Pessoal de Sampa, neste sábado será lançado o livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, do amigão da vizinhança Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos. Quem estiver na cidade, não perca: será às 19h30, na HQ Mix Livraria, que fica na Praça Roosevelt, centro da cidade.

A seguir, a ampla matéria que fiz sobre o livro para o Jornal da Paraíba. Paulo vem a João Pessoa no dia 22, para lançar o livro na Comic House (Esquina 200, esquina da Nego com a Navegantes).

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"Bienvenido", com supercapa de Liniers

Se falamos de quadrinhos argentinos, uma palavra vem à mente antes de qualquer outra: Mafalda. A menininha criada por Quino foi publicada só até 1973, mas aionda hoje é a referência para as histprietas portenhas. Mas há muito mais em um mercado onde a prata da casa goza de um prestígio invejável. O jornalista paulista Paulo Ramos, que informa e comenta a respeito do mercado editorial da HQ no Brasil diariamente no Blog dos Quadrinhos, analisa a saga da nona arte entre os hermanos no livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, que será lançado em breve pela Zabatana Books. A bela capa é de Liniers, autor de Macanudo, e o prefácio é de Adão Iturrusgarai, quadrinista brasileiro que hoje vive lá.

A obra será lançada em João Pessoa em 22 de maio, na gibiteria Comic House, em Tambaú. Ramos mostra, no livro, que a Mafalda é a referência, mas o mundo dos quadrinhos no país vizinho é muito mais rico do que se pensa. “A ideia do livro surgiu em viagens a Buenos Aires, embora eu não soubesse disso na época”, conta, por telefone, de São Paulo. O jornalista esteve na capital argentina quatro vezes entre 2007 e 2008. “Já me incomodava muito saber bastante sobre HQs europeias, japonesas e americanas e não conhecer melhor as argentinas”, lembra.

Embora essas viagens não tivessem como intenção uma pesquisa, o interesse natural de Paulo Ramos o intrigou ainda mais. “Na primeira viagem, já deu pra saber que havia uma coisa diferente, uma grande variedade”,  diz ele. Resultado: precisou comprar uma mala extra para poder trazer todos os quadrinhos que comprou por lá.

Com isso, no blog, ele postou uma série chamada “Muito além da Mafalda”, onde já apontava os nomes que tinham chamado sua atenção. “Por conta da série, muitas pessoas começaram a me sugerir um livro sobre o assunto”, conta.

Depois da série do blog, Paulo Ramos  voltou outras duas vezes a Buenos Aires – aí, sim, para pesquisa e entrevistas para o futuro livro – que, naturalmente, não é uma reprodução da série do blog. “É muito mais aprofundado”, afirma. “Veja cada capítulo como uma reportagem autoexplicativa, dividido por temas, onde cada um pode ser lido de maneira independente”.

O começo, claro, é pela Mafalda – cuja compilação Toda Mafalda é um cult por aqui há anos. “Não dá pra discutir quadrinho argentino pra brasileiro sem começar por ela”, explica. “O que pouca gente conhece  é a importância da Mafalda pro quadrinho de lá. É, assim: Carlos Gardel, Che, Evita… e Mafalda”. O capítulo começa pela inauguração de uma estátua dedicada à personagem em Buenos Aires.

O capítulo seguinte aborda as bancas de jornal – os quioscos. Hoje, aocontrário do Brasil, poucos quadrinhos são vendidos ali – eles passaram para as livrarias e gibiterias (ou comiquerías, como são conhecidas por lá). Para Ramos, os quioscos são importantes para conhecer o passado do quadrinho argentino, através de publicações que ainda hoje podem ser encontradas: Patoruzú e a revista de ilustrações Caras y Caretas.

Há também um capítulo dedicado ao jornal Clarín, que dedica desde 1973 sua última página a publicação de tiras. E desde 1980, essa página é 100% nacional. “Até hoje, essa página é tão famosa quanto a capa do jornal”, conta Ramos. “O leitor lê a capa, depois a última página e só depois o resto do jornal. Hoje, os três principais jornais publicam tiras 100% argentinas”.

Ramos aborda algumas tiras em particular, com seu diálogo com a realidade argentina e dá espaço nobre à de Liniers. “Analiso o fenômeno dele e sua entrada na Folha”, diz. “Lá, seus livros esgotam”. Os jornais ganham mais um capítulo, que trata das coleções de quadrinhos publicadas pelos periódicos. “O Clarín publicou a Biblioteca Clarín de la Historieta, com 20 volumes e calhamaços de 400 páginas. Depois lançaram mais 15”, conta Ramos. Publicada entre 2004 e 2007, é apenas uma das várias coleções que os jornais publicaram por lá.

O jornalista também escreve sobre as historietas de resistência, que bateram de frente com a ditadura, reservando para o capítulo final a dramática história de Hector Germán Oesterheld, autor de Che (que foi publicada aqui no ano passado). Oesterheld, criador de várias HQs, como a clássica El Eternauta, foi sequestrado, torturado e morto pela ditadura militar argentina – não só ele, como suas quatro filhas, genros e netos. Ramos fez uma entrevista com Elsa Oesterheld, viúva de Hector. “Sem exagero, é uma das entrevistas mais fortes que já fiz na vida”, diz.

Ramos também comenta sobre a revista Fierro, publicada junto com o jornal Página 12 e onde saem as tiras do brasileiro Adão Iturrusgarai, autor de Aline. “É a principal revista de lá, hoje”. E traça uma painel histórico-econômico do país enquanto fala das histórias em quadrinhos, chegando até aos independentes e à internet, passando pela invasão das HQs americanas e do mangá nos tempos de equiparação entre o peso e o dólar. Fala da terrível crise econômica pela qual passou o país e que quase destruiu o mercado e de sua recuperação. “É um país menor que o nosso, mas eles leem infinitamente mais”, revela. “Há na Argentina uma cultura da história em quadrinhos mais presente na vida das pessoas”.

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