Deborah Colker não toca piano em '4 por 4' hoje, porque tem compromissos em NY com o Cirque du Soleil

A Cia. de Dança Deborah Colker volta a João Pessoa com 4 por 4 – a apresentação é hoje, no Teatro Paulo Pontes, às 20h30. O espetáculo já foi apresentado aqui – acho que em 2002 – e volta depois de uma remontagem onde passou por umas mudanças. Mas ele permanece com seu sentido de traçar um diálogo entre danças e artes plásticas e mantém seus segmentos: a pintura “Povinho”, de Victor Arruda, as instalações “Mesa”, do coletivo Chelpa Ferro, e “Cantos”, de Cildo Meireles, e a intervenção “Vasos”, de Gringo Cardia.

Conversei com Deborah ontem, por telefone, para a matéria que está publicada hoje, no Jornal da Paraíba. É a quarta ou quinta vez que a entrevisto – a primeira foi frente a frente e as demais, por telefone. Esta também, porque Deborah está indo para Nova York para cuidar de uma temporada lá do espetáculo que dirigiu para o Cirque du Soleil. A seguir, está a entrevista em versão estendida falando do 4 por 4, do Cirque, da dança como comunicação e da falta que faz dançar.

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É a segunda vez que o 4 por 4 vem a João Pessoa, mas li em algum lugar que se trata de um espetáculo “novo”.
Eu fiz uma remontagem em outubro de 2009, para uma apresentação no New York City Center, em Nova York. A gente escolheu o 4 por 4 porque tem esse diálogo da dança contemporânea com as artes plásticas e é um desafio de produção estética. Mas a reestréia foi com apresentações em Duque de Caxias – uma delas para 5 mil pessoas.

E o que foi que mudou no espetáculo?
O momento do piano, por exemplo, que geralmente eu toco, mas que não vou tocar aí em João Pessoa. Eram duas bailarinas nesse momento e agora são quatro. No “Povinho”, que têm pinturas feitas à mão pelo Victor Arruda, o figurino era bicolor. As bailarinas usavam saiote rosa e blusa vermelha; os bailarinos usavam calça laranja e blusa azul marinho. Era que nem uma história em quadrinhos, sabe? Que nem uma caixa de lápis, que nem uma bala daquelas coloridas. O fato de não ser monocromático fazia com que eles ficassem perdidos na pintura. Em outros momentos, não mudei nada esteticamente, mas mudei coreograficamente. É muito legal trazer o espetáculo para onde você está agora.

Você mudou o espetáculo apenas, digamos, perifericamente, ou o sentido também mudou?
Não, mudei apenas perifericamente. O fundamental no 4 por 4 continua sendo o diálgo das artes plásticas com a dança. Trazer as artes plásticas para dentro da dança e aí ela vira outra coisa.

Você sentiu que esse diálogo tem trazido outro público para o espetáculo? Por exemplo, o pessoal das artes plásticas que não tem ligação com a dança, mas vai ver por causa dos artistas…
Ah, muito. Aqui no Rio, principalmente, e em São Paulo… Artistas, diretores de museus… É um perfil da companhia: ter um público misturado. Aliás, é um trunfo da companhia atingir um público bem variado, do mais erudito ao popular.

A gente uma vez conversou sobre a dança como forma de comunicação, então você acha que sua forma de se comunicar através da dança talvez seja menos abstrata do que a média da dança contemporânea?
(Pensa) Olha… Eu não posso afirmar que é menos abstrato, porque faz parte do mundo da dança a abstração. Como a comunicação se estabelece com o público é uma escolha do público. Eu abro um monte de janelas, proponho um monte de coisas. A obra dos vasos, por exemplo, fala sobre restrição, sobre ter um espaço restrito e encontrar um mundo livre. Mas restrição é uma idéia. O público se relaciona com a idéia, mas muita gente olha e só acha que é bonito. Às vezes, eu sou mais direta, mas às vezes não.

Essa relação com o espaço é também outra característica dos seus espetáculos. Você acha que isso facilita a relação com o público?
Pra mim, cada espaço novo me leva para um caminho de movimento diferente. E adoro quando o pessoal me pergunta na rua: ‘E aí, tá com espetáculo novo? O que é que vai aprontar agora?’. Ma snos últimos espetáculo, o e o Cruel, eu busquei um novo espaço, um espaço de sentidos, de entrar na alma humana, na condição humana. Acho que é assim mesmo, como numa viagem: você tá com a mala cheia de coisas, mas elas caem pela estrada ou não servem mais e você vai deixando, e você foi para a frente. E começa a precisar de coisas novas.

E como vai o espetáculo que você dirigiu para o Cirque du Soleil?
Ah, estou indo para Nova York porque o Ovo estréia lá dia 9 de abril.

E como foi a experiência? Dirigir um espetáculo numa companhia que não é a sua…
É, uma companhia que não é a minha, e que faz espetáculos enormes, gigantescos e um comprometimentos com outros mundos, platéias, línguas misturadas… Foi – e ainda é – maravilhoso lidar com tudo isso. Foi instigante e às vezes desesperador. Mas o espetáculo tem uma assinatura bastante brasileira, bastante feminina, bastante Deborah. Eu me reconheço ali.

Você acha, então, que conseguiu imprimir seu estilo?
Acho que ele me afirma como artista. É bacana ter entrado nessa estrutura tão grande e ter aprendido muita coisa. E acho que dei muito de mim também. E isso de ser a primeira mulher e primeira latino-americana a dirigir o Cirque… Parece piada, mas é verdade!

O que o espetáculo tem de mais seu?
A música mudou muito, o Cirque usava uma música muito marcada. E a própria maneira como contei a história. E que bom que o título ficou Ovo, em português. Vai ser boa essa viagem, sinto saudades do Ovo, sabia?

E você voltou a dançar (na entrevista anterior que fiz com ela, Deborah se disse angustiada porque os compromissos não davam mais tempo para que ela dançasse nos espetáculos)?
Ai, que pergunta difícil! (risos)… Consegui fazer a “Mesa” e o piano no 4 por 4 em Salvador e quase fiz o “Povinho”. Eu não sei se consigo mais dançar. Fiz dois espetáculos sem a minha presença, o Cruel e o Ovo e eu adoro só dirigir. Tem um lado bom em ficar do lado de fora: você vê as coisas com mais nitidez. Mas também é bom estar dentro. Me lembro do Velox, por exemplo, quando os bailarinos achavam que não ir dar e eu ficava lá, pendurada na parede, experimentando, criando…

Além do 4 por 4, a companhia está em cartaz com quais espetáculos?
A gente vai ao Reino Unido com o Cruel, no dia 23 de abril. Será uma turnê de 65 dias pela Europa.

Só com o Cruel?
“Só com o Cruel?”?? E você acha pouco (risos)? Imagina o trabalho que dá viajar com esse cenário todo (risos). Ah, e o Mix vai para Washington em outubro.

E já está preparando um espetáculo novo?
Comecei a montar desde novembro.

É para esse ano?
Não, para o começo do ano que vem. Mas desse eu não posso falar nada, agora.

Ok. Deborah, obrigado pela entrevista e um beijo!
Obrigada a você. E manda um beijo pra João Pessoa! Adoro essa cidade, que tem um dos passeios de barcos mais lindos que já fiz na vida!

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