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Monstros de cada um

Um espelho monstruoso

Se já não se esperaria um filme tradicional com Spike Jonze no comando, isso não iria mudar só porque Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, Estados Unidos, 2009) é a adaptação de um livro infantil. E realmente o diretor de Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) fez mais um filme personalíssimo: aqui, um filme infantil para adultos.

Dificlmente as crianças gostarão do tom bastante melancólico que Jonze imprimiu à trama escrita por ele e Dave Eggers, e muito esticada do livro de Maurice Sendak. A história é sobre Max (Max Records) um garoto rebelde, que acha que ninguém na família gosta dele, e que descobre um local povoado por monstros que o coroam rei. O filme dá personalidades específicas para os monstros, que, no fundo, são versões do próprio Max, com as quais ele acaba tendo que lidar.

É uma história de amadurecimento, mas que não entrega tudo de bandeija – como na muito simples e excelente cena final, em que não é necessário dizer nada o explicitar a lição de moral. Isso não quer dizer que o filme economize nos diálogos: o falatório é constante e coloca os personagens se exprimindo como adultos, mas com preocupações, problemas e atitudes infantis.

O problema é que até os momentos de alegria parecem baixo astral – resultado da combinação de fotografia (de Lance Acord) e trilha sonora (de Karen O.), e o preço que o filme paga por determinar essa personalidade melancólica.

Com a rebeldia como tema, por ter uma criança no papel principal e pelo aspecto “independente”, Onde Vivem os Monstros vira uma espécie de Os Incompreendidos, clássico da nouvelle vague de 1959, do mundo da fantasia. Truffaut teria gostado.

Onde Vivem os Monstros. (Where the Wild Things Are, Estados Unidos, 2009). Direção: Spike Jonze. Elenco: Max Records, Catherine Keener, Mark Ruffalo. Vozes originais: James Gandolfini, Lauren Ambrose, Chris Cooper, Paul Dano, Catherine O’Hara, Forest Whitaker.

* Publicado no Jornal da Paraíba, em 16/3/2010.

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