Bonecos em crise existencial

Woody, Buzz e seus amigos chegam à beira do precipício em "Toy Story 3"

A resistência da Pixar em fazer continuações é benéfica: quando elas aparecem, não é de maneira alguma a toque de caixa. Com Toy Story 3 (Toy Story 3, Estados Unidos, 2010), o estúdio consegue a proeza de fazer uma sequência que se enquadra perfeitamente na série, mas é destemido em buscar uma personalidade própria. E é um filme que desde os primeiros segundos mostra que veio para fechar um ciclo.

Quem assistiu aos dois primeiros – e quem viu deve ter visto inúmeras vezes – vai perceber rápido as referências aos diálogos e situações do primeiro filme, de 1995. E vai – por mais que isso soe estranho – se colocar no lugar dos brinquedos quando eles se vêem deixados de lado pelo dono Andy, a quem sempre foram tão fiéis, agora crescido e de partida para a universidade.

Colocar brinquedos em crise existencial sempre foi uma das grandes qualidades da série. No primeiro filme, Buzz Lightyear era um brinquedo que achava que era mesmo um patrulheiro espacial e tem que enfrentar a realidade. No segundo, havia Jessie, a boneca cuja dona cresceu e que sofreu quando foi colocada para doação. Agora, todos estão sob o risco de passar por isso. E para onde ir, se acontecer?

Isso tudo está presente enquanto os brinquedos vão parar em uma creche e vivem aventuras surpreendentes. Em determinado momento, Toy Story 3 ganha até ares de filme de prisão, lembrando Papillon (1973) ou Fugindo do Inferno (1963), é sombrio e até macabro, e leva momentos dramáticos a níveis inesperados. Os dois primeiros filmes da série tiberam sua cota de humor, aventura e drama – e o segundo, em particular, é uma pequena obra-prima – mas não iam de um extremo ao outro com tanta força quanto este terceiro.

A saga de Woody e Buzz agora é, também, de Andy – mesmo que a gente só perceba isso perto do final. Há elementos que remetem ao antológico faroeste Os Brutos Também Amam (1953) e talvez, no futuro, eles se tornem tão clássicos quanto. Se o Toy Story original, o primeiro longa em animação por computador, refletia classicismo e tecnologia por meio da rivalidade entre seus dois protagonistas, e o segundo filme apostava na nostalgia e na aventura, este Toy Story 3 é sobre amadurecer – termo amplo que vale para personagens humanos e não humanos.

Deu pra sentir que estou tentando não falar muito de detalhes, não é? Bom, basta saber que o filme mantém um equilíbrio perfeito entre seus elementos e não é inadequado para as crianças. Mas qualquer adulto que tenha amado seus brinquedos não deve se surpreender se uma lagriminha rolar perto do fim. Uma parte 3 para deixar inveja à maior parte das séries existentes por aí – e, com ela, Toy Story já conseguiu seu lugar como uma das melhores trilogias da história do cinema. E isso não é brincadeira.

Toy Story 3 (Toy Story 3). Direção: Lee Unkrich. Vozes na dublagem original: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Estelle Harris, John Morris, Jodi Benson, Laurie Metcalf, Timothy Dalton, Bonnie Hunt, Whoopi Goldberg. Vozes na dublagem brasileira: Marco Ribeiro, Guilherme Briggs, Mabel Cesar, Alfredo Martins.

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