Coisa rara em João Pessoa: poder entrevistar o cineasta depois de ter visto o filme. Em João Pessoa, cabine é coisa difícil de acontecer, geralmente entrevisto um diretor antes de ter visto o filme, para que a matéria seja publicada no dia da estreia. Com Como Esquecer, foi diferente. Houve uma pré-estreia e o Cinespaço começou a prática de cabines, que – em casos assim – ajudam bastante. O papo com Malu di Martino, então, fluiu bem e pudemos trocar boas ideias. Saiu no Correio há mais de uma semana e demorei a postar aqui a versão entendida, mas vale a pena – ainda mais que o filme segue em cartaz por aqui.

***

Malu di Martino dirige Arietta Correia e Ana Paula Arósio na cena do luau

Qual o sentimento que fica quando o amor da sua vida diz que você não é o amor da vida dele? Julia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sabe bem qual é: com o fim do relacionamento com sua companheira, ela se vê sozinha e perdida em seu apartamento. Como Esquecer (Brasil, 2010) conta seus dias daí para a frente. “O filme é sobre perdas”, disse a diretora Malu di Martino, por telefone, do Rio. “Por acaso a protagonista e o melhor amigo dela são gays, mas poderiam não ser”.

O filme é baseado no livro Como Esquecer – Anotações Quase Inglesas, de Myriam Campello, editado pela Escrituras. Julia (Ana Paula Arósio) sofre com a separação traumática e recebe, mesmo sem querer, o apoio do amigo Hugo (Murilo Rosa), ainda tentando se recuperar da morte do companheiro.

“Com o Murilo eu já tinha trabalhado anteriormente, no meu primeiro filme (Mulheres do Brasil, 2006). A Ana Paula eu não conhecia, fui apresentada por ele”, conta a diretora, sem poupar elogios. “Ela é a melhor atriz dramática da geração dela”.

O filme procura desconstruir a imagem de glamour que Ana Paula traz consigo dos trabalhos em TV e em sua época como modelo – chega a ter cenas intensas de sexo. “Ela é muito dedicada”, conta Malu. “A Julia é uma personagem bem dura, não é melodramática. Ela não aceita se sentir tão mal por causa de outra pessoa. Quando a gente foi construir a Julia junto com a Ana Paula, achou que as pessoas não podiam ter pena dela”.

Enquanto o filme mostra a felicidade de Julia com sua namorada Antonia (que nunca aparece) na Inglaterra, em vídeos caseiros, a professora é praticamente arrastada para dividir uma casa em Guaratiba com Hugo e Lisa (Natália Lage), que em também vai encarar sua perda. E o modo de lidar com isso é diferente nos três personagens.

“Luto a gente tem viver de qualquer jeito”, diz Malu. “Você tem que viver isso, faz parte da vida adulta: aprender que você vai perder as pessoas e um dia isso passa. O livro, claro, tem mais personagens, mas dei ênfase total e absoluta a esses personagens da casa, um pouco para fazer esse balanço. A Júlia não aceita se sentir tão mal por causa de outra pessoa. O personagem da Natália tem outra visão da história, mostra outras aberturas da vida”.

Outros personagens aparecem tentando quebrar a barreira que Julia arma em torno de si. Uma é uma aluna, Carmem Lygia (Bianca Comparato), outra é uma artista plástica, Helena (Arietta Correia). “A Carmen Lygia era um rapaz no livro”, conta a diretora, explicando que mudou o personagem para uma garota sem prejuízo da atitude. “Pessoas dessa geração têm a sexualidade muito mais resolvida. Achamos que era mais fácil para uma menina ser tão direta”.

A personagem de Arietta Correia aparece no meio do filme: é uma prima que Lisa hospeda na casa de Guaratiba. “Helena tem um universo menos explorado”, conta Malu. “Ela aparece como a pessoa ideal para você esquecer outra pessoa, mas no momento errado”.

Todo mundo já teve que enfrentar um momento de abandono, mas Malu di Martino conta que não precisou usar muito de suas experiências pessoais no filme. “Não tanto, porque a gente trabalhou muito isso no roteiro”, conta, referindo-se ao trabalho de Sabina Anzuategui, José de Carvalho, Douglas Dwight, Daniel Guimarães, Luiza Leite e Silvia Lourenço, que assinam o roteiro. “Claro que todos nós já passamos por isso, uma rejeição, uma separação. Mas nunca passei por algo tão radical”.

Abordar o universo feminino por uma ótica homossexual ao mesmo tempo é um fator de interesse, mas dificultou o financiamento. “Isso dá uma certa curiosidade nas pessoas, gera uma discussãozinha”, conta a diretora, lembrando que ser uma história sobre dor também foi um obstáculo. “Quando a Elisa (Tolomelli, produtora) foi pedir patrocínio, as pessoas se assustavam um pouco. É difícil explicar que não é um dramalhão ou um filme tristíssimo. Foi bem difícil”.

Mas Como Esquecer está na 27ª semana em cartaz. Lançado com apenas 20 cópias, devagarzinho tem ido de cidade em cidade. “Hoje, o cinema brasileiro consegue falar de pessoas também”, conta ela. “Tem havido uma mudança para dramas psicológicos”.

Não por acaso, ela teve como filmes-referência, em termos de estética e dramaturgia, os de François Truffaut. “Meu grande querido”, complementa. O que explica uma certa semelhança entre Como Esquecer e dramas cotidianos do cinema brasileiro dos anos 1970. “Faz sentido porque o cinema brasileiro daquela época tendia a acompanhar a Nouvelle Vague”, diz.

Outros trabalhos específicos também serviram como faróis, como Um Beijo Roubado (2007), de Wong Kar-Wai, Closer – Perto Demais (2004), de Mike Nichols, e As Horas (2002), de Stephen Daldry. “Todos tem temática psicológica forte”, explica Malu di Martino. “Vimos esses filmes juntos e comentamos – alguns várias vezes. Para a Ana Paula, eu indiquei filmes de Truffaurt e Carl Dreyer”.

Anúncios