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Além do HTML

Zuckerberg (Eisenberg): um solitário com milhões de amigos

É até estranho afirmar que A Rede Social (The Social Network, Estados Unidos, 2010) seja um filme de época – se passa em 2003 e, portanto, em termos de direção de arte e figurino, mal dá para perceber que a trama não é “nos dias de hoje”. Mas ainda era um período em que não dava para imaginar como Orkut, Facebook e Twitter tomariam conta das nossas vidas. O filme de David Fincher mostra o surgimento da mais poderosa dessas redes, o Facebook.

Poderia ser uma história monótona de um jovem analista de sistemas lidando com pixels, códigos HTML e tal – mas não é, pelo contrário. A história do Facebook é recheada de inveja, traições, vinganças e golpes baixos. Ingredientes que estão presentes nas melhores peças de Shakespeare.

A trama gira em torno de Mark Zuckerberg, que começa o filme levando um fora da namorada: sua mente trabalha tão velozmente, pulando de um assunto para o outro, que ele simplesmente não dá atenção à garota e diz o que não deveria. Do fora, ele parte para uma revanche mesquinha: em minutos, arma um website em que coloca fotos das garotas de Harvard, onde estuda, em um “combate de beleza”.

A repercussão o leva a conhecer o projeto inicial de outros estudantes para a criação de uma pequena rede social dentro da própria universidade – o que o leva à ideia do The Facebook, expandindo a ideia além dos limites do campus, acreditando na ideia de que todo mundo gostaria de ver as fotos de todo mundo e saber quem está disponível. O alcance extrapolou as melhores previsões, como se sabe.

O filme é conduzido através de duas “antessalas de tribunal”, digamos assim. São dois processos em tempos diferentes: um movido pelos estudantes que pensaram na rede social de Harvard; outro pelo melhor amigo de Zuckerberg, o brasileiro Eduardo Saverin, que financiou o início da empreitada. Os vários lados da história vão sendo mostrados enquanto os flashbacks vão acontecendo.

A semelhança com o ultraclássico Cidadão Kane (1941) está tanto na forma quanto no conteúdo. No filme de Orson Welles, a história de Charles Foster Kane também é contada por flashbacks de quem não gostava muito dele (todo mundo). E Kane, como Zuckerberg também foi um menino prodígio que mostrou uma grande capacidade de comunicação com o grande público, mas foi um desastre em seu círculo íntimo. Ambos cercados de amigos, ambos solitários crônicos pela própria falta de domínio sobre os relacionamentos humanos. No caso de Zuckerberg, estão os milhões de amigos virtuais (a estimativa é que o Facebook tenha atingido a marca de 500 milhões de usuário).

Um dos grandes acertos do filme é não se preocupar muito em “traduzir” a linguagem da informática para o público comum. As informações vão surgindo e sendo jogadas na tela – mas quem não entende do assunto tem a impressão vívida do quão complexo e importante é aquilo que está sendo feito ou falado pelos personagens.

Fincher prefere manter este aspecto cerebral da narrativa e sutileza nas emoções, mesmo com situações à flor da pele. O que nos leva ao final brilhante do filme, um dos melhores dos últimos anos, em que Zuckerberg encara seu “Rosebud”. É uma cena anticlimática, mas que resume A Rede Social inteiro e finalmente humaniza o herói (ou vilão?) do filme.

A Rede Social. (The Social Network). Direção: David Fincher. Elenco: Jesse Einsenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara.

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