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Cidade icônica

O vôo de asa delta pelos cartões postais do Rio: de uma beleza e leveza exemplares

Em uma cena de Ratatouille (2007), o ratinho Remy, depois de se esgueirar pelos esgotos, sobre pelos canos até um telhado e, de lá, tem uma visão de tirar o fôlego de Paris – onde ele nem sabia que estava – com direito a Torre Eiffel ao fundo. E o que isso tem a ver com Rio (Rio, EUA, 2011), a nova animação da Blue Sky distribuída pela Fox? O fato de que, se uma produção estrangeira vai mostrar uma cidade como símbolo, é inescapável recorrer a seus ícones.

É por isso que em qualquer filme de Hollywood – dos melhores aos piores – toda janela de Paris tem vista para a Torre Eiffel. Seria estranho – e até um desperdício de cenário – se não fosse assim. Isso se reflete em Rio, e ainda mais porque na animação americana do brasileiro Carlos Saldanha a cidade é a principal personagem: se araras sobrevoam a cidade, é claro que elas devem passar pelo Cristo Redentor e pelo Pão de Açúcar. Resultado: uma cena que tira o máximo da arte da animação, de uma beleza e leveza exemplares.

Outros ícones básicos do Rio vão aparecendo, como uma enciclopédia veloz para o turista hesitante que é a arara azul macho Blu (voz original de Jesse Eisenberg), roubada da floresta ainda bebê e que acabou sendo criada no gélido estado americano de Minnesota. E que nunca aprendeu a voar.

Acontece este é o último exemplar macho da espécie e é trazido ao Rio para conhecer a última fêmea (voz original de Anne Hathaway) e, assim, acasalarem e evitarem a extinção. Mas, primeiro, eles demonstram ter uma visão oposta sobre como levar a vida. Depois, são roubados por contrabadistas de aves.

No meio da correria, Blu conhece o Rio de cima em um voo de asa delta, as garotas e o futevolei na praia, Santa Tereza, os arcos da Lapa, o bondinho do Pão de Açúcar, o samba, a favela, um pouco de funk, um desfile da Marquês de Sapucaí, uma dentista que samba como profissional e consegue escapar de uma enrascada graças a bandidos que ficam grudados na TV em um Brasil x Argentina.

Onde começam os estereótipos e terminam as características marcantes da cidade e seu povo? Ou alguém pode realmente dizer que o Rio não é tudo isso na essência? É caricatural? Claro que é, afinal, trata-se de um desenho animado cômico – ou o Pernalonga não fazia caricaturas dos franceses e o francês Asterix, por sua vez, de todos os outros povos europeus? E ambos não fazem caricaturas de si mesmos, americanos ou franceses?

O número de abertura e encerramento é até um clichê, mas calculado: vale mais lembrar que se trata de uma homenagem ao clássico Alô, Amigos (1942), no qual Zé Carioca apresenta o Rio ao Pato Donald e que, usando os ícones culturais do Rio dos anos 1940 – um papagaio, os cassinos, a cachaça, a calçada de Copabana e, principalmente, o samba – foi uma bela homenagem da Disney ao Rio e ao Brasil.

Há, é óbvio, uma série de simplificações necessárias, já que se trata de um filme infantil. Que ninguém espere, claro, que apareçam traficantes armados – isso é “traduzido” nos contrabandistas de pássaros. Ou que a complexidade de um desfile de escola de samba seja 100% fiel à realidade (que escola permitiria que aquele carro alegórico que os bandidos usam, tão mal feito, surgisse na avenida?).

Mas nada disso atrapalha um filme colorido e pulsante, que conduz sua história simples com uma coesão admirável. Os pers0nagens são engraçados – com exceção do buldogue babão, uma piada meio escatológica que não funciona nunca – e o roteiro avança espertamente de um cenário a outro. Entre os filmes da Blue Sky, é tão bom quanto o melhor A Era do Gelo (o segundo, de 2006) e certamente muito melhor que Robôs (2005). Saldanha conseguiu fazer sua homenagem à cidade natal representando bem o que faz dela a Cidade Maravilhosa: sua beleza, sua alegria e sua carioquice.

Rio (Rio, EUA, 2011). Direção: Carlos Saldanha. Vozes na dublagem original: Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Rodrigo Santoro, Jamie Foxx, Will i Am, Bebel Gilberto. Vozes na dublagem brasileira: Philippe Maia, Priscila Amorim.

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