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O sombrio que cai muito bem

Gina e Harry encontram tempo para o romance

Gina e Harry encontram tempo para o romance

Isabela Boscov matou a charada na Veja. Repare como Hogwarts aparece sóbria, quase franciscana, com paredes nuas em Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Reino Unido/ Estados Unidos, 2009). E como o tom opaco domina o filme inteiro, quase sem cores vivas. É um acertado reflexo da lógica interna do filme, o sexto da série estrelada pelo bruxinho adolescente e o mais sombrio deles.

É uma trajetória firme, constante e que não é de hoje. A série baseada nos livros de J.K. Rowling encaminha-se para uma direção cada vez mais pesada e complexa  – um reflexo do crescimento dos personagens e do público. O trio Harry (Daniel Radcliffe), Hermione (Emma Watson) e Rony (Rupert Grint) começam com dez, onze anos em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001). Agora, estão entre 16 e 17.

Assim, o novo filme, o segundo dirigido por David Yates, combina o suspense em torno do avanço dos vilões da trama com os cada vez mais turbulentos momentos românticos. E tudo funciona muitíssimo bem. Yates dá um passo à frente em relação ao filme anterior, Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007) equilibrando bem os elementos de ação e suspense com os romances que surgem, mesmo que os personagens não tenham muito tempo para isso. Afinal, mesmo com 2h30 de filme, muita coisa do livro original teve que ser cortada ou simplificada.

Também por isso é difícil de acompanhar para quem, pelo menos, não viu os anteriores – já que cada um conta uma história, mas todas fazem parte de uma grande trama. Voldemort, Comensais da Morte, quadribol, Sala Precisa… São termos sobre os quais é necessário estar familiarizado porque o filme não tem tempo para reexplicar tudo.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe passa voando, como numa vassoura. Mas ainda assim, é lúgubre, um prenúncio de tragédia e por isso a escola Hogwarts não tem praticamente nada do encanto do começo da série. O filme, que começa com um ataque mágico a Londres, termina com uma morte que (quem leu o livro já sabe) abala profundamente os personagens – e é orquestrada de uma maneira que tira o fôlego do espectador e o confunde seguidas vezes em pouquíssimo tempo. E deixa a expectativa em alta para os dois últimos capítulos da saga, que já estão em filmagem.

Ao passar por tudo isso, Harry – conhecido por ter sido o único que sobreviveu, ainda bebê, a um ataque do superbruxo Voldemort – se convence cada vez mais que cabe a ele impedir o inimigo. “Com  grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, diria outro herói famoso, e é por isso que logo na abertura o jovem bruxo precisa deixar uma atraente garçonete esperando para acompanhar seu mentor Dumbledore (Michael Gambon) em uma missão.

Dumbledore resolve preparar o jovem bruxo para o combate final: ele literalmente mergulha em lembranças a respeito da infância de Voldemort (interpretado quando criança por Hero Fiennes-Tiffin, sobrinho de Ralph Fiennes, o Voldemort adulto em outros filmes da série). Ele também precisa convencer o novo professor Horácio Slughorn (Jim Broadbent) a revelar uma lembrança decisiva para que se entenda quem é Voldemort e como destruí-lo.

Ao mesmo tempo, os Comensais da Morte (que são os seguidores de Voldemort) procuram um meio de entrar na escola de bruxaria de Hogwarts e atacam a comunidade bruxa. Mesmo com tudo isso acontecendo, os adolescentes encontram tempo para encontros e desencontros amorosos.

Rony conquista o coração da pegajosa Lilá Brown (Jessie Cave) e despedaça o de Hermione no processo. E Harry percebe, enfim, a irmã de Rony, Gina (Bonnie Wright) – que gosta dele em segredo desde o segundo filme. O personagem de Gina é um dos grandes lances deste sexto filme. Ela afirma sua importância na trama com personalidade e atitude. Interessante ver a atriz Bonnie Wright como uma das protagonistas quando no primeiro filme ela aparece apenas em um breve momento.

Os jovens continuam dando conta do recado, secundados por vários dos melhores atores britânicos disponíveis no mercado: Gambon, Broadbent, Maggie Smith, Alan Rickman (que tem um grande momento), Julie Waters, Timothy Spall e uma deliciosa Helena Bonham-Carter, que aparece pouco, mas exala maldade por todos os poros.

O Enigma do Príncipe consegue equacionar um difícil equilíbrio entre aventura, drama juvenil e romance leve, com uma pitada de humor. Supera até um desafio que tem se notado uma constante para as continuações: como lidar com novos personagens importantes. Não tira o protagonismo do trio de ferro Harry-Hermione-Rony, mas dá uma bela atenção a coadjuvantes que finalmente dizem a que vieram – como Gina e também Draco Malfoy (Tom Felton).

Os fãs, agora, começam a se preparar para a despedida, com Harry amadurecido e encarando a responsabilidade que se anuncia há anos. Mas as sombras que dominam este Harry Potter e o Enigma do Príncipe não vão se dissipar fácil. E vai escurecer mais antes de ficar mais claro.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Reino Unido/ Estados Unidos, 2009). Direção: David Yates. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Alan Rickman, Jim Broadbent, Bonnie Wright, Helena Bonham Carter, Robbie Coltrane, Maggie Smith, David Thewlis, Julie Walters, Tom Felton, Timothy Spall. Estréia nesta quarta em JP e CG.

Leia mais:

Precedido por:
– Crítica de Harry Potter e a Pedra Filosofal
– Crítica de Harry Potter e a Câmara Secreta
– Crítica de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
– Crítica de Harry Potter e o Cálice de Fogo
– Crítica de Harry Potter e a Ordem da Fênix

Seqüências:
– Crítica de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1
– Crítica de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

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