Com o lançamento em DVD da minissérie Capitu, tive a oportunidade de entrevistar o diretor Luiz Fernando Carvalho pela terceira vez: a primeira foi frente-a-frente, nas filmagens de A Pedra do Reino, em Taperoá, e a segunda foi por e-mail às vésperas do lançamento da minissérie. Está também foi por e-mail e o diretor gentilmente respondeu, falando muito sobre as coisas em que acredita.

Michel Melamed e Maria Fernanda Cândido: "Esse é o meu Dom Casmurro. E ele é único"

Michel Melamed e Maria Fernanda Cândido: "Esse é o meu querido Dom Casmurro. Não há outro igual na face da Terra"

A primeira pergunta é a seguinte: na primeira produção do Projeto Quadrante, A Pedra do Reino, o volume de críticas negativas foi tão grande quanto o de positivas. Isso te fez repensar decisões em relação a essa segunda produção?
Trago as costas cheias de cicatrizes por ter feito A Pedra do Reino como fiz, e, sinceramente, buscava a mesma comunicação que busquei agora com Capitu, de Machado de Assis. Por outro lado, o público em geral é formado por uma linguagem padronizada e, do meu modo, sigo lutando contra essa aberração, duvidando de certas verdades tidas como absolutas. O resultado de todas estas reflexões talvez seja a semente de minhas tentativas. Em A Pedra do Reino, tinha total consciência de que se tratava de um romance hermético, mas instigante em seu universo humano e estético, por tanto, além de homenagear o aniversário de seu autor, era fundamental presentear ao país seu universo poético sem desfigurá-lo. Não faria o menor sentido enxertar quinze personagens para saírem explicando o livro, ou soltar piadinhas aqui e ali, para transformar Quaderna num palhaço palatável para a classe média. Quaderna está ali, com todos os seus espinhos, que são a sua filosofia e sua mitologia. Quando me aproximei d’A Pedra do Reino, de universo hermético, centrado na cultura do Nordeste, o espectador do Sul pode se perder. Mas também pode se perguntar: “o que será Guerra de Princesa?” e, a partir daí, aprender sobre seu próprio país. É um ganho infelizmente não computável.

Como você sentiu a repercussão desta vez?
Para minha felicidade, a maioria dos telespectadores de Capitu foi de jovens. O horário era muito tarde, certos episódios entraram perto da meia-noite, apesar disso, Capitu registrou média de 15 pontos na madrugada. Para o horário, uma bela audiência! A obrigatoriedade de ler Machado de Assis nas escolas torna sua literatura oficial e sisuda, pouco lúdica, distanciando os jovens menos preparados. Busquei dialogar com este distanciamento, que acaba por gerar um certo preconceito de que Machado é chato e antigo. Ele é atual e moderno. Pensei na necessidade de se desfazer esse tal preconceito que percebi entre os adolescentes que, nos dias de hoje, estão plugados ao mundo todo, às várias manifestações artísticas, em várias línguas, via internet. Algumas escolas precisam encontrar em Machado um grande criador: interativo, imagético, emocional, irônico, melancólico e atemporal.

Me parece que você tem uma visão bem particular sobre as adaptações no que diz respeito ao texto. Você tenta preservar ao máximo a narração literária e busca formas de mantê-la na tela. É o que parece acontecer em Lavoura Arcaica, Pedra do Reino e em Capitu. É assim mesmo? Como você vê a questão da adaptação?
Não acredito em adaptação, no sentido ortodoxo do termo, como injetar num romance novos personagens, palavras, tramas explicativas e paralelas ou mesmo desfechos que não existam. Sou completamente contra esse tipo de assassinato. Procuro entrar no livro como um leitor e extrair uma resposta criativa a essa leitura. Em Capitu, não há uma única palavra ou vírgula que não seja de Machado. Logo, o Enigma permanece. Por isso também optei por outro título, Capitu, onde a idéia de uma tentativa de aproximação com o romance Dom Casmurro ficaria ainda mais clara, revelando não se tratar apenas de uma transposição de um suporte para outro, mas sim de um diálogo com a obra original. E nasceu daí uma outra tentativa: o diálogo com a personagem Capitu, que é tão misteriosa. Portanto, trata-se um ensaio sobre a dúvida. Não absolvo Capitu e não a condeno.  Capitu é um personagem que pertence ao mundo da Literatura e seu mistério sobrevive graças ao diálogo com a imaginação dos leitores e espectadores.

Sempre volta, por ocasião de lançamento de algum filme nacional, a questão do debate sobre o que seria linguagem de cinema e linguagem de TV. Na época de A Pedra do Reino houve quem dissesse que a minissérie não era um produto adequado para a televisão. Há diferença pra você?
No intuito de elogiar, as pessoas falam que meu trabalho na televisão é cinema, mas eu discordo. Agradeço o elogio, mas discordo. Cinema para mim é uma coisa e televisão é outra, é a diferença é uma questão de linguagem.  Em nenhum de meus trabalhos para tv, tive o desejo de assistir aos episódios emendados uns aos outros, partes com partes, como se formassem um filme, porque sabia, de antemão, que não constituiriam um filme. Pelo menos um “filme” que me interessaria realizar. Portanto, gostaria de insistir que Capitu e todas as outras realizações são um projeto de TV e para a TV, mas, talvez, simplesmente, uma outra TV. É certo, por outro lado, que não tenho sequer uma classificação mais plausível, muito menos um nome para tal processo no qual eu sinta essa experiência híbrida com a literatura e a tv perfeitamente traduzida. O que vejo é simplesmente um conjunto de tentativas sinceras.

No entanto, você criou um clássico da TV brasileira, que são aqueles cinco capítulos iniciais da novela Renascer (e digo ‘criou’ porque a direção teve demais a ver com a repercussão que aquele início de novela teve). Como você vê essa questão da linguagem?
Em relação a Renascer, o pouco que realizei em novelas foi no caminho de tentar humanizar sua narrativa, na maioria das vezes forjada de forma hegemônica e excessivamente industrial. Se na televisão, entre um take e outro, tenho a sensação de estar sendo vigiado por todos os lados, no cinema, ao contrário, é como se [mesmo sem fazer a mínima força para que isso aconteça] estivesse sozinho em meu quarto, fazendo coisas, falando com meus segredos, revelando-me sem ninguém ver: livre, dentro do cativeiro do rigor. Porém, sabendo da dimensão que a televisão alcança neste nosso Brasil, tratá-la apenas como diversão me parece bastante contestável. Precisamos de diversão, mas também precisamos nos orientar e entender o mundo. Os limites cabem a cada um. De minha parte, procuro um diálogo entre os que sabem e os que não sabem; um diálogo simples, sóbrio e fraterno, no qual aquilo que para o homem de cultura média é adquirido e seguro torne-se também patrimônio para o homem mais comum, pobre, e que, em relação a tantas questões, encontra-se ainda abandonado. Esta é a televisão que sonho ver no futuro. Ou sigo por este caminho ou, sinceramente, nada faz sentido.

Como isso foi pensado para Capitu?
Encontrar a narrativa para dialogar e atualizar a visão que os jovens tinham sobre este romance do Século XIX foi, ao mesmo tempo, meu maior prazer e meu o maior desafio. Falo da busca por um modo “inconfiável” de narrar, assim como o fez Machado de Assis. E este modo, que é todo feito de retalhos do tempo e dos espaços, onde, a principio, não correspondem em verdade ao tempo e ao espaço onde as ações estão se desenvolvendo, mas que, ao serem alinhavadas pela montagem, ganham o aspecto de verdade. Este jogo narrativo entre verdade e imaginação é o elemento da narrativa que mais me interessou, e ele está diretamente ligado ao personagem Dom Casmurro. Ele é o tecelão que arquiteta esta colcha de retalhos. A literatura nos ensina a ver as várias camadas do real, pois consegue trabalhar nas entrelinhas. A vida não fica restrita a ação e reação, causa e efeito, moral da história, bem e mal.

Em A Pedra do Reino você usou muitos atores nordestinos (paraibanos, principalmente), por conta da postura do projeto Quadrante de formar grande parte do elenco a partir de atores locais. Por isso, o elenco era praticamente todo desconhecido. Como Capitu é um projeto carioca, há nomes mais familiares – desde a estrela Maria Fernanda Cândido a Michel Melamed, que é conhecido por quem acompanha a cena teatral, e César Cardareiro, que fez o Sítio do Picapau Amarelo. Como foi a escolha do elenco? Há realmente uma preocupação por escalar um grande nome ou uma predileção por novos nomes? Ou você não se preocupa com isso ou não tem preferências a respeito?
Os talentos locais trazem consigo seus territórios, suas memórias. Um conjunto ético e estético, e, além da construção da fabulação, promovem, a um só golpe, uma reflexão que busca um retrato mais justo do país. Também não sigo sempre o mesmo procedimento. Existem os testes, mas também acontecem encontros em que sou arrastado. Por outro lado, o país tem muitos talentos, e este baú deve ser revirado de cabeça para baixo. Não precisaríamos ficar batendo sempre na mesma tecla, principalmente quando o papel não exige necessariamente um rosto consagrado pela mídia. Então qual é o sentido? Não há sentido!  Identifico um certo exagero nas escalações, não estou falando exclusivamente de tv, falo de um modo geral, toda a indústria dita cultural produz esta distorção, que a meu ver não contribui em nada para a narrativa, nem mesmo para o mercado. Estes excessos produzem, isto sim, uma espécie de desmitificação das personagens, que, por sua vez, acabam rendendo pouco à história.  Até mesmo os grandes atores são vulneráveis a dilução de seus talentos pelo excesso de exposição desnecessária.  Quanto ao Michel, há algum tempo o acompanhava de longe. O trabalho dele é um conjunto de felicidades, mas, essencialmente, trata-se de um artista puro. Não ligo se fica fora de moda essa tentativa de definir meu encontro com um intérprete, mas ao conjunto enorme, dentre outras coisinhas, somam-se: dignidade humana e artística, sensibilidade, inteligência, e uma generosidade com tudo e com todos. Esse é o meu querido Dom Casmurro. Não há outro igual na face da terra.

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