Um irreverente consciente

Rafael: sem entrar em certas ilhas

“Só comecei a me sentir mais confortável depois que saí do eixo do stand up”, conta o comediante Rafael Cortez, que apresenta seu solo De Tudo um Pouco hoje, no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa. “Eu nem digo que meu show é de stand up porque eu quebro as regras: tem uma parte de anedotário popular, improviso, tem muita interação. Tem um roteiro, mas eu nunca sigo”.

Rafael Cortez conversou com a reportagem do JORNAL DA PARAÍBA por telefone, do aeroporto em São Paulo, partindo para o roteiro de shows do fim de semana, que começou em Uberlândia, ontem. É um dos integrantes do CQC que não tinha experiência no stand up. Para melhorar no programa, resolveu encarar o palco sozinho. “Fazendo uma reflexão do trabalho que eu fazia, eu me valia de presença de espírito, cara de pau e simpatia, enquanto os meninos tinham experiência em renovar piadas e observar as coisas em volta com irreverência”, conta. “No final de 2008, resolvi que faria stand up em 2009 para ter esse olhar irreverente sobre as coisas. Pra mim, seria um laboratório, um trampolim pra melhorar meu trabalho no CQC. Acabei encontrando um segmento generoso, com pessoas muito carinhosas”.

Se a cara de pau é um de suas armas no CQC, não é de hoje. Foi com ela que ele conseguiu um lugar entre os repórteres do programa. “Me chamaram pra ser produtor”, lembra. “Mas na hora das entrevista para o emprego, disse que não queria mais aquilo e só aceitaria se fosse para ser repórter”. O resultado: Cortez fez o teste e entrou para o quadro. “Já havia sido produtor de TV antes e não tinha gostado”, revela.

Antes do programa ele havia acabado de sair de um grupo de teatro infantil que integrou por quatro anos e trabalhava como jornalista da Editora Abril. “Era com produção de conteúdo para celular”, lembra. “Quando trabalhava na editora, era legal, mas quando passei a trabalhar em casa, passou a ser uma rotina chatíssima, fiquei infelicíssimo”. Foi aí que enviou currículo para vários lugares – um deles, se oferecendo como produtor, para o então ainda inédito CQC.

Cortez também é violonista e até pensou em unir os lados de humorista e músico no palco, mas não funcionou. “Eu toco violão erudito e isso não cabe na comédia”, diz. Mas ele está em processo de gravação de seu primeiro CD instrumental, com 12 composições próprias. “Vai reunir peças desde a minha primeira composição, em 1996, passar por uma fase experimental, quando estudei com Badi Assad… Eu estou muito orgulhoso dele”, conta.

“Na verdade, eu nem me acho músico”, continua. “A definição correta é violonista, mesmo. O instrumento é tão complexo que você tem que viver pra ele”. O disco instrumental será lançado ainda neste semestre, mas Rafael Cortez também tem composto canções com letras. “Mas esse trabalho ninguém viu”, afirma. “Esse eu só lanço se a Maria Bethânia gravar”.

Rafael Cortez lança o disco como um nome já conhecido na área do humor e da televisão – e que, como os demais integrantes do CQC, já tem a admiração de uma legião de fãs. Mas ele tenta com firmeza não deixar a fama subir à cabeça. “Eu acho que o nosso trabalho dentro do CQC nunca pode se confundir com essa coisa de celebridades”, afirma. “Eu desconfio desse mundo mesmo”.

Por outro lado, ele também acredita que parte disso é inevitável. “É um reflexo do mundo em que a gente vive. O Brasil é assim mesmo”, diz. “Se você está na televisão, acaba virando pauta. Mas o que a gente tenta fazer no programa é uma crítica construtiva expondo a celebridade. Eu tenho uma postura muito crítica e evito convites do tipo ‘Venha à nossa festa’, ‘vá a esta ilha’, ‘venha sair com estas pessoas’… A coisa mais importante pra mim ainda é o CQC“.

O assédio do fãs, no entanto, para ele, não é problema. “O assédio é ótimo, porque revela que as pessoas gostam do programa”, avalia, dizendo que o trabalho também tem isso como objetivo. “Se as pessoas querem me buscar no aeroporto, se querem tirar foto, eu vou tirar”.

O humorista tem priorizado o Nordeste em suas apresentações – e, depois de João Pessoa, ainda passa por Recife, amanhã, e Natal, nos dias 28 e 29. “Rio, São Paulo, Porto Alegre já têm uma grande oferta de shows e nós vamos muito a esses lugares fazer matérias”, explica. “Quero ir a lugares onde nunca fui e fazer o show para pessoas que não tem a oportunidade de ver a gente de perto”.

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