Para quem tem – ou já teve – 16 anos

Olivia Torres, revelação do ótimo "Desenrola"

Se a missão de Desenrola (Brasil, 2011; em cartaz em JP) era mostrar de maneira honesta uma visão feminina e romântica sobre a primeira vez na adolescência e ainda ser um filme gostoso de assistir, ela foi cumprida e bem. O filme de Rosane Svartman, apesar de baseado em contato com os jovens através de pesquisas, entrevistas e redes sociais, consegue incluir o que colheu sem ter cara de tese e apostando certo no talento de seus protagonistas.

Olívia Torres é a romântica Priscila, que, aos 16 anos e pela primeira vez sozinha por alguns dias em casa, sonha em deixar de ser virgem com um garoto bonitão da vizinhança por quem está apaixonada. O filme acompanha seu cotidiano, pensamentos e relacionamentos com colegas na escola, na vizinhança e na praia.

A pesquisa que gerou o filme (e que rendeu uma série de documentários e uma websérie) aparece, de certa forma, literalmente no filme, já que Olivia tenta entender o que sente entrevistando outras meninas sobre o tema para um trabalho de classe. Os depoimentos que surgem daí, certamente inspirados nos depoimentos reais, ampliam o campo do assunto, sem que Desenrola saia do ritmo, felizmente.

Olivia também tem um contato inesperado com a juventude da mãe (vivida por Cláudia Ohana) ao descobrir uma caixa com “tesouros antigos” – uma fita com músicas do Simple Minds, por exemplo, que passa a ouvir, ou um óculos xadrez que ela passa a usar. É um achado e tanto, não só para Olívia, mas para o próprio filme.

Quando “Don’t you forget about me” entra com toda a sua força, através do walkman que Olívia resolve usar, ela ganha muitos significados. O mais direto e ir sedimentando o link da filha com a adolescência roqueira (e, por analogia, rebelde) da mãe – o que vai justificar um momento decisivo mais à frente. Além disso, a canção é praticamente um hino jovem desde que foi tema de um dos filmes definitivos sobre a adolescência: Clube dos Cinco (1985), de John Hughes. E – por que não dizer? – é uma referência à adolescência da própria diretora.

Um grande trunfo do filme, no entanto, são seus personagens bem desenhados e cativantes e que o elenco jovem segura bem. Desenrola teve a seu favor a acertada decisão de escolher atores da idade de seus protagonistas – talvez arriscando na inexperiência deles, mas ganhando o frescor de suas atuações. Olivia é um achado e certamente tem futuro, mas além dela Lucas Salles é um grande destaque como Boca.

Não se pode dizer o mesmo de Pedro Bial cojmo professor, mas, em geral, o conjunto todo do elenco (adultos e adolescentes) possui ótimo potencial para render uma série para a televisão. Embriões desses mesmos personagens estiveram na websérie – e, na verdade, o filme já está a meio caminho de virar uma série, no Multishow. Embora, ao que parece, focada na dupla Boca e Amaral () e com uma parte documental. Uma versão mais tradicional para a TV aberta (nos moldes do que foi feito, por exemplo, com Ó Paí, Ó , também não seria nada mau).

Em meio a uma atmosfera bem carioca – leia-se, leve e despreocupada, e já bem explorada por Rosane em seu primeiro longa, o muito bom Como Ser SolteiroDesenrola evita se aprofundar demais em assuntos desagradáveis. Gravidez na adolescência é um tema visto com certa distância, a violência urbana aparece só de relance e não há referência a drogas.

Mas só os chatos reclamarão disso. O filme consegue ser um retrato fiel de alguns dilemas da adolescência – direto, mas sem deixar de ser sensível. E se dá o direito de ser, antes de mais nada, um agradável passeio para quem tem – ou já teve – 16 anos.

Desenrola (Brasil, 2010). Direção: Rosane Svartman. Elenco: Olivia Torres, Lucas Salles, Kayky Brito, Vítor Thiré, Juliana Paiva, Daniel Passi, Cláduia Ohana, Marcelo Novaes, Letícia Spiller, Roberta Rodrigues, Juliana Paes, Pedro Bial, Ernesto Piccolo, Heitor Martinez. Em cartaz.

* Versão estendida de crítica publiucada no Correio da Paraíba, em 18 de janeiro de 2011

Saiba mais:

– Leia a entrevista com a diretora.

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