Transpirando juventude

Francisco Miguez e Gabriela Rocha: revelações

Não são muitos, mas alguns filmes têm como qualidade essencial o fato de conseguirem parecer absolutamente verdadeiros a respeito do que mostram. É o que acontece com As Melhores Coisas do Mundo (Brasil, 2010), que consegue retratar uma juventude que é, ao mesmo tempo, a mesma e muito diferente da de outros tempos.

Inspirado em uma série de livros de Gilberto Dimmenstein e Heloísa Prieto, o filme é centrado em Mano (Francisco Miguez), um aluno como tantos outros de uma escola secundária paulista de classe média. Enquanto tenta usar as aulas de violão para impressionar uma bela garota – e (quem sabe?) descolar sua primeira vez -, seus pais (Denise Fraga e Zé Carlos Machado) estão se separando e seu irmão (Fiuk) também enfrenta problemas sérios. Ao lado, sua melhor amiga (Gabriela Rocha) alimenta uma paixonite pelo professor (Caio Blat).

O ambiente na escola é, ao mesmo tempo, de leveza e diversão com os amigos e uma selva onde não se pode ficar exposto à cruel gozação alheia – amplificada pelo mundo virtual e sua comunicação instantânea. O filme trilha habilmente essa linha tênue e se esmera em não simplificar os dramas desses jovens (vividos por uma turma talentosa, com Miguez e Gabriela defendendo muito bem e com naturalidade seus papeis de protagonistas).

Assim, a sensibilidade fala sempre mais alto: como as conversas confessionais no ônibus, Mano aprendendo “Something” para o momento decisivo da conquista, aprendendo a lidar com a nova situação do pai ou com as preocupações da mãe, a tomada de consciência a respeito do preconceito e intolerância entre os próprios adolescentes. Tudo é mostrado com muita graça e respeito pelo roteiro de Luiz Bolognesi e pela direção de Laís Bodanzky, cada vez se confirmando como uma das melhores cineastas em atividade no Brasil.

Laís já mostrou que sabe lidar com jovens em Bicho de Sete Cabeças (2001), com vários prêmios nos festivais de Brasília e Recife (hoje Cine-PE). Depois, tratou da meia idade em Chega de Saudade (2007), mas Maria Flor e Paulo Vilhena respodiam por um contraponto jovem importante no filme. Em As Melhores Coisas do Mundo, Laís e Bolognesi voltam ao meio adolescente com uma propriedade que nasceu de uma dedicada pesquisa em escolas paulistanas. Foi um mergulho que rendeu verdadeiros tesouros: além do próprio protagonista do filme, encontrado durante a pesquisa, há esse clima verdadeiro onde os jovens se reconhecem facilmente e os adultos, ao mesmo tempo em que vêem uma adolescência que mudou muito nos últimos anos, ainda são capazes de se reconhecer nesses garotos, com seus sonhos e dilemas.

As Melhores Coisas do Mundo. Brasil, 2010. Direção: Laís Bodanzky. Elenco: Francisco Miguez, Gabriela Rocha, Fiuk, Denise Fraga, Caio Blat, Zé Carlos Machado, Gabriel Illanes, Paulo Vilhena, Julia Barros.

* Versão estendida da crítica publicada no Jornal da Paraíba

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