Ilha expressionista

DiCaprio e Ruffalo: perdidos em um pesadelo kafkiano

O começo de Ilha do Medo (Shutter Island, Estados Unidos, 2010) se passa em uma balsa e o espectador atento já percebe algo estranho.  É uma sensação que acompanha todo o novo filme de Martin Scorsese. A ambientação em um presídio psiquiátrico é o ponto de partida para mais um mergulho do diretor na psicologia dos seus personagens, além de visitar diferentes gêneros do cinema.

Na balsa, estão dois investigadores do FBI, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo), para desvendar o caso de uma paciente que fugiu, embora ninguém saiba como. Teddy possui seus demônios pessoais, sendo “assombrado” pela esposa (Michelle Williams), morta tragicamente. Claro, as coisas começam a se complicar cada vez mais, dentro e fora da mente de Daniels.

O filme, então, mistura elementos típicos dos filmes noir, terror psicológico e produções B. No primeiro caso, inclusive, há um decalque muito forte do estilo e diálogos desses filmes dos anos 1940 e 1950. Tão forte que chega a causar um certo estranhamento, mas isso não é à toa, como nada é em Ilha do Medo. Na verdade, veremos depois que faz muito sentido.

Se a trama surpreende ou não, depende do espectador e, sinceramente, é o que menos importa. Não é com isso que Scorsese está preocupado, e, sim, com o que se passa na mente de Teddy. A concepção das cenas de memórias e pesadelos, o caráter kafkiano de algumas seqüências e até o apelo kitsch de uma ou outra composição – tudo se justifica numa evocação do clássico mudo O Gabinete do Dr. Caligari (1919). Scorsese aproveita Ilha do Medo para fazer seu próprio filme expressionista.

Tudo converge para o final, em um longo epílogo que mostra sobre o que o filme é realmente. Por uns intantes, parece que tudo está se prolongando além do próprio final do filme. Mas aí vem o diálogo fundamental, que amarra tudo o que foi visto anteriormente e dá um sentido completo a Ilha do Medo que vai muito além de possíveis surpresas ou revelações.

Ilha do Medo (Shutter Island). Estados Unidos, 2010. Direção: Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Emily Mortimer, Max von Sydow, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, Elias Koteas.

* Versão estendida da crítica publicada no Jornal da Paraíba.

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