Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961). Direção de Blake Edwards. Roteiro de George Axelrod, baseado no conto de Truman Capote.

-Não quero colocar você numa jaula. Quero amar você-

“Não quero colocar você numa jaula. Quero amar você”

Depois de ser presa pelo envolvimento com um gangster, Holly Goolightly (Audrey Hepburn) sai da cadeia. Quem a pega é seu amigo, o escritor Paul Varjak (George Peppard), que passou antes no apartamento da moça para pegar as coisas dela – incluindo o gato, que ela chama apenas de Gato. A caminho do aeroporto de Idlewild, Holly ainda espera pegar um avião e casar com um rico herdeiro do Brasil, mas Paul lê para ela uma carta em que, por causa do escândalo, o milionário a dispensa.

PAUL – Lá se foi a América do Sul. Bom, você não foi feita para ser a rainha dos pampas, mesmo. (Para o taxista) Hotel Clayton.

HOLLY – Idlewild.

PAUL – O quê?

HOLLY – O avião sai às 12 e pretendo estar a bordo.

PAUL – Holly, você não pode.

HOLLY – Et pouquoi pas? Não vou atrás do José, se é isso o que está pensando. Na minha opinião, ele é o futuro presidente de lugar nenhum. Porque deveria desperdiçar a passagem? Além do mais, nunca fui ao Brasil.

Ele a observa, incrédulo e em silêncio.

HOLLY – Por favor, querido, não me olhe assim. Eu vou de qualquer jeito. Tudo o que querem de mim é que eu deponha contra Sally. Ninguém tem a mínima intenção de me processar. Eles nem têm a mínima chance. Esta cidade acabou para mim, pelo menos por enquanto. Às vezes, a fama pode arruinar a pele de uma mulher. Devem ter montado forcas para mim em toda a cidade. Sabe o que pode fazer por mim? Telefone para o New York Times. Quero que me envie uma lista dos 50 homens mais ricos do Brasil. Os 50 mais ricos!

PAUL – Holly, não vou permitir isso.

HOLLY – Não vai permitir?

PAUL – Holly, estou apaixonado por você.

HOLLY – E daí?

PAUL – “E daí”? Isso chega. Eu a amo. Você me pertence.

HOLLY – Não. As pessoas não se pertencem.

PAUL – Claro que sim.

HOLLY – Ninguém vai me pôr numa jaula.

PAUL – Não quero colocar você numa jaula. Quero amar você.

HOLLY – É a mesma coisa.

PAUL – Não é, não, Holly.

HOLLY – Não sou Holly! Não sou nem Lula Mae! Não sei quem sou! Sou como o Gato, somos dois coitados sem nome! Não temos dono, nós nem pertencemos um ao outro! (para o taxista) Pare o táxi!

O carro pára na entrada de um beco, enquanto cai uma chuva torrencial. Ela abre a porta.

HOLLY – (Para o Gato) O que acha? Parece ser o lugar certo para um cara durão como você! Latas de lixo, ratos por toda a parte… Suma! Disse para ir embora! Se manda! (Bota o Gato para fora e fecha a porta) Vamos!

Paul não acredita no que aconteceu. Tita uma nota do bolso.

PAUL – Motorista, pare aqui.

O carro pára e ele sai, mas antes de fechar a porta e ir embora, se vira para Holly.

PAUL – Sabe qual é o seu problema, “senhorita Seja-lá-quem-for”? Você é covarde. Você não tem coragem. Tem medo de encarar a realidade e dizer: “Ok, a vida é um fato. As pessoas se apaixonam”. As pessoas pertencem umas às outras porque é a única chance que têm de serem realmente felizes. Você acha que tem um espírito livre e selvagem e morre de medo de ser enjaulada. Bem, querida, você está na jaula que você mesma construiu. E não só em Tulip, Texas, ou na Somália: estará sempre nela. Não importa para onde corra, estará sempre trombando consigo mesma! (Tira do bolso uma caixinha) Pegue. Tenho carregado isso comigo há meses. Não quero mais.

Ele joga a caixinha no colo dela e vai embora. Ela abre a caixa e chora quando vê o conteúdo: um anel, simples brinde de uma caixa de biscoitos, no qual ele tinha mandado gravar as iniciais de ambos na joalheria Tiffany’s.

Declaração anterior: Casablanca

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