Velhinho, agora, é ele: 70 anos de Pernalonga

Um caçador é surpreendido por um coelho bem mais esperto do que ele e nasceu daí uma das maiores personalidades da história do cinema – mesmo que seja um desenho animado. The Wild Hare, curta dirigido por Tex Avery e lançado em 27 de julho de 1940, foi a estreia do Pernalonga, com a aparência que o consagrou e já em dupla com Hortelino Trocaletras. Foi nele, também, que o coelho disse pela primeira vez a frase “What’s up, doc?” (traduzida aqui como “O que é que há, velhinho?”). Aos 70 anos, o coelho continua em alta, como um verdadeiro símbolo da Warner Bros. (como o Mickey é para a Disney) e prestes a estrelar uma nova série de animação.

Ele rapidamente roubou o lugar de Gaguinho e Patolino, que eram as estrelas das séries Merrie Melodies e Looney Tunes. Antes da estreia “oficial”, ainda em formação, o coelho apareceu em quatro desenhos, como Happy Rabbit e branco. O coelho também pode ter sido inspirado na lebre que aparece em A Tartaruga e a Lebre, da série Silly Symphonies, da Disney. De qualquer forma, foi em The Wild Hare que ele firmou sua aparência (incluindo a cor cinza), trejeitos e até situações que seriam recorrentes.

O design definitivo foi de Robert McKimson e a voz do genial dublador Mel Blanc (alérgico a cenouras, mas que precisava mastigá-las porque só cenouras soavam com cenouras). Blanc envergou um sotaque que misturava os bairros nova-iorquinos do Brooklyn e do Bronx – e, por isso, ficou determinado que o coelho nasceu mesmo no Brooklyn.

No sistema de produção da Warner, os diretores podiam se dedicar a séries próprias, mas precisam cumprir um certo número de desenhos do Pernalonga. Por essa razão, é visível o estilo dos principais animadores do estúdio à frente do coelho. Os principais foram Robert Clampett (até 1946), Isadore “Friz” Freleng (que desenvolveu a série de Frajola e Piu-Piu e Ligeirinho e os desenhos do Pernalonga com Eufrazino), Robert McKimson (que criou o Frangolino e fazia os do Pernalonga em que aparecia o Diabo da Tasmânia) e, claro, Chuck Jones (que desenvolvia também o Papa-Léguas e o Coiote, curtas sem personagem fixo, como One Froggy Evening, com aquele sapo cantor, além de criar grandes momentos da dupla Gaguinho-Patolino nos anos 1950).

Com Chuck Jones, o Pernalonga chegou ao máximo. É dele o antológico What’s Opera, Doc? (1957), votado em 1994 por profissionais da área como o primeiro entre os 50 maiores desenhos animados de todos os tempos. E é dele também a trilogia em que o coelho duela freneticamente com Patolino para convencer Hortelino de que estão na temporada de caça ao coelho ou caça ao pato: Rabbit Fire (1950), Rabbit Seasoning (1952) e Duck! Rabbit! Duck! (1953).

O contraste entre o coelho, no máximo da tranqüilidade, com o exasperado Patolino mostra como os dois personagens evoluíram em dez anos e ganharam em sofisticação de suas personalidades – no começo, ambos eram pouco mais do que dois malucos caóticos. Vários desses desenhos estão disponíveis em DVD no Brasil, através da Coleção Looney Tunes, que lançou três caixas, com 11 discos ao todo e cerca de 15 episódios em cada. Infelizmente, a Warner brasileira há anos não lança novos volumes da coleção.

Após o fim dos curtas para o cinema, em 1964, Pernalonga voltou em especiais para a televisão – como Um Coelho na Corte do Rei Artur (1981) -, com participações na série Tiny Toon (1990-1992), com uma ponta memorável – contracenando com o rival Mickey – em Uma Cilada para Roger Rabbit (1988) e estrelando seus próprios filmes, com o sucesso Space Jam – O Jogo do Século (1996), ao lado de Michael Jordan, e o não tão bem sucedido Looney Tunes – De Volta à Ação (2003). A mais recente notícia sobre o coelho setentão é que uma nova série de animação está sendo produzida reunindo toda a turma: The Looney Tunes Show, com visual mais rebuscado e colocando Pernalonga e Patolino como colegas de quarto em um subúrbio. Estreia no Cartoon Network ainda no segundo semestre.

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