Um filme que voa alto

O mais romântico dos filmes de super-herói

Em determinado momento de Superman – O Filme (Superman – The Movie/ Superman, Estados Unidos, 1978), o super-herói evita uma série de crimes e desastres em sua primeira noite de ação em Metrópolis. De repente, ouve mais um problema e dedica a ele igual atenção: uma menininha chama seu gatinho, que está preso numa árvore. Desce, pega o bichano, entrega para a garotinha e volta à ronda. ´

A cena, hoje, é uma piada até corriqueira – está em Os Incríveis (2004), por exemplo – e a cena nem deve ter sido novidade na época. De fato, o filme de Richard Donner parece usá-la já como uma referência da personalidade do Super-Homem: um boa praça sem igual. Mais do que uma piada, é uma piscadela do filme para o público dividindo um comentário simpático a respeito do personagem.

Superman – O Filme é uma adaptação única de uma história em quadrinhos para o cinema e provavelmente não terá outra igual justamente por essa combinação dificílima de inocência e uma certa malícia. O filme é de um período em que o cinema americano havia redescoberto o escapismo, mas também mergulhava no realismo e lado negro do ser humano. Há muito pouco de sombrio em Superman, mas o filme não é bobo: olha para o seu herói achando um tanto engraçado tanto bom-mocismo, mas acredita piamente nele.

Assim, Christopher Reeve esbanja sinceridade ao dizer para Lois Lane (Margot Kidder), depois de salvá-la da queda do alto de um edifício, não ter medo de voar porque “estatisticamente é o meio mais seguro de viajar”. E quando diz a ela que está aqui para defender “a verdade, a justiça e o modo de vida americano”, o filme prontamente a coloca dando uma risadinha e dizendo que ele “terá que enfrentar várias autoridades”.

A cena da entrevista, então, é um primor de duplo sentido, onde cada peça do diálogo é brilhante. Sem dizer nada explícito, a tensão sexual é enorme – para perguntar sobre a visão de raios-x, ela pergunta qual a cor da calcinha que está vestindo! E ele olha! Dali, a cena parte para o romântico vôo do casal por Nova York, que faz as vezes de Metrópolis, cidade fictícia onde a história se passa.

É difícil pensar que um filme atual possa investir nesse equilíbrio inocência-malícia (nem Superman – O Retorno, de 2006, conseguiu) ou dedicar tanta atenção ao envolvimento amoroso dos personagens. A coisa está mais para o tom sombrio de Batman, o Cavaleiro das Trevas (2008) ou o tom bem-humorado (mas não inocente) de Homem-Aranha (2002) e suas continuações.

Superman – O Filme também foi o primeiro filme de grande orçamento baseado em uma história em quadrinhos. Antes, nos anos 1930, as HQs eram freqüentes no cinema, mas não como longas-metragens e sim como seriados com episódios semanais e pouquíssimos recursos. Pouco mudou nas décadas seguintes, quando Super-Homem e Batman chegaram à tela grande na esteira de seus seriados na TV.

Para o filme de 1978, Alexander e Ilya Salkind queriam uma produção respeitável. Por isso, garantiram os grandes atores Marlon Brando para o papel de Jor-El, o pai kryptoniano do herói, e Gene Hackman, como Lex Luthor, o principal vilão, além de Mario Puzo – autor de O Poderoso Chefão – para o roteiro (também assinado por David Newman, Leslie Newman e Robert Benton, e que também teve a colaboração de Tom Mankiewicz, que assina como “consultor criativo”).

Mesmo assim, só quando Richard Donner assumiu a direção é que o tom realista foi definido. O diretor – que havia lançado o sucesso A Profecia dois anos antes – não queria fazer uma paródia, mas que o público “acreditasse” no que veria na tela. “Você vai acreditar que um homem pode voar”, dizia o cartaz. E isso foi proporcionado não só pelos efeitos especiais, mas por todo o conceito do filme.

Por isso, é muito melhor que Nova York faça as vezes de Metrópolis do que se tivesse sido construída uma cidade em estúdio. E que o humor tenha sido bem dosado – não por acaso, quando Donner foi demitido do segundo filme e Richard Lester entrou em seu lugar, o tom de comédia subiu muito até dominar a cena no terceiro filme.

Por outro lado, a produção desenvolveu novos efeitos especiais (assinados por John Barry) e combinou outros já existentes para que o Super-Homem fosse convicente como nenhum super-herói antes dele em um filme ou série com atores: maquetes, cabos, projeções de fundo, pinturas…

Donner sabia que tinha um tesouro nas mãos, tanto que faz o público esperar até não agüentar mais para ver o herói entrar em cena: as cenas em Krypton, Smallville e até Luthor é introduzido na trama antes da breve cena que começa com Christopher Reeve no fundo da Fortaleza da Solidão e levantando vôo até vir em direção à tela e passar em frente a nós, espectadores – aos 48 minutos de projeção! O filme faz  a platéia esperar quase uma hora pelo primeiro e rápido vôo do homem de aço e 1h07 pela primeira vez que ele entra em ação. Com tanta expectativa, imagine aquilo para quem nunca viu nada igual, em 1978!

Por limitação ou estilo escolhido, a solução para o vôo foi a melhor possível: na maior parte das vezes, o espectador voa com o Super-Homem em vez de simplesmente vê-lo passar voando. É a câmera que “voa”, mas a atuação de Christopher Reeve é extremamente convicente, fazendo valer cada acorde do espetacular tema composto por John Williams.

Não só Reeve está no tom ideal, mas todos os outros atores também. Gene Hackman faz um Lex Luthor bem diferente dos quadrinhos, mas constrói um fanfarrão inesquecível, cheio de frases antológicas. Margot Kidder é uma Lois Lane perfeita desde os testes – o que dá para ver nos extras, em comparação com suas concorrentes. Brando dá o tom épico esperado a Jor-El e Terence Stamp, em breve aparição, mostra todo o perigo de seu personagem, o General Zod, já predestinado a voltar com tudo no segundo filme (que começou a ser filmado ao mesmo tempo).

Além destes, há uma penca de grandes atores em papéis coadjuvante e aparições pequenas, transferindo sua respeitabilidade para o filme. Glenn Ford (de Gilda) faz Jonathan Kent, pai terrestre do herói. Jackie Cooper, astro mirim nos anos 1930 e veterano da televisão, é um ótimo Perry White, editor do Planeta Diário. Valerie Perrine e Susannah York eram duas das maiores beldades do pedaço: a primeira havia estrelado Lenny (1974), senod indicada ao Oscar, e fazia as vezes da inesquecível Senhorita Teschmacher; a segunda era uma estrela inglesa na ativa desde os anos 1960, em filmes como As Aventuras de Tom Jones (1963), e foi a mãe kryptoniana do Super-Homem. No conselho de Krypton, ainda tínhamos o inglês Trevor Howard, astro de Desencanto (1946) e a austríaca Maria Schell (de A Árvore dos Enforcados, 1959, e O Dossiê Odessa, 1974).

Há uma série de cenas icônicas que fazem de Superman – O Filme um referencial do homem de aço até mesmo para os quadrinhos atuais (que têm aproximado os elementos do universo do herói aos do filme): a destruição de Krypton e o envio do bebê Kal-El para a Terra; o bebê erguendo o carro do casal Kent, no Kansas; o jovem Clark (então intepretado por Jeff East) correndo mais rápido que um trem; a primeira aparição do herói em Metrópolis, depois de olhar desconfiado para o orelhão (sem cabine) e preferir se trocar em alta velocidade em uma porta giratória; o Super-Homem servindo de trilho para salvar um trem em alta velocidade; a perseguição ao míssil.

Ou seja: um marco. Não é qualquer filme que deixa de herança tantas imagens fundamentais.

Superman – O Filme. (Superman – The Movie/ Superman, Estados Unidos, 1978). Direçao: Richard Donner. Elenco: Christopher Reeve, Gene Hackman, Margot Kidder, Jackie Cooper, Marlon Brando, Glenn Ford, Ned Beatty, Valerie Perrine, Susannah York, Trevor Howard, Maria Schell, Terence Stamp, Sarah Douglas, Phillys Taxter.

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