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Afinado entre o humor e a emoção

O maestro e a solista: ligação oculta

O cinema europeu ainda é – e muitas vezes – vítima do preconceito de ser “chato” pelos não iniciados, os que não arriscam sair quase nada do cardápio servido por Hollywood. Qual não deve ser a surpresa ao assistir O Concerto (Le Concert, França/ Itália/ Romênia/ Bélgica/ Rússia, 2009)? Muitíssimo engraçado e com um final extraordinário e comovente, o filme do romeno Radu Mihaileanu é uma preciosidade no circuito.

Toda a primeira parte se passa na Rússia, onde Andrey Filipov (Aleksey Guskov) vive a humilhação de ser faxineiro para a Orquestra Bolshoi, da qual foi regente 30 anos antes, ainda no regime soviético, até ter um concerto bruscamente interrompido por questões políticas. Hoje a orquestra é só uma sombra do que era, mas ainda foi convidada para tocar em Paris.

O convite, no entanto, foi interceptado por Filipov, que resolve ajustar as contas com o passado em uma jogada arriscada: juntar velhos companheiros, montar uma orquestra inteira e realizar o concerto fingindo ser a Bolshoi.
A situação de penúria desses músicos russos é tratada com um bom humor admirável, com especial atenção às viúvas do velho comunismo – que, no filme, sobrevivem de manifestações com figurantes contratados e sonhando com a volta da antiga glória.

O plano envolve mistérios que o filme polvilha no ar. Por que o produtor responsável pela derrocada da orquestra 30 anos antes agora quer ajudar os músicos a ir a Paris? Por que a insistência de Filipov em ter, como solista, a jovem violinista Anne Marie Jacquet (Mélanie Laurent, que os tarantinófilos vão reconhecer de Bastardos Inglórios)? Por que a obsessão em reapresentar exatamente aquele malfadado concerto para violino de Tchaikovsky?

Tudo se explica com maiores ou menores surpresas, mas isso é menos importante que o encaixe perfeito das peças soltas. Tanto é assim, que o filme até abre mão do clímax e antecipa o epílogo para antes do desfecho do concerto – uma seqüência longa e belíssima, onde Guskov e Mélanie dão um show difícil de esquecer.

Ao tratar também da diversidade dentro da orquestra, o filme é humanista sem ser panfletário. E Mihaileanu, maestro do filme, é emocional a ponto de gerar algumas lágrimas no final), mas sem nunca perder a elegância.

O Concerto (Le Concert, França/ Itália/ Romênia/ Bélgica/ Rússia, 2009). Direção: Radu Mihaileanu. Elenco: Aleksey Guskov, Dmitri Nazarov, Mélanie Laurent, François Berléand, Miou-Miou.

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