Eu e Walter Lima Jr., em foto de Rizemberg Felipe

Eu e Walter Lima Jr., em foto de Rizemberg Felipe

Ontem teve entrevista minha no Jornal da Paraíba com o cineasta Walter Lima Jr., que foi homenageado no Fest Aruanda (ainda dá pra ler nas edições anteriores). O que não coube lá – o texto é principalmente sobre a filmagem de Menino de Engenho – você lê aqui: o diretor comenta cada um de seus filmes. É um passeio interessante pelo cinema brasileiro, com histórias sobre Glauber Rocha, Lima Barreto, amizades, quiproquós, filmes acidentados e produções que deram certo.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) – Walter foi assistente de direção de Glauber nesse marco do Cinema Novo. “O Glauber era jornalista e quando chegava no Rio procurava as redações. A gente se conheceu na redação falando de cinema e quando saímos já éramos os melhores amigos. Eu tinha um ticket para jantar que dava para nós dois e por isso ele sempre passava lá na hora da janta. Minha convivência com ele era permanente – eu já sabia tudo sobre o filme. Mas o assistente dele era Vladimir Herzog, que ganhou uma bolsa em Londres e disse que iria sair do filme. E eu levantei o dedo: ‘Ó, eu tô aqui’. ‘Você quer fazer?’. ‘Só se for agora!’. Pedi demissão do jornal e o editor, que era meu amigo, disse: ‘Olha lá… Esse negócio de cinema… Você vai se meter numa roubada…’. E eu: ‘Se eu não fizer isso, vou enlouquecer’. Havia uma consciência de que era alguma coisa absolutamente nova. E teve uma importância extraordinária – para quem fez ou só viu”.

-Menino de Engenho-

"Menino de Engenho"

Menino de Engenho (1965) – Baseado no livro de José Lins de Rêgo e filmado na Paraíba. “Eu adorava esse livro, acho um dos melhores romances escritos no Brasil. Eu gostaria de ter feito até outro livro de José Lins do Rego: Moleque Ricardo. Acho que seria um projeto lindo”.

Brasil Ano 2000 (1969) – “Talvez seja o mais próximo que fiz daquilo que se fazia no Cinema Novo, no sentido de que ele já utlizava uma linguagem metafórica. Era uma anedota passada no que seria um futuro no ano 2000. E era um musical depois de uma guerra nuclear. Mostrava um futuro que escapa das mãos das pessoas e usava essa noção de progresso e atraso como algo inatingível para a gente. 20 dias depois do lançamento, veio o AI-5. O filme já havia sido premiado em Berlim quando, após quatro semanas em cartaz em Porto Alegre e São Paulo e fazendo sucesso, foi retirado pela censura. Voltou dois anos depois retalhado e ficou só mais uma semana no Rio”.

Na Boca da Noite (1971) – Filmado em 16mm.  “Fiz uma experiência. Parti de O Assalto, uma peça superinteressante de José Vicente, e fiz o filme com os atores que fizeram no teatro – Rubens Correia e Ivan Albuquerque – em quatro dias. Foi feito em 1970, no terror absoluto, cheio de grades. Conseguimos filmar na caixa-forte do banco, com dinheiro de verdade. O gerente foi louco!”

-A Lira do Delirio-

"A Lira do Delírio"

A Lira do Delírio (1978) – “Eu tinha a idéia de fazer um filme musical sobre o carnaval. Nunca desisti, aliás. Acho que esse já é um musical, embora os atores não cantem. Mas a música é muito presente. Queria fazer um filme sobre aquela loucura toda: pessoas insignificantes tentando buscar um significado. Doido pra caramba, o filme. A idéia era fazer um filme com uma memória coletiva: eu perguntei a cada ator qual a música de carnaval de que gostava mais e cada um personificou a sua história. Filmaríamos no carnaval e depois completaríamos com outras cenas. Na filmagem do carnaval, a coisa saiu do controle. Não havia roteiro: o carnaval é o caos, é o desgoverno. De repente, a gente estava documentando a loucura alheia. Pensei: ‘Como é que vou casar isso com o filme que eu queria fazer?’. De tanto ver o material, descobri que havia uns temas ali. O homem vira um selvagem, é um império machista. A mulher, no carnaval, é de todos. Escrevi uma estrutura e provoquei os atores. Isso resultou num filme, naquele momento, que foi uma aventura existencial minha e dos atores. Hoje, é sobre o desbunde”.

Joana Angélica (1979) – “A Embrafilme propôs um programa de realização de filmes para a TV. Não deu certo. A idéia era uma série sobre história do Brasil: em qualquer lugar há sempre um gesto que muda tudo. Nese caso, o que fazia essa mulher na porta do convento quando abriu os braços para impedir os soldados portugueses de entrar?”.

Inocência (1983) e Ele, o Boto (1987) – Inocência é a estréia de Fernanda Torres, aos 15 anos. “Lima Barreto estava num hospital como indigente. Fui à Embrafilme, entre na sala do presidente e disse: ‘Vocês sabem o que está acontecendo?’. Me disseram: ‘Ele é um sujeito difícil’. Eu disse: ‘Ele tem um monte de roteiros. Vocês poderiam comprar os roteiros dele e publicarem. É um jeito de dar algum dinheiro a ele. Me consigam uma passagem e falo com ele’. Ele me deram e fui a São Paulo. Quando cheguei, o Lima estava deitado numa cama, fumando pra caralho e olhando sempre para o mesmo ponto. Expliquei que O Cangaceiro foi o primeiro filme brasileiro que me deixou ligado e falei dos roteiros. Ele disse: ‘Pega aquela mala ali’. Abri e tinha uma porrada de roteiros. Convenci o Luiz Carlos Barreto a pegar os roteiros de Inocência e Ele, o Boto e fizemos um atrás do outro”.

Chico Rei (1985) – Feito para a TV alemã. “É a figura mítica de um rei no Congo que virou escravo no Brasil e liberta o povo dele. Os negros eram impedidos de ser enterrados no cemitério e de entrar nas igrejas. Então, criaram uma festa que é uma batalha de dança. O vencedor entregava uma coroa ao santo – e, assim, podia entrar na igreja. É a origem do carnaval no Brasil. Houve um problema porque os produtores lá brigaram entre eles, e enquanto isso não se resolvia, eu filmei Inocência“.

O Monge e a Filha do Carrasco (1995) – Filme com elenco e equipe brasileiros e falado em inglês. “Foi um filme feito para a TV americana. Adorei fazer e gosto do filme. Tem uma linguagem interessante, é bonito, tem sentimento. As pessoas não entenderam: acharam que eu tinha feito um filme em inglês. Pô, o filme era deles, queriam que fosse feito em inglês. Pra mim, foi ótimo: quem é que não quer que perguntem se você quer fazer um filme? Estava na preparação de A Ostra e o Vento, então peguei a mesma equipe e fizemos um treinamento com este filme”.

-A Ostra e o Vento-

"A Ostra e o Vento"

A Ostra e o Vento (1997) – A estréia de Leandra Leal no cinema, aos 14 anos. “Em Ele, o Boto, o produtor foi o Flávio R. Tambellini. Depois, conversei com ele sobre a idéia de filmar A Ostra e o Vento e ele disse: ‘Pô, esse era o filme que meu pai (o crítico, produtor e diretor Flávio Tambellini) queria fazer. A gente teve dinheiro pra fazer o filme na medida certa, mas nada para lançar. Por isso, teve um prestígio crítico, mas não foi bem de público”.

Um Crime Nobre (2001) – “Eu queria treinar comédia e dirigi para a Bandeirantes uma sitcom que era uma versão de um programa da Sony, Who Is the Boss? (No Brasil, esta versão brasileira da série se chamou Santo de Casa). Depois, o pessoal da Columbia queria fazer um filme para a TV, junto com a RAI e a TV Globo. A RAI quis que fosse com a atriz italiana Ornella Muti. Não devia ser ela, mas nada a reclamar: ela era tão linda! Só ficar ali olhando pra ela… Fiz com o Waltinho Carvalho, foi muito divertido. O Walter é uma pessoa por quem eu tenho muito respeito. Somos muito amigos. Tudo o que a gente fez junto, fiz com o maior prazer. Antes fizemos a série Chatô, em sete capítulos, produzida pelo Guilherme Fontes, que depois resolveu ele mesmo dirigir o filme”.

-Os Desafinados-

"Os Desafinados"

Os Desafinados (2008) – O filme se passa no começo dos anos 1960, aurora da Bossa Nova.  “Você falou em saudade e é claro que é sua leitura do filme. Eu não tenho a menor saudade disso: eu tenho uma boa lembrança. Saudade é um certo banzo, melancolia – eu não tenho isso. Eu tenho uma lembrança muito viva daquilo. É um momento da vida brasileira muito especial. Um momento de passagem nosso para o absolutamente moderno. O Brasil estava construindo uma nova capital, se modernizando. Isso refletiu nas artes, na arquitetura, no esporte. Os personagens vivem esse sonho de grandeza do país. E levam porrada. E os sonhos ficam para trás, mas eles nunca deixam de sonhar. Eu queria falar dessa época sem ficar fazendo discurso. Falar de sentimentos”.

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