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Perto do fim da linha

Acertando as contas com a filha

Acertando as contas com a filha

É muito difícil não associar O Lutador (The Wrestler, Estados Unidos/ França, 2007) à história do próprio Mickey Rourke: uma ruína humana tentando dar a volta por cima. Darren Aronofsky não é bobo e, sem dúvida, aproveita o que pode disso para aumentar a força da história que conta. Mas, felizmente, o filme não se resume a isso.

Com uma cara forte de cinema independente e economizando nas firulas visuais que usou em filmes como Réquiem para um Sonho e Fonte da Vida, Aronofsky tenta dar um ar de documentário na maior parte do filme. São muitas as cenas em que a câmera simplesmente segue o personagem de Rourke, andando à frente, de costas para o público, em seqüências longas sem cortes.

Como se o filme não quisesse interferir na história do lutador profissional Randy “Carneiro” Robinson, que já teve seus dias de glória e hoje está decadente, tendo que equilibrar com problemas de saúde e a idade com o pouco dinheiro. Vendo o fim da linha se aproximar, ele tenta se aproximar da stripper – também veterana – Cassidy (Marisa Tomei, mais uma vez linda, surpreendentemente desinibida e ótima) e da filha que guarda um enorme ressentimento (Evan Rachel Wood, de Aos Treze, 2003, e Across the Universe, 2007).

Isto, enquanto alimenta a esperança de um último grande momento com uma nova luta contra seu principal rival, 20 anos depois. A certo momento, Carneiro e Cassidy estão em um bar, cantando junto uma música dos Guns’n’Roses e dizendo como os anos 1980 foram melhores o que os 1990. Faz sentido. Há 20 anos, Mickey Rourke era um dos nomes de Hollywood que se apontava como um astro à moda antiga. Havia estrelado 9½ Semanas de Amor (1986) e Coração Satânico (1987) e o futuro parecia brilhante.

Mas aí el fez Orquídea Selvagem (1989), resolveu virar boxeador profissional, virou vilão em filme de Jean-Claude Van Damme e recebeu sua passagem para o ostracismo. Até este O Lutador (em Sin City, Cidade do Pecado fez apenas tipo debaixo de todos aqueles efeitos). Aqui, ele se entrega ao papel de uma maneira realmente comovente, especialmente nos momentos em que tenta reconquistar o carinho da filha, como a cena em que dançam em um galpão abandonado. Ele tem fôlego para retomar a carreira para valer e ir além de futuras caricaturas de si mesmo? Pelo menos por enquanto, isso não importa.

Em outro momento, ele afirma que dentro do ringue ele nunca se machucou como fora dele. Os golpes são combinados no vestiário, mas são para valer e as cenas de luta chegam a assustar. Mas as cenas dentro e fora do ringue só mostram que dentro o Carneiro ainda é alguém importante e respeitado, mesmo decadente; fora, não é ninguém – precisa mendigar atenções e um emprego.

As comparações com Rocky Balboa (2006) também são inevitáveis, mas aqui o tom é bem diferente. O filme de Stallone também tira sua força da aproximação com a vida real de seu ator principal (no caso de Rocky, também diretor). O Lutador, no entanto, é mais cru, refletindo que a vida de Rourke também é. Rocky queria mostrar que ainda era alguém. O Carneiro quer apenas continuar lutando para continuar vivendo.

O Lutador. (The Wrestler). Estados Unidos/ França, 2005. Direção: Darren Aronofsky. Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Ernest Miller. Atualmente em cartaz em João Pessoa.

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