O que é isso, companheiro?

Lula é tão onipresente nas eleições deste ano – adversários ferozes em diversos estados fazem de tudo para parecer perceiraços do presida – que parece que ele está concorrendo a alguma coisa. Bom, pois ele ganhou uma eleição que pouca gente esperava: Lula, o Filho do Brasil foi escolhido pela comissão do MinC para ser o representante brasileiro na tentativa de beliscar uma das cinco vagas de indicados ao Oscar de melhor filme de língua não inglesa.

Apenas razoável, no máxim0, o filme de Fábio Barreto parece estar na lista apenas como figurante. Haviam vários filmes bons a serem escolhidos (É Proibido Fumar era o meu preferido, mas ainda havia As Melhores Coisas do Mundo e os elogiados Os Famosos e os Duendes da Morte e 5x Favela – Agora por Nós Mesmos, para ficar em quatro) e a ameaça maior era o péssimo – mas campeão de bilheteria Nosso Lar.

No fim, mesmo com as críticas certas que viriam lembrando o período eleitoral, relacionando a escolha com outras escolhas em editais do MinC e da Secretaria do Audiovisual, mesmo com os clamores com a inegável deficiência de qualidade que o filme tem, mesmo assim a comissão escolheu Lula, o Filho do Brasil.

Tsc, tsc.

A comissão, este ano, foi formada por Roberto Farias (cineasta e presidente da Academia Brasileira de Cinema), Clélia Bessa (produtora e professora da PUC-RJ), Elisa Tolomelli (produtora, diretora e roteirista) e Marisa Leão (produtora e presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Audiovisual do Rio de Janeiro, o Sicav), todos estes representando a Academia; Leon Cakoff (crítico, além de criador e diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) e a cineasta Tata Amaral, representando a Ancine; e o crítico Cássio Starling Carlos, Jean Claude Bernadet (Cineasta, crítico cinematográfico, escritor, teórico e professor da UnB e da USP) e o jornalista Fred Maia, estes representando o MinC.

Ou seja, gente muito boa. O que foi isso é difícil de entender.

Houve quem dissesse que foi influência do produtor Luiz Carlos Barreto, para que o filme fosse mais “vendável” no exterior. Duvido muito: essa pré-indicação não tem a menor relevância pra isso. O filme já está na Argentina, inclusive, e foi malhado, como disse o Xexéo.

Há quem ache que é puro puxa-saquismo.

Há, claro, os adeptos da teoria da conspiração de que tudo tem a ver com a eleição do dia 3. Uma forcinha a mais para Dilma, portanto (como se ela precisasse).

A própria comissão, pela fala de Roberto Farias, se justificou: a escolha teria sido porque a popularidade da figura pública de Lula no exterior ajudaria o filme na corrida pelo Oscar. No puedo creer em tamanha ingenuidade desses bambambans.

Perguntei no twitter a Ana Maria Bahiana se isso realmente seria possível – a popularidade de Lula ajudar o filme a ser indicado. Ela respondeu: “Nem pensar”.

O que ninguém considera é que o filme tenha sido escolhido em função de sua qualidade. Isso diz muita coisa sobre como esse assunto é levado. Pouquíssimas vezes nos últimos anos o filme escolhido para ser indicado ao Oscar foi um qualidade mesmo. Em geral, a comissão da vez sempre tenta adivinhar do que a Academia vai gostar – e quebra a cara.

Afinal, nem a própria Academia sabe do que gosta – é só ver a lista dos indicados recentes e os bons filmes que acabaram ficando de fora. O Sérgio Rizzo fez uma ponderação excelente sobre isso em sua coluna no Yahoo, mostrando como o processo todo acontece e que esse negócio de adivinhar é besteira.

A comissão tem é que escolher o melhor filme e pronto.

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