Barreto, um artista da crítica

Há quem ache que crítica não é arte. Pode ser, mas pode ser também que a arte da crítica seja justamente “não ser arte”: ser simples, clara, objetiva, direta e coerente na análise. Assim, um material destinado a preencher um espaço em um jornal diário e depois ser esquecido com o tempo às vezes ganha um caráter atemporal ou mesmo se torna uma representação importante de uma época. Antônio Barreto Neto já tinha tudo isso, mas faltava uma coisa: uma compilação de seu trabalho em livro. Não falta mais: será lançado hoje, dia 14, Cinema por Escrito – Crítica de Filmes em A União, uma reunião de seus textos sobre cinema escritos no diário entre 1964 e 1981. O lançamento é na Fundação Casa de José Américo (Av. Cabo Branco, 3336, Cabo Branco, João Pessoa – tel.: 3214.8523), às 19 horas.

A organização é do jornalista Sílvio Osías, que também escreve o prefácio e o intitula, apropriadamente “Ao mestre, com carinho”. Osías conta que foi a admiração por Barreto que o levou ao jornalismo – e, agora editor geral de A União, chegou a hora de retribuir. “Era um projeto muito antigo”, diz ele. “Cheguei até a conversar com ele sobre isso na década de 1990, mas a coisa não avançou. De vez em quando, eu pensava em fazer. Agora, eu tinha os dois instrumentos: os arquivos do jornal para pesquisar e a editora”.

Nos anos 1960, Barreto chegou a escrever diariamente, em uma época de especial efervescência na crítica cinematográfica paraibana. A partir dos anos 1980, seus textos foram ficando cada vez mais esporádicos, mas escreveu até sua morte. E por estes anos todos, aquelas características citadas no início do texto que podem fazer da crítica uma arte ficaram marcadas na memória de seus leitores.

Vladimir Carvalho, um dos mais importantes documentaristas do Brasil e hoje morando em Brasília, colaborava com críticas de cinema no mesmo jornal quando Barreto começou a trabalhar e às vésperas de assumir o ofício. “Ele era excepcionalmente dotado desse tipo de coisa. Era o melhor de nós todos”, afirma. “É aquele crítico que nasceu pronto. E fazia sem nenhuma pretensão, no batente do jornal”. Para ele, o lançamento do livro veio a calhar. “É oportuníssimo”, comemora. “De certa forma, as novas gerações não conheceram o Barreto. Isso é preservar uma coisa que estava guardada na gaveta do tempo”.

“Ele não foi só um modelo para mim, foi quase uma musa”, conta João Batista de Brito, o crítico de herdou a tocha daquela geração. “Daquela turma todinha que fez crítica nos anos 1960, era ele quem se destacava. Era quem tinha o texto melhor e analisava com mais pertinência”. Cinéfilo, João Batista era um leitor de Barreto, mas só o conheceu pessoalmente nos anos 1980, quando ele próprio começou a publicar seus textos. “Embora não tivesse uma formação acadêmica – só veio a fazer universidade maduro –, ele tinha muita leitura de cinema e literatura. Ler Barreto é conhecer o que houve de melhor nesse período”.

Nas páginas de Cinema por Escrito, Barreto conversa com o leitor sobre alguns dos mais importantes filmes lançados no período que o livro abrange – e vários relançamentos. Os anos 1960 estão lá com O Homem que Matou o Facínora, de John Ford, ou O Bebê de Rosemary, de Polanski. Os 1970, com O Poderoso Chefão, de Coppola, Guerra nas Estrelas, de George Lucas, A Noite Americana, de François Truffaut, Amarcord, de Fellini. E as reprises dão espaço a Janela Indiscreta, de Hitchcock, A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra, Rocco e Seus Irmãos, de Visconti, e Cidadão Kane, de Orson Welles, entre outros.

Livros imortalizando o trabalho de críticos históricos de vez em quando aparecem: alguns americanos, de Pauline Kael (1001 Noites no Cinema) e Roger Ebert (A Magia do Cinema e Grandes Filmes), chegaram a ter versões brasileiras; Ruy Castro organizou dois volumes com trabalhos de Antonio Moniz Vianna (Um Filme por Dia) e José Lino Grünewald (Um Filme É um Filme); e algumas edições já reúnem parte do trabalho de João Batista de Brito (Imagens Amadas é a mais importante delas). Barreto Neto agora entra para o rol, podendo ser apreciado por quem acha que um texto claro e preciso também é uma arte. E alguém não acha?

* Publicado no Jornal da Paraíba, em 13/6/2010 (e atualizada).

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