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A vida suspensa

Clooney ensina Anna a arrumar uma mala: guia de sobrevivência para viver nos ares

Em momento-chave de Amor sem Escalas (Up in the Air, Estados Unidos, 2009), Ryan Bingham, personagem de George Clooney, está sentado em sua poltrona no avião quando é perguntado de onde ele é. “Daqui”, responde ele. É a súmula do personagem: um homem que gosta de viver sem amarras – na verdade, se orgulha tanto disso que até dá palestras sobre como deixar de lado a bagagem desnecessária (casa, família, relacionamentos) para viver a vida em trânsito. Nas mãos de um dos melhores contadores de histórias da nova geração de cineastas, Jason Reitman, isso é só o ponto de partida.

Bingham possui um trabalho peculiar, que permite a ele viajar quase todo o tempo pelos Estados Unidos: demitir funcionarios de empresas nas quais os gerentes não têm coragem de fazê-lo. Na atual conjuntura, de crise, ele trabalha sem parar: vive de aeroporto em aeroporto cruzando o país.

Para ele, é a vida perfeita. Os relacionamentos são casuais e, da família, ele prefere mantes distância. De tanto viajar, vira cliente VIP e é bem tratado pela companhia aérea, pela empresa de aluguel de carros, etc. Ele trem seu guia de sobrevivência, do que levar ou não levar, que filas pegar, sua rotina de cartões em leitoras não falha, tudo é descomplicado. É assim também que ele vê seu trabalho: ele tem método, não se deixa envolver nos dramas de que está sendo o estopim.

Ele tem não só um método, mas uma filosofia de trabalho. E colocar alguém simpático como George Clooney nesse papel é fundamental para que o público não encare Bingham como um monstro sem coração. Em outro momento, ele diz que não está sozinho, mas sempre cercado de gente. Um comentário inteligente sobre esses tempos de redes sociais e programas de bate-papo onde você está sempre conectado a uma multidão, mas, na verdade, quase sempre está só (mesmo que gostando).

O filme começa mesmo quando ele precisa fazer seu trabalho com uma jovem colega, Natalie (Anna Kendrick), que desenvolveu um sistema de videoconferência para a função que pode manter Bingham no chão. Ele quer provar que seu método é o mais adequado e, para isso, ela deve acompanhá-lo no que, talvez, seja a última viagem.

Nesse ponto, suas convicções começam a ser bombardeadas. Natalie, muito profissional na base da empresa, é jovem: ele começa a ver nela o real peso do que faz. Ela também é alguém que acredita nos relacionamentos e a postura de Bingham a incomoda: a tensão profissional vai virando uma tensão comportamental entre o veterano e a aprendiz.

Ao mesmo tempo, o envolvimento casual com Alex (Vera Farmiga), a “versão feminina” de Bingham, começa a ficar mais importante. Será que, com ela, tão fascinante e parecida com ele, Bingham poderia considerar a possibilidade de criar raízes?

Embora ele tente escapar, a família também o procura: há um casamento e sua irmã pede para que leve um poster dos noivos para tirar fotos em vários lugares: ou seja, Bingham agora tem que levar a família na mochila, mesmo que faça palestras contra isso.

Reitman conta muito das situações pelos detalhes e se preocupa com que o visual comunique com alguma bossa, mas sem parecer afetado demais. É o caso da simetria de gestos de Alex e Ryan em seus notebooks. Ou como o mundo organizadinho e confortável de Bingham é mostrado através de uma sinfonia de gestos e sons (mochila sendo arrumada, cartões sendo passados, e até a maneira mais eficiente de passar pelas esteiras de bagagem). Onde o desmontar dessa rotina levará o personagem?

Há diversas grande cenas, construídas sobre um diálogo brilhante e conduzidas por um elenco preciso. É o caso daquela em que Natalie chora suas mágoas, diz o que espera de um homem (muita coisa) e Alex, mais velha, mostra que as expectativas na vida podem ser bem mais simples – e, ainda assim, mais complicado do que quer Bingham.

Reitman aposta, como em seus dois filmes anteriores, na inclusão de canções que comentam bastante sobre o filme, mas não são óbvias e é um dos poucos diretores que gosta de aberturas bem sacadas em seus filmes – nesses tempos apressadinhos, quase todo mundo tem colocado apenas o título no começo dos filmes e empurrado todos os créditos para o final. Aqui, o filme apresenta uma montagem com cenas áreas, uma metáfora que casa bem com o título original e fala não só da condição do personagem estar sempre voando, mas também de seu estado autoimposto de “suspensão” das relações humanas. Por isso, o título nacional erra a mão, porque o filme trata bem mais do que de amor.

E uma das grandes sacadas do filme é, sem ser sobre isso, fazer um comentário bastante eloqüente sobre a crise nos Estados Unidos. Reitman, que escreveu o roteiro junto com Sheldon Turner, com base em romance de Walter Kim, optou por usar, nas cenas de demissões, pessoas que realmente haviam sido demitidas para se misturar aos atores e improvisar suas reações.

Reitman colocou uma notícia em jornais convocando recém-demitidos para um documentário (foi dito assim, para evitar que atores aparecessem) e orientou os selecionados para repetir suas reações no momento da demissão ou dizer o que gostariam de ter dito na ocasião. Assim, vivenciamos de verdade aquilo com que Bingham lida tão profissionalmente. “Que tipo de homem é você”, um dos demitidos pergunta. No final, nem o próprio Ryan Bingham sabe direito – e essa é a beleza do filme.

Amor sem Escalas. (Up in the Air). Estados Unidos, 2009. Direção: Jason Reitman. Elenco: George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga, Jason Bateman, Amy Morton, Melanie Lynskey, J.K. Simmons, Sam Elliott, Zach Galifianakis. Em cartaz nos cinemas.

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