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Complexo só no visual

A intenção foi boa, mas o tom simplório é frustrante

Se o cinema vivesse tantas revoluções quanto as vezes em que a palavra  “revolucionário” é usada para definir um filme… Ela foi pronunciada de novo a respeito de Avatar (Avatar, Estados Unidos, 2009) que é mesmo deslumbrante visualmente, mas nada mais que o esperado passo adiante no desenvolvimento da tecnologia. Ou seja: certamente é uma evolução, mas não revolução.

Sim, o planeta criado pelo filme, Pandora, é palpável e os Na’Vi, os aborígenes do local, parecem de verdade – mas, no jogo de concessões entre espectador e filme, convenhamos: é preciso “acreditar” até no Roger Rabbit. Por sorte, Cameron não é bobo e muito menos um Michael Bay: sabe que só isso não iria fazer seu filme funcionar.

Por isso, Avatar não é só uma festa de efeitos especiais. Há não apenas uma história a ser contada como há também uma mensagem de tons ecológicos e antiimperialistas, tudo bem antenado com os dias de hoje. A trama em si é quase uma refilmagem de Dança com Lobos (1990) – nenhuma novidade nisso, a semelhança já foi apontada várias vezes e é percebida facilmente a olho nu.

Os dois filmes podem ser resumidos, inclusive, com as mesmas palavras: Militar americano vai a um ponto distante e, ao entrar em contato com um povo que aos seus olhos é inferior, acaba vivendo entre eles e descobrindo suas tradições e espírito honrado para, no fim, lutar ao lado deles contra o exército opressor, do qual antes fazia parte. Onde há índios em um coloque os Na’Vi, e onde há Kevin Costner coloque Sam Worthington.

Nem mesmo essa releitura chega a ser novidade, já que O Último Samurai (2005) também pode ser resumido assim. Mas Avatar, mesmo tirando força de seu impacto visual e de uma extrema defesa da ecologia, se torna um bom filme mesmo porque há um suporte: a elaboração dos aspectos de ficção científica e das próprias implicações dramáticas dos avatares, construídas de forma inteligente.

Mas há também infelicidades no roteiro, e um dos problemas principais é seu extremo maniqueismo. Bons são bons e maus são maus sem qualquer nuance e, entre os Na’Vi, as diferenças de personalidade são mínimas. Simplificações desse tipo – quase um tatibitati – são um tanto frustrantes em um filme que, tecnologicamente, e tão complexo.

Avatar chega, em determinado momento, a usar um Deus ex machina muito mal acomodado na trama. Essa “intervenção divina” beira a inocência, mesmo que o roteiro de Cameron tente maquiá-la com mal arranjados termos científicos. Quase põe tudo a perder (e a trilha sonora várias vezes irritante de James Horner colabora para isso), lembrando que revolução técnica por revolução técnica, nem sempre elas correspondem a obras-primas: O Cantor de Jazz (primeiro filme falado, este, sim, mudando tudo) e O Manto Sagrado (primeiro em tela larga) são bem mais ou menos.

Por enquanto, Avatar está bem acima deles – veremos com o tempo. Até porque Cameron repete problemas de Titanic: dá origem a um filme muito bom, arrebatador em alguns momentos, mas que derrapa no sentimentalismo quando deveria se conter. Não faria nada mal que o diretor lembrasse um pouco da fase de seu cinema em que era mais “bruto”.

Avatar (Avatar). Estados Unidos, 2009. Direção: James Cameron. Elenco: Sam Worthington, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi. Vozes e captura de movimentos: Zoe Saldana, CCH Pounder, Wes Studi. Atualmente em cartaz nos cinemas.

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