Lição de vida

Evocando Audrey Hepburn

Volta e meia, alguém sempre afirma que esta ou aquela atriz é a “nova Audrey Hepburn”. Nenhuma chegou a confirmar a impressão, mas agora surge uma nova possível sucessora – e a mais séria até então: Carey Mulligan, a revelação de Educação (An Education, Reino Unido, 2009), um pequeno filme que chegou bem mais longe do que prometia a princípio.

Carey interpreta Jenny, uma menina de 16 anos que é a melhor aluna de sua classe. Mesmo assim, o pai (Alfred Molina) ainda exige mais: que ela melhore em seu único ponto fraco, o latim, para assegurar a vaga na universidade de Cambridge. O filme se passa no começo dos anos 1960, com os Beatles ainda em algum lugar prestes a estourar e o psicodelismo está meio longe de aparecer.

O fascínio da garota está na língua e na cultura francesas, símbolo da modernidade para uma Londres ainda um tanto conservadora. Um dia, porém, ela conhece um homem mais velho, David (Peter Sasgaard), que mostra a ela um mundo novo, adulto, elegante e misterioso – muito diferente da escola e da casa de Jenny, onde suas referências culturais e intelectuais acima da média parecem sempre deslocadas.

O título fala bastante sobre o filme, porque o que Jenny vai ter, embora nenhum dos personagens saiba, é uma educação para a vida. O escritor Nick Hornby baseou o roteiro não em um livro seu (vários, como Alta Fidelidade, chegaram ao cinema), mas nas memórias da jornalista Lynn Barber. O que sai daí é uma história que não é novidade, mas que passa com realismo admirável a situação de dúvida que a protagonista passa a viver.

O que seria melhor para ela? Mergulhar nesse mundo glamouroso, mas misterioso, ou seguir o rumo previsível e aparentemente sem grandes emoções da vida escolar. Lone Schrfig, diretora dinamarquesa egressa do Dogma 95, não procura grandes vôos narrativos, preocupando-se mais em criar o ar britãnico daqueles tempos e, em dado momento, fazer o contraste com uma Paris cheia de vida.

Mas, mesmo com essa simplicidade narrativa, curiosamente Educação é um filme arriscado. Muita gente aponta um tom moralista, o que, na verdade, é coisa rara no cinema atual. Isso é menos importante do que o que de fato o filme é: o desabrochar para a vida, com coisas boas e más, de uma garota.

E muito do filme se perderia se a esperta Jenny não fosse vivida por Carey Mulligan, em uma performance das mais adoráveis. Hoje com 25 anos, ela já havia aparecido em Orgulho & Preconceito (2005) e Inimigos Públicos (2009) sem muito alarde. Lone, no entanto, a cercou de atores que deram um belo suporte para seu brilho – incluindo aí as ótimas Rosamund Pike (como a namorada cabeça-de-vento de um dos personagens), Olivia Williams (como a professora) e Emma Thompson (como a diretora da escola).

Mais: Lone percebeu o certo tom de Audrey Hepburn da garota, aproveitou a época em que o filme se passa (quando Audrey, britãnica de origem belga, estava no auge da carreira e era modelo de beleza, moda e elegância) e não perdeu a oportunidade de reforçar essa idéia com maquiagem, penteado e figurino.

Em seu primeiro papel importante, ela já ganhou mais de dez prêmios de melhor atriz em festivais, além do National Board of Review e do Bafta. E lá está ela indicada ao Oscar. As fichas estão em Sandra Bullock, mas não dá para não pensar que Audrey ganhou o prêmio logo no seu primeiro papel de protagonista (em A Princesa e o Plebeu, 1953). Sabe quantos anos Audrey tinha quando fez o filme? 24. Não é à toa que Carey Mulligan já está escalada para ser Eliza Doolittle na nova versão de My Fair Lady.

Educação (An Education, Reino Unido, 2009). Direção: Lone Scherfig. Elenco: Carey Mulligan, Peter Sasgaard, Alfred Molina, Dominic Cooper, Rosamund Pike, Cara Seymour, Emma Thompson, Olivia Williams, Sally Hawkins.

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