto que rendesse a Veríssimo uma boa piada. Muitas vezes, contracenavam com alguns coadjuvantes. Vários deles, parecem que estão sempre aparecendo por aí, nos noticiários: Queromeu, o corrupião corrupto; Dudu, o alarmista; o candidato Alves Cruz; Durex, o adesista; Sulamita, a pulga lasciva; e por aí vai.
“Eu gostava das cobras recem-nascidas, que saiam da casca para descobrir o Brasil e o mundo”, aponta o cronista. “Muitas nasciam precavidas, como a que já saiu do ovo com um habeas-corpus preventivo”.
Alguns personagens acabaram não entrando e a “antologia definitiva” renderia fácil um segundo volume. “Personagens como o chef Rienamange, o cozinheiro da crise, e o Zé do Cinto, que vivia apertando o cinto para sobreviver, podiam ter entrado. Continuam atuais”.
O livro divide as tiras em dez temas, entre eles existencialismo, futebol, Deus, poder, história, praia, literatura, espaço e um segmento para alguns coadjuvantes (“As cobras e outros bichos”) e outro para os filhotes. Algumas sequências são antológicas, como o técnico de futebol tentando orientar seu time obtuso, a pesquisadora que induz as respostas, ou os ‘Clássicos da literatura combinados’. “Não tenho preferencias”, conta Veríssimo. “Alguns dos clássicos combinados, como ‘Casablanca e senzala’, funcionam, outros não. Gosto das cobras diante do infinito. Uma dizendo ‘Como nós somos insignificantes diante do Universo’ e a outra perguntando ‘Vocês quem?’, por exemplo”.
Veríssimo também tem outras produções de histórias em quadrinhos: ainda escreve e desenha a Família Brasil e escreveu a tira de Ed Mort (desenhada por Miguel Paiva) e as páginas do Analista de Bagé na Playboy (desenhadas por Edgar Vasques). É uma relação que, como leitor, começou desde cedo.
“Lia o Gibi e o Globo Juvenil como todo o mundo e gostava muito dos super-herois e de alguns americanos como o Krazy Kat”, lembra, apontando também o que lê hoje. “Gosto muito dos brasileiros: o Laerte, o Angeli, os irmãos Caruso, o Edgar Vasques, o Santiago, o Moa, o Adão. É muita gente boa. E também há genios como o Moebius, de quem vi uma exposição fantástica há pouco tempo, em Paris”.
Se As Cobras não estão rastejando por aí, certamente não é por falta de assunto. Seus personagens teriam muita coisa para contar. “O corrupião corrupto, claro, está atualissimo”, afirma Veríssimo. “Dudu, o alarmista, também. E Durex, o adesista, é um personagem eterno, que atravessa a história, desde os tempos biblicos”. Pode reparar: todos eles estão por aí, o que garante plenamente a atualidade e o ótimo humor de As Cobras.
Eu entrevistei o Cláudio Torres Gonzaga em 2009 (em agosto ou setembro). O texto nunca foi publicado porque o show que estava marcado para aquela época acabou adiado. Mas ele se apresenta hoje em João Pessoa (no Teatro Paulo Pontes, às 20h), com o Comédia em Pé (ao lado de Fábio Porchat, Paulo Carvalho, Léo Lins e Murilo Couto. Assim, acho que vale a publicação, enfim, do papo com o humorista e roteirista de A Grande Família.
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Muita gente fazia teatro antes do stand up. É o seu caso, certo?
Na verdade, tenho um trabalho de ator no teatro por muitos anos. Eu admirava quem fazia humor de personagens, mas nunca tive a capacidade de fazer vozes ou imitações.
E como você conheceu o formato do stand up?
Cheguei a ver fora do país. Aqui, a gente foi o primeiro grupo.
E por que vocês resolveram apostar no formato de grupo?
Eu achava que um grupo iria diminuir as dificuldades e valorizar as capacidades de cada um. Assim, no primeiro ou no segundo shows participaram o Bruno Motta, o Rafinha, o Diogo Portugal.
E isso foi quando, exatamente?
Foi em 2005. A formação atual está desde 2006, quando entrou o Léo Lins.
Você, como comediante, acha a comédia mais difícil que fazer do que o drama?
Não acho nem que seja mais difícil ou mais fácil. Se eu tiver que fazer uma cena dramética, é impossível pra mim. Não é que a comédia seja fácil, mas é o que eu me sinto à vontade fazendo.
Depois de tanto tampo no stand up, ainda existe aquela tensão antes de entrar no palco?
Toda vez eu fico tenso. Mas essa tensão é importante. Se você estiver calmo nessa hora, não é bom. Aí, nos primeiros minutos do show, você vai sentindo a platéia.
É um responsabilidade e tanto, não? Você sozinho no palco e a platéia.
Meus amigos atores dizem: ‘Puxa, como é que você faz isso?’. E, se não dá certo, você não pode dizer que o texto não é bom, a direção não é boa – 0 porque é tudo você.
Eu percebi que os comediantes têm estilos ligeiramente diferentes ao fazer stand up e o seu, por exemplo, é mais “conversado”.
É, tem uma linha que parece mais uma conversa, uma coisa mais intimista. Eu preciso que o meu texto tenha uma boa piada. Tem outros comediantes que podem tirar o humor do físico ou das vozes.
Quando você se apresenta com o Comédia em Pe, como os textos de cada um é menor do que no solo, os shows variam muito de texto?
São diferentes, mas muito em função do público-alvo. Aqui no Rio, a gente faz shows regulares em três bairros diferentes e tem que adaptar os textos ao público. Você tem que se perguntar: ‘Você tá escrevendo pra quem?’.
Você também é redator de A Grande Família, que é um tipo de humor diferente. A maneira de criar esse humor também é diferente?
O jeito de observar é o mesmo. Eu uso ele para fazer humor em qualquer veículo. Se o cara que escreve humor não viver, não tiver uma vida comum, ele não pode escrever humor porque acaba se distanciando de um mundo real. Fazer a piada é encontrar um reflexo para a vida. Agora, como o programa é muito antigo, a relação entre a redação e o elenco é muito natural. Você começa a escrever e os personagens falam muito ao seu ouvido.
E você criou um programa que eu nunca vi, porque só passava no Rio e eu já morava aqui, mas sobre o qual li uma materiazinha na Veja há muitos anos e achei tão legalk que nunca mais esqueci: o Paquetá Connection (uma paródia do Manhattan Connection que exibido pela antiga TV Rio)!
Ah, é! Ele tinha um repercussão cultural tão grande que a gente levou da televisão para o teatro. Isso foi em 1999 e 2000. Foi uma semente do stand up, na verdade. A diferença é que ele era todo improvisado. Quem sabe a gente um dia não coloque alguma coisa no you tube?

Mort Walker não queria fazer o então univesitário Zero se alistar no exército (foto: © King Features Syndicate/ Ipress)
Quais são os personagens fundamentais das tiras de jornal? Você pode fazer a lista que quiser, mas o Recruta Zero tem que estar nela. O personagem completou 60 anos este mês em plena atividade e numa incrível demonstração sobre como girar sobre o mesmo tema e não perder o fôlego. O Brasil chegou a produzir suas próprias histórias do personagem, na época em que ele tinha uma revista mensal pela RGE (depois Globo) – isso foi nos anos 1970 e 1980. Hoje, ele continua sendo encontrado nos jornais (seu lar de origem), e sempre desenhado por seu criador, Mort Walker. Conversei com ele por e-mail para uma entrevista que foi publicada hoje, no Correio da Paraíba – aqui você lê a versão estendida. Mr. Walker mostrou que um ícone pode ser também gentil, simpático e atencioso.
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O exército americano é uma grande piada – ao menos nas tiras do Recruta Zero, um dos mais populares personagens dos quadrinhos, que completa 60 anos este mês. Criação do cartunista Mort Walker, hoje com 86 anos, o soldado folgado e preguiçoso é publicado atualmente em 1.800 jornais ao redor do mundo. E Walker, um dos principais nomes da história das HQs conversou por e-mail com o CORREIO sobre o aniversário.
Mas poderia ter sido bem diferente. Zero (Beetle Bailey, no original) estreou em 4 de setembro de 1950 não como um recruta, mas estrelando uma tira ambientada em uma universidade. Como tal, era claudicante: quando uma tira precisava ser publicada em pelo menos cem jornais para ser um sucesso, Zero chegava a 40 com esforço. Sob o risco de ser cancelada, a Guerra da Coreia acabou sendo motivo para Mort Walker fazer o malandro estudante se alistar.
“O editor de um grande jornal escreveu para o syndicate (que distribui as tiras nos EUA) e disse que Zero deveria se alistar, como todos os jovens da idade dele na América”, conta o quadrinista. “Eu não queria, mas eles insistiram. Foi imediatamente um sucesso e eu comecei a ganhar mais jornais”.
Os militares, evidentemente, torceram o nariz. “No começo, o exército não gostou de me ver fazendo graça deles e não deixou Zero ser publicado nos jornais militares”, lembra Walker. “Então, os leitores deles reclamaram e eles começaram a usar minha tira. E ela se provou tão popular que eles, afinal, me deram um prêmio e houve uma grande parada em minha homenagem no gramado da Casa Branca”.
Começou a surgir uma galeria de outros tipos impagáveis: Zero ganhou a companhia do tão violento quanto infantil Sargento Tainha, do tão molenga quanto vaidoso General Dureza, do inocente Dentinho e outros. “Todos os meus personagens são baseados em pessoas que conheci, com diferentes personalidades”, diz. “Isto mantém os personagens consistentes. Alguns são mais engraçados que outros. Eu gosto do Zero, do sargento e do general. A Dona Tetê (a secretária bonita do general) não é engraçada, mas eu a adoro”.
A tira se mantém em alta com a mesma filosofia e poucas mudanças. “Não acho que ela mudou muito. Tento mantê-la em dia com as mudanças, mas evito comentar assuntos políticos ou a guerra. Zero permanece em treinamento básico, o treinamento simples que cada soldado tem que fazer”, conta Mort Walker, que hoje escreve junto com três colaboradores e faz o lápis de todas as tiras – um de seus filhos, Greg, faz a artefinal.
“Nós passamos nossas ideias para o papel e uma vez por mês nos encontramos para selecionar as melhores”, diz Mort Walker sobre o sistema de criação das tiras do Recruta Zero. “Juntos, temos 120 esboços e usamos cerca de 30 – temos milhares em estoque. É difícil dizer quantas das ideias que uso são minhas, mas gosto de usar meu próprio trabalho, então diria que cerca de metade das que uso são minhas”.
Walker criou outras tiras. A principal foi Zezé & Cia. (Hi and Lois, no original), um derivado com a família de Zero que ganhou vida própria. “Vários quadrinhos americanos fizeram sucesso durante a II Guerra, mas morreram depois. Minhas guerras (Coreia e Vietnã) continuavam e fiquei preocupado se a tira sobreviveria quando acabassem. Foi por isso que criei Zezé & Cia.”.
Hoje, porém, ele não tem mais relação com a tira. “Eu costumava escrever, mas passei para dois dos meus filhos, Greg e Brian, e o filho de Dik Browne (criador de Hagar, o Horrível), Chance”. Dik é quem desenhava a tira, escrita por Walker.
Um de seus principais trabalhos é a criação do National Cartoon Museum, em 1974, cujo acervo está atualmente na Ohio State University. “Nós fundimos nossa coleção de 200 mil desenhos com a coleção da universidade”, conta. “Eles têm US$ 20 milhões para preparar um belo novo museu para nós, que será aberto no ano que vem”. Ele sempre foi um defensor da valorização da profissão e acha que os quadrinistas são mais respeitados hoje em dia, mas em termos.
“Eu acho que os cartunistas conseguirtam mais respeito hoje porque o museu pensou bastante neles, em salvá-los, estruturá-los, exibi-los e construir um imenso museu para convidar fãs para vê-los. Eles não têm qualquer respeito quando syndicates os jogam fora como se não tivessem valor”, afirma. “Eu usei (o museu) para anunciar que eles eram ‘a arte mais popular do mundo’. Isso faz sentido porque talvez um milhão de pessoas vejam a Mona Lisa por ano ou outras obras-primas, mas uma tira como Zero atinge 200 milhões de pessoa todo dia“.
- Batalha por T.E.R.R.A.: Animação digital que começou a circular por festivais em 2007, mas só chegou a entrar efetivamente em cartaz nos EUA no ano passado. Mostra os humanos invadindo um planeta – chamado Terra – que alcançou a paz há muito tempo. Na guerra que começa, uma adolescente local e um dos astronautas começam a se conhecer e se compreender. O diretor é o canadense Aristomenis Tsirbas, da área de efeitos especiais (trabalhou em Titanic, 1997, e Hellboy, 2004). Em 3D e dublado.
- Box Manaíra 6: 3D: 19h20, 21h30.
- Gigante: A co-produção encabeçada pelo Uruguai mostra um segurança de supermercado que se torna obcecado pela vidinha de uma faxineira do local, observando a rotina dela pelas câmeras de segurança. Sua vida passa a ser regida por essa observação e o desejo de conhecê-la. O filme levou três prêmios no Festival de Berlim.
- Espaço Cine Digital: sex. a dom.: 18h30, 20h30.
- A Ressaca: Quatro amigos frustrados com suas vidas entregam-se a uma bebedeira, acabam na banheira de hidromassagem de um resort e, sem saber como, voltam no tempo a 1986. Ganham, assim, a oportunidade de resolver seu passado. A premissa pouco original aposta no absurdo (hidromassagem? Mesmo?) e na nostalgia oitentista para vingar. Vamos ver se deu certo. John Cusack encabeça o elenco.
- Box Manaíra 4: 14h50, 17h, 19h10, 21h20.
- Solomon Kane, o Caçador de Demônios: Houve um tempo em que “produção européia” significava um tipo de filme bem diferente. Mas trata-se de uma aventura baseada em personagem de quadrinhos (de Robert E. Howard, o mesmo autor de Conan, o Bárbaro), se passando na Europa nos tempos da peste negra e acompanhando um herói cristão que enfrenta todo tipo de ameaças sobrenaturais.
- Box Manaíra 2: 14h20, 16h40, 19h, 21h25.
Outros filmes em cartaz:
O Aprendiz de Feiticeiro
- Tambiá 3: dub.: 14h50, 16h50, 18h50, 20h50.
O Bem Amado -
½
- Box Manaíra 1: 13h15, 18h40.
- Tambiá 1: 14h40, 16h40, 18h40, 20h40.
Como Cães e Gatos 2 – A Vingança de Kitty Galore
- Box Manaíra 6: 3D: dub.: 13h20, 15h20, 17h20.
- Tambiá 2: dub.: 14h10, 16h10, 18h10, 20h10.
Karatê Kid
- Box Manaíra 3: leg.: 14h, 18h50.
- Box Manaíra 7: dub.: 15h, 17h50, 20h40.
- Tambiá 5: dub.: 14h20, 17h20, 20h20.
Nosso Lar – ![]()
- Box Manaíra 5: 13h45, 16h15, 18h45, 21h15.
- Tambiá 6: 14h20, 16h30, 18h40, 20h50.
A Origem –
- Crítica
- Box Manaíra 7: 15h40, 21h.
Par Perfeito
- Box Manaíra 8: 14h15, 16h30, 18h55, 21h10.
REC 2 – Possuídos
- Box Manaíra 3: 16h50, 21h40.
O Último Mestre do Ar –
½ - Crítica
- Tambiá 4: dub.: 14h30, 16h30, 18h30, 20h30.





































