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Marion Crane (Janet Leigh) está tomando banho e tudo o que se ouve é o barulho do chuveiro. Mas uma sombra aparece por trás da cortina do box e, em segundos, a silhueta a abre, com a faca em punho. Nesse exato instante, entram os violinos, tão cortantes, quanto as estocadas no corpo da personagem – até então, a protagonista de Psicose (1960), um dos maiores clássicos de Alfred Hitchcock. A ideia do som, uma contribuição fundamental para tornar a cena tão memorável, foi do compositor Bernard Herrmann, autor da trilha sonora. Herrmann, um dos principais músicos de cinema da História, estaria completando 100 anos hoje.
O momento de Psicose talvez seja o mais conhecido de Hermann no cinema, mas sua ficha é muito maior. Como se não bastasse toda a trilha de Psicose já ser coisa de gênio, Herrmann foi um dos principais colaboradores sistemáticos de Hitchcock. Para o mestre do suspense, criou as trilhas de todos os seus filmes de O Terceiro Tiro (1955) a Marnie – Confissões de uma Ladra (1964).
Os Pássaros (1963) não tem música como trilha sonora, mas Herrmann criou o desenho de som do filme (os muitos ruídos eletrônicos de pássaros) como se assim fosse.
E em O Homem que Sabia Demais (1956), Herrmann compôs a trilha original, mas isso não inclui a canção “Que sera, sera” e a “Storm Cloud Cantata”. Ponto fundamental do clímax do filme, a música foi composta por Arthur Benjamin para a primeira versão do filme, de 1934. Herrmann a reorquestrou e aparece no filme regendo-a à frente da Orquestra Sinfônica de Londres.
Mas suas três maiores trilhas para Hitch vieram em sequência: Um Corpo que Cai (1958), Intriga Internacional (1959) e Psicose (1960). Em Um Corpo que Cai, a trilha é importantíssima na construção tanto do suspense quanto do romance. É só reparar o poder da música na cena em que Scottie (James Stewart) descobre a identidade de Julie (Kim Novak).
Em Intriga Internacional, o tom era o da aventura e mistério – a música ainda é exemplar para o gênero e foi mais um dos aspectos que anteciparam a série James Bond.
Em Psicose, ele decidiu usar apenas a sessão de cordas da orquestra para a trilha. E, para a cena do chuveiro, Hitchcock havia pensado em não usar música alguma, mas mudou de ideia após Herrmann convencê-lo a usar os violinos cortantes.
Nascido em Nova York, Bernard Herrmann já possuía uma carreira respeitável no cinema muito antes da colaboração com Hitchcock. na infância, ele foi encorajado pelo pai a aprender música e chegou a ganhar um concurso de composição aos 13 anos. Ele estudou na New York University e, aos 20 anos, fundou a The New Chamber Orchestra of New York. Depois, trabalhou um longo período como condutor da orquestra da CBS, no rádio, com seus próprios programas.
Foi na CBS que Herrmann conheceu Orson Welles. O garoto prodígio do rádio e do teatro convidou o maestro para escrever a música e os arranjos de seu programa, o Mercury Theater on the Air – um deles foi a famosa adaptação de A Guerra dos Mundos, que aterrorizou a América em 1938.
Por isso, quando Welles foi convidado para a RKO para dirigir o filme e levou seu grupo completo, Hermann também estava lá para escrever a trilha do filme – que viria a ser “apenas” Cidadão Kane (1941).
Herrmann, depois, compôs várias trilhas, com destaque para Soberba (1942), de Welles, o drama Ana e o Rei do Sião (1946) e a ficção científica O Dia em que a Terra Parou (1951). Depois da fase Hitchcock, trabalhou com três fãs de Hitch: Truffaut, em Fahrenheit 451 (1966) e A Noiva Estava de Preto (1968), Brian de Palma em Irmãs Diabólicas (1973), e Martin Scorsese, em Taxi Driver (1976). Marty ainda reutilizou a trilha de Círculo do Medo (1962) como base de sua refilmagem, Cabo do Medo (1991).
Herrmann insistia em ter o controle máximo sobre a música que compunha para os filmes. Dizia que Orson Welles tinha vasta cultura musical, mas a maioria dos diretores simplesmente não entendia do assunto. Logo, ou ele controlava a trilha ou recusava o trabalho. Porque, de música para cinema, ele entedia.
O Artur Xexéo publicou ontem um um texto no blog dele sobre Liz Taylor. Entre outras coisas dizia que a carreira dela ficou em segundo plano frente à vida pessoal. Não concordo e até acho que foi o contrário. Como escrevi na minha matéria para o Caderno 2 de hoje, ela foi uma sobrevivente e sua carreira sobreviveu inclusive à gigante exposição de sua vida na mídia – e olhe que os paparazzi nem eram tão urubus como hoje. Mesmo com os oito casamentos, com acidentes de maridos e amigos, com a pneumonia que quase a matou no auge da carreira, com os dois (!) casamentos com Richard Burton, com as campanhas de combate à Aids e ao preconceito, mesmo com tudo isso, o que se sobressai é sua beleza acachapante e papéis fortes e ousados. Da alternância de inocência e sedução em Um Lugar ao Sol (1951), ela passou a arriscar cada vez mais: sua personagem desafiou convenções e envelheceu décadas em Assim Caminha a Humanidade (1956); foi Maggie, a gata no cio enquanto o maridão não estava nem aí em Gata em Teto de Zinco Quente (1958); a jovem atormentada após um trauma sexual em De Repente, no Último Verão (1959); apareceu nua em Cleópatra (1963); envelheceu, enfeiou-se e disparou todo tipo de imprompérios em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?; foi a infeliz e revanchista esposa de um militar impotente e homosexual, em O Pecado de Todos Nós (1967). Não é toda estrela que teve uma carreira assim.
Londres (Inglaterra),27 de fevereiro de 1932 – Los Angeles (EUA), 23 de março de 2011
Maggie em brasas, rejeitada pelo marido em Gata em Teto de Zinco Quente:
Uma das personagens mais sofridas de todos os tempos deve ser a Nadia de Rocco e Seus Irmãos (1960). A prostituta que encontra o amor com Rocco acaba sucumbindo a um destino trágico quando é empurrada por ele para o irmão que já a havia estuprado. Luiz Carlos Merten, um apaixonado por ela e pelo filme, diz que é a maior interpretação feminina do cinema em todos os tempos (mas admite que é suspeito). Não sei, mas Annie teve uma longa carreira, fez filmes até 2007. Mas seus últimos anos foram tristes, sofrendo com o Mal de Alzheimer.
O rompimento de Nadia e Rocco no Duomo, em Rocco e Seus Irmãos:
Paris (França), 25 de outubro de 1931 – Paris (França), 28 de fevereiro de 2011
Os seios de Jane Russell causaram uma das maiores brigas contra a censura já vistas no cinema americano. Li uma vez que o milionário, produtor e cineasta Howard Hughes – também apaixonado por aviação – chegou a desenhar (com seus engenheiros aeronáuticos) um sutiã especialmente para ressaltá-los no filme que a lançaria: O Proscrito. O Código de Produção caiu em cima, mas Hughes – que passou a dirigir o filme depois de Howard Hawks deixou a produção – acabou sendo o primeiro cineasta a enfrentar de cara aberta a censura americana. Com as filmagens terminadas em 1941, o filme só estreou em 1943. Russell mostrou, depois, ter outros talentos. Para a música e a comédia, por exemplo: ela divide em pé de igualdade com ninguém menos que Marilyn Monroe os holofotes de Os Homens Preferem as Loiras (1953). Ok, a loira era Marilyn, mas Jane era o primeiro nome nos créditos. E a continuação – com Jane, sem Marilyn – chamou-se Eles se Casam com as Morenas (1955)…
Cenas de Jane em O Proscrito:
Marilyn e Jane cantam “When love goes wrong, nothing goes right”, em Os Homens Preferem as Loiras:
Bemidji (EUA), 21 de junho de 1921 – Santa Maria (EUA), 28 de fevereiro de 2011
Para o bem e para o mal, Leslie Nielsen ganhou uma nova carreira após Corra que a Polícia Vem Aí! (1988). O filme potencializava ao máximo seu talento para a comédia, descoberto oito anos antes na obra-prima Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu… (1980). Antes dessa associação com o trio Jerry Zucker-Jim Abrahams-David Zucker, Nielsen era um ator sério toda vida. Estrelava dramas e seus destaques tinham sido a ficção científica Planeta Proibido (1955) e o papel de capitão do navio de O Destino do Poseidon (1972). Sua interpretação como o médico de Apertem os Cintos!, uma brincadeira com os filmes-catástrofe, não difere em nada da de Poseidon: a grande piada é que Nielsen interpretava com toda a seriedade em um contexto nonsense. Depois, nas mãos de maus diretores, ele acabou em papeis careteiros, mas isso não apaga o melhor de seu jeito sério de fazer comédia.
Regina (Canadá), 11 de fevereiro de 1926 – Fort Lauderdale (EUA), 28 de novembro de 2010
Quando se fala em Quanto Mais Quente Melhor (1959), as pessoas logo lembram do brilhantismo de Jack Lemmon, de como Marilyn estava ótima ou da direção genial e diálogos atrevidos de Billy Wilder. Depois disso, se o espaço não tiver acabado é que se referem a Tony Curtis. Uma injustiça, claro. Curtis também está brilhante, tanto como o saxofonista galã e meio cafajeste – Joe – quanto como sua versão feminina, em que ele se disfarça – Josephine – e ainda como o milionário impotente, em que ele também se disfarça para fisgar Marilyn – papel triplo! Curtis foi um dos grandes galãs de Hollywood e lembrava o jovem Cary Grant não só pela beleza, mas também por não se levar muito a sério. Na verdade, era até mais bonachão que Grant. Por isso, se dava muito bem em comédias, mas também correspondeu quando exigido em dramas – como A Embriaguez do Sucesso (1957) ou, e principalmente, O Homem que Odiava as Mulheres (1968), onde interpretou o personagem real de um serial killer que aterrorizou Boston.
Nova York (EUA), 3 de junho de 1925 – Las Vegas (EUA), 29 de setembro de 2010
Qualquer cinéfilo que se preze sempre terá uma dívida eterna com Arthur Penn por ele ter dirigido Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas (ou só Uma Rajada de Balas, título que recebeu ao passar nos cinemas aqui, 1967). Penn reprocessou os filmes de gangster alinhando-os com a rebeldia reinante naqueles anos 1960 – uma dose de violência que explodia na tela, temperado com bom humor e a gente desconcertantemente torcendo para os bandidos. Na cena final, Penn estava em estado de graça. Mas ele já vinha mostrando a que veio. O Milagre de Anne Sullivan (1962) é uma brilhante transposição para o cinema da peça que contava a vida real de Hellen Keller – surda e cega desde o nascimento, e por isso sem conseguir se comunicar com ninguém – e a professora que conseguiu ajudá-la. Bonnie & Clyde está ao lado de Butch Cassidy (1969) e Meu Ódio Matou Sua Herança (1969) e, sem dúvida, estes filmes abriram espaço para O Poderoso Chefão (1972). Penn ainda fez Pequeno Grande Homem (1971), com uma desmistificação e tanto do western. O cineasta não costuma ser lembrado quando se fala dos grandes do cinema. Mas ele está lá, sim.
Filadélfia (EUA), 27 de setembro de 1922 – Nova York (EUA), 28 de setembro de 2010
Demorou um pouquinho para Gloria Stuart conseguir seu reconhecimento. Algumas décadas: só 65 anos depois que começou a carreira no cinema. Todos a conhecem como a Rose velhinha de Titanic (1997). Mas ela teve uma carreira entre 1932 e 1946: a bela loira fez filmes com James Whale (mítico diretor de Frankenstein) na Universal e um deles foi até O Homem Invisível (1933), clássico da ficção científica. Pelo jeito, parecia que ia emplacar, mas não rolou. Andou pela Warner (fazendo Cavadoras de Ouro de 1935, de Busby Berkeley) e pela Fox (em alguns filmes ao lado de Shirley Temple). Nos anos 1940, desistiu do cinema e de atuar: passou a se dedicar à pintura. Voltou em pontas na TV lá pelos anos 1970, depois passou a papéis na telinha e no cinema. E aí, veio Titanic, indicação ao Oscar e tal. Sua personagem era centenária – parece-me que tinha 102 anos. A própria Gloria quase chegou lá: tinha 100.
Santa Monica (EUA), 4 de julho de 1910 – Los Angeles (EUA), 26 de setembro de 2010
Depois de Eric Rohmer, em janeiro, lá se foi também Claude Chabrol, outro ícone da Nouvelle Vague. Os dois colegas foram críticos da Cahiers du Cinema e escreveram juntos um livro sobre a obra de Hitchcock, em 1957. Eles, Truffaut e Godard começaram a dirigir seus filmes quase ao mesmo tempo – foi Chabrol quem saiu na frente, com Nas Garras do Vício (1959), apontando a subversão que aqueles jovens pretendiam para o cinema. Os primeiros tempos foram marcados por filmes que investigavam a hipocrisia na burguesia francesa e pelo casamento com a atriz Stephane Audran – que rendeu 25 filmes juntos (mesmo depois do divórcio)! Foram filmes como As Corças (1968) e A Mulher Infiel (1969). Os cinéfilos mais recentes, no entanto, identificam Chabrol mais com Isabelle Huppert, sua musa na fase madura, com quem fez sete filmes. Começou por Violette Nozière (1978), mas o reencontro só veio com Um Assunto de Mulheres (1988). Depois, outros trabalhos elogiados: Madame Bovary (1991), Mulheres Diabólicas (1995) e A Teia de Chocolate (2000) entre eles, alguns revelando o gosto pelo suspense que rendeu o livro sobre Hitchcock lá no começo.
Paris (França), 24 de junho de 1930 – Paris (França), 12 de setembro de 2010
Minha lembrança de Patricia Neal e sua voz rouca será sempre como a 2-E, a mulher que sustentava o escritor vivido por George Peppard em Bonequinha de Luxo – e que depois é rejeitada por ele. Ou dizendo as imortais palavras “Gort, Klaatu barada niktu” em O Dia em que a Terra Parou. Dez anos separam um filme e outro e dois anos depois de Bonequinha, ela ganhou um Oscar de melhor atriz por O Indomado. Ao auge, seguiu-se o drama: grávida, ela foi vítima de três derrames em 1965 e ficou em coma por três semanas – o cume de uma seqüência de tragédias pessoais que atingiram dois de seus filhos anos antes. Semiparalisada, e após uma operação no cérebro, ela teve que aprender a falar, andar e a ler de novo e ficou com problemas de memória. Teve sua filha e retomou a carreira em 1968.
Packard (EUA), 20 de janeiro de 1926 – Edgardtown (EUA), 8 de agosto de 2010
Lena Horne apareceu para o mundo aos 16 anos, no Cotton Club, no Harlem. Os negros podiam cantar, mas não freq6uentar a boate. Já começava aí a sina com que a cantora teria que lidar quase a vida toda. De lá, passou pela Broadway e aí surgiu o convite de Hollywood. Na Fox, estrelou dois filmes com elenco totalmente negro e dirigido a eles: Uma Cabana no Céu e Stormy Weather. Na Metro, participou de alguns bons musicais, mas em que condições? Quase nunca tinha um papel de verdade – geralmente era colocada em um ou dois números musicais que podiam ser facilmente cortados quando o filme fosse exibido em certas regiões do sul americano onde a escravidão voltaria num piscar de olhos se perguntassem pela rua. Por seus traços e pele um pouco mais clara, ela ouviu muitas vezes a sugestão de que deveria se passar por branca – nunca aceitou. Quando surgiu o papel perfeito para ela – a mulata Julie no musical O Barco das Ilusões, em 1951, papel que ela havia feito em um segmento musical de Quando as Nuvens Passam, 1946 -, Lena teve que assistir à amiga (e branca e não cantora) Ava Gardner ficar com o papel. O mundo da música, pelo menos, a tratou melhor. Lena gravou discos e fez shows de sucesso. Quando pensou em se despedir, em 1980, estrelou o mais bem sucedido show estrelado por uma pessoa só na história da Broadway. Resultado: só parou de cantar em público mesmo lá pelo ano 2000. O cinema ficou devendo a Lena Horne (e a nós todos), mas, mesmo assim, suas pequenas aparições são um tesouro.
Nova York (EUA), 30 de junho de 1917 – Nova York (EUA), 9 de maio de 2010
Lena canta sua música assinatura, “Stormy weather”, no filme homônimo:
Um cachorrinho gente boa
Dentro do universo de Maurício de Sousa, o Bidu ocupa um lugar especial. Não só por ser o primeiro personagem criado pelo autor, início e símbolo de uma trajetória única e vitoriosa na HQ nacional, mas também por ser o único entre eles que assume vários papeis. E todos eles estão bem representados em Bidu 50 Anos (Panini Books, 162 páginas), uma das edições que comemoram o cinquentenário de carreira de Maurício.
Bidu pode ser apenas o cãozinho de estimação do Franjinha, e foi assim que começou, em 1959, nas tiras de jornal. Com o tempo, ganhou personalidade para interagir com outros animais da vizinhança. Depois, surpreendentemente passou a fazer trocadilhos com objetos inanimados – dos quais a mais famosa é a Dona Pedra. Astro que é de suas próprias HQs, passou a ser importunado pelo bicão Bugu e a se comportar até com certo estrelismo frente ao pobre contrarregra Manfredo. Como “ator”, até grandes épicos em suas historinhas ele interpretou.
A versatilidade do cachorrinho azul é tanta que a edição quase não consegue dar conta, mas dá. Começando por preciosas histórias que saíram na antiga revista Bidu, que Maurício publicou pela Editora Continental em 1961. A primeira edição dessa revista é republicada em um fac-símile que acompanha Bidu 50 Anos – sem dúvida, um marco histórico dos quadrinhos nacionais, que antes estava absolutamente fora do alcance do leitor comum.
Dessas primeiras histórias em preto e branco, o livro avança até… o preto e branco. Se começa com o Bidu “primitivo”, a edição termina com uma história inédita na estética “semimangá” da Turma da Mônica Jovem. No meio, o azul do Bidu predomina em tramas onde o bom humor dá o tom, sempre.
Várias delas são clássicas, como “A volta do velho Rinti”, já dos anos 1980. Já “‘Olha eu’ aqui, gente!” mostra a primeira aparição do Bugu – ainda andando em quatro patas e – incrível! – sem ser chutado no final. “O valentão”, dos anos 1970, cria até uma “origem” para o Bidu, e dramática: um originário de família rica, desprezado pelos irmãos.
Em capa dura e edição impecável, Bidu 50 Anos é uma homenagem justíssima a um personagem que está no rol dos grandes cachorros dos quadrinhos. Gente muito boa.
A britânica Jean Simmons não era daqueles símbolos sexuais matadores, mas tinha um dos rostos mais bonitos do cinema clássico. Era estudante de dança aos 14 anos, quando começou a fazer filmes na Inglaterra. Logo estava em produções importantes do país na época, como César e Cleópatra (1945) e Grandes Esperanças (1946), de David Lean. A ascensão prosseguiu com Narciso Negro (1947), de Michael Powell e Emeric Pressburger, e, finalmente, como a Ofélia do Hamlet de Laurence Olivier (1948). Depois veio a carreira em Hollywood, onde cantou no musical Eles e Elas (1955), com Marlon Brando e Frank Sinatra – seu primeiro Globo de Ouro (f0i indicada mais cinco vezes e ganhou um especial por sua versatilidade). Ela participou de vários clássicos e fez filmes com o marido, o diretor Richard Brooks. Um deles foi Tempo para Amar, Tempo para Esquecer (1969), que deu a segunda indicação ao Oscar (a primeira havia sido como coadjuvante, em Hamlet). Sua figura encantadora marcou Hollywood como uma quase Audrey Hepburn: ela até foi a primeira escolha de William Wyler para a princesa Ann, de A Princesa e o Plebeu (1953), mas Howard Hughes, que a tinha sob contrato não a liberou para a Paramount.
Londres (Reino Unido), 31 de janeiro de 1929 – Santa Monica (EUA), 22 de janeiro de 2010
“Eu sou um grande mentiroso”, disse uma vez Federico Fellini em uma entrevista famosa. Essa definição – a princípio desfavorável – pode ser entendida de outra forma. Mentira, no cinema, pode ser apenas outra palavra para sonho. Fellini era, isso sim, um grande sonhador e dividiu seus sonhos com as plateias em 24 filmes (15 deles disponíveis em DVD), entre os quais obras fundamentais do cinema – como A Estrada da Vida (1954), Noites de Cabíria (1957), A Doce Vida (1960) e Amarcord (1973). Fellini faria 90 anos hoje – morreu em 1993. Seu último filme é de 1990 – e, desde então, não surgiu criador sequer parecido no cinema.
Embora Fellini tivesse sido jornalista antes de cineasta – o que o ajudou a assumir funções de roteirista antes de diretor -, ele também foi desenhista, e é nesse aspecto que há uma grande influência no que chamou depois de “felliniano” (o adjetivo já está no Aurélio). O visual responde por grande parte do aspecto onírico das obras do mestre italiano.
Como roteirista, participou da aurora do neorrealismo italiano: com Sergio Amidei (e Roberto Rossellini, sem crédito), escreveu o roteiro de Roma, Cidade Aberta (1945), marco inaugural do movimento que trocou estúdios por locações, usava atores não profissionais e buscava contar os dramas do povo italiano no pós-guerra. Mais realista, só documentários. E menos Fellini, impossível.
Quando assumiu a direção, ele combinou a estética neorrealista com crônicas, como o memorialista Os Boas-Vidas (1953). Sua primeira obra-prima já surgiu aí: A Estrada da Vida, com uma interpretação chapliniana de Giulietta Masina, sua mulher de 1943 até a morte.
Para Giulietta, ele criou Noites de Cabíria, retomando a prostituta que apareceu brevemente em seu segundo filme, Abismo de um Sonho (1952). Uma das maiores personagens do cinema, onde a realidade já assumia, em momentos importantes, ares delirantes.
Seguiram-se tempos mais introspectivos, marcados principalmente por A Doce Vida e 8 ½ (1963). O primeiro, uma reflexão sobre o vazio da vida moderna (e, de quebra, criou o personagem Paparazzo, que definiu todos os fotógrafos perseguidores de celebridades que vieram depois), o segundo mostra um cineasta e seus demônios interiores (vistos por dentro da mente dele), filme revisitado como musical em Nine (2009).
Amarcord é seu grande filme da fase colorida – uma nova volta à infância em Rimini em que memória se mistura com fantasia e até o mar é abertamente de plástico. De mentirinha, mesmo, mas o sonho está lá (quem precisa de CGI?). Tudo bem, afinal, como ele dizia: “O visionário é o único realista verdadeiro”.
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Pra encerrar, o emocionante momento em que Fellini recebe seu Oscar especial das mãos de Marcello Mastroianni (seis filmes com o diretor, mais um para a TV) e Sophia Loren (um filme), em 1993 (“Giulietta, please, stop crying!”):
Sempre que um jovem ator morre, a gente se surpreende. Quando é alguém muito talentoso, a gente lamenta. No caso de Brittany Murphy, era algupem com um talento ainda em busca de seu grande papel. Revelada em As Patricinhas de Beverly Hills (1995) e confirmada em Refém do Silêncio (2001), depois ela preferiu fazer comédias românticas das mais bobocas e patinou por aí, sem encontrar “aquele” papel. Pelo jeito, nem estava procurando, tendo em vista que Happy Feet, o Pingüim (2006) é o último filme que havia feito com alguma projeção, e um dos que deixou a estrear é Os Mercenários, de Sylvester Stallone. Que pena.
Atlanta, 10 de novembro de 1977 – Los Angeles, 20 de dezembro de 2009
Jennifer Jones saiu de cena com uma interpretação indicada ao Globo de Ouro no filme-catástrofe Inferno na Torre (1974). Aposentou-se depois dessa – tinha 55 anos. Mas ela já vinha em marcha lenta há tempos – depois de 1957, este havia sido apenas seu quarto filme. Por isso, sua imagem cristalizou-se como a moça de olhos marcantes nas décadas de 1940 e 1950. Pelo primeiro, o religioso A Canção de Bernadette (1943), já ganhou um Oscar, iniciando uma série de quatro indicações consecutivas. A imagem angelical foi partida ao meio com a sensualíssima mestiça Pearl de Duelo ao Sol (1946). E ela ainda interpretou uma chinesa em Suplício de uma Saudade (1955), ícone dos filmes românticos de todos os tempos. O poderoso produtor David O. Selznick a transformou numa estrela e, depois, ainda casou com ela, em 1949. Ele sabia das coisas.
Tulsa (Oklahoma), 2 de março de 1919 – Malibu (California), 17 de dezembro de 2009




















































































