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Eu conheci Julia Kendall em 2004. Confesso que, a princípio, o motivo do meu interesse foi mesmo a semelhança (proposital, assumida de cara) com a Audrey Hepburn. Não me arrependi, porque a revista – primeiro Julia – Aventuras de uma Criminóloga, como no original italiano, depois mudado para Aventuras de uma Criminóloga porque a editora daqueles livrinhos românticos ficou com medinho – me pegou de jeito.
A narrativa é cinematográfica e possui uma cadência admirável. Parece que cada história é pensada como um filme e a orquestração dos planos é um espanto. E há sempre brincadeiras: os personagens fixos lembram outros atores – Whoopi Goldberg, John Malkovich, John Goodman, um jovem Nick Nolte…
Pois bem. Aventuras de uma Criminóloga foi eleita algumas vezes, por prêmios e enquetes diferentes, a melhor revista mensal publicada no Brasil. É, até prova em contrário, a mais constante em termos de boa qualidade. Mesmo assim (ou talvez exatamente por isso – afinal, estamos no país do “Rebolation”) vende pouco. Isso, segundo a Mythos Editora, que anunciou o fim da publicação.
O último número seria o 67, de julho. Houve chiadeira dos leitores e a editora anunciou que estucou a publicação até outubro, no número 71. E deixou a esperança de, se houver um aumento nas vendas até lá, a revista será salva por mais uma temporada.
Em coma, a revista publicada originalmente pela Bonelli Comics (a mesma do Tex, Zagor, Ken Parker, Martin Mystére, Nathan Never, etc) é alvo agora de uma cruzada dos fãs – por exemplo, no blog Aventuras de uma Criminóloga. Na internet, eles tentam conquistar novos leitores para a revista e até surgiu uma medida ousada: a ideia de comprar duas revistas e presentear um possível futuro leitor com uma delas.
Assim, a venda da revista aumentaria automaticamente e ainda há o risco de parte desses novos números se manter com o tempo. Julia merece.
Em tempo: o desenho lá de cima é originalmente em preto-e-branco. A colorização show de bola é do Audaci Jr, outro fã de Julia (e da Audrey).
O início, segundo Crumb
Celebradíssimo desde seu lançamento, Gênesis (Conrad, 216 páginas) realmente impressiona. Surpreende de cara porque o mestre da contracultura Robert Crumb não desconstrói o texto bíblico, como seria de se esperar. Ao contrário: fez questão de colocar o texto integral e ilustrá-lo com fidelidade canina.
E se há um lado iconoclasta em Gênesis, ele está justamente nesta fidelidade, por incrível que pareça. As cenas de sexo, por exemplo, são mostradas sem censura, embora não haja nada pornográfico ou de mau gosto. E aí entra até o incesto, na sequência em que as filhas de Ló o embebedam para dormir com ele e engravidar. Há também alguma violência – nada chocante para narrativas tradicionais, mas certamente pode surpreender quem costuma fazer vistas grossas para passagens assim da Bíblia.
É claro que usar o texto integral traz benefícios e prejuízos. Crumb fica blindado contra qualquer acusação de blasfêmia ou outra bobagem, mas o texto também se torna arrastado em diversos momentos, com as repetições típicas do texto bíblico, sem falar nas várias sequências em que são narradas as descendências dos personagens.
Mas mesmo esses limites justificam a obra, já que o próprio Crumb conta na introdução que é difícil encontrar o texto bíblico sem simplificações e cortes. Assim, o fato de estar na íntegra é uma curiosidade em si mesma e o ilustrador coloca seus desenhos a serviço dele. A edição – em capa dura – tem uma longa introdução do próprio Crumb e, no final, notas explicativas e comentários do artista sobre cada capítulo.
E os desenhos de Crumb conseguem extrair grande dramaticidade das passagens, mesmo sem poder esticar a narrativa e se manter como ilustração do texto. Sua postura acabou dando mais humanidade à narrativa bíblica. Um trabalho poderoso e exemplar.
Você já mandou sua frase para a promoção Via Lettera & Comic Show? Se não, está marcando bobeira: é uma coleção de seis álbuns em quadrinhos que serão entregues à melhor resposta para “Como você convenceria uma autoridade a ler quadrinhos adultos?”.
Eu disse “uma”? Desculpe, na verdade são três coleções. As três melhores respostas ganham! Olha aí: é mamão com açúcar. Vai deixar passar essa? Os seis álbuns são: O Homem Ideal, E Agora os Noivos Podem se Casar e Como Coelhos (os três do alemão Ralf König), as coletâneas nacionais Dez na Área, um na Banheira e Ninguém no Gol e O Gralha, e Diga-me com que Carro Andas e Te Direi Quem És (de Caco Galhardo).
Mais informações neste novo Drops Comic Show, que está além da imaginação!… Pelo menos na abertura, que satiriza a clássica série de TV. Mas também há as novidades dos lançamentos de quadrinhos da semana, dicas dos vencedores do Eisner Awards e uma homenagem a John Hughes. Deixa de ser mole e vê aí, pô!
Desfile de Páscoa (Easter Parade, 1948). Direção de Charles Walters. Roteiro de Sidney Sheldon, Frances Goodrich e Albert Hackett, baseado em história de Frances Goodrich e Albert Hackett. Canção “Easter parade”, de Irving Berlin.
Inconformado por ter sido abandonado por sua parceira (às vésperas da Páscoa de 1911), o dançarino Don Hewes (Fred Astaire) decide treinar uma iniciante. Esta é Hannah Brown (Judy Garland), que cantava em um restaurante. Depois de muitas tentativas e erros, durante um ano, eles conseguem achar o tom certo e se tornam um sucesso. Mas a aparição da antiga parceira faz Hannah, já apaixonada por ele, acreditar que ele ainda ama a ex-partner e romper a parceria. Só depois de convencida por um amigo em comum de que Don também a ama é que ela decide voltar. Don está em seu apartamento, com o mordomo Sam (Peter Chong), na manhã da Páscoa, quando toca a campainha: é um entregador. Don está no cômodo ao lado quando entra e vê as flores.
DON – Sam, onde você botou meu…? O que é isso?
SAM – Isso acaba de chegar.
DON – Pra quem são?
SAM – Para o senhor (e desce com elas para a sala).
DON – Pra mim? Bem, não pode ser. Sam, não ponha isso aí, não, Alcance o rapaz e…
SAM – Sem cartão.
Batem à porta e Sam vai atender de novo enquanto Don fica olhando as flores.
DON – Deve haver algum engano. Descubra a quem pertencem, sim, Sam? São muito bonitas…
Sam volta com duas caixas.
SAM – Pro senhor.
DON – Pra mim? Bem, quem trouxe?
SAM – Um mensageiro.
DON – Coloque ali, sim?
Então, Sam as coloca sobre uma mesa.
DON – (desconfiado) Sam, você sabe alguma coisa sobre isto?
Sam responde que não com a cabeça enquanto Don tira o laço da primeira caixa.
DON – Acha que devemos abrir?
É um bolo, com uma mensagem confeitada com glacê em cima.
DON – “Feliz Páscoa, querido”… Deve haver algum engano. Ele obviamente errou de apartamento.
SAM – Devo abrir a outra?
DON – (ainda desconfiado) Não, não, não. Eu abro.
Ele leva a caixa até o sofá e levanta a borda da tampa, desconfiado. Assim que vê o conteúdo, a fecha, assustado. É Sam quem abre a caixa.
SAM – Ah! Mas que coelhinho bonitinho!
Ele tira o coelho da caixa e os dois se derretem.
DON – Oi, amiguinho! Olá!
SAM – Não é uma gracinha?
Don percebe que o coelho veio dentro de uma cartola.
SAM – Está com fome? De onde você veio? O coelho quer um biscoito?
Batem na porta mais uma vez, enquanto Don está experimentando a cartola.
DON – Eu atendo.
Hannah adentra o apartamento intempestiva, para surpresa de Don, que é ignorado por ela. Com muita naturalidade, ela cumprimenta primeiro o mordomo, com o coelho no colo.
HANNAH – Oi, Sam!
SAM – Oh, oi, senhorita Brown. Apresento-lhe o coelhinho.
HANNAH – (acariciando o coelho) Ah, somos velhos amigos. Feliz Páscoa!
SAM – Feliz Páscoa!
HANNAH – Obrigada.
Sam leva o coelho para o outro cômodo, deixando os dois sozinhos.
DON – Foi você que…?
HANNAH – Você ainda não está pronto? Como todo homem…
DON – (apontando a cartola na cabeça) E também o…?
HANNAH -Sam, você pega o paletó dele?
SAM – Pego.
HANNAH – (para Don) Você vai chegar tarde, sabia?
DON – Tarde?
HANNAH – Para o desfile de Páscoa. Nós tínhamos um encontro, lembra?
DON – (abrindo os braços) Ah…
O mordomo aproveita para vestir o paletó nele. Os dois dão risada e ela marotamente dá uma boa olhada em Don, dos pés a cabeça.
HANNAH – Aqui, deixe-me ver… Ah, muito bom.
No fim, dá uma piscadela que o deixa encabulado e o faz se virar. Mas ela corre para a frente dele e começa a cantar.
HANNAH - ”Nunca vi sua aparência tão bonita antes.
Nunca vi você vestido com tanta elegância – e mais”.
Ela continua circulando-o.
HANNAH – “Mal podia esperar para chegar nosso encontro
Nessa adorável manhã de Páscoa”
Ela limpa os ombros dele. Ele, de novo encabulado, tenta sair dali, mas Hannah o segura pelo braço e o abraça por trás. Ele, agora, já sorri.
HANNAH – “E meu coração bate rápido enquanto eu atravesso a porta
Para…”
Ela o vira para apontar para sua cartola.
HANNAH – “Com seu chapéu de Páscoa, com todos os enfeites nele,
(ela segura a mão dele, o leva até o sofá e o senta) Você será o maior cara do desfile de Páscoa.
(ela se senta no encosto do sofá) Eu estarei com sorte
(ela desce para o sofã e coloca a cartola nele) e quando eles todos nos olharem…”
Don levanta e anda pela sala, limpando a cartola e a vestindo, e ela o segue.
HANNAH – “Nós seremos o casal mais orgulhoso no desfile de Páscoa”
Ela o abraça e começam a dançar.
HANNAH – “Na avenida, Quinta Avenida,
Os fotógrafos vão nos registrar…”
Ela se ajoelha e ele senta no colo dela, mas logo percebe e se levanta.
HANNAH – “… e você logo vai perceber que está numa rotogravura”.
De braços dados, eles vão pela sala e ela pega seu chapéu na mesa.
HANNAH – “Oh, eu poderia escrever um soneto sobre o seu chapéu de Páscoa
(eles sobem os degraus da sala dançando, ela abre a porta para ele e eles saem) E sobre o rapaz que estou levando ao desfile de Páscoa”.
Já no desfile, eles desfilam na avenida, de braços dados.
DON – “Na avenida, Quinta Avenida,
(ele tira um anel do bolso do casaco, ela oferece a mão direita e ele a abaixa mostrando que deve ser a esquerda) Os fotógrafos vão nos registrar
(ele coloca o anel nela) E você vai descobrir que está numa rotogravura”.
Um fotógrafo tira uma foto e logo outro os pára e Hannah faz uma pose engraçada. Os dois riem enquanto o côro canta o final da canção e os casais passeiam na Quinta Avenida.
CÔRO – “Oh, eu poderia escrever um soneto
Sobre o seu chapéu de Páscoa
E sobre a garota que estou levando ao desfile de Páscoa”.
A canção, com legendas em francês:
A letra original:
Never saw you look quite so pretty before
Never saw you dress quite so handsome – what’s more
I could hardly wait to keep our date
This lovely Easter morning
And my heart beat fast as I came through the door
For…
In your Easter bonnet, with all the frills upon it
You’ll be the grandest fella in the Easter parade.
I’ll be all in clover, and when they look us over
We’ll be the proudest couple in the Easter parade.
On the avenue, Fifth Avenue,
The photographers will snap us
And you’ll find that you’re in the rotogravure.
Oh, I could write a sonnet, about your Easter bonnet
And of the guy I’m taking to the Easter Parade.
On the avenue, Fifth Avenue,
The photographers will snap us
And you’ll find that you’re in the rotogravure.
Oh, I could write a sonnet
About your Easter bonnet
And of the girl I’m taking to the Easter Parade.
Declaração anterior: Muito Barulho por Nada
Grandes ratinhos
É difícil encontrar hoje em dia uma obra de quadrinhos que pode ser considerada infantil e adulta ao mesmo tempo. Se houver uma, esta é Os Pequenos Guardiões (Conrad, seis volumes, 24 páginas cada), a belíssima obra escrita e ilustrada por David Petersen. Há dois anos, a pequena série (Mouse Guard, no original, publicada pela Archaia Studios Press) foi um extraordinário sucesso de crítica e público nos Estados Unidos, conquistando prêmios e figurando na lista dos dez mais do ano em várias publicações. A Guarda são ratinhos treinados para proteger a espécie, num mundo medieval cheio de perigos – não só os predadores, mas também as intrigas internas, de traições e violência.
A narrativa de Petersen é de se elogiar tanto no texto quanto na imagem. Ele preza pela simplicidade, com uma arte pintada limpa, mas elegante e elaborada e bem mais expressiva pelos movimentos dos personagens que pelos rostinhos de rato (até porque a HQ não quer descaracterizá-los como ratos). Há pouco texto, evitando o excesso de recordatórios que infestam as HQs de hoje, e privilegiando a narrativa visual, que acerta ao se manter à altura dos protagonistas, dando ao leitor a dimensão assustadora de cada desafio.
As histórias são curtas e a violência é contida, fazendo com que a série seja boa leitura para qualquer idade – o formato quadrado e os quadros grandes reforçam uma aproximação com os livros infantis. Os quatro volumes seguintes já foram publicados no Sudeste, mas ainda não chegaram por aqui. Atualmente, Petersen está publicando uma segunda minissérie com os guardiões nos EUA.

Histórica amazona
A série DC 70 Anos é uma das publicações mais importantes do ano, uma peça valiosa para se conhecer um pouco da história das histórias em quadrinhos. Os primeiros volumes foram dedicados ao Super-Homem e ao Lanterna Verde e agora está nas bancas Coleção DC 70 Anos – 3 de 6: As Maiores Histórias da Mulher-Maravilha (Panini, 196 páginas), enfocando uma das três maiores, mas também mais maltratadas personagens da DC.
Se quando surgiu, em 1942, a Princesa Diana, da Ilha Paraíso, era o contraponto feminino para um gênero que ainda era dominado por personagens masculinos, muitas outras super-heroínas surgiram desde então. Diana continuou um ícone, mas a situação da super-heroína derramadamente apaixonada pelo Tenente Steve Trevor e disfarçada como Diana Prince, sua secretária, envelheceu de um modo que não atingiu o triângulo Super-Homem-Lois Lane-Clark Kent.
As primeiras histórias refletem esse tom e o que se pode notar como muda pouco o visual da heroína, que usava minissaia em sua primeira aparição, em 1942, e era vista como “indecente” pelas pessoas na rua. A roupa encurtou mais ainda, mas manteve seu aspecto icônico, mostrando que William Moulton Marston, criador da heroína, acertou em cheio nisso. Logo no começo, já havia o avião invisível e os braceletes com os quais ela se defende das balas – mas não o laço mágico.
O triângulo amoroso era inspirado desde o início naquele das histórias do Super-Homem, mas a diferença é que o romance entre a super-heroína se concretizou enquanto seu namorado desconhecia a identidade secreta dela. As histórias modernas mostram uma mudança a partir dos anos 1970. A era da liberação feminina colocou Diana além de seu trabalho de secretária: agora, ela trabalhava nas Nações Unidas.
N0s anos 1980, a reinvenção pela qual passou vários pérsonagens da editora descartou a identidade secreta e a colocou em um papel político, como embaixadora das amazonas no mundo dos homens, além de realçar os elementos da mitologia grega nas tramas. Trevor também teve o papel gradualmente reduzido até, enfim, se casar com Etta, gordinha coadjuvante das histórias da Mulher-Maravilha desde sempre.
Nesse ponto, em que a Mulher-Maravilha está aberta para outros interesses amorosos, sua relação com o Homem-de-Aço costuma ser considerada uma possibilidade, apesar de Lois Lane. Justamente a última história da edição, ótima, faz um ajuste de contas entre as duas.
Nessa trajetória toda, uma história especialmente interessante é a de 1968, com tintas bem psicodélicas e dando início uma mudança radical para Diana que dá vontade de conhecer melhor. Aliás, o que falta na edição são bons comentários de cada história, apesar do prefácio simpático de Linda Carter (a Mulher-Maravilha da TV). A primeira edição destrinchava cada história do Super-Homem e situava o leitor em seu contexto editorial e histórico.
Era só questão de tempo. Cebolinha – ou Cebola, na nova versão – e Mônica já davam suas paqueradinhas nas três primeiras edições de Turma da Mônica Jovem, o incrível sucesso de vendas de Maurício de Sousa (apoiado em uma mistura de ousadia, curiosidade natural de leitores e não-leitores, público-alvo abrangente e estratégia de divulgação acertada). Agora, a quarta edição fecha o primeiro arco de aventuras e ainda traz um momento inédito: o primeiro beijo romântico entre os dois briguentos.
Maurício já alertou que esse namorico vai ser tratado com muito cuidado e a bitoquinha é bem de leve, mas é mais um lance que atraiu uma mídia acachapante – foi notícia nos jornais brasileiros no nível dos anúncios da morte do Super-Homem ou outro super-herói icônico; deu na capa do Caderno 2 do Estadão, por exemplo. Se a capa fica no “quase”, veja mais embaixo o beijo em si, que eu peguei lá no Judão.
Só lembrando, a Turma da Mônica Jovem previa uma tiragem de 50 mil exemplares (se não me engano) e o primeiro número explodiu com mais de 200 mil vendidos. O primeiro e o segundo, juntos, já ultrapassaram os 500 mil exemplares e andaram na lista dos livros mais vendidos em São Paulo. Um gibi entre os mais vendidos nas livrarias? Eu já disse uma vez e repito: esse fenômeno vai ter que ser estudado um dia.




















