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“Já tinha ouvido falar da hospitalidade americana, mas isso é ridículo”. Quem disse isso, arrancando risadas da plateia, foi Julie Andrews ao ganhar seu Oscar de melhor atriz em 1965 pelo primeiro filme que fez: Mary Poppins. A disputa daquele ano, antes das indicações, parecia que seria especialmente equlibrada – já que o ano anterior teve My Fair Lady, que revelou a sensacional Julie no teatro e para o qual ela não foi chamada na versão de cinema. Em seu lugar entrou a mais famosa (e bem menos cantora) Audrey Hepburn. Falou-se em injustiça desde aí e a Disney tratou de escalar Julie para Mary Poppins. Os dois filmes foram os mais indicados daquele ano, mas, no fim, Audrey não foi nem indicada e Julie venceu. Há quem diga que ainda foi reflexo daquela injustiça do começo.
“The winner is… a tie!”, disse, surpresa, a linda Ingrid Bergman na cerimônia de 1968. Nunca antes (e - até agora – nunca depois) havia acontecido aquilo nas principais categorias (e acho que em nenhuma categoria): Katharine Hepburn, por O Leão no Inverno, e Barbra Streisand, por Funny Girl, a Garota Genial, empataram na disputa pelo Oscar de melhor atriz. Kate, como de costume, não estava lá, mas Barbra aceitou com graça seu prêmio: “Hello, gorgeous”, disse para a estatueta, citando sua própria personagem no filme.
Roger Moore e Liv Ullman não esconderam a surpresa quando, em 1973, ao anunciarem Marlon Brando como vencedor do Oscar de melhor ator por O Poderoso Chefão, subiu ao palco uma índia. Com um gesto, Sacheen Littlefeather recusa em nome de Brando o Oscar oferecido por Moore e lê um comunicado onde o ator justifca o gesto como um protesto contra o tratamento que os nativos americanos sofreram do cinema. Depois, ficou-se sabendo de que ela era, na verdade, Marie Cruz, uma atriz contratada por Brando (seu site oficial – sim, ela tem um – afirma que ela é filha de uma francesa-alemã-holandesa e de um apache).
Woody Allen já ganhou os Oscars de melhor direção (em 1978, por Noivo Nuerótico, Noiva Nervosa) e de melhor roteiro (por Noivo Neurótico… e em 1987, por Hannah e Suas Irmãs). Indicado, ele foi 21 vezes em 14 anos diferentes. Mas nunca foi à cerimônia – na época em que ela era realizada na segunda-feira, ele dizia que tinha um compromisso: era a mesma noite em que tocava com seu grupo de jazz em um clube de Nova York. Corrigindo: Allen foi ao palco do Oscar uma única vez. Foi em 2002, para uma homenagem à sua cidade querida após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Isso não foi anunciado previamente e posso dizer que foi o momento que mais me surpreendeu em meus anos acompanhando a cerimônia. Aplaudido de pé, deu um verdadeiro show de comédia stand up: “Há quatro semanas estava no meu apartamento em Nova York e o telefone tocou. A voz do outro lado da linha disse: ‘Aqui é a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas’. E eu fiquei em pânico porque achei que ele queriam os meus Oscars de volta”.
Ingrid Bergman ganhou três Oscars: melhor atriz por À Meia-Luz (1944) e Anastácia, a Princesa Esquecida (1956) e atriz coadjuvante por Assassinato no Orient Express (1974). Este último, na cerimônia de 1975, foi especialmente memorável: a grande atriz sueca não se conformou por ter vencido Valentina Cortese (concorrendo por A Noite Americana) e passou o discurso inteiro se desculpando com ela.
Katharine Hepburn é a maior ganhadora da história do Oscar, entre as atuações: quatro prêmios de melhor atriz em 12 indicações. Mas só esteve na cerimônia uma única vez: em 1974, para apresentar o Prêmio Irving Thalberg para seu amigo, o produtor Lawrence Weingarten. E bem a seu modo. Aproveite para lembrar como foi incrível a atuação de Cate Blanchett como Kate Hepburn em O Aviador.
Sempre menosprezado como ator, o mito do western John Wayne teve essa injustiça corrigida em 1970. Na cerimônia daquele ano, ele ganhou o Oscar de melhor ator por Bravura Indômita – cuja nova versão concorre a 10 Oscars este ano (incluindo melhor ator para Jeff Bridges) e espera-se que estréie nesta sexta em João Pessoa. Duke ganhou de Dustin Hoffman e Jon Voight (os dois por Perdidos na Noite). Apresentado por Barbra Streisando, o maior cowboy de todos os tempos derramou uma lagriminha quando subiu ao palco.
Já fazia tempo que o cinema devia tal honraria a Martin Scorsese. Se ele merecia mais por outros filmes que por Os Infiltrados, dane-se. Ele merecia e ponto. A Academia sacou que em 2007 seria a vez e colocou no palco, para apresentar o prêmio de melhor diretor, três ícones da “nova Hollywood”, da qual Martin foi parte fundamental nos anos 1970. Amigos de linga data, Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg lideraram a incrível ovação de pé recebida por um Scorsese que estava explodindo de alegria, metralhando palavras, como sempre.
Donald O’Connor, que tinha arrebentado em Cantando na Chuva, em 1952, apresentou a cerimônia de 1954. Nela, uma jovencíssima belga de cidadania inglesa levou o Oscar de melhor atriz pelo seu primeiro filme em Hollywood: Audrey Hepburn, por A Princesa e o Plebeu. Vale notar Audrey se esforçando para domar a emoção no palco e a aparição de Gary Cooper, que lê as indicadas direto do cenário de um western.
Charles Chaplin havia se tornado persona non grata para o governo dos EUA na época da caça aos comunistas, nos anos 1950. Acabou em um autoexílio. O pedido de perdão da América a Chaplin veio na entrega do Oscar de 1972, talvez o maior momento da história do prêmio (que até fechou o filme Chaplin).



