A musa definitiva dos “anos loucos”

Filmagem de “A Razão do Mundo” é retratada na HQ

Ela foi modelo, cantora, pintora, atriz de filmes experimentais, foi considerada a alma de um dos bairros que mais respiram cultura em Paris e, agora, é também uma personagem de histórias em quadrinhos. Alice Pris, ou Kiki, é a apaixonante protagonista da biografia Kiki de Montparnasse (Record, 416 páginas), com roteiro de José-Louis Bocquet e desenhos de Catel Muller.

Kiki foi uma das maiores musas dos anos 1920, os “anos loucos”, quando Paris era uma festa. Ela convivia com artistas de todos os calibres – de Pablo Picasso a Ernest Hemingway – foi modelo para vários pintores e para as fotos e filmes de Man Ray, americano com quem viveu alguns anos.

A obra de Bocquet e Catel é dividida em curtos capítulos, começando pela infância de Kiki e seguindo até sua morte. Fisga rapidamente pelas ilustrações leves e simpáticas, sem medo do estilo cartunesco e do bom humor – mas rebuscadas o suficiente para reproduzir cenários e criar uma ambientação excelente para cada momento da trama.

A narrativa também trata a nudez e as cenas de sexo com naturalidade, sem pesar a mão no aspecto erótico, mas também sem pudores. Os momentos sexuais, reforçando o espírito livre da modelo.

A verdadeira Kiki

A história, por tabela, mostra um pouco do que foi Montparnasse nos anos 1920, de uma efervescência cultural pouquíssimas vezes vista num mesmo conjunto de ruas e numa mesma época – outro caso foi a Ipanema dos anos 1960. Mergulhada nesse ambiente, Kiki acabou sendo um símbolo do bairro inteiro.

A HQ flui bem entre a vida pessoal de Kiki e seus diversos romances e sua integração com o meio cultural do qual passa a fazer parte. E são muitas as referências reais buscadas pela arte, sejam as pinturas ou fotos de Kiki, retratada por vários artistas, ou o uso do corpo dela, nua, nos pequenos filmes de Man Ray, que hoje podem ser encontrados com facilidade no YouTube (como O Retorno à Razão e L’Etoile de Mer) . O leitor pode, assim, se espantar e atestar que aquela personagem  existiu de verdade.

Se um mérito do álbum é traduzir bem por que Kiki era tão cativante para quem a conhecia – notadamente os artistas que a queriam em sua cama ou, pelo menos, por perto – outro é não defender nem condenar a modelo por suas atitudes.

Kiki entrega-se ao sexo, ao álcool e, a partir de determinado momento, às drogas. Trai seus amores sem muita cerimônia. Levava a vida de uma maneira muito diferente do que se esperava de uma mulher na época – não levantando bandeiras, mas de maneira espontânea.

A edição ainda traz, no final, uma boa cronologia da vida de Kiki e mais perfis dos principais artistas que aparecem na história, que como toda boa adaptação biográfica ficcionaliza alguns eventos, mas é fidelíssimo ao espírito do biografado.

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