Mort Walker não queria fazer o então univesitário Zero se alistar no exército (foto: © King Features Syndicate/ Ipress)

Quais são os personagens fundamentais das tiras de jornal? Você pode fazer a lista que quiser, mas o Recruta Zero tem que estar nela. O personagem completou 60 anos este mês em plena atividade e numa incrível demonstração sobre como girar sobre o mesmo tema e não perder o fôlego. O Brasil chegou a produzir suas próprias histórias do personagem, na época em que ele tinha uma revista mensal pela RGE (depois Globo) – isso foi nos anos 1970 e 1980. Hoje, ele continua sendo encontrado nos jornais (seu lar de origem), e sempre desenhado por seu criador, Mort Walker. Conversei com ele por e-mail para uma entrevista que foi publicada hoje, no Correio da Paraíba – aqui você lê a versão estendida. Mr. Walker mostrou que um ícone pode ser também gentil, simpático e atencioso.

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O exército americano é uma grande piada – ao menos nas tiras do Recruta Zero, um dos mais populares personagens dos quadrinhos, que completa 60 anos este mês. Criação do cartunista Mort Walker, hoje com 86 anos, o soldado folgado e preguiçoso é publicado atualmente em 1.800 jornais ao redor do mundo. E Walker, um dos principais nomes da história das HQs conversou por e-mail com o CORREIO sobre o aniversário.

Mas poderia ter sido bem diferente. Zero (Beetle Bailey, no original) estreou em 4 de setembro de 1950 não como um recruta, mas estrelando uma tira ambientada em uma universidade. Como tal, era claudicante: quando uma tira precisava ser publicada em pelo menos cem jornais para ser um sucesso, Zero chegava a 40 com esforço. Sob o risco de ser cancelada, a Guerra da Coreia acabou sendo motivo para Mort Walker fazer o malandro estudante se alistar.

“O editor de um grande jornal escreveu para o syndicate (que distribui as tiras nos EUA) e disse que Zero deveria se alistar, como todos os jovens da idade dele na América”, conta o quadrinista. “Eu não queria, mas eles insistiram. Foi imediatamente um sucesso e eu comecei a ganhar mais jornais”.

Os militares, evidentemente, torceram o nariz. “No começo, o exército não gostou de me ver fazendo graça deles e não deixou Zero ser publicado nos jornais militares”, lembra Walker. “Então, os leitores deles reclamaram e eles começaram a usar minha tira. E ela se provou tão popular que eles, afinal, me deram um prêmio e houve uma grande parada em minha homenagem no gramado da Casa Branca”.

Começou a surgir uma galeria de outros tipos impagáveis: Zero ganhou a companhia do tão violento quanto infantil Sargento Tainha, do tão molenga quanto vaidoso General Dureza, do inocente Dentinho e outros. “Todos os meus personagens são baseados em pessoas que conheci, com diferentes personalidades”, diz. “Isto mantém os personagens consistentes. Alguns são mais engraçados que outros. Eu gosto do Zero, do sargento e do general. A Dona Tetê (a secretária bonita do general) não é engraçada, mas eu a adoro”.

A tira se mantém em alta com a mesma filosofia e poucas mudanças. “Não acho que ela mudou muito. Tento mantê-la em dia com as mudanças, mas evito comentar assuntos políticos ou a guerra. Zero permanece em treinamento básico, o treinamento simples que cada soldado tem que fazer”, conta Mort Walker, que hoje escreve junto com três colaboradores e faz o lápis de todas as tiras – um de seus filhos, Greg, faz a artefinal.

“Nós passamos nossas ideias para o papel e uma vez por mês nos encontramos para selecionar as melhores”, diz Mort Walker sobre o sistema de criação das tiras do Recruta Zero. “Juntos, temos 120 esboços e usamos cerca de 30 – temos milhares em estoque. É difícil dizer quantas das ideias que uso são minhas, mas gosto de usar meu próprio trabalho, então diria que cerca de metade das que uso são minhas”.

Walker criou outras tiras. A principal foi Zezé & Cia. (Hi and Lois, no original), um derivado com a família de Zero que ganhou vida própria. “Vários quadrinhos americanos fizeram sucesso durante a II Guerra, mas morreram depois. Minhas guerras (Coreia e Vietnã) continuavam e fiquei preocupado se a tira sobreviveria quando acabassem. Foi por isso que criei Zezé & Cia.”.

Hoje, porém, ele não tem mais relação com a tira. “Eu costumava escrever, mas passei para dois dos meus filhos, Greg e Brian, e o filho de Dik Browne (criador de Hagar, o Horrível), Chance”. Dik é quem desenhava a tira, escrita por Walker.

Um de seus principais trabalhos é a criação do National Cartoon Museum, em 1974, cujo acervo está atualmente na Ohio State University. “Nós fundimos nossa coleção de 200 mil desenhos com a coleção da universidade”, conta. “Eles têm US$ 20 milhões para preparar um belo novo museu para nós, que será aberto no ano que vem”. Ele sempre foi um defensor da valorização da profissão e acha que os quadrinistas são mais respeitados hoje em dia, mas em termos.

“Eu acho que os cartunistas conseguirtam mais respeito hoje porque o museu pensou bastante neles, em salvá-los, estruturá-los, exibi-los e construir um imenso museu para convidar fãs para vê-los. Eles não têm qualquer respeito quando syndicates os jogam fora como se não tivessem valor”, afirma. “Eu usei (o museu) para anunciar que eles eram ‘a arte mais popular do mundo’. Isso faz sentido porque talvez um milhão de pessoas vejam a Mona Lisa por ano ou outras obras-primas, mas uma tira como Zero atinge 200 milhões de pessoas todo dia“.

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