Entre o deslumbre e a descrença

Jeff Bridges e Haliee Steinfeld: relacionamento entre eles é o que conduz o filme

O primeiro Bravura Indômita (1969) não é um grande clássico. Pelo menos, não se comparado a No Tempo das Diligências (1939), Rastros de Ódio (1956), Onde Começa o Inferno (1959) e O Homem que Matou o Facínora (1962), para ficarm em quatro pedras fundamentais do western, todas estreladas por John Wayne. É justamente a intepretação de Wayne que torna o filme de Henry Hathaway memorável, mas há bem mais que a interpretação de Jeff Bridges – embora igualmente memorável –  no novo Bravura Indômita (True Grit, EUA, 2010) dos irmãos Coen.

A dupla sempre marcou pela direção delirante, mas também nunca deixou de mostrar que consegue adaptar o estilo ao que a história necessita. É o que acontece aqui: os Coen se esmeram em conduzir um faroeste clássico – nem mesmo há muita aproximação com o western spaghetti, que é a fonte onde cineastas que gostam de uma firula, como Tarantino e Gore Verbisnki, mais bebem quando resolvem citar o gênero (vide Bastardos Inglórios e Rango, de Tarantino e Verbisnki respectivamente).

Bravura Indômita se assemelha mais ao cinema clássico e menos operístico de John Ford e Howard Hawks – ou até do próprio Henry Hathaway, menos celebrado. Nesta versão, fica muito mais evidente (desde a narração que abre e fecha o filme) que tudo é visto pelo olhos de Mattie Ross (Hailee Steinfeld). A menina de 14 anos perdeu o pai, assassinado por um empregado que fugiu (Josh Brolin) e contrata o federal Reuben “Rooster” Cogburn (Jeff Bridges) para caçá-lo – mas exige ir junto. No encalço do criminoso, também está LaBoeuf (Matt Damon), um Texas ranger, que quer levá-lo para seu estado e ganhar uma recompensa para si.

Na longa jornada, o relacionamento entre o trio será muito difícil, e suas personalidades são construídas com cuidado, durante boa parte do filme. É um road movie do faroeste, um pouco como Rastros de Ódio. É no trajeto, entre episódios como enforcado no alto da árvore ou as crianças que covardemente judiam de um cavalo amarrado, que Cogburn conta um pouco da sua vidam do casamento fracassado, dos anos de ética questionável após a Guerra da Secessão.

Sua persona de durão e implacável vai sendo desconstruído, sem sentimentalismo, em pequenas doses. Também demonstra a afeição e respeito crescente por Mattie, o relacionamento que é a razão de ser do filme. Os dois personagens são antológicos e mesmo que o filme seja, em muitos sentidos, mais violento, cruel e pessimista que sua contraparte sessentista, há bons momentos cômicos.

Bridges cria outro Cogburn impagável: durão, bêbado, mas também emotivo (a seu modo). E Haille é um achado do filme. Sua Mattie Ross, uma criança que era a contadora do pai e tem muita consciência de seus deveres legais, ameaçando levar todos ao tribunais o tempo todo, é o espírito do filme: alternando-se o tempo todo entre o deslumbre e a descrença dos mitos.

É exatamente por aí que trilha o Bravura Indômita dos Coen. E vale destacar a trilha de Carter Burwell e a esplêndida fotografia de Roger Deakins. Com muitas cenas à noite, sob chuva ou neve, e aproveitando ao máximo a paisagem, como ensina as convenções do gênero,  este é um western lindo de ver e ouvir.

Bravura Indômita (True Grit, Estados Unidos, 2010). Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Elenco: Jeff Bridges, Haille Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper.

* Versão entendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.

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