Dilemas de gente grande

Snoopy e Lucy ainda ganhariam espaço...

Charles Monroe Schulz desenhou a tira Peanuts por 49 anos, de outubro de 1950 a dezembro de 1999, quando se aposentou, dois meses antes de morrer. Nesse período, escreveu e desenhou sozinho as 17.897 tiras que compõem uma das maiores obras artísticas do século 20. Schulz criou Charlie Brown, Snoopy, Lucy, Linus, Schroeder, Patty Pimentinha e vários outros personagens que representavam, como crianças, sentimentos bem adultos como paixões não correspondidas, frustração e medo da rejeição. E o início de tudo está nos dois primeiros volumes da coleção Peanuts Completo (L&PM, 358 páginas cada).

O luxuoso primeiro álbum, ponto de partida da ambiciosa série, segue da primeira tira até 31 de dezembro de 1952, com os primeiros passos do personagens de Schulz. Logo na primeira tira, um menino fala do “bom e velho Charlie Brown” para no final disparar: “Como eu o odeio”. Ela já dá o tom do que vem a seguir: a vida não é nada fácil para Charlie, que se sente extremamente só em um mundo hostil, numa representação de um sentimento que todos já vivenciamos.

Mas o tom de Peanuts ainda estava em formação e mesmo quem conhece a obra de Charles M. Schulz, pode estranhar, a princípio, as tiras: as piadas giravam bastante em torno do universo infantil, embora a crueldade das crianças já estivesse bem presente. E todos os personagens eram mais jovens que suas versões mais conhecidas – alguns, como o precoce pianista Schroeder e Linus, irmão de Lucy e melhor amigo de Charlie, aparecem ainda como bebês.

Mesmo Lucy só aparece em março de 1952 – e ainda sem o caráter mandão que seria sua marca. No começo, Charlie divide a cena com as meninas Patty (que não é a Pimentinha) e Violet, que acabaram virando coadjuvantes, e o garoto Shermy, que depois sumiu. Snoopy está lá, desde a terceira tira, e embora já demonstre personalidade, só bem mais tarde – ainda não neste álbum – é que passaria a roubar a cena, dormindo em cima da casinha, dando asas à imaginação para ser o ás da Primeira Guerra e mostrando toda a autoconfiança que falta a seu dono, Charlie.

É visível o avanço de temas, de traço e de estilo que Schulz viria a ter nos anos seguintes. Nesse começo, ele estava tateando as possibilidades de seus personagens recém-criados. Com o tempo a tira apresentaria também mais e mais das dúvidas e estado de espírito que o próprio Schulz trazia consigo. Ele se acreditava um rejeitado desde a adolescência e o sucesso de seus quadrinhos não mudou muito essa idéia. Peanuts passou a ser um registro precioso de uma grande fase de mudanças na vida americana: os anos 1950 e 1960. A coroação veio com a capa da Time, em 1965, com o título “O mundo segundo Peanuts”. Era a tradução de nós mesmos. Depois disso, a tira só aumentou sua imortalidade.

...enquanto Shermy e Patty seriam ofuscados por Charlie Brown

The Complete Peanuts, versão original de Peanuts Completo, já chegou, em abril, à 13ª edição (referente aos anos 1975-1976) pela Fantagraphics. Ou seja: iniciada em 2004, a coleção tem, ainda, 12 volumes a serem publicados, somando 25 – a previsão é que ela só acabe em 2016. É uma série de fôlego, por si só, mas com um tratamento que a valoriza e está sendo mantido no Brasil pela L&PM.

Peanuts Completo tem capa dura e abre com um prefácio do escritor Garrison Keillor, um excelente posfácio do jornalista David Michaelis, da revista Time, e uma preciosa entrevista de Schulz a Rick Marschall, muito reveladora. Ele fala de seu passado, da certa melancolia que permeia seus quadrinhos e de como sempre detestou o nome Peanuts, título dado pela distribuidora, a United Features Syndicate. A edição inclui até um índice remissivo onde se pode localizar com facilidade personagens, temas, personalidades citadas, situações recorrentes.

A L&PM já publicava as tiras de Peanuts dentro de sua habitual coleção de livros em formato pocket – onde também saem coleções de tiras de outros personagens como Hagar, o Horrível e Garfield, de autores nacionais como Laerte e Angeli, e também da Turma da Mônica.

O segundo volume de Peanuts Completo está nas livrarias desde março e compila tiras de 1953 e 1954. Os desenhos se aproximam das versões mais famosas, Charlie começa a bater recordes de derrotas seguidas no beisebol, Lucy começa sua saga de tirania e aparecem os primeiros balões de pensamento do Snoopy. As tiras também fazem comentários sobre assuntos do momento como a bomba H. E é só o começo. Testemunhar essa fundamentação de uma obra é um presente para os leitores: certamente, será um prazer para quem gosta de HQs – ou mesmo para quem só conhece os personagens pelos desenhos animados.

* Matéria publicada no Jornal da Paraíba.

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