Num país sem maravilhas

Mia Wasikowska, uma Alice sem país

O casamento entre o visual rebuscado de Tim Burton e o potencial que o livro de Lewis Carroll tem para o delírio parecem daqueles sobre o qual ficamos imaginando: por que não aconteceu antes? Ele veio e realmente em termos de imagem Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, Estados Unidos, 2010) é um deslumbre. A mistura de animação e personagens reais contribuem para a criação do mundo encantado. O problema é mais embaixo: falta mais do espírito da obra de Carroll no filme.

Atenção: nada contra o fato de ser uma espécie de continuação do original (embora o título do filme ser o mesmo do livro, nesse caso, induza o espectador ao erro de pensar se tratar de uma adaptação literal da obra). Aqui, Alice tem 19 anos e, quando recebe um pedido de casamento, acaba de novo seguindo o coelho pelo buraco que a leva ao País das Maravilhas (o que, desde criança, ela achava ser apenas um estranho pesadelo recorrente).

O que acontece então? Tudo o que Lewis Carroll não se preocupou em explicar nos livros Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho – neles, a coleção de lunáticos que Alice vai encontrando em uma narrativa episódica somam uma mensagem geral a favor do inconformismo – agora ganha um sentido desnecessário, uma amarração narrativa forçada às voltas com impérios e rebeldes.

Não há grande explicação, por exemplo, para fazer da Rainha de Copas (de País das Maravilhas) e da Rainha Vermelha (de Através do Espelho) uma só, mas isso é o de menos. Pior é, agora, Alice repetir todo o tempo que “vai fazer o próprio caminho”  ou ouvir que “só ela pode escolher”. Personagens sem nome agora são batizados e têm um passado, a bebida que encolhe agora tem um nome e uma receita e o Chapeleiro Louco, coitado, até ganhou um emprego e agora faz parte de um tal “Clã da Cartola”. Clã da Cartola, sério mesmo?

Chovem referências o tempo todo, mas vazias. Diálogos, como o enigma sobre por que um corvo se parece com uma escrivaninha, são trazidos de volta, mas sem um pingo da irreverência original. Os personagens contam a Alice que ela confundiu os nomes do lugar: não é “País das Maravilhas” e, sim, “Mundo Subterrâneo” – não só para reforçar uma atmosfera sombria, mas para se referir ao manuscrito original presenteado por Lewis Carroll a Alice Tiddell, Alice’s Adventures Under Ground.

Só que nem Alice, nem nenhum personagem jamais chama o lugar de “país das maravilhas” na história original. É se apegar demais ao original? Mas o filme defende esse apego ao atirar no espectador quilos de referência, algumas bem cifradas, como a ilustração original de John Tenniel para o poema do Jabberwocky (ou Jaguadarte, ou ainda Pargarávio) – que está no primeiro capítulo do segundo livro. A arte é lembrada com carinho, mas para que fim? Vira um profecia que leva a um final onde Alice se transforma, no fundo, em As Crônicas de Nárnia.

O novo filme põe ordem na anarquia que regia a obra de Carroll e, mesmo resultando num entretenimento colorido, ligeiro e agradável, voa bem mais baixo do que poderia por causa disso. No fundo, perdeu-se uma grande oportunidade de realmente fazer um Alice no País das Maravilhas.

Alice no País das Maravilhas. (Alice in Wonderland, Estados Unidos, 2010). Direção: Tim Burton. Elenco: Mia Wasikowska, Johhny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover, Matt Lucas. Vozes na dublagem original: Stephen Fry, Michael Sheen, Alan Rickman, Timothy Spall, Imelda Staunton, Chrisropher Lee.

* Versão estendida de crítica publicada no Jornal da Paraíba.

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