O homem contra o microfone

O rei, observado pela rainha: desafio intimista

Mais de um texto sobre O Discurso do Rei (The King’s Speech, Reino Unido/ Austrália/ EUA, 2010) o chamam – depreciativamente – de “filme feito para ganhar o Oscar. Querem, com isso, dizer que o filme é “calculado” – como se 99% dos filmes não o fossem e como se os melhores não fossem calculadíssimos. Houve até quem escrevesse que um dos indicativos disso seria o elenco formado por grandes atores britânicos.

Num mundo em que o elenco com grandes atores britânicos for ponto contra um filme é melhor o cinema acabar. O Discurso do Rei tem um andamento aparentemente tradicional – sobretudo se for comparado a filmes da temporada de narrativa chegada a um maneirismo (como Cisne Negro) -, mas o filme é rico em visual e narrativa.

Por exemplo: o diretor Tom Hooper tem uma curiosa preferência por enquadramentos fora dos padrões. Quando a “gramática” pede que os personagens olhem “para dentro” do quadro, Hooper os coloca o tempo todo olhando “para fora”, dando as costas ao cenário.

De certa forma é o que acontece no excelente início, onde se estabele o contraste: um locutor profissional “afia” a garganta antes de uma transmissão pelos alto-falantes de um estádio, enquanto o príncipe Albert se encolhe na escada, reduzido à parte de baixo da tela. Assim que chega sua vez de falar, todos ali e os espectadores no cinema descobrem o motivo: sua constragedora gagueira.

O problema pessoal do príncipe – digno de uma comédia que opta pelo mais fácil – ganha peso dramático pelas circunstâncias históricas: na época, anos 1930, a realeza britânica estava cada vez se tornando pública, com o rei se dirigindo aos súditos através do mundo pelo recém inventado rádio.

Não estava previsto que Albert seria o rei, já que era o irmão mais novo, mas ele acaba tendo que subir ao trono após a morte do pai e a decisão do mais velho de abdicar. Com uma guerra que se avizinha com a Alemanha, cada pronunciamento do rei à nação será fundamental, para inspirar confiança e força para o futuro.

Quem literalmente salva a pátria é Lionel Logue (Geoffrey Rush), um ator frustrado e excêntrico que ganha a vida ajudando pessoas com problemas de dicção, com métodos pouco ortiodoxos e principalmente bastante impertinência.

O filme se concentra bastante na relação entre os dois, uma certa amizade entre alguém que tem alguma preocupação com o “homem comum”, mas nunca se aproximou dele, e um homem tão afastado da nobreza que era até australiano.

O peso da responsabilidade e o desconforto de uma família presa a um excesso de formalidade são os elementos que constróem um conflito interno vivido com sutileza pelo incrível Colin Firth, que não perde o público um instante. Ao seu lado, Geoffrey Rush é um oponente à altura, assim como a divertida Helena Bonham Carter, como Elizabeth (mãe de uma garotinha que hoje é a rainha Elizabeth II).

Há falhas, claro. O Churchill de Timothy Spall a princípio não convence, mas é de se ponderar se ele não era aquela caricatura que está ali representada. A visão negativa sobre o irmão Edward, protagonista dos que alguns chamam “a história de amor do século 20” (afinal, trata-se de um rei que desafiou as convenções por uma mulher divorciada) é uma curiosidade. Mais grave é o filme atenuar sua simpatia pelo nazismo.

Nada disso chega a atrapalhar O Discurso do Rei, entretanto. Inteligentíssimo, o filme prefere esperar o suficiente para jogar essa carta decisiva: o paralelo entre o rei gago – que depois ficaria conhecido pelos discursos de incentivo à nação, considerados fundamentais para a Inglaterra na II Guerra – e seu antagonista, ninguém menos que Hitler – cujo um dos principais dons era o da oratória. Calculando assim seus trunfos, o filme emociona com grande e bem- vinda devoção ao que está contando. Com uma discrição bem britânica: só aparente.

O Discurso do Rei (The King’s Speech, Reino Unido/ Austrália/ EUA, 2010). Direção: Tom Hooper. Elenco: Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Michael Gambon, Timothy Spall, Claire Bloom, Eve Best.

* Publicado hoje no Correio da Paraíba.

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