O cineasta, com Claudia Cardinale nas filmagens de "8½"

“Eu sou um grande mentiroso”, disse uma vez Federico Fellini em uma entrevista famosa. Essa definição – a princípio desfavorável – pode ser entendida de outra forma. Mentira, no cinema, pode ser apenas outra palavra para sonho. Fellini era, isso sim, um grande sonhador e dividiu seus sonhos com as plateias em 24 filmes (15 deles disponíveis em DVD), entre os quais obras fundamentais do cinema – como A Estrada da Vida (1954), Noites de Cabíria (1957), A Doce Vida (1960) e Amarcord (1973). Fellini faria 90 anos hoje – morreu em 1993. Seu último filme é de 1990 – e, desde então, não surgiu criador sequer parecido no cinema.

Embora Fellini tivesse sido jornalista antes de cineasta – o que o ajudou a assumir funções de roteirista antes de diretor -, ele também foi desenhista, e é nesse aspecto que há uma grande influência no que chamou depois de “felliniano” (o adjetivo já está no Aurélio). O visual responde por grande parte do aspecto onírico das obras do mestre italiano.

Como roteirista, participou da aurora do neorrealismo italiano: com Sergio Amidei (e Roberto Rossellini, sem crédito), escreveu o roteiro de Roma, Cidade Aberta (1945), marco inaugural do movimento que trocou estúdios por locações, usava atores não profissionais e buscava contar os dramas do povo italiano no pós-guerra. Mais realista, só documentários. E menos Fellini, impossível.

"Noites de Cabíria": feito para Giulietta Masina brilhar

Quando assumiu a direção, ele combinou a estética neorrealista com crônicas, como o memorialista Os Boas-Vidas (1953). Sua primeira obra-prima já surgiu aí: A Estrada da Vida, com uma interpretação chapliniana de Giulietta Masina, sua mulher de 1943 até a morte.
Para Giulietta, ele criou Noites de Cabíria, retomando a prostituta que apareceu brevemente em seu segundo filme, Abismo de um Sonho (1952). Uma das maiores personagens do cinema, onde a realidade já assumia, em momentos importantes, ares delirantes.

Barco de mentirinha, mar de plástico e o sonho à toda em "Amarcord": quem precisa de CGI?

Seguiram-se tempos mais introspectivos, marcados principalmente por A Doce Vida e 8 ½ (1963). O primeiro, uma reflexão sobre o vazio da vida moderna (e, de quebra, criou o personagem Paparazzo, que definiu todos os fotógrafos perseguidores de celebridades que vieram depois), o segundo mostra um cineasta e seus demônios interiores (vistos por dentro da mente dele), filme revisitado como musical em Nine (2009).

Amarcord é seu grande filme da fase colorida – uma nova volta à infância em Rimini em que memória se mistura com fantasia e até o mar é abertamente de plástico. De mentirinha, mesmo, mas o sonho está lá (quem precisa de CGI?). Tudo bem, afinal, como ele dizia: “O visionário é o único realista verdadeiro”.

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Pra encerrar, o emocionante momento em que Fellini recebe seu Oscar especial das mãos de Marcello Mastroianni (seis filmes com o diretor, mais um para a TV) e Sophia Loren (um filme), em 1993 (“Giulietta, please, stop crying!”):

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