Conversei com o Veríssimo semana passada. Não sobre sua vida de cronista, mas especificamente sobre As Cobras – Antologia Definitiva, a compilação de sua inesquecível tira. A matéria saiu domingo, no Correio da Paraíba, e aqui está ela.

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O Brasil, segundo As Cobras

Veríssimo foi às Cobras para driblar a ditadura: "Quando havia o risco da censura implicar com o texto, me socorria no desenho"

Pode ser que cobra seja muito fácil de desenhar – “Só tem pescoço”, diz o próprio criador, Luís Fernando Veríssimo -, mas não houve assunto que mexesse com a vida nacional que não foi tratado pelos dois ofídios que rastejaram pelas centenas de tiras escritas e desenhadas pelo gaúcho. As Cobras, uma das melhores tiras dos quadrinhos nacionais, agora retorna em uma bela edição: As Cobras – Antologia Definitiva (Objetiva, 200 páginas). Em conversa por e-mail, Veríssimo, famoso principalmente como cronista, conta como e porquê usou o desenho para também criar suas sátiras da política e do comportamento no Brasil.

Veríssimo já disse várias vezes que a escolha de cobras como estrelas de uma tira eram fruto de suas limitações como desenhista. Mas, se os traços são simples, o gaúcho – hoje com 74 anos – constrói uma mise-en-scene bastante efetiva como suporte para as piadas. “As cobras e seu meio existiam só em função da piada, o desenho em si nunca foi importante. Quanto mais simples melhor”, conta Veríssimo. “Se você gostava da construção das narrativas só posso agradecer, mas não era intencional”.

A filosofia das Cobras continua atual

A tira surgiu nos anos 1970. “Epoca da ditadura”, lembra o escritor. “Quando se podia dizer mais com desenho do que com textos. Sempre gostei muito de quadrinhos e quando passei a ter um espaço no jornal para fazer, teoricamente, o que quisesse nele, aproveitei. E muitas vezes, quando faltava tempo ou saco para o texto,  ou havia o risco da censura implicar com o texto, eu me socorria no desenho”.

E ele a manteve até os anos 1990. “Parei, como eu disse na época, porque estava fazendo coisas demais. E também porque não ficava bem um homem de sessenta anos ficar desenhando cobrinhas”, diz.

As cobras eram, geralmente, duas travando um breve diálogo. Podia ser sobre política, futebol, Deus, a finitude da vida ou qualquer outro assunto que rendesse a Veríssimo uma boa piada. Muitas vezes, contracenavam com alguns coadjuvantes. Vários deles, parecem que estão sempre aparecendo por aí, nos noticiários: Queromeu, o corrupião corrupto; Dudu, o alarmista; o candidato Alves Cruz; Durex, o adesista; Sulamita, a pulga lasciva; e por aí vai.

Em poucos traços, Veríssimo consegue estabelecer uma 'mise en scene'

“Eu gostava das cobras recem-nascidas, que saiam da casca para descobrir o Brasil e o mundo”, aponta o cronista. “Muitas nasciam precavidas, como a que já saiu do ovo com um habeas-corpus preventivo”.

Alguns personagens acabaram não entrando e a “antologia definitiva” renderia fácil um segundo volume. “Personagens como o chef Rienamange, o cozinheiro da crise, e o Zé do Cinto, que vivia apertando o cinto para sobreviver, podiam ter entrado. Continuam atuais”.

O livro divide as tiras em dez temas, entre eles existencialismo, futebol, Deus, poder, história, praia, literatura, espaço e um segmento para alguns coadjuvantes (“As cobras e outros bichos”) e outro para os filhotes. Algumas sequências são antológicas, como o técnico de futebol tentando orientar seu time obtuso, a pesquisadora que induz as respostas, ou os ‘Clássicos da literatura combinados’. “Não tenho preferencias”, conta Veríssimo. “Alguns dos clássicos combinados, como ‘Casablanca e senzala’, funcionam, outros não. Gosto das cobras diante do infinito. Uma dizendo ‘Como nós somos insignificantes diante do Universo’ e a outra perguntando ‘Vocês quem?’, por exemplo”.

Os "clássicos combinados" estão entre os grandes momentos do álbum

Veríssimo também tem outras produções de histórias em quadrinhos: ainda escreve e desenha a Família Brasil e escreveu a tira de Ed Mort (desenhada por Miguel Paiva) e as páginas do Analista de Bagé na Playboy (desenhadas por Edgar Vasques). É uma relação que, como leitor, começou desde cedo.

“Lia o Gibi e o Globo Juvenil como todo o mundo e gostava muito dos super-herois e de alguns americanos como o Krazy Kat”, lembra, apontando também o que lê hoje. “Gosto muito dos brasileiros: o Laerte, o Angeli, os irmãos Caruso, o Edgar Vasques, o Santiago, o Moa, o Adão. É muita gente boa. E também há genios como o Moebius, de quem vi uma exposição fantástica há pouco tempo, em Paris”.

Se As Cobras não estão rastejando por aí, certamente não é por falta de assunto. Seus personagens teriam muita coisa para contar. “O corrupião corrupto, claro, está atualissimo”, afirma Veríssimo. “Dudu, o alarmista, também. E Durex, o adesista, é um personagem eterno, que atravessa a história, desde os tempos biblicos”. Pode reparar: todos eles estão por aí, o que garante plenamente a atualidade e o ótimo humor de As Cobras.

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