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Humanismo no calor da hora

Capra e sua posição otimista em plena Grande Depressão

Capra e sua posição otimista em plena Grande Depressão

Numa lista dos maiores filmes de Frank Capra, Loucura Americana (American Madness, Estados Unidos, 1932) dificilmente é citado. Mas ninguém pode negar como ele se integra bem à filmografia do diretor siciliano de nascimento, mas muito americano (sua família emigrou para os Estados Unidos quando ele estava há poucos dias de completar seis anos). Aqui, ele já não era um iniciante: dirigia filmes desde 1926 (mas ainda assinava Frank R. Capra). Estava à vontade para um grande comentário sobre a Grande Depressão, no calor da hora.

O filme foi realizado entre a quebra da Bolsa de 1929 e o New Deal promovido por Franklin Roosevelt. Se passa praticamente todo dentro de um banco, em dois dias. Os personagens são expostos em uma longa seqüência do cotidiano da agência, onde o foco é o banqueiro Dickson (Walter Huston) que tem por política emprestar dinheiro aos correntistas pobres mesmo contra a posição dos diretores. Para ele, é esse dinheiro circulando que vai ajudar a evitar mais desemprego.

Ele é durão, mas acredita nas pessoas. Empregou como caixa Matt Brown (Pat O’Brien), um sujeito que já teve problemas com a polícia e hoje é namorado de sua secretária, Helen (Constance Cummings). Tudo começa a dar errado quando uma noite o banco é assaltado. Na manhã seguinte espalha-se o boato de que não há dinheiro e os correntistas correm para a agência para retirarem seu dinheiro. Como está tudo aplicado, não há como atender a todos gerando uma bola de neve. Problemas pessoais envolvendo a  mulher de Dickson, Phyllis (Kay Johnson), ainda complicam tudo para ele.

Há muitos elementos que lembram o que Capra faria nos filmes seguintes, principalmente A Felicidade Não Se Compra (1946). Dickson é um George Bailey menos emotivo, mas ainda preocupado com as pessoas em volta e afetado por elas. O desenrolar da corrida ao banco e até o final também lembram um dos filmes definitivos de Capra. Loucura Americana combina a aposta no povo, a afirmação otimista de que um homem pode fazer a diferença e ser reconhecido por isso e denuncia o descaso dos poderosos com a coletividade. Tudo o que compôs a combinação de populismo e humanismo que marcam o cinema do diretor.

Ninguém pode afirmar, no entanto, que o cineasta não acreditava no que propunha. E mais: que ele não sabia exatamente como contar essas histórias. Já em Loucura Americana, seu domínio narrativo é espantoso. A primeira parte do filme é um mosaico que vai mostrando o cotidiano dos vários personagens durante uma manhã no mesmo lugar: o banco. Em pouquíssimos momentos durante toda a história a câmera sai dali. E ainda há as cenas de multidão, muito bem conduzidas. E, de quebra, um delicioso visual anos 1920, que ainda estava valendo naquele começo dos 1930, em alguns personagens. O roteiro é de Robert Riskin, que escreveu nada menos que 13 filmes de Capra.

Loucura Americana (American Madness). Estados Unidos, 1932. Direção: Frank Capra. Elenco: Walter Huston, Pat O’Brien, Kay Johnson, Constance Cummings, Gavin Gordon, Arthur Hoyt, Sterling Holloway. Disponível em DVD no Brasil.

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