Anna Muylaert e Sara Silveira comemoram a vitória de "É Proibido Fumar" (foto: Mácio Nunes/ ABC)

Semana passada (dia 8), mais um Grande Prêmio do Cinema Brasileiro foi entregue. As ocupações diárias me impediram de comentá-lo aqui no mesmo dia ou no dia seguinte, mas não posso deixar de fazê-lo e de pensar que cara esse prêmio tem. Será que um dia faremos bolões, analisaremos as tendências e diremos, arrogantemente, “ah, a Academia pensa deste jeito ou daquele”?

Acredito que sim. Acompanho esse prêmio desde que surgiu em 1999, como Grande Prêmio Cinema Brasil e organizado pelo Ministério da Cultura – premiando o péssimo Orfeu, inclusive. Desta vez, em um bolão eu teria acertado muitas das principais categorias. Isso não quer dizer que eu seja mais inteligente que a maioria dos ursos, mas apenas que, com alguns anos de estrada, a premiação já começa a mostrar uma coerência interna.

Tony Ramos, melhor ator por "Se Eu Fosse Você 2" (foto: Márcio Nunes/ ACB)

Houve quem dissesse que as indicações mostraram um clima de “cinema de autor” versus “cinema popular”. Besteira. Se há alguma coisa a ser vista no prêmio é que os acadêmicos – profissionais que trabalham com o cinema – estão percebendo que há espaço e qualidades em qualquer “estilo” de filme nacional. Assim, o pequeno É Proibido Fumar venceu como filme e direção, mas os campeões de bilheteria Se Eu Fosse Você 2 e Divã faturaram os prêmios de atuação. – com astros de televisão, cujo casamento com o cinema é tão demonizado por uma parcela de quem faz e analisa cinema no Brasil. Mesmo que se tenha outros favoritos, ninguém pode dizer que Tony Ramos e Lília Cabral não são merecedores.

Os prêmios de Ramos e Lília mostram mais uma característica saudável do “nosso Oscar”: aqui a comédia é mais respeitada. Todos sabemos como é difícil uma atuação cômica ganhar os Oscar nas categorias de atuação principal. No Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, fazer rir é bem vindo.

Vale destacar também o bom desempenho de Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, mostrando outra característica da Academia e do universo do cinema brasileiro: o documentário pode sofrer nas bilheterias, mas é um gênero que continua forte e respeitado pelos profissionais. Tanto que compete em pé de igualdade em algumas categorias junto com os filmes de ficção – outra coisa que acontece no Oscar.

A emocionada Lília Cabral é a melhor atriz, por "Divã" (foto: Márcio Nunes/ ABC)

A cerimônia, na falta de um canal de TV aberta que aposte na transmissão ao vivo (apenas uma vez, que eu me lembre, a festa foi transmitida pela Bandeirantes – e o canal saiu do ar no meio da cerimônia), tem um bom lar no Canal Brasil. É bom ver que os artistas vencedores estão reconhecendo o valor que o prêmio realmente tem: o do reconhecimento dos colegas. Foi bom ver a emoção da Lília Cabral ao subir ao palco do Teatro João Caetano.

Mas algumas coisas no conceito do prêmio tem que ser ajustadas. Essa coisa dos filmes infantis, por exemplo. Não faz sentido anunciar indicados em categorias onde apenas um ou dois filmes foram produzidos. Melhor conceder um prêmio especial e só ter indicados em anos onde a produção permita uma escolha mínima de, pelo menos, três concorrentes. O Grilo Feliz concorrer sozinho como animação é bobagem.

Vamos aos vencedores:

Filme – É Proibido Fumar, de Anna Muylaert

Direção – Anna Muylaert (É Proibido Fumar)

Ator – Tony Ramos (Se Eu Fosse Você 2)

Atriz – Lília Cabral (Divã)

Ator coadjuvante – Chico Diaz (O Contador de Histórias)

Atriz coadjuvante – Denise Weinberg (Salve Geral)

Documentário – Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Calvito Leal, Claudio Manoel e Michael Langer

Filme infantil – O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes, de Walbercy Ribas e Rafael Ribas

Filme de animação – O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes, de Walbercy Ribas e Rafael Ribas

Filme estrangeiro – Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino

A equipe de "Se Eu Fosse Você 2", melhor filme pelo voto popular (foto: Rogério Resende/ ACB)

Roteiro original – É Proibido Fumar, por Anna Muylaert

Roteiro adaptado – Tempos de Paz, por Bosco Brasil

Fotografia – À Deriva, por Ricardo Della Rosa

Montagem de ficção – É Proibido Fumar, por Paulo Sacramento

Montagem de documentário – Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, por Karen Akerman

Direção de arte – Besouro, por Claudio Amaral Peixoto

Trilha sonora – É Proibido Fumar, por Márcio Nigro

Trilha sonora original – Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, por Berna Ceppas

Maquiagem – Besouro, por Martín Macias Trujillo

Figurino – Tempos de Paz, por Marília Carneiro

Efeitos visuais – Besouro, por Marcelo Siqueira

Cláudio Manoel, Calvito Leal e Michael Langer, os diretores de "Simonal - Ninguém Sabem o Duro que Dei", que levou três prêmios

Som – Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, por Denilson Campos e Paulo Ricardo Nunes

Curta-metragem/ documentário – De Volta ao Quarto 666, de Gustavo Spolidoro

Curta-metragem/ ficção – Superbarroco, de Renata Pinheiro

Curta-metragem/ animação – O Menino que Plantava Invernos, de Victor Hugo Borges

Fime nacional/ voto popular – Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho

Filme estrangeiro/ voto popular – Avatar, de James Cameron

Prêmio especial – Anselmo Duarte

Prêmio especial de preservação – Alice Gonzaga

Anúncios