Amanhã, Os Paralamas do Sucesso virão mais uma vez tocar na capital. Eu entrevistei Herbert Vianna em 2005, por telefone, enquanto o líder do grupo seguia para o aeroporto para vir uma outra vez a João Pessoa, para um show (era o Paraíba Pop, numa noite que tinha também o Biquíni Cavadão). Amanhã, o grupo toca na Festa das Neves lá pra perto da meia-noite.

A entrevista é antiga, mas acho que ainda vale uma lida. Herbert fala de vinhos, das lembranças da Paraíba, música, da amizade com os outros paralamas e da vida após o acidente.

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Herbert, sobre os companheiros: "Nossa relação é muito honesta, direta e alegre" (foto: Maurício Valladares)

“É superintenso e positivo pra mim olhar a cidade e as lembranças que eu tenho desde o nascimento, como as festas de fim de ano. Eu sinto uma grande intensidade emocional a respeito”, foi logo dizendo Herbert Vianna, um dos vértices do triângulo que forma Os Paralamas do Sucesso, sobre o sentimento que o toma cada vez que vem tocar em João Pessoa, cidade onde nasceu. A conversa com o JORNAL DA PARAÍBA, no final da tarde de quinta-feira (13/10/2005), foi por telefone, enquanto Herbert, no Rio, seguia para o aeroporto – ele embarcou para Fortaleza, onde os Paralamas tinham show marcado para a sexta à noite.

A importância dos Paralamas do Sucesso na história do pop rock nacional dispensa introduções. De CD novo recém-lançado, Hoje, o grupo traz as primeiras músicas de Herbert pós-acidente, já que Longo Caminho já estava pronto antes. “É o primeiro que eu escrevi com essa nova cabeça que tem rendido curiosidades legais em termos emocionais”, conta.

O título do disco pode dar margem a interpretações sobre seu significado, num momento pessoal como o que Herbert Vianna vive. Mas ele descarta logo. “Na nossa natural informalidade paralâmica, a gente fica brincando a esse respeito. ‘Ah, chuta aí qualquer lance! Bota Hoje, mesmo’. Acabou soando sintético e sonoro para a EMI”, diz.

Ele conta que, em João Pessoa, gosta de aproveitar o tempo livre para ver o máximo possível de pessoas da família. Mas que “se tivesse que bater o martelo” em dois locais que não pode deixar de visitar na cidade, estes seriam Areia Vermelha e uma sorveteria no Centro onde pode tomar sorvetes com sabores que não existem no Rio, como mangaba e graviola.

Herbert Vianna preza muito esses sentimentos cotidianos, mas de maneira alguma pequenos. “Olhando para trás e vendo a mim mesmo, tudo o que eu buscava, batalhava – o meu ‘eu’ antes do acidente, penso: ‘Legal a honestidade desse cara, de sempre tocar com amigos’”.

Tocar com amigos é a chave para uma banda que é caso raríssimo no show business mundial: há mais de duas décadas na estrada e com a mesma formação desde o início. Herbert, João Barone e Bi Ribeiro formam um trio bastante harmônico em sua convivência. “Nossa relação é muito direta, honesta e alegre”, confirma Herbert. “É sempre bom, por exemplo, uma ida para o sítio do Bi com violões e algum tamborzinho e idéias para ficar ali na varanda de madrugada, tomando vinho”.

O vinho é uma das paixões de Herbert, adquirida durante o casamento com Lucy. “Antes, eu não bebia nada, nem cerveja. Mas ela, as irmãs e os maridos das irmãs delas gostavam e conheciam”, lembra. Hoje, ele tem uma adega em casa, “um arquivo histórico muito amplo mesmo”. Atualmente, ele ainda não pode beber como gostaria, por restrições médicas. “Tenho uma cota mínima por semana: duas ou três vezes, em dias não consecutivos, duas taças e meia. Mas faço minhas orações: ‘Pô, o vinho é usado na Sua missa, deixa eu voltar a celebrar com ele de novo’”.

No dia a dia, Herbert Vianna tem tentado encontrar mais tempo para ensaiar o novo show com os companheiros. Está feliz em poder levar e trazer os filhos da escola, graças a um automóvel adaptado, todo com comandos manuais. E vai sempre ao Cristo Redentor. “Vou lá num dia bonito pra ver o visual e pra rezar”, conta.

O filho mais velho, de 13 anos, está se interessando pela guitarra. “Um dia ele me falou: ‘Pai, vem cá, aqui entre nós: você acha que esse tal de Jimi Hendrix amarraria a chuteira do Kurt Cobain?’”. O Kurt Cobain – a referência musical – da juventude de Herbert foi Jimmy Page. “Uma coisa que eu consegui fazer foi comprar uma guitarra com dois braços igual à que ele usava e pedi para ele assinar com um prego”. Esse é um tesouro pessoal de uma coleção de mais de 30 guitarras.

Ele estava com o filho quando conheceu o presidente Lula. Foi por acaso: estava mostrando os locais de sua infância em Brasília – casas onde morou, escolas onde estudou – e, quando mostrava o local onde o pai, piloto da Força Aérea, trabalhou, estava na saída dos fundos do Palácio do Planalto quando Lula estava saindo. “Ele veio falar comigo e abraçou o meu filho. No meio do abraço, meu filho perguntou: ‘Pai, esse é o Lula, né?’ O Lula chorou nessa hora, cara”.

Ele não acha que o presidente esteja envolvido nos escândalos de corrupção que assolam o País. “Eu, honestamente, não o vejo como a extremidade de uma estrutura completamente distorcida. Acho que está sendo trazido à tona, com muito mais clareza, toda a turbulência corrupta da classe política. Isso num governo que, por casualidade, é a de um trabalhador que foi eleito. O grau de cobrança e de transparência estão sendo redimensionados”, diz.

Herbert conta que tem um novo projeto solo: um disco com voz e violão, ou voz e guitarra, em que canta coisas que escreveu e foram gravados por outras vozes – nitidamente cantoras, como Zizi Possi, Ivete Sangalo, Marina e Daniela Mercury. “Se eu te amasse tanto assim”, na versão de Ivete, chegou ao primeiro lugar no ranking de direitos autorais, quando Herbert estava em coma, coisa que ele afirma não ter conseguido nem com os maiores sucessos dos Paralamas. Está empenhado em compor uma música para ela, como agradecimento. “Estou tentando gravar um demozinho para mandar pra ela”, conta.

No fim de tarde carioca, antes de encerrar o papo, Herbert conta uma curiosidade. “Olha, estou passando por um lugar aqui, que já citei numa música importante para os Paralamas: a favela da Maré…”. A música em questão é “Alagados”, um dos momentos de grande explosão dos shows do Paralamas. Como será mais uma vez hoje à noite.

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