Eu perguntei ontem no twitter quais as três novelas preferidas do pessoal. Apesar de apenas uma resistência com o conceito ultrapassado de que “novela é tudo igual”, a grande maioria mostrou que não, não são todas iguais. E há algumas extraordinárias.

Curioso também foi ver a preferência muito particular de alguns. Houve quem dissesse que Suave Veneno foi subestimada, houve quem votasse em Carrossel e jurasse que o voto era sério, foi bonito ver que alguém lembrou de A Gata Comeu e me surpreendi com três votos para Fera Ferida. Até pela faixa etária que está aí no twitter, é compreensível que clássicos dos anos 1970, como Selva de Pedra, Pecado Capital ou O Bem-Amado não tenham aparecido.

Bem, vejam aqui o meu top 3 e, depois, o resultado final:

Vale Tudo: Gilberto Braga define sua novela de 1988-89 como uma discussão da ética. E o tempo todo nós víamos o confronto, mesmo de longe, entre os ideais de Raquel Accioly (Regina Duarte), para quem a honestidade era tudo, e sua filha, Maria de Fátima (Glória Pires), para quem valia tudo para deixar de ser pobre – até vender a casa da própria mãe e fugir com a grana, deixando-a sem nada (o que acontece no começo da novela). No fim, uma coisa até então rara: vilões se dando bem, com direito ao magnata escroque vivido por Reginaldo Farias fugindo para o exterior e dando uma banana para o Brasil. Ah, e teve Odete Roitman (Beatriz Segall), claro…

Guerra dos Sexos: Sílvio de Abreu tranformou o horário da sete no habitat natural das comédias nas telenovelas. E Guerra dos Sexos (1983-84) foi a melhor delas. Ele teve a saudável audácia de juntar dois medalhões do teatro brasileiro como protagonistas, fazendo-os atuar em cenas de puro pastelão: Paulo Autran e Fernanda Montenegro. Eles eram Otávio e Charlô, dois primos que se odiavam, mas que acabavam herdando a casa e a empresa de um tio milionário – e, para ficar com a herança, eram obrigados a morar e trabalhar juntos. A rivalidade acaba fazendo surgir aliados de cada lado e leva a uma disputa aberta entre homens e mulheres na empresa, cheia de traições e lances sujos. Um Tarcísio Meira atrapalhado, personagens falando com o espectador e muitas referências a filmes fizeram essa novela ser inesquecível para quem assistiu – mas nada como o combate no café da manhã entre Bimbo e Cumbuca, os horrorosos apelidos dos personagens de Autran e Fernanda.

Irmãos Coragem: Essa lista poderia ter a Ti Ti Ti original ou Que Rei Sou Eu? ou Por Amor, mas eu prefiro citar a antológica Irmãos Coragem (1970-71), um clássico de Janete Clair, a rainha das teledramaturgas. Eu não tenho idade para tê-la visto quando exibida pela primeira vez, mas vi um compacto em 1990, no Festival 25 Anos da Globo. Sensacional. Praticamente um faroeste brasileiro, com os três irmãos Coragem (Tarcísio Meira, Cláudio Cavalcanti e Cláudio Marzo) enfrentando um coronel depois que um deles, João (Tarcísio) encontra um valioso diamante, que logo é roubado. Havia a mocinha com tripla personalidade (Glória Menezes), a denúncia do coronelismo e da corrupção eleitoral e o final antológico com a cidade incendiada e . Houve um remake em 1995 que prometia, mas teve o clima “afrouxado” e não teve o mesmo impacto.

– E o top 3 dos amigos do twitter (23 votaram):

Roque Santeiro (11 votos): Considerada o maior clássico do gênero na TV brasileira e a primeira (e até agora única) lançada em DVD, a obra de Dias Gomes e Aguinaldo Silva tinha um desfile de personagens antológicos: a viúva Porcina (“a que foi sem nunca ter sido”), o Sinhozinho Malta, o professor que diziam virar lobisomem (no final, virava mesmo), Beato Salu, o ceguinho cantador… A trama era um primor: partia de uma cidade que vivia ás custas da reverência a um herói que enfrentou um bandidão em praça pública e morreu, tornando-se milagreiro. Muita gente faturava com isso: essa viúva suspeita (Regina Duarte), o coronel Sinhozinho (Lima Duarte), que era amante dela, o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), etc. Acompanhávamos vários capítulos da novela e suas intrigas, até a virada surpreendente: Roque (José Wilker) não só estava vivo como reaparecia incógnito na cidade. Os interesses entram em conflito até o desfecho da trama, evocando O Homem que Matou o Facínora e Casablanca. A versão de 1985-86 era a segunda da novela: uma primeira deveria ter ido ao ar em 1975, mas foi censurada pela ditadura. O elenco todo foi um grande destaque, mas ver a outrora namoradinha do Brasil Regina Duarte em um tipo altamente histriônico foi um deleite só.

– Vale Tudo (9 votos): A trama de Gilberto Braga está sendo atualmente reprisada pelo canal pago Viva, mas seu cartaz entre os tuíters se deve certamente à memória de quem a assistiu e recebeu todo o seu impacto.

Que Rei Sou Eu? (6 votos): No começo da televisão, o comum eram novelas que se passavam na França ou na Arábia. Depois, a realidade brasileira imperou (ainda bem). Mas Que Rei Sou Eu?, de Cassiano Gabus Mendes, foi um caso especial: uniu esse ambiente de fantasia, o Reino de Avillan de 1786, e a narrativa capa-e-espada para traçar um comentário ferino sobre o Brasil. O país sofria com a miséria, a corrupção dos governantes que criavam um plano econômico atrás do outro, e nada funcionava. Misturando aventura e comédia, girava em torno de Jean Pierre (Edson Celulari), filho bastardo do rei que morreu. Ele é o sucessor legítimo ao trono, mas a nobreza forja outro filho do rei através de Pichot (Tato Gabus), um mendigo. Inesquecíveis foram a histriônica rainha Valentine (Tereza Rachel), o bruxo Ravengar (Antônio Abujamra) e o bobo da corte Corcoran (Stênio Garcia). E Giulia Gam estava tão linda…

– As outras citadas:

O Cravo e a Rosa (2000-01): 5

Renascer (1993): 4

Fera Ferida (1993-94), Tieta (1989-90), Pantanal (1990-91) e Guerra dos Sexos (1983-84): 3

A Viagem (1994), Sinhá Moça (1986), A Próxima Vítima (1995) e O Rei do Gado (1996-97): 2

Pai Herói (1979), Pedra sobre Pedra (1992), Sinhá Moça (2006), Suave Veneno (1999), Vereda Tropical (1984-85), A Indomada (1997), Chocolate com Pimenta (2003-04), Carrossel (1989-90), Top Model (1989-90), A Gata Comeu (1985), Andando nas Nuvens (1999), Por Amor (1997-98), Escrava Isaura (1976-77) e Irmãos Coragem (1970-71): 1

– Quem votou:

@renataferreira Roque Santeiro, Que Rei Sou Eu? e Pedra sobre Pedra

@Neidedonato Roque Santeiro, Vale Tudo e Sinhá Moça (1986)

@andre_ricardo Roque Santeiro, O Cravo e a Rosa, Vale Tudo

@alinevivajp Vale Tudo, Sinhá Moça (2006), Renascer

@betomenezes Fera Ferida, Suave Veneno, Que Rei Sou Eu?

@anarteixeira Renascer, O Cravo e a Rosa e Tieta

@tatyanavaleria Vale Tudo, Roque Santeiro e A Viagem

@linaldoguedes Vale Tudo, Roque Santeiro e Pai Herói

@andreia_barros A Viagem, Vale Tudo e Roque Santeiro

@Nat_Mars Renascer, Fera Ferida e O Rei do Gado

@astier Vereda Tropical, Guerra dos Sexos e Fera Ferida

@valeschka2303 Pantanal, O Cravo e a Rosa e Que Rei Sou Eu?

@andrezzam O Cravo e a Rosa, A Indomada e Chocolate com Pimenta

@tdgermano A Próxima Vítima, Que Rei Sou Eu? e Carrossel

@sheilalinha Sinhá Moça (1986), Roque Santeiro e Tieta

@PhCaldas Que Rei Sou Eu?, Pantanal e A Próxima Vítima

@elyfly Renascer, O Rei do Gado e Roque Santeiro

@francis_werther Top Model, A Gata Comeu e Tieta

@lanaklado Andando nas Nuvens, Vale Tudo e Roque Santeiro

@patoquack O Cravo e a Rosa, Que Rei Sou Eu? e Roque Santeiro

@elysiojr Guerra dos Sexos, Por Amor e Escrava Isaura (1976-77)

@WendellMaximo Roque Santeiro, Pantanal e Vale Tudo

@renatofelix Vale Tudo, Guerra dos Sexos e Irmãos Coragem (1970-71)

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